Cecília.

1 Chapter I


Notas iniciais
Escrevi essa história apenas para mim, na verdade, na expectativa de relatar esse amor platônico que vivenciei/vivencio. Mas resolvi compartilhá-la

29.04

Cecilia estava debruçada na mesa de Emília e acabou chamando a atenção de Ana. Ela olhou de soslaio para aquela imagem ao seu lado e um calor subiu por todo seu corpo. Se assustou com a reação traiçoeira de seu próprio corpo, e cruzou as pernas, virando-se para a frente, na tentativa de conter tal sensação.

Ela estava, a todo custo, tentando esconder de si própria o fato de que estava sentindo algo por aquela mulher. Mesmo que esse "algo" fosse apenas carnal.

Quando Cecilia a olhava, sentia aquele famoso "frio na barriga", quando estava perto dela, sentia seu corpo se arrepiar por inteiro. E, às vezes, parava para observar aquela moça. Passava os olhos por todo seu corpo. Analisava não só de forma perversa, mas também olhava delicadamente. Admirava seus grandes olhos castanhos, seus finos lábios, seu cabelo curto, suas mãos, suas pernas, as coxas. E não só fisicamente. Também gostava de parar e deliciar-se, ouvindo sua voz -que dificilmente se calava-, gostava de seus olhares descarados e também dos tímidos, gostava de seus sorrisos, de suas risadas e seu jeito carente de ser.

Desde do primeiro dia dela, quando Ana a viu no corredor e aquela troca de olhares, seguida de um sorriso da aluna, aconteceu.

Depois daquele dia, ela começou a pensar, casualmente, na morena. Mesmo que ainda estivesse perdidamente apaixonada por sua ruiva. Ela não conseguia evitar.

Saiu de seus devaneios, quando a amiga de pele morena lhe empurrou de leve.

–Quer copiar as coisas da Apostila? -perguntou, erguendo sua fina apostila cor-de-rosa.

Apenas assentiu e pegou.

Cecilia estava explicando a matéria, então Ana apenas deixou a apostila aberta no canto da mesa.

Apoiou seus cotovelos na mesa e seu queixo em suas mãos entrelaçadas, olhando para ela.

Há duas semanas, havia decidido que não teria mais vergonha com ela, que ousaria. Mas não podia fazer muito, então "ousava" nos olhares.

Certa vez, seu professor de teatro disse a ela que as pessoas tem medo de que olhem em seus olhos, porque é como se fossem expostas, como que se pelo olhar, os outros pudessem desvendar todos seus mistérios.

E Ana acreditava muito nisso, pois ela mesma, sintia um enorme medo. Ela se sentia nua quando a olhavam, quando era olho no olho então... Talvez fosse por causa de sua timidez, mas a jovem vinha tentando mudar isso.

Tanto que esse havia sido seu primeiro passo. Olhar, sutil e detalhadamente, para aquela mulher. Não só olhá-la, observá-la, analisá-la.

Durante as últimas semanas, havia trocado olhares com ela.

Mas hoje, especialmente, sentia o olhar de Cecilia pesar sobre si. E precisava confessar, estava amando aquilo, mesmo sentindo os olhos e as bochechas arderem.

Ela falava sobre como o 2° bimestre funcionaria. Mas, na verdade, Ana não prestara muito atenção no que ela havia dito.

Então, ela desviou o olhar, que estava sobre um aluno qualquer, para Ana. E ali permaneceu. O único pensamento que rondava a aluna era: "Não desvie o olhar. Não desvie."

E não desviou. Por ora, havia ganhado o joguinho do "Quem desviar, perde."

Depois da pequena guerra de olhares, Cecilia voltou a olhar-lhe apenas poucas vezes, de relance.

Aquele pequeno momento a satisfez -mesmo não sabendo o porquê.

A aula logo acabou e seus olhos seguiram a professora. Desde o momento que começou a guardar as coisas na bolsa, até sumir de sua visão, ao atravessar a porta.

A -não tão querida- professora de Arte, entrou na sala dando bom dia.

Ana apenas respondeu baixo e deu um suspiro. Às vezes, gostaria de passar mais tempo perto de Cecilia.

Uma hora e quarenta minutos. Uma vez a cada sete dias. Era terrível. Quatro ou cinco vezes por mês. Menos de oito horas por mês.

Num breve momento, voltou a pensar nela. Seus pensamentos voaram à sua aula da semana passada.

Cecilia estava mais comunicativa -se é que isso era possível-, e como haviam poucas pessoas na sala, sobraram três pessoas interessantes: Ana, Julia e Flavia.

Conversava com Flavia, e Julia com sua antipatia, a ignorava. Ana permanecia como uma boba apaixonada tentando bancar a sedutora.

Em um certo momento, enquanto as três amigas conversavam, e Julia mostrava seus desenhos, ela se aproximou, contando que também desenhava. Aquilo, sem dúvidas, apenas aumentou o interesse de Ana na mais velha.

Depois de um longo tempo, seus pensamentos voltaram à aula que ocorria. A professora estava finalizando um trabalho, ou algo assim. Chamou Ana e Julia, para ajudá-la e as duas foram sem reclamar. Até que as duas simpatizavam com a "senhora".

Na aula de matemática, houve um pequeno momento constrangedor. Julia estava desenhando Liz, a tal ruiva, que Ana estava perdidamente apaixonada no ano anterior, e que, infelizmente, ainda não havia superado. E o professor de Matemática, Eduardo, se aproximou, querendo ver o que era. A moça de cabelos cacheados mostrou, rindo, o que era. Não havia nada demais. Ele leu em voz alta, um poema que era um tanto quanto constrangedor, fazendo com que ela risse ainda mais alto. Mas, numa pausa, ele perguntou quem era: "É a professora de Química?" sugeriu.

Ana não sabia ao certo por qual motivo, mas fez uma careta, como sinal de reprovação e discordou, dizendo que era alguém que já havia saído da escola há um bom tempo. Porém ficou com aquilo na cabeça. Por que ele havia perguntado se era a Cecilia? Ele desconfiava que ela estava gostando da professora? Ela já teria falado sobre Ana para ele? Talvez ela estivesse apenas paranoica.

O resto da semana passou calmamente, houve um feriado na Sexta, dia do trabalho, então Ana ficou praticamente três dias, deitada em sua cama. Levantando apenas para tomar banho e fazer suas necessidades. Era como um rito de passagem. Todo fim de semana a mesma coisa. No sábado a noite, ela resolveu checar o Facebook e por impulso, foi ler o perfil de Cecilia.

Desceu o Feed -muito- e se deparou com um blog, que já havia visto outras vezes, quando fazia a mesma coisa, só que dessa vez resolveu clicar.

Abriu o site um tanto quanto desinteressada, haviam cinco posts, leu todos.

O primeiro post era uma apresentação não tão formal, uma justificativa do porquê o surgimento do blog. O segundo já começou com o seguinte trecho: "Ultimamente ando numa busca incansável, procuro excessivamente pela Cecilia, que insiste em fugir de mim, praticamente o tempo todo, e o pior, provavelmente porque quero". Ana travou a mandíbula e notou que acabara de perceber que as duas era mais parecidas do que ela imaginava. Leu o resto do texto, e ele falava basicamente sobre isso, encontrar a si próprio, ser corajoso, etc.

Seguiu ao próximo. Esse falava sobre o quanto ela sentia que não sabia sobre nada, no quão pequenas e fechadas nossas mentes são. Sugeria que explorássemos as possibilidades. Me identifiquei imensamente com esse.

O último que li realmente interessada, foi o titulado "Uma coisa de cada vez", e nesse, ela compartilhava a experiência de uma crise existencial sua. Do quão boba ela percebeu que estava sendo quando parou para pensar o quanto a vida dela era boa e que não havia motivo algum para se sentir triste, ou mal de algum modo.

Havia mais um post, mas Ana o leu apenas superficialmente, falava sobre um assalto ou algo assim.

Terminou aquela leitura um tanto quanto perdida. Aquela informação, aqueles textos. Ela gostava de escrever e escrevia bem. Aquilo definitivamente despertou um interesse ainda maior de Ana nela.

Duas semanas passaram-se e Ana continuava tentando aproximar-se de Cecilia.

Na quarta-feira, resolveu que falaria com ela. E foi o que fez. Assim que a última aula terminou, entrou no banheiro, esperando que boa parte dos alunos saíssem do corredor extenso.

Quando o corredor esvaziou-se, Ana caminhou até a porta do Laboratório. Parou na porta, ao ver a professora de costas e por um longo momento hesitou.

Estava desistindo de entrar, quando Cecilia virou-se.

Tarde demais.

Primeiro, tocou no assunto do livro -que a morena havia indicado à aluna- e então, começaram a falar sobre diversos assuntos, arrancando totalmente o clima pesado que rondava Ana.

Mais tarde, naquele dia, Ana pegou-se olhando para o teto. Pensava sobre a moça, desde o ano anterior, até os dias atuais. Precisava admitir, ou estava se apaixonando, ou já estava apaixonada a muito tempo e só não notara.

Mas finalmente admitiu.

Sentia algo. Algo muito forte. Por Cecília. E apenas ela.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!