Cecília

10 Sentimentos secretos


Enquanto caminhava para o barraco, por duas vezes, olhou para trás, no coração surgiu um sentimento forte, tão forte como sol que aquecia aquela terra. Cecília não tinha ideia do que despertara no coração do moço simples e de coração nobre. Com a respiração acelerada, ele cavalgou até à casa velha. Por um momento ficou preocupado. “E se ela pensasse que ele era um imoral?”

Desde esse dia, quase todas as tardes, o rapaz vinha a Estrela Dalva para visitar Alfredo, a verdade é que, encantara-se por Cecília. Com medo de desapontá-la, nunca mais foi pelo atalho, só pela estrada principal, não queria que ela imaginasse que ele era um homem desrespeitoso, e que não conhecia certos princípios. Ela no entanto, pouco o notava, vez em quando, por educação o saudava. O que era suficiente para o coração dele acelerar e amar ainda mais.

Assim como o vento, os dias passaram, e as férias chegaram ao fim, o retorno para Campinas, foi comemorado em segredo, a festa secreta foi celebrada em um coração desejoso de voltar para casa.

Alfredo lamentou os dias terem passado tão depressa; os dois empregados reclamavam a ida do patrão. Enquanto Cecília arrumava a mala, sentada na beirada da cama, Rosália a observava.

— É uma pena que vocês já vão. — A cozinheira começou.

— Logo meu pai volta, Rosália! Ele adora esse lugar.

— Eu tenho pena do seu pai, ele é um homem bom, se não fosse por ele, eu e o Venâncio estaríamos mortos. — A moça parou de arrumar a mala e franziu a testa.

— Como assim? Mortos! — Perguntou intrigada.

— Eu vou contar o que aconteceu. — A cozinheira suspirou antes de prosseguir. — Quando chegamos aqui, nós compramos uma terra, o sonho de ter nosso cantinho, de criar alguns animais e plantar café, estava sendo realizado. Não sabíamos, entretanto, que compramos grilada. Não demorou muito tempo, a polícia e uns jagunços vieram e o pior aconteceu. Eles atearam fogo no barraco, e começaram a atirar, Eu e o Venâncio fugimos pela mata, foi seu pai nos encontrou, o Venâncio tinha levado um tiro de raspão, e eu estava muito fraca, pois há quatro dias que não comíamos.

— Mas... Vocês não tinham comprado a terra?

— Sim. Só que fomos enganados. A terra já tinha dono. Perdemos tudo. Graças a Deus não perdemos a vida. Seu pai nos acolheu sem ao menos nos conhecer. É um favor que nunca pagaremos.

— Que história triste, Rosália. — Ela lamentou com sinceridade,

— É, foi uma história triste, creio no entanto, que uma história mais triste estar por acontecer. — Ela fez uma pausa, a moça a olhou seriamente, ela continuou com voz temerosa. — Sabemos que seu pai não tem muito tempo de vida, logo não estará entre nós... E como ele te deu a fazenda, nosso futuro é incerto. Eu sei que após a morte do seu pai, você vai vender essas terras, eu não sei o que será de mim e do Venâncio, não temos pra onde ir.

— Meu pai não vai morrer, Rosália. — Disse com voz insegura. A cozinheira maneou a cabeça.

— Hum! — Fungou a mulher torcendo os lábios. — Seu pai está morrendo, Cecília. — Houve um breve hiato. As duas se entreolharam rapidamente, então Rosália continuou. — Pobre homem! Tem um coração tão bom! Nunca deixou faltar nada para nós. — Algumas lágrimas rolaram pelo rosto triste. — Ele acreditou em mim e no Venâncio, sem nem nos conhecer.

— Rosália... Eu não quero que você fique preocupada. — Ela pediu com voz triste.

— Como não vou ficar preocupada? Você vai vender as terras! — Retalhou a mulher. Cecília agachou-se próximo a cama, e fixou o olhar em Rosália.

— Sim, Rosália! Eu pretendo vender a fazenda. Não tenho nenhuma intenção em vir morar nesse fim de mundo. Mas, faço-lhe uma promessa...

— Uma promessa? — Ela a interrompeu intrigada.

— Eu não tenho ideia do quanto valem essas terras. Pedirei ao meu namorado que cuide desses detalhes. Ele saberá como avalia-la. — A moça mordeu os lábios e prosseguiu. — Rosália, eu prometo dar a você e ao Venâncio, 20% do valor que eu vender a fazenda, creio ser o suficiente para vocês comprarem um pedaço de terra e iniciar suas vidas. A mulher arregalou os olhos.

— Vinte por cento? Nossa! É claro que é o suficiente! — Exclamou entusiasmada.

— Então está resolvido! Vamos esquecer esse assunto! Não é uma conversa muito agradável. — Disse antes de ficar em pé novamente.

Depois dessa conversa” esclarecedora” Rosália ficou mais segura até a ajudou a terminar de arrumar a bagagem.

No dia da partida, o rapaz que sempre visitava o Senhor Alfredo não apareceu para se despedir. A timidez não permitiu. Escondido atrás de uma árvore, viu a moça entrar no ônibus. Ela usava um vestido florido, e da janela acenou para Rosália e Venâncio, que da beira da estrada, retribuíam ao aceno.

Os dias passaram e a lembrança da jovem ficou guardada no coração daquele rapaz, ele, porém sabia, que talvez nunca mais a veria.

Em um final de semana, ele foi a Rolim de Moura na casa de uma moça, que era sua namorada, há dias que não a visitava. Como de costume, os dois conversavam embaixo de uma goiabeira, ela falava de amor, ele falava que tinha que comprar um chapéu novo. De repente, se calaram, ele olhou para a moça ao seu lado, e a lua o traiu.

— Você está me ouvindo? — A moça perguntou ao vê-lo com olhar distante.

— Você me enfeitiçou! Eu nunca esqueci a sua imagem... Você saindo da água...

— Do que você está falando? — Ela o interrompeu intrigada.

— Amo você... Amo como nunca amei ninguém. — Disse a enlaçando pela cintura e puxando-a par si. De olhos fechados, viu o rosto de Cecília, beijo-a docilmente, o desejo aflorou e ele a apertou com mais força.

— O que você está fazendo? — Em vão tentou afastá-lo. Uma luta inútil, pois também o desejava. Ele a envolveu em seus braços e falou docemente ao seu ouvido.

— Eu quero você... Desejo-te mais que a minha própria vida! — Sussurrou abrindo os botões da blusa que ela usava.

Beijou -a com volúpia, com sôfrego desejo acariciou a pele cor de pêssego, vislumbrando a pele alva. A amou com intensidade desmedida, deixou-se levar pela visão deslumbrante. A noite ia longe, emanado por uma paixão desenfreada, ele se perdeu em seus braços mornos.

Depois que chegaram em Campinas, à doença de Alfredo piorou; visto que Elvira não poderia assumir tal responsabilidade, pois tinha que trabalhar para manter a casa. Cecília foi obrigada a trancar a faculdade para cuidar do pai. Também pediu um tempo a Miguel, pois não queria que nada nem ninguém a incomodasse. Todo seu tempo seria dispensado para os cuidados com Alfredo.

Extremosa, ela o ajudava em tudo, a se alimentar, a tomar banho, a vestir o velho pijama de malha, ria chamando-o de meu bebezão, depois o colocava para dormir, só então conseguia descansar.

Em nenhum momento reclamou da árdua tarefa, ou murmurou por dormir no hospital. As internações tornaram-se rotineiras, e infelizmente os tratamentos não surtiam efeito. Ao perceberem o inevitável, os médicos o mandaram para casa, para que morresse em meio aos familiares.

Em uma manhã, Alfredo amanheceu mais disposto, Cecília sorriu ao vê-lo tão bem, juntos tomaram café, e conversavam sobre assuntos banais. Sentado frente a filha, ele a contemplou. Sempre soube que ela era diferente da mãe, os traços firmes que moldavam o delicado rosto, retratavam não somente a beleza, mas também a inteligência. Mesmo que não lhe dissessem, Alfredo sabia que tinha poucos dias de vida, e talvez fosse essa a oportunidade de falar com a filha.

— Cecília! — Ele falou com voz suave. — Eu tenho algo para lhe pedir! Ela deixou o matinal sobre a mesa e olhou para o pai, as notícias podiam esperar.

— O que foi pai? Está sentindo alguma coisa? Alguma dor?

— Pare de pensar que estou sempre com dor! — Ele reclamou. — Eu estou bem. Quero falar sobre a Estrela Dalva. Ela engoliu em seco, e perguntou.

— Sobre a fazenda?

— Sim! Sobre a Estrela Dalva! Eu dei a fazenda a você! Eu não fui capaz de formá-la, Cecília, a doença me definhou e destruiu meus sonhos, você no entanto, é jovem e forte... E eu tenho um pedido a lhe fazer...

— Um pedido...?