Cecília

11 O peso de uma promessa


Ele buscou as mãos da filha e as segurou firmemente, apesar da fraqueza devido a doença, a voz saiu firme e confiante.

— Eu amo aquelas terras, filha! Meu coração está em Rondônia! Ele fez uma pausa, fechou momentaneamente os olhos. — Eu quero te fazer um pedido. Não deixe sua mãe vender a fazenda! Prometa isso antes que eu morra!

— Eu prometo, pai! — Ela mencionou um riso triste. — Mas o senhor não vai morrer. Apreensivo pela resposta vacilante, ele apertou suavemente as mãos mornas sob as suas.

— Cecília! Jura que vai cuidar daquelas terras, assim como eu cuidei de você!

— Eu... Eu... Pai... — Ela balbuciou temerosa pelo rumo que a conversa tomara.

— Eu quero que você jure!

— Eu não posso jurar, pai! — Ela afastou as mãos bruscamente. — Eu não tenho dinheiro para sustentar nem a mim!

— Dinheiro não será um problema, filha. — Disse Alfredo confiante. — Eu tenho o suficiente para você derrubar a mata, e fazer algumas melhorias.

— Tem? — Ela franziu a testa.

— Sim, eu tenho... Shiii! — Fez ele colocando o dedo sobre os lábios. — Nem sua mãe sabe desse dinheiro, eu o guardei no banco. Nunca tirei um centavo, deixei tudo para investir na Estrela Dalva. Dá-lo-ei a você! Antes, porém, quero que jure!

— Pai...

— Jura! — Ele insistiu.

— Eu juro, pai. — Ela murmurou silenciosa.

No outro dia, Alfredo piorou, as dores aumentaram e o ar lhe faltou, nada pode impedir sua morte, ele morreu segurando a mão da filha. Ao vê-lo fechando os olhos, ela deixou que as lágrimas descessem, e como cascatas suaves molhassem seu rosto.

— Durma bem, papai. — Disse acariciando a pele pálida do rosto ainda morno.

Quando soube da morte do marido, Elvira baixou a cabeça, embora sentisse certa tristeza, não chorou.

O velório teve poucas pessoas, Jorge o primogênito, não compareceu, dona Elvira manteve-se serena, em seu vestido preto recebia as pessoas agradecendo as condolências. Ao ver Miguel chegando, ela sorriu. Como uma boa amiga, recebeu-o com um caloroso abraço.

— E a Cecília, como ela está? — Ele perguntou-lhe ao ouvido.

— Ela está muito triste, Miguel. Você sabe o quanto ela amava o pai.

Ele afastou-se um pouco e maneou a cabeça, depois falou.

— Eu sei disso dona Elvira. O amava tanto que terminou o namoro pra cuidar dele.

— Não fique triste, Miguel. Minha filha é ajuizada, logo ela vai perceber que fez uma besteira.

— A senhora acredita que ela volta pra mim?

— Eu tenho certeza! — Elvira levantou as sobrancelhas. — Espere alguns dias, Miguel. A Cecília vai precisar de consolo, e você é a pessoa certa para consolá-la.

— Obrigado pela confiança dona Elvira. Espere-me aqui, eu Vou dar uma olhada no falecido.

Antes de ir até o caixão, abraço-a novamente.

— Faça isso; ela adorava o pai, gostará de ver que se importa. — Aconselhou-o.

Após o enterro, Cecília e a mãe voltaram para casa, ambas estavam exaustas e aparentemente abatidas. Assim que entraram, fecharam a porta atrás de si; e sentaram-se no sofá. A tristeza extrema da filha, fez com que Elvira sentisse pena. Por vezes, imaginara que a morte do pai, de fato lhe seria dolorosa, nunca imaginou, porém, que Cecília fosse sofrer tanto.

— Não fique assim, filha. — Pediu ela com voz mansa. — Seu pai estava sofrendo, filha! Agora ele finalmente descansou.

Cecília a olhou com tristeza, os estavam avermelhados pelo choro.

— Eu sei que a senhora não se importa, mãe! Talvez esteja até feliz.

— Eu não estou feliz! — Retrucou Elvira com certa indignação. — Mas não sou fingida! Sabíamos que ele não ia durar muito tempo, por isso não vejo motivo para tanto alarde!

O queixo da filha tremulou.

— Por favor mãe! Dê-me o direito de sofrer! Deixe que eu chore minha dor! — Ela disse com voz embargada.

Elvira maneou a cabeça e depois segurou a mão da filha.

— Embora seja difícil... — A mãe engoliu em seco. — Nós vamos sobreviver sem o seu pai. Agora você pode voltar para a faculdade, voltar a namorar o Miguel...

A moça afastou-se, não podia crer que sua mãe falara tamanha sandice.

— Meu pai acabou de ser enterrado e a senhora já está planejando meu futuro? Meu Deus! Tenha um pouco de compaixão!

— E que mal há nisso? Tenho que pensar no seu futuro.

Cecília franziu a testa, e um tanto indignada, levantou do sofá.

— Do meu futuro, eu cuido, mãe! Não é preciso que ninguém o faça! — Disse com voz firme. — Disse encarando a mãe.

Mesmo com o coração em frangalhos, ela sustentou o olhar por alguns segundos, depois saiu da sala, deixando a mãe sozinha, não tinha ânimo para seguir com aquela conversa estressante.

Já em seu quarto, decidiu tomar um banho para relaxar, mesmo após passar mais de quarenta minutos embaixo do chuveiro, não conseguiu alento para a dor que a consumia, sentia que um pedaço lhe fora tirado, e nunca mais seria preenchido. Assim que vestiu uma delicada camisola azul-bebê, deitou-se na cama, não estava somente cansada, estava angustiada, e o que mais desejava, era esquecer o juramento que fizera ao pai. Sim, o juramento ressoava em sua cabeça, como címbalos sonoros, perturbando-a.

“Eu juro, pai.”

“Eu juro, pai.”

“Eu juro, pai.”

— Oh! Deus! Livre-me desse tormento! — Implorou chorosa.

Angustiada, ela apertou a cabeça com ambas as mãos. Levantou-se da cama, e andou pelo quarto de um lado a outro. De repente, o olhar ficou distante e o corpo trêmulo, nada lhe parecia real, perdeu-se dentro de si. Mecanicamente tirou duas malas grandes de cima do guarda-roupas, e sem saber ao certo o que fazia, começou a arrumar as roupas. Enquanto as dobrava para colocar na mala, lágrimas rolavam por seu rosto.

— Seu sonho agora é meu, pai! O senhor me levou a isso! Então me ensina a amar aquele lugar! Me ensina a amar a Estrela Dalva! Por favor, pai... Me ajuda... — Implorava num choro contido.

Dormiu deitada sobre a mala, acordou de madrugada com o frio congelando seus pés, cambaleante foi para a cama e voltou a dormir.

Pela manhã, ela saiu do quarto arrastando as duas malas, com certa dificuldade chegou até a sala. A mãe ao vê-la levantou-se do sofá e franziu a testa.

— Você vai viajar? — Perguntou com perceptível espanto.

— Eu vou para Rolim de Moura, mãe! — A resposta segura atormentou Elvira.

— O que? Ir para Rolim de Moura? Você enlouqueceu? — Indagou Elvira com voz alterada.

— Vou me apossar da fazenda, mãe! O papai me deu aquelas terras, não é correto fingir que a Estrela Dalva não existe.

Enquanto falava arrastava as malas até porta, Incrédula com o que ouvia, a mãe maneou a cabeça.

— Meu Deus! A morte do seu pai mexeu com seu juízo. Você só pode estar doida! — Exclamou a mãe abismada com a decisão da filha.

— Bobagem! Tolice é abandonar a fazenda! Aquelas terras devem valer algum dinheiro.

Elvira passou à frente da filha e arrancou uma das malas de sua mão, houve uma pequena confusão entre as duas, por fim, a mãe tomou uma atitude mais dura. Segurou a mala e posicionou-se frente a porta, para que a filha não a abrisse.

— Eu não vou permitir que você cometa essa loucura! Ir para aquele fim de mundo está fora de cogitação! — Disse Elvira com voz firme. Num gesto brusco, Cecília arrancou a mala das mãos da mãe, sem contudo machucá-la.

— Não há nada que a senhora fale, que me faça mudar de ideia! Eu já decidi, mãe! Vou realizar o sonho do meu pai! Eu sei que onde ele estiver, sentirá orgulho de mim! A mãe franziu a testa, e desesperançosa, falou.

— Seu pai está morto, Cecília. — Ela fez uma pausa. — E pelo que vejo, mesmo depois de morto, ele conseguiu o que queria.

— Mãe... Não é um discurso melancólico que vai me convencer a mudar de ideia. Eu fiz uma promessa ao meu pai. E vou cumpri-la!