Notas iniciais
HEY, PRIMEIRO CAPITULO DA SEMANA! Boa leitura.

Acordo com uma dor insuportável na cabeça. Sinto como se algo muito pesado tivesse acabado de me atropelar.

Não sei onde estou e sinto dores a cada simples movimento. Tomando muito cuidado ao me mexer, tento me levantar e me localizar, apesar da dor que sinto em todo meu corpo. Quando minha cabeça para de girar, consigo focar no cenário ao meu redor e descubro que estou em uma espécie de cela. Sento sobre a cama de metal gelada onde estava e tento ver além da escuridão do lugar. Pela minha experiência, esse lugar parece ser mais como uma masmorra. Eu não lembro de alguma vez Romckpay ter mencionado alguma masmorra. O lugar não tem nenhuma janela e as únicas luzes se dão pelas fracas tochas presas às paredes que enxergo por entre as grades da cela. As paredes e o chão são de pedra negra e a porta de ferro maciço. Acho que não conseguiria quebra-la nem em minha forma animal. Ela é toda fechada, exceto por um retângulo de grades mais ou menos na altura do meu queixo e um vão por onde provavelmente entregam a comida. Não faço ideia de há quanto tempo estou desacordada, e sem uma janela, a contagem do tempo se torna impossível. Não sinto cheiro de nada além dos perfumes da natureza que sentia quando estava na floresta, então provavelmente não há algum tipo de civilização por perto em um raio de quilômetros. Se tivesse alguma cidadezinha por aqui, eu saberia.

Sinto muita dor quando me levanto e me aproximo da porta, me apoiando na mesma para tentar enxergar o corredor à minha frente. Vejo mais algumas celas como a minha ao redor intercaladas por algumas tochas quase se apagando e criando um cenário escuro e enlouquecedor para qualquer mente não treinada. As grades na cela à minha frentes são largas o bastante para que eu possa enxergar uma garota magra encostada na parede e encolhida sobre si mesma em um canto. Eu não sei se ela está acordada ou não, mas pelo menos está viva, a julgar pelos movimentos das suas costas. Talvez ela saiba onde estamos.

—Ei, garota!-chamo-a.-Acorde! Onde nós estamos?

Ela não se mexe e não demostra ter me ouvido.

—Acorde, menina!-insisto tentando chamar sua atenção.-Por favor, dê algum sinal de vida! Acorde.

Ela permanece em silêncio e eu começo a estalar meus dedos de forma irritante sem parar. Depois de alguns segundos estalando os dedos, a vejo estremecer e ela se vira em minha direção em um movimento rápido.

—Pare com esse barulho irritante já!-ela grita com raiva.Sorrio. Essa técnica sempre funciona.

—Bom dia para você também.-digo.-Se é que é dia lá fora. Aliás, você sabe onde estamos?

—Nas masmorras.-ela responde voltando a se sentar em um canto.

—Eu sei que estamos nas masmorras.-falo.-Me refiro ao lugar. Que lugar é esse? Onde ficam as masmorras?

—No último lugar que você vai ver em vida.-ela diz em um sussurro que só escuto com minha audição lupina.-Eles jamais permitirão que você saia daqui com vida.

—Eles quem, menina?-pergunto.

—Os Caçadores da Meia-Noite.-ela explica.-Eles vão nos torturar e nos matar, como fizeram com os outros.

—Outros?-pergunto.-Havia outras pessoas aqui?

—Não eram pessoas.-ela explica.-Eram submundanos.

—Como nós duas, suponho.-concluo.

—Sim.-ela diz baixinho.

—O que você é, menina?-pergunto.-Melhor, qual seu nome e depois o que você é.

A pergunta é mais por educação, talvez eu já saiba, mas preciso de uma confirmação.

—Meu nome é Dianna.-ela murmura.-Eu sou uma bruxa. E você?

—Você não...Não pode sentir?-pergunto confusa. A maioria de nós pode sentir a presença de outros sobrenaturais, pode descobrir o que somos antes mesmo de termos de perguntar.-Eu sou licantrope.

—Ah, entendo.-ela diz simplesmente.-Pensei que fosse humana, só para nos diferenciar.

—Por que?-pergunto confusa.

—Os caçadores que te prenderam aí disseram que você era desertora e merecia ficar com os submundanos, ao invés de ficar com os prisioneiros humanos.

—Eles ainda não perceberam?-pergunto sorrindo.-Bem, então eles são mais burros do que eu imaginava. Eu os superestimei.

—Você é desertora?-ela questiona. Sua voz demonstra interesse verdadeiro e não tenho porque mentir.

—Sim, sou.-explico.-Eu era Caçadora da Meia-Noite também, mas descobri algumas coisas que mudariam minha vida lá e precisei fugir. Devem ter me considerado desertora quando eu não voltei mais. Eles saberiam que eu não morreria com tanta facilidade, então precisaram de uma acusação para me terem de volta mesmo que como prisioneira.

—E o que acontece quando descobrirem o que você realmente é?-ela insiste.

—Eu não sei.-digo sincera.-Tentarei fugir. Nem que morra no processo.

—Você é louca, não pode simples...-ela se interrompe quando ouve o som inconfundível de passos se aproximando. Ela se encolhe no canto do mesmo jeito que estava quando a chamei e eu volto a me sentar no catre gelado.

Poucos segundos depois, um homem encapuzado se aproxima de nós assobiando alguma música desconhecida e vem diretamente em minha direção.

—Quem diria, finalmente acordou.-ele diz retirando o capuz. Eu o reconheço. É Brad, o caçador brutamontes que eu havia lutado naquela cidadezinha.-Você até que dorme bastante para uma caçadora. Ah, é mesmo! Você desertou. Não é mais uma de nós. Por isso está nesse lugar.

Seu tom é de puro sarcasmo e ele fala "desse lugar" com tanto desprezo. Como se ser submundano fosse o maior crime de todos.

—Me tire daqui, seu imbecil!-exclamo e vejo o olhar assustado de Dianna por alguns poucos segundos antes de virar-se para a parede mais uma vez.

—Eu acho que não.-ele diz.-Manter você aí é mais seguro.

—Tem medo de perder uma luta para uma mulher desarmada?-questiono com um sorriso perverso.

—Minha experiência diz que não preciso temer você.-ele responde.

—Na verdade, devia sim.-digo.

—Não por muito tempo.-Brad insiste sorrindo.-Aliás, vim aqui justamente para termos uma conversa. Lá fora.

—Não obrigada, não quero conversar.-me escoro na parede de pedra e olho para outro lado.

Brad destranca a porta da cela e me levanta com um puxão, empurrando-me porta fora em direção às escadas que ele tinha usado antes.

—Você não tem escolha, submundana.-ele diz.

Me assusto um pouco com o termo. Como ele pode saber?

Brad me empurra até o primeiro andar ao nível do solo, a julgar pela luz solar, em direção a uma porta no fim do corredor. Não digo nada enquanto ele me faz sentar em uma simples cadeira em frente à uma mesa e prende meus pulsos com algemas de metal. Obviamente, eu conseguiria quebra-las com a ajuda da minha força sobre-humana, mas preciso esperar e descobrir o que está acontecendo antes de me arriscar e mostrar para todo mundo o que eu sou. Depois que tem certeza de que estou bem presa, Brad sai batendo a porta e não me diz mais nada.

Pouco tempo depois, ouço a porta sendo aberta e paro de contar mentalmente e olho em direção ao homem que entra na sala. Assim que ele levanta a cabeça, o reconheço.

—O que um Inquisidor está fazendo em uma supostamente propriedade da Caçada, Courtney?-pergunto voltando a olhar para as minhas mãos sobre a mesa e fingindo desinteresse.

—Eu quem devia te perguntar como você foi de Capitã à desertora em tão pouco tempo.-diz se sentando à minha frente.-Preciso te fazer algumas perguntas, Saphira.

—Me abstenho de respondê-las.-sussurro.

—Não complique as coisas, por favor.-Courtney pede suspirando.-Prometo que se você responder o que eu pedir com sinceridade e julgarmos que você não fez nada, estará liberada. Vai poder voltar para a Caçada se quiser também.

—Não, eu não vou.-comento.-Nem que eu implorasse de joelhos à Romckpay, eu nunca mais vou poder botar os pés naquela mansão. Não tente me iludir, não vai conseguir.

Ele suspira cansado. Cansado de quê, exatamente? Courtney está agindo como se não estivesse feliz em estar aqui. Isso não é típico dele. Definitivamente não.

—Adam Richards desapareceu na mesma noite que você, aliás, poucas horas depois.-Courtney começa seu interrogatório.-Ele estava com você?

—Onde estamos exatamente?-pergunto.-Que lugar é esse?

—Onde você mandou que Adam se escondesse?-ele insiste.

—Por que nunca ouvi falar desse lugar e dessas masmorras no meio do nada?-continuo.

—Saphira!-ele exclama em tom irritado.-Pare com isso. Só responda e eu te libero.

—Onde. Nós. Estamos?-pergunto mais uma vez pontuando cada palavra.

—Isso importa?-ele questiona sarcasticamente.

—Totalmente.-rebato.

—Vai responder minhas perguntas se eu te disser isso?-Courtney continua.

—Talvez.-digo e olho uma das minhas fingindo indiferença.

—Estamos há cerca de 5 horas da cidade onde Brad e Jack te encontraram.-ele explica.-Bastante afastados de Londres. Essa prisão antes pertencia à Coroa e servia para mantermos os piores prisioneiros longe de qualquer civilização.

—Que maravilha!-exclamo.-Fui rebaixada à uma criminosa perigosa.

—Não foi.-ele tenta me corrigir.-Está aqui porquê era o lugar mais próximo possível.

—Por que será que não acredito em você?-faço uma pergunta retórica.

—Você não quer colaborar, não é?-ele questiona.

—Depende.-esclareço.-Você vai me deixar ir se eu colaborar? Eu duvido.

—Saphira, isso será mais rápido se você se controlar e responder minhas perguntas.-Deus, ele é insistente.

—O que um Inquisidor faz aqui?-tento.

—Chega!-ele grita dando um forte tapa na mesa. O estrondo ressoa nas paredes de pedra como eco.-Eu me cansei de você! Se você não vai colaborar, pode ficar com suas respostas espertinhas. Vou pedir que te levem de volta às celas e vou eu mesmo liderar uma caçada atrás do seu amigo ridículo e exigir as respostas dele. Sei que ele vai ser bem mais sucessivo que você.

Dessa vez, eu também me irritei. Solto um rugido mais animal que humano e arranco as algemas com um puxão forte e pulo sobre a mesa em um movimento rápido e derrubo-o no chão, pressionando-o contra a pedra com o meu peso.

—Você não vai tocar em Adam e em mais ninguém.-digo para Courtney segurando-o pelo pescoço e me aproximando muito de seu rosto.-Fale a verdade agora: o que tem aqui de tão importante para me trazer aqui e me botar naquelas celas que estão cheias de sobrenaturais presos? O que é tudo isso.

—Informação sigilosa, lobisomem.-ele grunhe quando aperto-o mais ainda.-Você não pode fazer nada. Vai morrer como todos os outros.

—E você está disposto à morrer por essa merda toda?-pergunto.

—Com certeza.-ele diz.-Isso é maior do que eu e você, maior que minha vida, maior que todos nós.

—Foi isso que Romckpay e Cinclair te induziram a pensar?-pergunto.-Não vê que eles fizeram uma lavagem cerebral em todos vocês. Tão facilmente manipulados.

—Você é quem não entende.-ele arfa tentando respirar enquanto o pressiono contra o chão.-Vocês sobrenaturais são a escória do mundo. Precisam ser eliminados imediatamente.

—Nem você deve acreditar realmente nisso.-exclamo.-Por que matar tantos inocentes por conta de alguns poucos?Isso é contra os princípios da Caçada e dos Inquisidores.

—Não são inocentes!-ele esclarece. Courtney parece até enfeitiçado falando dessa forma. Não consigo sentir pena agora.-São todos monstros. Tem a marca do demônio exatamente como você.

—Mentiras!-grito levantando sua cabeça e batendo novamente no chão. Ele grita de dor.

Eu iria continuar nossa discussão, mas nesse momento alguns soldados entram na sala e me tiram de cima de Courtney e tentam me arrastar para fora da sala enquanto um deles, o menor, levanta Courtney do chão. Eu luto e tento me soltar, mas com três soldados treinados me segurando, não posso lutar sozinha e desarmada. Se ao menos eu tivesse uma arma comigo...

—Me soltem, seus imbecis!-grito o tempo inteiro. Xingo-os de toda forma possível enquanto me debato, mas um deles injeta algo gelado em meu pescoço e eu volto a apagar. Não sei o que injetaram em mim e nem tenho tempo de descobrir quem o fez antes de tudo escurecer.