Cece Blue
7 O Incidente
À medida que a Colheita chegava, Cece tinha muito pelo que esperar. Primeiro, seus irmãos entrariam de férias, o que significava uma estação inteira de brincadeiras, passeios e viagens. Depois, ela finalmente completara a sua educação básica. Ela se formara na mesma semana que Trevor, recebendo elogios de seus tutores, o que significava que estaria pronta para frequentar a escola com os irmãos no próximo período letivo.
Cece acordou feliz certa manhã no fim do Plantio pensando em ir ao haras visitar Willhein. Sem esperar por Meg, ela se lavou rapidamente, vestiu suas calças preferidas de montaria, uma camisa leve de algodão e botas confortáveis de couro negro. Sentou-se na penteadeira e tentou trançar os cabelos. A trança não ficou nem de longe tão boa quanto a que Meg fazia, mas ela não se importou.
No corredor, hesitou por um segundo pensando em chamar Trevor, afinal ele gostava de ir ao haras tanto quanto ela... mas então lembrou que o irmão havia ido passar alguns dias na casa de um amigo da escola.
A garota desceu correndo as escadas e quase derrubou Meg, que subia em direção ao seu quarto.
‒ Ai! Cece, tome cuidado, por favor! Aonde a senhorita vai com tanta pressa?
‒ Desculpe, Meg ‒ disse a garota, rindo. ‒ Estou indo ao haras visitar Willhein.
‒ De novo? ‒ Meg deu um gemido. ‒ O que a sua mãe vai dizer quando me perguntar onde você está e eu lhe disser?
‒ Então não diga. Diga que não sabe.
‒ Cece! ‒ Censurou Meg. ‒ Não posso mentir para a patroa ‒ ela deu um pesado suspiro.
‒ Vamos, Meg, não faça essa cara. Eu volto logo, prometo. E vou pensar em uma forma de compensar a mamãe. Que tal desmanchar essa cara amarrada e me dar um sorriso? ‒ Perguntou Cece, rindo.
Meg virou o rosto e fungou.
‒ Qual é, Meg, só um sorrisinho, vai!
Meg não se mexeu.
‒ Eu sei que você quer dar um sorriso para a sua garotinha ‒ cantarolou Cece, abraçando a outra pela cintura.
‒ Hum ‒ fez Meg, ainda com o rosto virado, tentando se desvencilhar da garota, porém sem muita firmeza.
‒ Ah Meg, me ajuda vai. Você sabe que eu não consigo fazer nada sem você.
Meg parou de tentar se desvencilhar de Cece e um sorriso involuntário começou a abrir caminho pelos cantos de sua boca.
‒ Eu sabia! ‒ Exclamou Cece, e, ainda rindo, começou a fazer cócegas em Meg.
‒ Ha ha ha... não... ha ha ha, Cece! Pare... ha ha ha ha ha ha... está bem, está bem! ‒ Disse a mais velha, sem fôlego. ‒ Ok, você venceu!
‒ Obrigada Meg! Apenas enrole a mamãe até eu voltar. Será que você poderia pedir à Magda que prepare uma cesta de café da manhã tardio? E também que separe cenouras e maçãs. Porção dupla; estou pensando em visitar o Rufus também.
‒ Está bem, vou providenciar o que me pediu. Mas como espera que eu passe pelo salão de jantar com todas essas coisas sem atrair a atenção da patroa?
‒ Não precisa, Meg. O Jim vai encontrar com você na porta dos fundos para pegar tudo.
‒ Então o Jim também está metido nisso! Que ótimo ‒ fungou ‒, assim quando a patroa me puser para fora por acobertar seus esquemas de fuga pelo menos não irei sozinha.
Cece riu, beijou Meg no rosto e continuou a descida até o hall. Parou no último degrau, procurando ouvir alguma coisa através da porta entreaberta do salão. Nada. Ela concluiu que o resto da família ainda não descera para o café da manhã. Tomou fôlego e atravessou o hall rapidamente. Abriu a porta com cuidado, apenas o suficiente para que pudesse se espremer através da abertura e fechou-a com igual cuidado, prendendo a respiração.
Já do lado de fora, a garota respirou aliviada. Espreguiçou-se, os olhos fechados e o rosto virado para o sol. Olhou ao redor e localizou o carro que Jim estacionara estrategicamente do lado esquerdo da casa, de onde não seria visto pela janela do quarto da Sra. Stormfield ou pelas da sala de jantar.
O motorista não estava à vista. Cece supôs que ainda estivesse nos fundos esperando os suprimentos que ela pedira. Resolveu esperar no carro por precaução, caso alguém resolvesse olhar pela janela ou descer aos jardins.
Sentou-se no banco traseiro e encostou a cabeça na janela do carro, observando os jardins da mansão. O sol brilhava alegremente em um céu quase sem nuvens, sobre um tapete verde brilhante que era o gramado. Pequenos insetos zumbiam suavemente, esvoaçando para um lado e para o outro, suas asinhas peroladas faiscando ocasionalmente. Aqui e ali na grama, passarinhos saltitavam à procura de comida, chilreando. Borboletas com grandes asas de complicados desenhos passeavam majestosamente pelas flores coloridas, enquanto pequenas borboletas de asinhas amarelas e azuis voavam em pares, rodopiando umas com as outras como se dançassem. Que lindo, pensou a garota, suspirando, enquanto observava.
Estava tão distraída em sua contemplação que, quando ouviu o barulho da mala do carro sendo fechada, levou o maior susto! Alguns segundos depois, Jim entrava pela porta da frente e punha o seu quepe. Olhou para a menina pelo retrovisor e, vendo sua expressão, deu um sorriso. Estava acostumado a surpreendê-la quando estava perdida em seus próprios pensamentos.
Jim achava Cece uma menina muito curiosa. Estava sempre a distrair-se daquele jeito. Vez ou outra, ela lhe contava coisas complicadas que lera em algum livro, e apesar de não entender quase nada do que ela dizia, ficava feliz que a garota se desse ao trabalho de explicar-lhe. Seu jeito meigo e simples cativara o motorista desde cedo.
Partiram para o haras. Cece estava muito animada. Admirava a paisagem que passava velozmente pela janela do carro. Por vezes, sentia uma pontada de culpa ao pensar na mãe e nos compromissos que ela, cheia de expectativas, teria marcado, e aos quais, mais uma vez, não compareceria. Se ao menos a mamãe me entendesse...
Celia tinha muita dificuldade para aceitar o jeito da filha. Por mais que ficasse óbvio com o passar do tempo que Cece preferia calças a vestidos, livros a festas e cavalos a compras, Celia parecia pensar que isso não passava de uma simples falha no caráter da filha, que ela poderia corrigir, se tentasse o bastante.
Ao passarem pelo conhecido portão, no entanto, todas as preocupações e o sentimento de culpa foram varridos da cabeça da menina. Jim ajudou-a a levar a cesta de piquenique junto com as sacas de cenouras e maçãs até os estábulos. Depois despediu-se dela, dizendo que aguardaria sua mensagem dizendo quando ele deveria vir buscá-la. Cece lhe agradeceu por tudo e disse que lhe mandaria uma mensagem após o almoço.
Ela dirigiu-se automaticamente para a baia já tão familiar. E lá estava ele. Seu potrinho desgrenhado crescera para se tornar um enorme corcel de pelo lustroso. Cece aproximou-se dele com a mão estendida e Willhein encostou o focinho nela.
‒ Bom dia, garoto. Dormiu bem? ‒ Perguntou a menina, acariciando o focinho do cavalo.
Willhein balançou a cabeça como se concordasse, e chegou a cabeça mais para perto de Cece, que o abraçou pelo pescoço.
‒ Vamos lá para fora, certo? O dia está lindo. Vou te dar um banho, uma boa escovada, e depois iremos por aí só nós dois, o que acha?
O cavalo balançou novamente a cabeça e encostou o focinho no nariz de Cece.
Ela abriu a baia para que ele saísse, e foi buscar a escova e o sabão.
Quando ia voltando, o velho Woodston cruzou seu caminho e, olhando-a desconfiado, perguntou:
− Você veio ver aquele seu cavalo de novo?
− Vim sim – respondeu Cece com cautela.
− Espero que não tenha deixado ele solto outra vez! Aquele bicho é perigoso!
− Eu...
Mas um relincho atrás do velho Woodston denunciou que Willhein vinha trotando em direção a eles. O velho deu um pulo e foi se postar atrás de Cece, segurando seu ombro com uma mão enquanto apontava a outra mão trêmula para o cavalo.
− Não chegue mais perto! – Gritou ele, o medo em sua voz.
Willhein não era um cavalo dócil, e a maioria dos cuidadores tinha medo dele. Woodson, no entanto, não sentia apenas medo. Ele o detestava porque, ao tentar demonstrar aos outros como lidar com o cavalo, levara uma cabeçada e caíra sentado em um monte de esterco, provocando muitos risos de seus colegas de trabalho. A queda foi inofensiva o bastante e não causara qualquer ferimento, exceto em seu orgulho. Desde então ele implicava com Willhein, dizendo que era um animal horrível e perigoso, e mais de uma vez tentara persuadir o Sr. Stormfield a se livrar do cavalo. Cece antipatizava muito com ele por causa disso.
− Tudo bem garoto, me espere lá fora – suspirou a garota.
Como se tivesse entendido exatamente o que ela dissera, Willhein deu as costas aos dois e saiu a galope para o ar livre.
− Você não devia deixar esse monstro solto por aí desse jeito! Ele é perigoso! – Esbravejou o velho.
− Sr. Woodston, com todo o respeito, o “monstro” é apenas um cavalo. E se o senhor quer saber, é muito estranho um cavalariço que tem medo de cavalos. O senhor devia procurar outra profissão.
O Sr. Woodston ficou vermelho.
− Eu... eu não tenho medo de cavalos... ora, faço isso há mais de cinquenta anos... sou o mais experiente...
− Sei. Agora, se puder me dar licença...
Cece virou-se para sair, revirando os olhos. O velho tremia de raiva. Quando ela estava alcançando o portal, ele gritou:
− Um dia desses você vai se arrepender garota! Esse cavalo maldito cedo ou tarde vai derrubar você, e você vai perder essa sua arrogância!
Cece não se virou e nem se deu ao trabalho de responder. Não valia a pena. Respirou fundo e marchou em direção ao seu cavalo, que estava esperando do lado de fora.
Depois de dar banho e escovar o pelo lustroso de Willhein, Cece foi buscar a saca de cenouras e maçãs que trouxera. Parou antes na baia de Rufus, o enorme cavalo castanho de Trevor e lhe deu algumas. Fez carinho em seu focinho enquanto ele comia, e, despedindo-se, rumou novamente para fora.
− Ei, garoto, que tal fazermos um piquenique? – disse ela, quando voltou para perto do cavalo.
Ela selou Willhein com a pequena sela que costumava usar, prendeu a cesta e a saca no lombo dele, montou e saíram.
Cece não precisaria se dar o trabalho de guiar o cavalo: ele sabia exatamente aonde ela queria ir. Seguiram num passo macio e tranquilo, aspirando os aromas já tão familiares dos estábulos, da relva pisada e das pequenas flores do campo.
Em pouco tempo, chegaram ao seu destino: o Royal Club. O porteiro reconheceu Cece de longe, e logo abriu os portões para que ela passasse. Eles foram até seu lugar preferido, uma pequena colina com vista para o lago. Cece apeou, soltou a saca e a cesta que trouxera e, tirando uma grande toalha de dentro da cesta, estendeu-a no chão. Colocou a cesta no centro e começou a tirar seu conteúdo, espalhando-o sobre a toalha.
Magda com certeza havia caprichado. Havia torradas, mel, geleia, pêssegos, morangos e mirtilos. Havia também uma torta de amora, pão preto e uma seleção de carnes frias. Willhein deitou-se na grama perto de Cece. Ela preparou um sanduíche e cortou um pedaço de torta. Em seguida, despejou a saca que trouxera entre as patas dianteiras do cavalo, e sentou-se com as costas apoiadas em seu dorso. Comeram em silêncio.
Depois da refeição, Cece se espreguiçou, e se inclinou mais para trás, de modo que ficou quase deitada, a cabeça apoiada no corpo de Willhein. Ela esticou a mão para acaricia-lo, enquanto olhava para o céu, pensando...
Muitas vezes ela se imaginava fugindo pelo mundo montada em seu cavalo. Em sua mente ela vivia todos os detalhes: se via arrumando uma pequena mala, montando Willhein e fugindo no meio da noite. Imaginava-se livre de toda pressão, todos os compromissos, tudo relacionado à vida que levava.
Mas para onde? Para onde ela iria? Ela sabia muito pouco sobre os reinos vizinhos e esse pouco a levava a duvidar de que fosse bem-vinda em qualquer um deles. As pessoas de outros reinos, diziam, tinham muito pouca tolerância com estranhos. E antes de qualquer reino, havia as terras livres, lar do povo Senrei. Essas pessoas eram conhecidas por serem nômades, e também por sua dedicação à magia. Seu pai lhe dissera que entre eles podia-se encontrar as pessoas mais gentis, dispostas a dividir sua comida e seu abrigo com qualquer estranho, mas também havia aqueles que “nos matariam sem pensar duas vezes, se achassem que pudessem nos usar em algum ritual mágico”.
Cece sentia uma pontada de medo e excitação sempre que pensava neles. Como será que eles viviam? Será que eles eram mesmo como ela ouvira falar? Será que a acolheriam ou a matariam, caso ela viesse a topar com eles nas terras livres?
Às vezes ela se sentia culpada por pensar em fugir. Afinal, os Stormfields a acolheram e a fizeram parte da família. E ela amava muito todos eles (talvez ela amasse Frederick um pouco menos que os outros) mas às vezes tinha a sensação de que aquela não era sua vida, de que devia estar em outro lugar, fazendo outras coisas. À medida que os anos passavam, ela se sentia mais próxima da família, mas essa angústia nunca a deixava. A sensação de que ela não pertencia àquele lugar vinha sorrateiramente e ameaçava esmagá-la, e então ela se via fugindo de tudo e de todos.
Ela se levantou e sacudiu o corpo, querendo se livrar daqueles pensamentos.
− Ei, garoto! – Falou para o cavalo. – Pronto para esticar as pernas?
Willhein sacudiu a cabeça, relinchando, e se levantou. Cece juntou o que sobrara do café da manhã e colocou tudo na cesta. Deixou-a na colina – ela voltaria para pegar depois. Montou Willhein e a adrenalina começou a se espalhar pelo seu corpo. Ela bateu os pés levemente nas laterais do cavalo e ele desatou a correr.
Que sensação! O vento passava veloz por seu rosto enquanto ela apertava os olhos para ver o caminho. Willhein obedecia ao menor toque das rédeas. Eles estavam em perfeita sintonia, correndo pelo campo aberto. Cece amava aquela sensação. Era o mais próximo da liberdade que ela já sentira. Toda a inquietação, as preocupações e a angústia que sentia pareciam desaparecer enquanto ela subia e descia as pequenas colinas do parque a toda velocidade.
Eles foram em direção ao pequeno bosque e Cece fechou os olhos por um segundo enquanto aspirava o ar fresco, o cheiro pungente do bosque invadindo seus pulmões. Quando abriu os olhos, havia um homem parado poucos metros à sua frente. Ele arregalou os olhos de medo enquanto Cece, tão assustada quanto ele, tentava frear o cavalo.
A cabeça de Willhein parou a poucos centímetros do rosto do desconhecido. Cece apeou, ofegante.
− Senhor, mil desculpas, não vi que tinha mais alguém aqui! O senhor está bem? – perguntou, aflita.
O homem tirou os olhos de Willhein e se virou para olha-la, seu rosto voltando ao tom normal enquanto ele se recuperava do susto. Então ele riu.
− Tudo bem, tudo bem, não precisa ficar tão nervosa.
Sua voz tinha um tom simpático e brincalhão. A garota ergueu os olhos para o estranho. Ele era jovem; não devia ter mais do que vinte e cinco anos, e era muito bonito. De cabelos e olhos claros, a pele levemente bronzeada, ele sorria com simpatia para ela, deixando à mostra dentes perfeitamente brancos e simétricos. O nariz era reto e um pouco grande, mas não chegava a ser um defeito; na verdade lhe caía bem.
− Eu conheço você – disse ele, de repente.
− Hã... eu não acho... quero dizer, eu lembraria de você
Cece corou, sem saber muito bem o porquê.
− Acho que nunca fomos apresentados, mas sei quem você é. Você é a garota Stormfield, certo? Eu li sobre você nos jornais. Mas eles não mencionam que você é uma amazona excepcional.
Ele piscou para ela. Cece sentiu o rosto arder e abaixou os olhos, esperando que o outro não notasse.
− Ob-obrigada – disse ela, sem jeito.
− Não tem de quê. A propósito, eu sou Thomas. Thomas Hardings.
Ele estendeu a mão para apertar a dela. Cece apertou sua mão, ainda encabulada.
− Muito prazer – conseguiu dizer.
− E então Cece, quer dizer que você é uma corredora?
− Ah, eu não… corredora?
−Pela forma como você monta esse cavalo, achei que fosse.
− Não... quero dizer, eu corro, mas somos só eu e Willhein.
− Willhein hein? É um bom nome para esse garotão aqui.
Ele tentou colocar a mão no focinho do cavalo, mas este se empinou, relinchando e escoiceando o ar.
− Nossa! – Assustou-se Thomas.
− Calma garoto! – Disse Cece, correndo para segurar as rédeas e acariciando o focinho do cavalo. – Desculpe −, acrescentou ela. – Ele não gosta de estranhos.
− Estou vendo – murmurou Thomas, um pouco mal-humorado. – Isso não é cavalo para uma jovenzinha como você. Não tem medo de que ele possa te machucar? Te derrubar?
− Willhein nunca me machucaria – disse Cece com firmeza.
− Se você diz – Thomas deu de ombros. – Enfim, por que não pensa sobre isso? Parece um desperdício que você corra tão bem se ninguém pode ver.
Cece deu um sorriso desanimado. Ela adorava as corridas, mas quando perguntou se poderia participar...
− A mamãe disse que as corridas são apenas para cavalheiros.
− Sua mãe está parcialmente correta. Nenhuma mulher jamais entrou nas corridas até agora. No entanto, não há nenhuma regra que impeça mulheres de correrem.
A menina mal podia acreditar no que estava ouvindo.
− E se eu quisesse participar? O que eu teria que fazer?
− Bom, você precisaria de um time.
− Um time?
− Sim. Você seria a joqueta, mas ainda precisa de um agente e de um treinador. Se você quisesse, eu poderia ser seu agente. E conheço o cara perfeito para ser seu treinador: Philip Longlake.
− Você entende bastante de corridas, então? – Perguntou Cece.
− Eu acompanho o esporte desde que tinha dez anos. Pode-se dizer que entendo alguma coisa. Eu vim aqui hoje checar o terreno para um evento amistoso que estou planejando. E eis que topo com você, voando nesse seu cavalo arisco... é muita sorte.
− Mesmo?
− Sim. Sabe, Cece, eu amo esse esporte. Sou organizador de eventos do clube, mas meu sonho sempre foi ter o meu próprio time. E vendo você hoje... quero dizer, a velocidade em que você estava e a forma como você conseguiu frear seu cavalo bem a tempo mostram quem você tem muito talento. O que me diz? – Perguntou Thomas, o rosto brilhando de expectativa.
− Eu adoraria! − Exclamou Cece, excitada. − Mas... preciso pedir aos meus pais.
− Claro, eu entendo. Bom, aqui está o meu cartão, caso você decida tentar.
− Obrigada.
− Nos vemos por aí, espero, Cece.
− Ah, sim... claro.
Thomas seguiu em direção à cabana administrativa do clube que ficava próxima aos portões, deixando Cece só com seus pensamentos.
Cece mal podia acreditar. Seria possível? Ela poderia mesmo competir? Fechou os olhos e se imaginou correndo com Willhein em uma grande pista, deixando todos os outros corredores para trás, sua família torcendo nas arquibancadas, Thomas sorrindo para ela da linha de chegada... ela sentiu um estremecimento de excitação percorrer o seu corpo.
Cece ficou anormalmente quieta durante todo o trajeto de volta para casa. Estava pensando na conversa que teria com seus pais e em como poderia convencê-los a deixá-la correr. Sabia que sua mãe desaprovaria; aquilo não era esporte para damas. Teria que convencer o seu pai. Mas o que será que ele pensaria disso? Ele geralmente a apoiava, mas ela não estava certa dessa vez. Será que ele concordaria? Será que ficaria do seu lado?
Talvez ela pudesse negociar com a mãe... se ela concordasse em fazer algo que Celia queria... se concordasse em participar de algum desfile ou concurso de beleza... há anos que ela lhe pedia isso, então talvez agora a garota concordasse. Será que deveria tentar amaciar ela primeiro? Se deixasse sua mãe bem feliz, ela com certeza não teria nenhuma objeção, certo?
Quanto ao seu pai, teria que pensar em argumentos que o convencessem... pesquisaria mais sobre o assunto, mostraria a ele que estava preparada. Ela ia procurar saber tudo o que pudesse sobre o esporte. E então seu pai veria que ela falava sério, e se ele não tivesse qualquer objeção forte contra as corridas, ele com certeza deixaria, não deixaria?
Cece pensava e repensava suas estratégias. Estava muito animada, mas tinha muito medo de que seus pais não concordassem. Nunca quisera tanto fazer alguma coisa antes.
Ela continuava pensativa quando se despediu de Jim à porta da mansão e entrou. Seu pai acaba de aparecer à porta da sala de estar, provavelmente saindo de seu escritório, e sorriu ao vê-la, levantando a mão com a qual segurava o jornal do dia para saudá-la. Cece sorriu de volta, e então ouviu um grito de prazer que vinha do alto da escada:
− Maninha!
Leward vinha correndo pelo corredor superior em direção às escadas. Ele sempre vinha recebê-la quando ouvia o barulho do carro chegando. Cece abriu um sorriso maior ainda ao olhar para cima procurando o irmãozinho. Foi então que aconteceu.
A mãozinha de Leward, estendida para agarrar um dos pilares do parapeito do primeiro andar, passou direto e agarrou o ar entre dois pilares; seu corpo se inclinou e girou para fora, acompanhando a mãozinha que agarrava inutilmente o ar.
A cena pareceu se congelar; o sorriso de Cece se transformou em um esgar de medo enquanto seus olhos se arregalavam para o que estava vendo. Pela visão periférica, ela viu seu pai iniciar um grito enquanto largava o jornal, retesando o corpo para a corrida inútil que faria na tentativa de salvar o filho mais novo. Cada célula do corpo de Cece gritou com a necessidade de chegar até seu irmãozinho, de ampará-lo na queda. Ela também retesou o corpo, desesperada, sabendo que jamais chegaria a tempo, que jamais cobriria aquela distância antes que Leward atingisse o chão...
Ela sentiu uma dor aguda percorrer todo o seu corpo enquanto cada nervo que tinha se concentrava na tarefa inútil de chegar até o irmão.
Uma fração de segundo se passou. Cece piscou uma vez. Quando abriu os olhos, estava estatelada no chão com Leward, que chorava desesperadamente, em seus braços.
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