Caído
1 O Despertar da Primavera
Notas iniciais
Eu sempre ouço Lana Del Rey. Eu gosto. Me faz bem e eu acho que me inspira. Na verdade, eu gostaria, inclusive, de me sentir menos triste do que realmente me sinto quando a ouço. É tudo muito confuso. Uma hora eu sou a pessoa mais feliz do mundo, sou a pessoa que está pulando, gritando, contando piadas, fazendo besteiras, correndo, conto com as minhas amigas para tudo. Sei que posso confiar. Mas quando vem a noite, eu me vejo enrolado na cama, ouvindo as mesmas músicas e chorando. Me vejo sofrendo por coisas que nem existem, por realidades que nem são reais. Só existem na minha cabeça. Eu não sei o que fiz para merecer nascer assim, provavelmente faz parte de algum distúrbio bipolar ou ansiedade que ainda não foi diagnosticado. Tenho medo, inclusive, de consultar um especialista e descobrir que isso tudo é verdade. Se eu realmente não sou normal, vou sofrer ainda mais. Não. Eu não posso não ser normal. O que eu quero é me encaixar na sociedade. Deixar que tudo corra normalmente. NORMAL. É essa a palavra. É assim que eu quero me sentir. É assim que deve ser e é isso que os meus pais esperam de mim. Tento sorrir, tento andar, tento mexer as minhas mãos de modo normal. Não quero que ninguém perceba. Não posso deixar que percebam. Não quero ser diferente. Não posso ser diferente. Bom, ao menos eu tento. Não sei se está dando certo, provavelmente não está. Eu me conheço. Faço tudo errado. Fico lembrando do que aconteceu na manhã de hoje. Por que eu disse aquilo? Por que eu fiz aquilo? Sério. Você é idiota? O que você tinha na cabeça quando mencionou aquilo? Deixou passar. Até parece que as pessoas não pensaram que você era maluco. Com certeza notaram. Devem ter percebido algo e agora sentem pena de mim. Eu sei disso. Não vou deixar que façam algo a respeito. Sou maior que elas. Não sei porque eu ainda tento me aproximar, porque eu ainda tento ser como eles. Eu sei que não sou. Sou diferente. E ei! Isso não é tão ruim, não é? Eu posso tentar vencer na vida e mostrar para todos eles que ser desse jeito não é tão ruim. Ou é? Espera. É sim. Eu sempre vou ser o excluído. O que todos sentem pena ou que não deixam interagir. Eu não consigo nem falar como eles. Meu Deus! Será que eu vou ser sempre desse jeito? É isso que o Senhor planejou para mim. Talvez amanhã seja melhor. Talvez, se eu não fizer aquilo novamente, as pessoas podem gostar de mim. Eu posso tentar ser mais simpático. Ei! Eu posso sorrir mais. Posso falar mais devagar e mais alto. Não me fechar tanto e tentar interagir quando eles começarem a conversar. Eu posso dar a minha opinião também. Eu sei que é inútil, ninguém liga. Mas eu também não estava nem aí para o que a Lisa estava conversando hoje. Na verdade, eu acho que ninguém estava ligando para aquilo, mas sorriam por educação. Isso, eu também posso fazer isso. Eu posso dar a minha opinião sobre assuntos que eu nem domino e fingir que sou interessante. As pessoas podem não ligar, mas pelo menos eu falei algo. Pelo menos eu interagi. É, melhor assim. Posso melhorar, eu sei disso. Quem sabe eu consiga me encaixar desse jeito? Pode dar certo. Essa música está me dando sono. É melhor parar com isso. Amanhã é novo.
— Acorda, Marius.
Ainda estava meio tonto, mas ouvi de longe a voz da minha mãe chamando pelo meu nome. Amanheceu.
— Vamos! Já é hora de levantar.
Isso, amanheceu. Eu não acredito que a minha noite já acabou. Tão poucas horas de sono. Mas vou tentar cumprir o que me prometi ontem à noite. Faz parte dos meus objetivos.
— Estou indo.
Gritei. Me levanto e calço as minhas pantufas. Nossa como são fofas. Havia até me esquecido da boa sensação. Às vezes acordar faz bem. Mas está tão frio, olho pela janela e vejo os flocos de neve que começam a se amontoar no quintal de casa. Aqui em Cleveland, o inverno é rigoroso e eu começo a perceber os seus efeitos. Uma forte onda de frio vem por aí e ela parece estar apenas começando. Vou até o banheiro e me arrumo para mais um dia. Desço as escadas, chego na cozinha e avisto o café da manhã que a minha mãe preparou.
— As torradas do tio Lucas voltaram?
Pergunto com animação.
— Sim, as coisas parecem estar melhorando para ele e a Lucy. É bom. Ainda mais depois de tudo que aqueles dois passaram. Não é justo que os negócios fechem. Fico feliz por eles.
Minha mãe responde em um tom de esperança. Depois que minha avó faleceu no inverno passado, mamãe e meu tio Lucas ficaram arrasados. Não consigo imaginar como deve ser perder a mãe, mas eles sabem. Acho que eu enlouqueceria se perdesse a minha, mas parece que a vida consegue nos preparar para tudo e eles, apesar de terem sofrido muito, conseguiram superar e reajustaram suas vidas.
— Eu também fico feliz. Estava sentindo falta das torradas e dos cookies. A tia Lucy faz tudo com tanto amor.
— Sim, ela sempre diz que o segredinho especial de suas receitas.
Minha mãe sorri. Isso é bom.
— Bom, cuidado para não se atrasar de novo. O Sr. Colley me advertiu sobre seus atrasos e não quero receber outro aviso daqueles.
— Eu sei disso. Pode deixar comigo. Inclusive, já até terminei. As torradas estavam deliciosas, se você vir o tio Lucas, pode falar para ele. E avisa que eu mandei um abraço também.
Minha mãe sorri novamente. Isso é bom.
— Eu aviso sim. Agora vamos, seu pai já está saindo. Pode pegar uma carona com ele se correr.
— Quero sim.
Termino de comer e corro para pegar a minha mochila. Minha melhor amiga, Rebecca, sempre diz que “ser adolescente é uma tensão” e eu até acho que estou conseguindo levar tudo numa boa. Vou com meu pai até o colégio e começo a andar para mais um dia. Assim que chego na porta, olha para trás e avisto de longe a minha amiga chegando com um sorriso no rosto. Rebecca era o tipo de pessoa que conseguia me deixar feliz quando ninguém nem ao menos tentava. Seus cabelos castanhos e lisos, sua pele delicada, seus lindos olhos cor de mel eram de chamar a atenção de qualquer garoto na puberdade. Além de tudo, Rebecca tinha seus talentos especiais, cantava e tocava violão muito bem. Sempre estava entusiasmada com algum projeto do Clube Glee, o famoso clube do teatro e coral do colégio. Quando não estava estreando uma peça, estava pelo menos ajudando com algo essencial. Tocando, cantando, atuando. Ela era uma artista completa. E acima de tudo, uma ótima amiga. Não poderia confiar em ninguém melhor. Vejo ela se aproximando de mim enquanto corre sorrindo:
— Ei! Que ótimo já te encontrar aqui na entrada! Estava louca para te contar as novidades.
Novidades? Mas ela não mencionou nada durante o final de semana.
— Como assim? Mas você nem me...
— Eu sei! É que eu queria ver a sua cara quando eu mesma contasse pessoalmente. Além do mais, não é algo que o pessoal já sabe. É um lance meio secreto, sabe?
Fico curioso. A Rebecca não costumava esconder nada de mim. Mesmo quando era segredo, ela simplesmente não conseguia controlar. Colocava tudo para fora e muitas vezes, estragava as surpresas. Prefiro dizer que ela era bastante espontânea.
— Tá, já pode me falar.
— Vem cá.
Ela me puxa pelo braço enquanto estávamos caminhando pelo corredor. No canto atrás do armário eu não conseguia ver ninguém e aposto que ninguém conseguia nos ouvir direito ali. Era algo que ela realmente fazia questão de esconder da maioria.
— Você não vai acreditar no que eu fiquei sabendo pela Chocho.
— Ela foi deportada?
Brinco e a Rebecca sorri num tom de reprovação. A Chocho também fazia parte do nosso círculo de amizades e era a garota oriental mais fofa que você poderia conhecer na vida.
— Para de brincar com isso. Você lembra do Kevin do quarto ano?
— O que quase pôs fogo em você na aula de química?
— Ele mesmo – Rebecca olha para o lado com desprezo, mas logo em seguida me volta o olhar animada – A Chocho me disse que o viu no restaurante dos Kenny’s se pegando com um garoto da faculdade. Tipo assim, super mais velho que a gente.
Fico sem graça.
— Ée... é ss.. sério?
— Uhum. Parece que ele decidiu revelar mesmo ao mundo. Tipo assim, todo mundo já sabia, né? Mas se pegar assim na frente de todo mundo. Que coragem, né?
Fico nervoso.
— P..pois é. Qu..Quem diria? O Kevin... – Tento mudar de assunto – A família dele não é evangélica?
Rebecca me empurra nos ombros.
— Então, garoto! Aí é que tá. Parece que rolou a maior confusão porque o pai dele é pastor e obviamente nunca vai aceitar isso. Ao que parece ele até tentou fugir de casa, ficou dois dias na casa desse garoto da faculdade, mas logo voltou para casa chorando arrependido.
— É complicado. Que tenso.
— Sim, super. Eu fiquei bem surpresa. Mas admiro a coragem dele. Não sei o que eu faria em seu lugar. Acho que me mataria.
— O que disse?
Rebecca começa a rir alto.
— Estava brincando!!
E bate em meus ombros em sinal de que tudo aquilo era gozação com a minha cara.
— Bom, tudo bem. Era só isso?
Fico sério. Não gosto quando ela brinca com esses assuntos sérios.
— Uhum. Nós já podemos ir para a aula.
Andamos para a sala onde teríamos matemática II. Sento-me no fundo e coloco a minha mochila na cadeira da frente. Talvez se fizer isso, ninguém se sente ali e eu posso ficar com menos pessoas perto de mim. Mas não deu certo, não demorou muito até que um dos garotos pedisse para que eu retirasse meu material dali. O Sr. Colley logo chega e a Rebecca me cutuca com o lápis:
— Se eu tivesse 10 anos a mais...
Fico nervoso e não respondo nada. Não sei o que é isso, mas sempre sinto algo diferente quando o Sr. Colley chega na sala de aula. A sua voz era firme e grossa e o seu olhar penetrava os alunos conseguindo transmitir todo o conteúdo da aula. Não consigo me conter e começo a notar detalhes que eu antes julgava proibidos. Olho para seus olhos, são de um verde lindo. Claros. O sol bate e reflete como se todo um rio passasse por ali. Seus braços são fortes e peludos. Começo a pensar que ele talvez esteja começando a malhar porque o seu peitoral está mais inchado do que lembro da semana passada. Essas coisas dão resultado rápido assim? O que importa? Eu o olho e tento disfarçar a direção do olhar. Por que estou fazendo isso? Decido então olhar para o lado e vejo o Brice tirando meleca do nariz enquanto coloca o tesouro escondido na ponta do lápis. Que nojo.
— Qual seria a resposta, Marius?
Tomo um susto e levanto da cadeira.
— O quê?
Todos riem. Perceberam que eu não estava prestando atenção na aula. O Sr. Colley se aproxima de mim.
— Eu perguntei qual seria a resposta da equação que estávamos respondendo.
Olho para o quadro e vejo que ele estava resolvendo exercícios este tempo todo. Mas tudo que eu estava vendo era como seu braço ficava mais inchado quando levantava para escrever com o lápis.
— Bom... dois sinais negativos resultam em um positivo. E levando em consideração os parênteses que o senhor colocou. Eu diria que a resposta é 15.
O Sr. Colley sorri.
— Muito bem. Viram só turma? É assim que você mostra que está praticando em casa. Muito bem, Marius.
Fico sem graça e nem consigo responder. O Sr. Colley continua a sua aula e mais uma vez, começo a me distrair com seu tom de voz, com seu peitoral inchado, com seus olhos verdes, o jeito que ele tocava o lápis e o levantava para escrever no quadro. Eu não sei o que era aquilo. Era estranho. Era errado. Não! Não posso fazer isso. Olho para baixo e tento resolver as questões que ele estava respondendo sozinho, eu mesmo. Eu consigo.
O sinal toca. Fim da aula. Ainda bem, não estava conseguindo me concentrar direito. Sempre fico nervoso e acho que os outros irão notar. Não posso deixar que isso aconteça, nem em meus piores pesadelos. Meus colegas começam a sair da sala e eu vou arrumando minha mochila para sair dali. Olho para frente e vejo que a Rebecca já saiu sem nem ao menos se despedir. Provavelmente estava mais uma vez atrasada para o Clube Glee. Já era parte de sua rotina. Não falo do clube, mas o fato dela estar sempre atrasada. Era costumeiro.
— Marius.
Ouço aquela voz grave ecoar pela sala que agora estava quase vazia.
— Sim?
Respondo ainda virado de costas enquanto arrumo minha mochila, mas paralisado de medo. Conheço muito bem essa voz.
— Acha que poderíamos conversar?
Viro-me e vejo o Sr. Colley sozinho na frente da sala guardando os seus lápis para quadro branco.
— S..sim. É claro, Sr. Colley.
Viro-me para a minha mochila novamente. Tenho certeza que vou levar outra reclamação sobre atrasos. Mas não fiz nada de errado hoje. Peguei carona com meu pai e consegui chegar na hora certa. Não teria razão para receber outra advertência de manhã tão cedo. Termino de arrumar minha mochila e vou andando até a mesa do Sr. Colley. Já não há mais alunos na sala. Todos estavam apressados para sair dali e correram rapidamente, afinal, matemática não é a melhor matéria do mundo para muitos. Somos só nós dois.
— Sente-se.
Obedeço ao que o Sr. Colley me mandou e sento logo na primeira cadeira da fileira da frente. A porta da sala estava fechada e ele parecia estar ciente disso pois olhou para ela antes de se levantar e aproximar-se de mim:
— Marius, eu notei que você vem tendo dificuldades na minha matéria. Notei que você está muito distraído e me preocupo com seu desempenho.
— Por que fala isso, Sr. Colley?
— Marius, por favor, somos amigos. Conheço você e sua família desde que chegaram na cidade. Essa relação que temos já ultrapassou a de aluno e professor há muito tempo, não acha? Pode me chamar de Natan.
— Sim, Sr. Co... Natan.
O Sr. Colley chega perto de mim e fica na minha frente. Coloca suas mãos em minha banca. Olho para cima e apenas consigo ver seus braços fortes olhando para mim. Nossa, são muitos pelos.
— O que nós temos é especial. E eu notei que você também tem prestado bastante atenção em mim nos últimos meses. Vejo que você olha para frente. Mas não é para o quadro que está olhando.
Do que ele estava falando?
— Eu não estou entendendo, senhor.
— Bom, digamos que eu percebi que seus interesses recentes em mim estão além da matemática.
Fico vermelho e corado. Aquilo não podia estar acontecendo. Quero dizer, ele percebeu que eu fico o encarando durante as aulas? Sempre achei que estava sendo discreto.
— Continuo sem entender, senhor.
Sr. Colley me pega pelo braço. Sinto o toque firme de homem me puxando. Ele me coloca de frente a seu rosto.
— Já estive em muitos colégios antes. Sei exatamente o que garotos de 18 anos no fim do colegial querem. Garotos como você.
— Não s...
Natan me beija.
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