Cdz - Eclipse
1 Primeira Noite.
A noite caiu tranqüila sobre o santuário, nada parecia muito diferente do normal exceto pela garota de cabelos roxos e com corte masculino no topo da estátua de Atena, deitada como se fosse a ação mais normal da história e olhando as estrelas. Na escadaria abaixo, passos metálicos ressoaram no átrio em um tempo ritmado, como uma rumba, atraindo a atenção da menina.
. – Marcos? – gritou.
Sem resposta.
. – Marcos! – gritou mais alto.
Ainda sem resposta. A garota bufou e começou a descer com agilidade, agarrando-se rapidamente na pedra áspera do monumento, olhando de certa distância, lembrava muito o movimento de um lagarto branco e roxo descendo uma parede. Ao colocar os pés no solo, olhou em direção à escadaria e confirmou suas suspeitas: Vinha subindo um homem de no máximo vinte e sete anos, vestido em uma grande e pesada armadura de ouro, mas que em seu corpo parecia leve como uma pluma, com o cabelo curto e negro brilhando com a luz das tochas, algum tipo fone nos ouvidos e dançando uma rumba animada sem nenhum tipo de contenção corporal. A menina encarou a cena por alguns segundos, bateu a palma na testa e avançou até o homem, retirando um de seus fones ao alcançá-lo.
. – MARCOS! – gritou o mais alto que conseguia.
Marcos tapou um dos ouvidos e olhou desconcertado para a menina, curvando-se em seguida com a face enrubescida.
. – Perdão, senhora Lissa – ele falou em voz baixa e rouca – Não havia te visto aí.
Ela bufou.
. – Corta, não? – disse apoiando-se na cabeça curvada do outro – Você não precisa de tanta cerimônia comigo – olhou para os fones balançando no ar – Mesmo quebrando as regras assim, você sabe que não é permitido esse tipo de aparelho no santuário.
Sentiu certo tremor no peitoral do homem e deixou a cabeça dele subir, no rosto, viu um sorriso digno do Grande Gato de Cheshire e parou um segundo.
. – Mas você não subiria aqui com isso sem um motivo forte, mesmo comigo não importando para esse tipo de coisa... – ela viu Marcos cruzar os braços em frente à placa de peito e manter o sorriso – O que quer dizer que você foi convidado até aqui por algum motivo... – viu um gesto que dizia “continue” – Ou seja... Hoje tem reunião com os cavaleiros...?
. – Na mosca. – disse entre o sorriso
. – Merda – Lissa xingou e correu para dentro da capela principal.
Dentro da capela lá estavam os doze cavaleiros, bem, na verdade onze, já que Marcos estava do lado de fora escondendo o fone.
. – Ah... Oi, pessoal. – a menina disse acenando timidamente para todos – Há quanto tempo estão aqui?
Um homem de cabelos azuis e rosto delicado deu a resposta.
. – Pouco mais de uma hora – disse e apontou para outra figura no canto da sala – Diana está aqui há mais tempo.
Um silêncio envergonhado caiu sobre a garota enquanto olhava a mulher loira sentada em posição de lótus de olhos fechados que o homem de cabelos azuis havia apontado.
. – Baclava! – a voz grave e rouca característica de Marcos fizera-se ressoar na sala.
O homem de cabelos azuis olhou o outro de saudou-o com um meio sorriso.
. – Meu caro, quanto tempo não o vejo – disse com um movimento diagonal da cabeça.
. – Não gosto do seu jardim – falou e apoiou no ombro do outro – E você não desce até minha casa...
. – Câncer fica longe de peixes. – apontou outra vez para a mulher no canto – E Diana está entre nós, ela não ia me deixar passar.
. – Humm...
Outra voz retumbou na sala da capela.
. – Atenção! – a voz era imponente, como a de um imperador – Lobo!
Um homem elegante de cabelos castanhos respondeu.
. – Áries está aqui. – disse.
. – Aldebarã!
. – Touro está aqui! – um homem que mais se parecia com uma colina respondeu.
. – Jean!
. – Gêmeos, Gêmeos está, está aqui, aqui – o modo de falar era quase tão peculiar quanto sua aparência.
. – Marcos?
. – Yuppi. Câncer está aqui.
. – Leo!
. – Leão está aqui – uma voz feminina se ouviu na capela.
. – Diana!
. – Virgem está aqui – a voz também ara feminina, porém ao contrário da outra, era doce e meiga.
. – Nêmesis?
. – Libra está aqui – um homem de aspecto sombrio voz áspera respondeu.
. – Momo?
. – Yo, Escorpião está aqui – respondeu em tom jovial.
. – Lucio!
. – Sagitário está aqui – não se via o dono da voz.
. – Ah... – o homem encarou todos – Capricórnio?
Alguém bufou.
. – Alghedi, meu nome é Alghedi! – um homem apoiado em uma pilastra respondeu – Pelo amor de Atena – virou-se para Lissa – Sem ofensas – voltou-se para o outro – Não consegue sequer lembrar meu nome?
. – Ah... Não. Ian!
. – Aquário está aqui. – disse contendo uma risada.
. – Baclava... Ah, esquece, já te vi.
O homem de cabelos azuis bufou.
. – Não é minha culpa se teu cabelo parece um sinalizador – o homem ergueu os braços e convocou – Que Atena abençoe a todos vocês!
Lissa pulou sobre os ombros do homem.
. – Isso! – gritou – Que eu abençoe a todos vocês!
O Mestre do Santuário sacudiu os ombros e a garota caiu.
. – Nem tanto. – sussurrou em seu ouvido.
Ela levantou-se e olhou para os doze cavaleiros à sua frente e por um minuto sentiu um arrepio: Todos aquelas pessoas, que mesmo com personalidades diferentes e geralmente idiotas, estavam ali somente para protegê-la, dispostos a arriscar suas vidas por ela. Um orgulho grande caiu sobre seu peito, o mesmo orgulho que uma mãe sente ao ver o filho seguir o caminho que escolheu e ser feliz.
. – Qual, Qual foi, foi o, o... – Jean começou a falar, mas Leo o cortou.
. – Nem comece – ela disse – Por que nos chamou aqui?
O Mestre encarou-a por alguns segundos.
. – Por que você acha? – perguntou e levantou a mão em seguida – Foi uma pergunta retórica. – sentou-se na cadeira de pedra – Ontem tive a honra de avistar um velho conhecido andando nas matas.
O cavaleiro de Capricórnio bufou.
. – Por favor! E qual é a importância disso?
. – A importância é que o meu velho conhecido estava em uma Sapuris e dilacerando alguns camponeses na estrada.
. – Ah, bem... – Alghedi estava visivelmente envergonhado – Nesse caso tudo bem...
Lissa encarou o Mestre surpresa.
. – Você viu um Espectro e eu só fiquei sabendo disso agora? – a voz transparecia certo tom de irritação.
. – Teria te contado antes, santidade – o tom não se alterara, surpreendentemente – Se lhe houvesse encontrado em algum canto.
Ela gaguejou alguns segundos e engoliu as palavras, era verdade, passara o dia inteiro fugindo de suas obrigações como toda garota amazona de dezessete anos fazia, o Mestre não tinha culpa no caso.
. – Então... – Alguém incentivou em voz baixa.
. – Então, Cavaleiros de Atena – sua voz cresceu de tal modo que a capela parecia querer ruir...
“Sugiro que se preparem, pois não dou mais do que três dias para que aquele relógio se acenda e outra vez tenhamos que batalhar seriamente por nós, por Atena”
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