Ceci n'est pas une Pomme
5 ATO II:III — FÚRIA (Fim do segundo ato)
Notas iniciais
CECI N'EST PAS UNE POMME
ATO II:III — FÚRIA

POV L LAWLIET
Pomme... Kira... Minha cabeça girava... A garota parecia tão doce quando eu a visitava de mês em mês para entregar as maçãs de Ryuk... Eu até cheguei a acreditar que estava paranoico anos atrás e que o espírito de Kira havia realmente se purificado. Mas eu estava certo aquele tempo todo. Minhas asas refletiram a alma de Pomme e eu descobri o mesmo que tinha descoberto quando ela era Light Yagami. Lá estava tudo: a ganância, o ego inflado, a sede insaciável pelo poder, o desejo de limpar o mundo de uma raça podre. Claro, Ryuk sempre me contava que Pomme vivia criticando a divisão do mundo em Pátrias, já era de se esperar. Kira também criticava tudo. Eu deveria ter notado que aquela revolta com o sistema viria acompanhada de um intenso desejo de salvar o mundo... por bem ou por mal.
Mas aquele não era o único pensamento maligno em minha mente. Havia mais um. E aquele já me torturava há anos:
Eu, certa vez, amara Light Yagami com toda a força de meu coração estragado. Mas... não amava Pomme. A alma era a mesma, só o corpo que não... Aquilo me fazia pensar: será que eu amara Light Yagami apenas por sua aparência?
Pare de pensar nisso, Lawliet... O mundo vai acabar por causa do espírito de Kira e você aí, preocupado com suas paixões... Esqueça o Light, L! O Light... O Light não existe mais... Existe apenas o Kira. E ele está no corpo de Pomme... Nada mais.
Eu supero.
Afinal, o que é um coração partido para quem já investigou os casos mais dantescos do mundo?
...
Eu tenho uma ideia!
— Preciso falar com o Ryuk! – e voei avidamente até o apartamento de Pomme.
~*~
— Agora é comigo que você quer falar a sós? – perguntou o Shinigami – Está bem. A garota não está em casa agora... Pode falar. O que você quer?
— Preciso que você escreva o nome de Pomme no seu Death Note.
— O... O quê? – Ryuk se assustou com a minha declaração.
— Ela deve ter te contado tudo, não se faça de desentendido. Quando as minhas asas refletiram a alma dela, eu a vi dando início à Quarta Guerra Mundial. Não que eu tenha previsto o futuro. Minhas asas não previram o futuro naquele momento, apenas diagnosticarem um forte desejo de morte no inconsciente dela. Ela quer muito acabar com esse mundo a fim de refazê-lo a seu bel prazer, tal qual Light Yagami fizera.
— Mas isso não quer dizer que Pomme vá necessariamente acabar com o mundo! – retrucou Ryuk – Pode ser só um desejo irrelevante e inalcançável.
— Um desejo irrelevante e inalcançável, mas que pode vir à tona se a oportunidade surgir. Light Yagami, por exemplo, era o bom moço escrito: um estudante aplicado e amado por todos. Nunca foi agressivo, nunca matou ninguém... até pegar num Death Note. Você já perguntou à Pomme alguma vez o que ela faria se tivesse um Death Note?
— Já...
— E o que ela respondeu?
— Que mataria todos que dizem que ela é louca por ter dezoito anos nas costas e, mesmo assim, ter um amigo imaginário. Esse amigo imaginário, você já sabe, sou eu. Eu nunca te contei, mas Pomme já foi internada em hospitais psiquiátricos diversas vezes por conversar comigo desde pequena na frente dos outros. Acredito que ela tenha ido para o sanatório umas quatro ou cinco vezes, mas nunca ficou mais de uma semana. Ela sempre conseguiu alta... usando, bom... seus próprios métodos.
— Que métodos? – perguntei, exasperado.
— Transando com os mandachuvas dos sanatórios...
— Ah...
— O quê? Não vai me dizer que você achava que Pomme era virgem! – Ryuk riu – Ela não é mais aquela garotinha de oito anos, L.
— Não é isso. Eu estou surpreso com como Pomme é... maquiavélica. “Os fins justificam os meios”, já dizia Maquiavel em sua principal obra, O Príncipe. A garota sempre parecia tão bobinha e inocente quando eu estava por perto... Como se ela já soubesse que eu estive julgando todos os atos dela. Não acredito... Ela esteve dissimulando... esse tempo todo.
— É, pode ser – Ryuk deu de ombros.
— E por que nunca me contou nada disso? Por que compactuou com as mentiras dela?
— Porque eu não queria que você fizesse nenhum mal a ela, queria protegê-la desses seus julgamentos tendenciosos! Pomme é como uma filha para mim, L. Eu a peguei no colo, eu a vi crescer e se tornar uma linda mulher! Você nunca vai entender, mas esteja ela amaldiçoada ou não, aquela garota deu um sentido à minha existência! E eu não vou permitir jamais que você a deixe morrer e descer ao inferno por causa de um capricho seu! Que o mundo acabe, que ela dispare um míssil na maldita Pátria Violeta, que diferença faz? Você não pode impedi-la de viver! Onde está o livre arbítrio? Que tipo de anjo é você, que sacrifica uma vida para salvar várias? Pois eu prefiro ser esse monstro horrível aqui, que sacrifica várias vidas para salvar a de quem amo! Afinal, por que você não usa esses seus poderes idiotas para purificar o espírito de Pomme e acabar com essa palhaçada? Não consegue, é? Então não me mande sujar as mãos enquanto as suas continuam limpas! Não a matarei nem por um milhão de maçãs! Se quiser matá-la, que mate você! Mas vai ter que me matar primeiro!
— Ryuk... – ele havia me deixado sem palavras – Você... Você sempre foi um Shinigami tão frio, nunca demonstrou nenhum sentimento por ninguém... Nunca pensei que você fosse tão fraco a ponto de amar Pomme...
— Fraco? – Ryuk me agarrou pelo pescoço – Quem você pensa que eu sou, anjo estúpido? Não foi você que se apaixonou por Light Yagami, um assassino em série que tanto investigara milênios atrás? Então você é mais fraco ainda!
Desapareci no ar, materializando-me atrás de Ryuk.
— Não tente medir forças comigo, ou vai se arrepender!
— Faça-me rir! Sem seus poderes de teletransporte, você não é nada! – gargalhou friamente – Lute sem usar os seus poderes! Anda, vamos! Lute de igual pra igual comigo!
— Eu não queria lutar com você, Ryuk, mas já que você insiste...
Chutei a cara do Shinigami, jogando-o no chão. Ele me puxou pelo pé e revidou com um soco na minha cara. Minha visão ficou turva, logo acabei tropeçando e caindo em cima dele. Nós rolamos pelo chão do quarto de Pomme, tentando imobilizar um ao outro com o próprio peso. Ele conseguiu ficar por cima de mim e arrancou várias de minhas penas, lançando-as ao fogo da lareira. Minha alma queimou, fazendo-me gritar de dor.
— Não disse que arrancar penas era como arrancar fios de cabelo? Agora imagine todos os seus fios de cabelo sendo arrancados ao mesmo tempo! – ele riu maliciosamente.
— Pois eu vou arrancar seus dedos falange por falange! – esbravejei.
Quando consegui finalmente me desvencilhar das mãos dele, alcei voo. Ele fez o mesmo.
— Ah, quer dizer que agora você quer uma batalha aérea? – ele gargalhou – Eu já voava quando você nem tinha asas... Tenho mais experiência, você não tem a mínima chance!
— É o que veremos!
E teríamos dado início a uma luta mais do que épica... Se Pomme não tivesse aberto a porta do quarto naquele momento. Ela tinha acabado de chegar em casa e nós mal tínhamos percebido.
— Vocês por acaso estão brigando? – perguntou a garota.
— O quê? – pousei na cama dela – Claro que não... Era apenas uma discussão pacífica.
— Não dê ouvidos a ele, Pomme! L quer te matar! – gritou o Shinigami.
— Matar? Eu...
Antes que eu pudesse terminar minha frase, Ryuk abraçou Pomme com força, chorando nos braços dela.
Acho que eu nunca vi um Shinigami amar tanto um humano...
Será que Pomme também o ama a tal ponto?
Não... Kira não é capaz de amar.
Se bem que...
Light Yagami me amava, não?
Não. Assim como Pomme está manipulando Ryuk para conseguir proteção, Light Yagami também me manipulou certa vez para conseguir escapar das minhas garras.
Light... Pomme... A história está se repetindo... O nome mudou, mas a alma podre é a mesma...
Tive uma vertigem. Quando estava prestes a cair, um par de braços fortes me segurou.
— Light? – perguntei, fora de mim.
— Não. Sou eu, Ignatius, atual presidente do paraíso. Recebemos um pedido de ajuda do Shinigami Ryuk, vindo do apartamento 2010 da residência número 677687 da zona 14 ao norte, na Pátria do Citrino. Achei estranho. Como um Shinigami pode pedir ajuda aos anjos se ele não sabe que anjos existem? Chegando aqui, deparei-me com a presença de um anjo e deduzi tudo. L Lawliet, você contou sobre nós a esse Shinigami. Tem violado as regras do paraíso!
— Mas... – balbuciei, confuso, ainda recobrando a consciência – Como... Como o Ryuk conseguiu contatar vocês? Shinigamis não podem se comunicar com anjos, a não ser que tais anjos queiram ser vistos ou...
As penas que ele lançou ao fogo.
Eu havia me esquecido de outra regra do paraíso: quando mais de sete penas são queimadas, em vez de apenas uma, deduz-se que o ser que queimou as penas precisa de muita ajuda, de mais ajuda do que a de apenas um anjo. Então, almas de outros anjos também queimam, ainda que estes não sejam os donos das penas queimadas em questão. Ryuk descobriu isso sem querer quando lançou as minhas penas ao fogo só para me machucar.
— Vocês não entendem! – desvencilhei-me dos braços de Ignatius – Pomme é a reencarnação de Kira, certo?
— Eu... Eu sou? – ela estava atordoada.
— Sim, você é! – rosnei – Vocês, anjos, julgaram o espírito de Kira inocente, exatamente dezoito anos atrás. Mas cometeram um erro! Eu refleti a alma dela em minhas asas e descobri que Kira manipulou todos vocês em seu julgamento, pois não foi purificado, não mereceu a reencarnação que teve! Sabe o que foi refletido em minhas asas? Pomme Bordeaux Carpentier, a linda moça de bochechas coradas, aparentemente boba e inocente, lançando um míssil em direção à Pátria Violeta! Vocês entendem a gravidade disso? Essa garota será o estopim da Quarta Guerra Mundial e a culpa é toda de vocês, que permitiram que esse filhote de demônio voltasse à Terra! Agora, ela está manipulando Ryuk a seu favor, apenas para ganhar proteção!
— Não importa o quão manipuladora ela seja... – Ryuk murmurou entre lágrimas – Pode até ser verdade tudo o que você diz... Pode ser que ela tenha me enganado... Mas eu a amo mesmo assim... Eu amo seu rosto, seu jeito, suas respostas afiadas, sua maldade tão boa, sua feiura tão bela, como ela faz o errado parecer tão certo, eu amo tudo sobre ela. Isto não é uma maçã, está podre, consumida pelos vermes, entendo; pois frutas do mesmo cesto hão de apodrecer! Mas que eu apodreça nos braços dela, que eu morra nos braços dela! Porque, de qualquer forma, ela sempre será... a minha maçãzinha, a minha menininha... Filhinha tão doce, tão singela. Ela nada tem a ver com Light Yagami, do contrário eu também teria amado Light Yagami. Não vejo guerra nos olhos da pequena; vejo apenas... nós dois, vivendo nossas vidas como bem queremos. Deixe-nos em paz, L. Foi um erro Light Yagami ter reencarnado? Talvez sim. Mas e agora? Você não pode voltar no tempo, não pode assassiná-la para corrigir esse erro. Por acaso anjos têm o direito de matar? Provavelmente não, já que você queria que eu a matasse. Afinal, por que você não a matou? Está com medinho de perder suas asas? Pois você nunca deveria ter ganhado asas, só para começar. Você tomou a decisão mais egoísta e a mais covarde! Sabe por quê? Porque, no fundo, você quer se vingar de Light Yagami! Ele te matou na vida passada, agora você quer fazer o mesmo com ele na vida atual! Você chama Pomme de Kira, mas vou te dizer uma verdade: se você cogita a pena de morte como a única solução para um problema, você acaba de se igualar a Kira!
Não...
Eu? Igual a Kira?
Ele está certo.
Ergui minhas mãos e abaixei minhas asas, resignado.
— Eu me entrego.
~*~
CONTINUA...
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