Cecília Galena Fiore: Faça ou Morra
1 1.0 Parece que tenho sangue celestial
Que adolescente aos 17 anos gosta de estudar? Gostar, nenhum gosta, mas querer passar em uma faculdade, todos querem. Cecília Galena Fiore talvez, então, seja um pouco diferente do normal. Ela adora estudar as matérias que lhe agradam, como história, português, filosofia, sociologia, e até faz um curso extra de italiano. Sua família tem descendência Greco itálica, seus avós maternos vieram da Grécia, e seus avós paternos da Itália. Ela sempre se orgulhara de seu sangue, afinal o que ela mais amava estava toda contida na cultura de sua família: Mitologia. Cecília é uma grande fã de mitologia, não importa qual for. O pensamento de algum dia ter existido sátiros – faunos -, deuses e monstros a fascinava. É claro que ela era tachada de boba, mas tudo tem uma fonte, certo? Ninguém cria algo do nada, ainda mais centenas de deuses e nomes e histórias que ultrapassam os séculos.
Pelo menos era no que Cecília acreditava.
Finalmente seu último ano no colégio, e então, faculdade! Mas a dúvida entre jornalismo e história estava deixando-a louca, ela era muito boa com as palavras, mas se sentiria brilhante se passasse as histórias e o conhecimento que obteve em sua vida a outras pessoas.
- Pela toga de Apolo, já está na hora de ir para a aula! – falou engolindo sem mastigar a panqueca do seu prato, tomou a mochila nas costas e disparou para a porta, quando sua mãe lhe barrou.
Giulianna estava com o semblante preocupado, e não era para menos, havia quase duas semanas que Cecília não ficava em casa, sempre que saía do colégio mandava uma mensagem avisando que ia chegar tarde e se recusava a dizer aonde ia. Olhou seriamente para Cecília mostrando que iam conversar, mas nesse momento um pouco de sua raiva se esvaiu, se vendo na filha quando mais nova. Elas tinham o mesmo cabelo ruivo que ia até a cintura, liso e grosso, os olhos castanhos com um tom verde passando a mesma rebeldia que um dia tivera, mas o nariz e a boca, bem, com certeza eram de Hector, seu marido.
- Você não irá à aula, nem mesmo sairá de casa, se não me disser para onde vai depois da escola. Ou diz agora, ou assunto encerrado. – Giu detestava ser rude com a filha, mas se não tomasse rédeas, temia o que poderia acontecer.
- Mãe, eu já lhe disse, é um lugar no qual me sinto segura, é como um refúgio para mim, não quero contar nem a senhora nem a ninguém, além do mais...
- Além do mais nada, Cecília. Volte para o seu quarto, e quando estiver disposta a falar, me avise.
Giu saiu andando em passos rápidos para não se arrepender da sua decisão, quando fechou a porta que separava a cozinha da sala apenas ouviu a filha subir batendo os pés com força nos degraus da escada bufando de raiva. Uma coisa que os filhos nunca entendem sobre os pais, é que mesmo eles já tendo tido suas idades uma vez, eles conheceram um sentimento mais forte que liberdade e independência, eles conheceram o amor mais forte, protetor e imbatível do mundo, amor de pai e mãe. Depois de ter um filho, nada é mais importante, nada é mais necessário, que lhe dar amor e proteção, fazê-lo sorrir é a tarefa diária mais significativa e compensadora. Com esse pensamento Giu começou a fazer a única coisa que poderia lhe distrair, ou seja, cozinhar. Um belo bolo de chocolate com a receita da nonna.
Cecília, no sótão, colocou tocar o CD de uma de suas bandas preferidas, o Metallica, se jogou no colchão que estava no chão e deixou que a música The Unforgiven tomasse conta do lugar com suas notas embalando os pensamentos da garota, um trecho em particular que parecia feito para o momento... Uma promessa a si mesmo, que nunca, a partir deste dia, sua vontade lhe tirariam.
Suspirou e pegou um livro que estava perto dali, História da Mitologia, por Thomas Bulfinch, o seu mais inspirador escritor, seu mestre, seu rei. Acomodou-se no travesseiro e começou a ler alguns contos, após ler algumas páginas suas pálpebras começaram a ficar pesadas, e ao se ajeitar melhor no colchão, caiu no sono.
Sonhos são como universos paralelos, às vezes tudo que acontece lá parece tão real que poderíamos acreditar que aconteceu mesmo. A maioria dos sonhos de Cecília pareciam tão reais, que ela tinha medo deles. Neste, ela estava aterrorizada.
Cecília corria por uma floresta estranha, parecia antiga, ela carregava uma espada extremamente pesada, sua lâmina tinha um brilho vermelho que transmitia “Morte? Por aqui!”, por mais que ela não entendesse a situação, parou de prestar atenção na espada e correu mais rápido, alguns rugidos foram ouvidos a poucos metros dali, provavelmente o animal que a estava perseguindo. Quando viu um conjunto de pilares romanos que davam entrada para uma caverna, correu para dentro do local, talvez lá obtivesse ajuda, ou ficaria encurralada.
Em uma velocidade assustadora até para ela mesma, adentrou a caverna como um jato, as paredes eram cheias de tochas ao seu decorrer, parecia nunca ter fim, mas nenhum som era mais escutado, nem mesmo o rugido que a perseguira. Diminuindo a velocidade, a garota se curvou pondo as mãos nos joelhos e ofegante, definitivamente ela nunca correra tanto na vida. Ao recuperar-se olhou em volta tentando descobrir algo do local, as tochas iluminavam alguns quadros nas paredes rochosas, talvez ali não fosse inabitado então houvesse alguém para lhe dizer em que loucura se metera. Ou talvez, quem sabe, seja o covil da criatura, disse seu lado mais pessimista. Cecília o mandou calar a boca.
Começou a caminhar para mais fundo do local a fim de explorar, se alguém estivesse ali ela o encontraria em algum momento. Enquanto andava, observava a arte nos quadros, eles mostravam várias figuras que ela reconheceu dos livros que lia, Hércules matando o leão de Neméia, Odisseu lutando com Caríbdis e Cila, Aquiles morto durante a Guerra de Tróia com a flecha de Paris, Teseu matando o minotauro, dentre vários outros. Bom, quem quer que fosse que morasse ali com certeza era um grande fã de mitologia.
Cecília parou de caminhar abruptamente ao ouvir um som familiar ao fundo, estava baixo, mas era inconfundível, alguém estava tocando violoncelo. O som começou a ficar mais alto e claro conforme ela se aproximava, o corredor fez uma curva estreita para a direita, e então a garota se deparou com uma sala estilo vitoriano, com grandes poltronas de marfim e almofadas vermelhas, nas três paredes que formavam a sala, havia três quadros, á direita um homem com olhos duros e barba preta por fazer, seu cabelo preto como breu caia em cachos até seus ombros. No quadro do meio, havia um homem loiro de cabelo curto, seus olhos eram tão azuis que o céu poderia ser observado dali, sua expressão era serena, mas transbordava poder. O quadro á esquerda era de um homem com o cabelo castanho claro, ele tinha olhos azuis também, mas era diferente, era como se a tranquilidade do mar pudesse ser transmitida apenas pelos seus olhos, assim como a fúria de tal.
- Hades, Zeus e Poseidon. Você os conhece muito bem, não é? – surgiu uma voz no portal da sala.
O garoto, mesmo com voz serena, a fez pular de susto. Ela não o vira durante o caminho, será que havia outras salas e ele a ouviu entrar? Será que estava pensando que ela era uma intrusa, uma ladra? E que diabos eram aquele papo sobre os três grandes?
- Não se assuste Cecília. – prosseguiu ele — Isso é um sonho, a quimera não irá lhe fazer mal aqui dentro. Mas você foi longe demais, agora eles querem te ouvir, eles despertaram novamente, e você terá de arcar com suas atitudes.
- Do que você está falando? Quem é você? – perguntou engolindo em seco, o garoto lhe confortava e ao mesmo tempo lhe dava arrepios.
Ele sorriu levemente mostrando dentes perfeitos, caminhou de vagar até uma das poltronas e pegou um violoncelo de trás dela, sentou-se e começou a tocar a mesma música de antes. Durante este tempo, Cecília o inspecionou. Tinha cabelos loiros longos, presos em um rabo de cavalo, sua barba era rala, mas emoldurava sua pele branca com maçãs do rosto proeminentes. Ele levantou os olhos para ela, seus olhos negros como um abismo sem fim, e mesmo assim transmitindo uma tranquilidade...
- Eu sou Benjamin Drummond, filho de Apolo, um semideus. E você sabe do que estou falando. Você realizou vários rituais em homenagem aos deuses gregos, você fez oferendas a eles, e mesmo achando que aquilo era idiota, dentro de seu coração você tinha fé, tinha esperança que eles realmente existissem e te ouvissem, e você conseguiu. Os deuses estão despertos, e querem falar com a mortal que manteve a fé em sua existência. Você, Cecília Galena Fiore, descendente de Hades por parte de pai e de Marte por parte de mãe. Sim, seus tataravós eram semideuses, as parcas já haviam decidido o seu destino, despertar o Olimpo!
Quando Benjamin tentou se aproximar, a espada que Cecília carregava na mão pesou, e ela instintivamente desferiu um golpe contra o semideus.
- Cecília, acorde, filha! – os olhos preocupados de Hector fitavam os da filha com puro medo.
Quando ele desceu as escadas para ir trabalhar, minutos depois que Cecília e Giulianna discutiram, a esposa lhe contou sobre a desavença e ele fora falar com a filha. Após varias batidas na porta e nenhum sinal de que alguém fosse abrir, Hector entrou e abaixou o volume do CD, onde tocava One, sim, ele também era fã da banda, na verdade dizia que ele influenciara o bom gosto musical da filha. Sentou ao lado de Cecília e tomou sua cabeça nos braços, tentou acordá-la, mas não teve resultados, começou a se preocupar e falar mais alto, mais rigoroso, porém ela começou a ofegar e franzia as sobrancelhas preocupadas. Giu chegou ao sótão e a confusão só piorou, ambos ficaram desesperados e tentaram acordar a menina de um jeito e de outro, mas depois de mais alguns minutos ela acordou e deu um grito, como em uma luta.
Ao ver o rosto do pai sentiu enorme alívio, que sonho louco tivera! Ela abraçou ambos os pais e pediu desculpa a mãe por ser tão rude, lhe contou que ia até a clareira próxima ao colégio para ler alguns livros de mitologia perto da natureza, e escrever seus próprios, tranquilizando a mãe, afinal, de jeito algum ela iria contar sobre os rituais que realizava. O enorme banquete que fazia, e depois colocava o resto no fogo em oferenda para os deuses olimpianos.
Decidiu entrar no segundo período do colégio, afinal, queria poder ir para a clareira o mais rápido possível, e então esclarecer seus pensamentos sobre o sonho que tivera.
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