Notas iniciais
Desculpe a demora absurda pra postar.

Sou interrompida com batidas fortes na minha porta durante a noite, justamente quando decido ler. Fecho o livro com raiva por ter sido interrompida justo agora, depois de um dia inteiro que poderiam ter me chamado.
— Já vai!-grito por sobre o barulho das batidas contínuas na porta e me levanto da cama.
Abro a porta em um só movimento, apenas para ver um corpo tropeçar e cair à minha frente. Adam se levanta o mais rápido que pode, corando enquanto finge limpar suas roupas e tenta fingir que não está com vergonha de ter caído dessa forma. Eu não tenho culpa da mania que meu amigo tem de se apoiar nas portas dos outros.
— Achei que você não iria abrir tão rápido.-disse se desculpando.- Eu ia empurrar a porta.
— Eu notei, Adam.-digo para que ele entendesse que eu não me importava com sua queda. Ele soava tão constrangido.
— Agora é sério, Saphira.-ele exclama em tom alarmado, o tom da voz mudando completamente.- Que história é essa que eu ouvi de que você vai lutar com Courtney.
Assobio impressionada.
—As notícias correm rápido por aqui, não?-pergunto de forma retórica.
— Então, isso é verdade?-ele questiona.
— Claro que é.-falo.- Por que? Acha que eu não posso lutar contra um dos Inquisidores?
— Não, você sabe que não é essa a questão.-ele tenta reformular a frase.-Mas você está ferida. O corte nem cicatrizou ainda! Não pode forçar desse jeito.
— Por que não?-indago.
— Porque é loucura!-ele diz já desesperado.
— E você se preocupa que eu possa me machucar.-completo o que ele não disse.
— Não. Sim, bem você é minha amiga.-ele começa a falar rápido, atrapalhado.- É claro que me preocupo.
— Não é porque tenho um corte no meu corpo que eu automaticamente me torno menos capaz de lugar do que os outros.-aviso em tom calmo.
— Eu sei, você é uma das melhores lutadoras que eu já vi, mas...-ele se interrompe, decidindo que não deve terminar a frase.- O que te fez aceitar uma idiotice dessas?
— Eu quero algumas respostas.-explico.-E Courtney é o único que parece disposto a me responder.
— E não tinha outra opção?-questiona.-Você tinha que lutar com ele?
— Não sei, me diz você.-respondo.- A outra opção seria deixar que ele me beijasse. E isso, obviamente, não vai acontecer.
— Você está machucada, Saphira. Machucada.-ele repete.- Cancele isso. Por favor.
— Não posso.-insisto.
— Por que não?-ele pergunta.- O que é assim tão importante que te fez ir atrás dele? Você nem tem permissão para treinar, sabe que podem te barrar na porta se você tentar entrar na sala de treinamento.
— Ah, grande coisa! Ordens médicas.-falo sarcástica.- Eu não sigo regras. Não gosto delas. Courtney ainda me subestima, eu tenho certeza. Tudo que eu preciso fazer é me preparar para essa luta. A luta será só na sexta-feira, eu ainda tenho uma semana até o dia que marcamos. Vai dar certo.
— Tudo bem, mas o que você quer saber?-Adam pergunta perecendo se acalmar um pouco.- Eu não posso responder?
— Não.-ele parece confuso. Normalmente, ele sabe tudo sempre. Como assistente de gabinete de Romckpay, ele costuma saber de informações importantes antes de todo mundo, através dos documentos que ele deveria arrumar para o nosso chefe, mas que aproveita a oportunidade para lê-los, mesmo que houvesse uma regra que não permitia que ele fizesse isso. Não está acostumado a falta de informações, mas não acho que a presença incomum dos Inquisidores na mansão e todo esse segredo quanto aos planos de Stewart Romckpay com o Conselho seja algo que ele deixe um dos seus soldados ficar sabendo com algum documento que ele tenha permissão de mexer. Não, isso parece algo mais. Eu só não consigo adivinhar o quê, mas talvez Courtney saiba. Afinal, como eu, ele tinha o ótimo dom de ficar sabendo de coisas que não devia.
— Você não acha estranho, o fato de que os Inquisidores chegaram poucos minutos antes de voltarmos da nossa missão lá no Blaze Bailey? Que Romckpay sabia desde o inicio quando nós iríamos, e que talvez nossa chegada quase ao mesmo tempo tenha algo por trás? -tento explicar meu ponto de vista.- Creio que Romckpay tenha chamado os Inquisidores até aqui por algum motivo, e que existe uma razão para ele ter se mantido em silêncio esse tempo todo. Ele planeja algo e eu quero saber o quê.
A minha teoria parece ter despertado sua curiosidade, pois Adam abre uma expressão ainda mais confusa. É quase como se eu pudesse ver seu cérebro trabalhando, milhões de engrenagens funcionando para tentar compreender uma teoria que pode ser verdade ou não. Afinal, o próprio Stewart Romckpay havia nos dito que aquele frasco era uma arma. Mas que tipo de arma seria assim tão importante para termos que ir até aquele lugar busca-la? E por que aparentemente os Inquisidores haviam aparecido justo quando o tínhamos em mãos? Não acho tudo isso seja mera coincidência. Esses fatos tinham que estar interligados. Eu já havia me feito essas perguntas tantas e tantas vezes antes que já era impossível conta-las. Eu não sou apenas um rostinho bonito como a maioria dos soldados pensa, minha curiosidade é minha maior arma, mas também uma fraqueza.Tem alguma coisa estranha acontecendo, e eu vou descobrir exatamente o que é. Não gosto da sensação de ser mantida sem informações completas. Eu tinha visto nosso chefe se reunindo com o seu Conselho de Caçadores experientes e alguns membros da Inquisição ao longo da semana, mas em nenhum momento ele pareceu que iria divulgar as decisões das reuniões para todos os Caçadores.
— Tem alguma coisa errada, Adam.- concluo quando ele parece começar a entender onde eu quero chegar.
— E você acha que Courtney possa saber mais do que você, você acha que ele ainda costuma bisbilhotar o que não deve.-ele fala mais como uma afirmação do que como pergunta, mas assinto mesmo assim.
— Não é muito diferente do que você costuma fazer com os documentos do Mestre Romckpay, mas sim.-me defendo.
Ele concorda.
— Só prometa que vai tomar cuidado, Saphira.- ele pede.- Tenho a impressão de que você está mexendo com algo perigoso, mais do que o que estamos acostumados em campo, e se algum superior desconfiar que você sabe demais, talvez você mesma coloque um alvo nas suas costas.
—Talvez, quando eu vencer de Courtney na luta, eu tenha mais respostas às minhas perguntas.- Talvez, ele não me esclareça tudo, mas pouco era melhor do que nada.
— Eu sei, concordo com você. Isso me soa estranho também.- Adam diz tentando me convencer de que me apoia.- Mas tome cuidado com Courtney, eu ainda não confio nele. Tenho a impressão de que ele seria o primeiro a te denunciar se lhe parecesse vantajoso.
— Já faz muito tempo, Adam, mas eu ainda sei lidar com o comportamento de Courtney.- explico.- Ele não é minha preocupação. Ele não é confiável, mas eu sou mais esperta. Ele não terá nada que possa usar contra mim.
Na verdade, não era com o meu antigo colega Caçador que eu me preocupava, sentia que o perigo estava nos planos das pessoas que nos diziam o que fazer, Courtney podia ser só mais uma peça no jogo, assim como eu e Adam, mas não custava tentar tirar todo mínimo detalhe que ele pudesse ter a me dizer.
O Mestre Romckpay vinha agindo de forma estranha ultimamente, mais calado do que o normal, feliz demais com a presença constante dos seus convidados em sua casa. Ele com certeza escondia alguma coisa, e eu definitivamente iria descobrir exatamente com o quê.
Adam parece finalmente concordar comigo, se acalma o suficiente para considerar o meu lado e por fim se empertiga, levantando as costas como quem tem alguma idéia genial.
— Saphira, obrigada por me esclarecer tudo sobre essa luta.-ele me agradece, mesmo que ele ainda pareça estar avoado. Isso, por exemplo, é um comportamento suspeito.- Eu... Preciso fazer uma coisa ainda, depois converso com você.
—Ah, Adam!- tento chamá-lo, sem saber o que ele planejava.
Ele se afasta de mim e começa a caminhar para longe.
Adam mal se vira para acenar um tchau breve em minha direção, mas insisto na minha tentativa de chamar sua atenção.
— Espera.-peço indo atrás dele. . Adam estava muito estranho.- Onde você está indo?
— Vou na...Hã...-ele pensa antes de falar qualquer coisa.- Na biblioteca. Isso, preciso ir na biblioteca.
— Biblioteca?-exclamo.- Você nem gosta de livros!
— Eu sei.-ele acena afirmativamente com a cabeça e corre para a biblioteca sem falar mais nada.
Paro de caminhar no meio do corredor, sabendo que não adiantaria de nada continuar correndo atrás dele. Ele havia pensado em alguma coisa, algo que eu não podia imaginar o que seria, mas eu teria paciência para descobrir o que ele está fazendo mais tarde, quando ele não poderia fugir de mim assim tão fácil.
Volto para o meu quarto e fecho a porta às minhas costas quando uma garota de cabelo solto e vestido longo sai de um dos quartos perto do meu. Seu nome era Myranda, pelo que eu me lembrava, mas não queria que uma garota extrovertida e falante como ela estranhasse meu comportamento parada com as sobrancelhas franzidas no meio do corredor dos dormitórios femininos, então volto para o único lugar do mundo onde eu poderia falar o que eu quisesse, sem que garotas de boca grande andasse soltando palavras sobre o que eu faço para as pessoas erradas. Eu não podia confiar em ninguém de verdade aqui, principalmente àqueles que eu não tinha intimidade o bastante para isso.
Sento em frente à mesa de madeira disposta próxima à janela do meu quarto, pensando em voltar a ler, mas não consigo parar de pensar no comportamento estranho que meu amigo acabou de demonstrar.
Tudo bem, isso foi muito estranho. Eu acho que agora tenho mais um problema para a minha lista.
Preciso descobrir o que Adam vai fazer em uma biblioteca considerando que ele não gosta de sequer pesquisar alguma coisa importante nos livros. Somos uma dupla, mas sempre sou eu que me encarrego desse tipo de trabalho. Preciso investigar mais se ele não me responder nada. No entanto, não vou fazer isso agora. Não ainda.
Também preciso de um tempo de descanso. Dou de ombros em relação à esse momento de Adam, pensando em ir atrás dele mais tarde, e tranco a porta depois de me certificar de que não tinha ninguém no corredor e me sento de volta na cama para continuar a ler meu livro. E dessa vez consigo.
****************
Depois do jantar, espero todo mundo se afastar do enorme espaço no interior da mansão transformada em um Centro de Treinamento para os Caçadores se manterem em forma, e aguardo até todos, Caçadores e Inquisidores, subirem as escadas até os andares dos dormitórios, onde eu sabia que eles se manteriam ocupados por mais algumas horas antes de se retirarem para seus quartos particulares ou em dupla. Eu tinha um tempo livre depois do jantar enquanto as luzes ainda estavam acessas no primeiro andar antes que alguém viesse desliga-las. Quando cheguei ao corredor certo, me certifiquei de que estaria tudo vazio, e só então terminei o percurso até as grandes poetas no final do corredor. Eu já estava estendendo uma das mãos até a maçaneta quando ouvi sons de passos do outro lado do corredor, e me apressei a abrir a porta em um movimento só, evitando qualquer som, e corri até o lado de dentro, me escorando contra a porta fechada para que quem quer que fosse do outro lado não me visse naquele corredor tão tarde da noite, sozinha.
O coração batia rápido em meu peito sabendo do perigo que eu corria estando ali naquele momento, e só pude me acalmar quando não conseguia mais ouvir o som de duas vozes femininas passando perto de onde eu estava.
Quando o silêncio enfim voltou ao andar, controlei minha respiração até meu coração voltar a bater em um ritmo normal, soltando a maçaneta da porta quando me ajeitei para sair de perto das janelas envidraçadas na parede próxima ao portal de madeira de onde eu tinha me encostado.
Tudo bem que estava tarde e não havia ninguém que me impedisse de ficar ali, mas qualquer um poderia suspeitar das minhas intenções, e se meu nome chegasse à qualquer oficial superior à mim, eu sabia que ficaria suspensa das atividades da Caçada na Enfermaria até que me recuperasse completamente do ferimento, e eu não podia deixar isso acontecer, de jeito nenhum.
Tinha uma luta marcada para a próxima semana, e precisava treinar para ter certeza de que tinha alguma chance de vencer, porque o prêmio pela minha vitória era mais valioso para mim do que qualquer ponto cirúrgico no meu corpo.
Eu já havia trocado as ataduras na minha cintura e as apertado o bastante para não correr o risco de arrebentarem enquanto me exercito sozinha, anos de prática em luta corpo a corpo no mesmo ringue que eu pisaria na próxima sexta-feira me fizeram decorar tudo que eu poderia fazer, independente de ter companhia ou não.
A enorme sala usada em que eu estava era um amplo cômodo de teto muito alto, talvez ocupando dois andares da construção, com um espaço aberto em que haviam algumas poucas marcações no chão delimitando espaços para alguns tipos de luta, principalmente para os mais novos, e um ringue de tatame azul e branco mais ao fundo da sala.
Aquela era a primeira vez que eu via o cômodo completamente vazio, me dando uma nova noção do tamanho verdadeiro do lugar em que eu treinava todos os dias, e eu jamais teria imaginado que seria tão grande assim. Muito maior do que me lembrava, mas eu não tinha dúvidas de que era culpa da solidão de um andar inteiro vazio, só o som dos meus passos e a minha respiração profunda ocasionalmente cortando o silêncio ao meu redor.
Não há necessidade de ter alguém aqui durante à noite, visto que não existe ninguém nesse mundo com coragem o bastante para invadir um único cômodo dessa mansão cheia de homens e mulheres altamente treinados na arte da luta. Todos saberiam que faltava alguma arma das muitas que eram expostas nas paredes do cômodo assim que amanhecesse.
Considerando minha situação, eu não tinha dúvidas de que eu estava aproveitando o melhor horário para treinar, principalmente agora que eu precisaria de privacidade para treinar para uma luta não oficial, mesmo estando machucada, embora eu soubesse que não demoraria até me recuperar completamente.
E é exatamente de privacidade que eu preciso agora, minha situação já estava complicada o bastante para alguém acabar me vendo aqui e reportar a descoberta à quem não deveria saber.
Eu bem sabia que normalmente os Inquisidores não se importam com a forma que lutamos, mas não quero arriscar ter alguém me observando com uma luta importante como a minha assim tão próxima de acontecer.
Não é a melhor ideia confiar em alguém com aqueles idiotas circulando tão livremente por aqui, agindo como se essa fosse a casa deles.
Esse é um dos grandes problemas da presença dos Inquisidores aqui. Eles podem convencer qualquer um de nós a fazer o que eles desejarem. Como oficial, eu quase perdia toda a autoridade que eu tinha conquistado quando um deles aparecia, interrompendo alguma ordem e dizendo outra coisa completamente diferente. Nada me irritava tanto quanto algum idiota achando que podia passar por cima das minhas ordens, só porque era um convidado em um lugar que não conhecia as regras. Infelizmente, eu não podia fazer nada quando isso acontecia, mas eu poderia guardar toda a minha raiva e desconta-lá na minha luta com Courtney, o que me beneficia ainda mais.

Já estou treinando há um certo tempo sozinha na sala, fazendo os mesmos exercícios que costumo fazer para me aquecer antes de qualquer luta quando ouço sons de passos.
Solto os pesos que estava usando na mesma hora.
Tinha alguém aqui, eu podia sentir.
Quando me viro para a porta, uma mão a empurra e alguém entra silenciosamente.
Uma faixa de sombra cobria um espaço ao redor dele, e estava escuro demais para que eu enxergasse quem era, embora a figura tinha o porte grande o bastante para que eu tivesse certeza de que se tratava de um homem.
Eu fiquei em silêncio, incapaz de me manifestar, até que a pessoa se aproxima o bastante para que eu consiga ver seu rosto.
O garoto à minha frente é moreno e tem olhos castanhos escuros, não tão escuros quanto os meus, pele bronzeada e é alto, talvez uma cabeça mais do que eu, o que já era muito, visto que eu sou uma garota particularmente grande. As roupas escuras com detalhes dourados nos pulsos e na barra do casaco que veste não me deixam dúvidas de que ele é um Inquisidor, e embora eu tenha certeza de que não o tinha visto antes, ele me parece estranhamente familiar.
— Não acha que está muito tarde para lutar, Saphira?-o garoto fala.

Agora que ele falou, eu consigo reconhecer sua voz. É o Inquisidor que quase tinha me matado com uma faca atirada na parede quando subi ao andar que lhes deram para ficar enquanto continuavam na mansão, um garoto que eu não tinha registrado direito a aparência, visto que eu estava mais preocupada em encontrar Courtney, embora a presença dele aqui talvez significasse que eu devia ter prestado mais atenção.
Eu tinha esbarrado nele de propósito, mas depois do que eu ouvi do idiota jogando a bola na parede, eu não pretendia ter muito mais contato desnecessário com Inquisidores.
O Inquisidor me olhou com um sorriso convencido muito parecido com os que eu via em Courtney, mas meu silêncio não era o que ele devia estar pensando. Quem tinha deixado ele vir até aqui?
Como eu disse, não se tem privacidade nesse prédio. Nem quando se tratava de uma sala de treinamento vazia durante a noite.

Notas finais
Confira o trailer da fic! https://youtu.be/ea9op98lXt4