Da janela do quarto de Charlotte no segundo andar, a jovem conseguia visualizar a chegada do famoso caçador e a calorosa recepção do seu pai, seus irmãos e madrasta perante a ele no portão da casa.

Ela aprendeu com a mãe enquanto a própria ainda vivia que bisbilhotar é errado, mas nesta ocasião achava que ela entenderia.

Quando vê que o grupo entrou em casa, se apressou para sentar na poltrona ao canto da parede. Fingia estar preocupada demais com as unhas para abelhudar a recepção alheia através de janelas no segundo andar. Logo ouve alguém entrar no cômodo.

— Jesus, Charlotte! — Elena resmunga. — Que tal descer para cumprimentar as visitas como a educação nos manda e sair um pouco deste quarto, sim?!

A jovem mulher parecia impecável como sempre. Com as mãos na cintura fina sob o vestido azul bem elaborado, ela olhava para a enteada através do seu rosto belo.

— O que está esperando, menina? Não temos o dia todo.

— Desculpe, mas estou ocupada. — pega um livro qualquer na cabeceira branca ao seu lado.

Elena cerra os olhos na direção da filha astuta de seu esposo.

— Não me faça repetir.

Charlotte sorri maliciosamente, erguendo os braços em rendição.

— Tudo bem. Tudo bem. Já entendi.

A garota finalmente se movimenta, ficando em pé.

— Sei que não está animada com tudo isso, no entanto, é tudo pelo seu próprio bem.

Charlotte respira fundo.

— Eu não posso mesmo acompanhar eles como você?

— Charlotte. Você sempre faz as mesmas perguntas e tem de parar com isso. Eu e Hansel já explicamos mais de uma vez que eu só posso acompanha-los por ser esposa dele.

— Descerei em um minuto.

— Muito bem.

Elena caminha para fora do quarto e a deixa sozinha para se arrumar de uma vez.

A garota de dezoito anos bufa, inconformada, e rola os olhos. Esperava que Elena não tenha escutado. Veste um vestido marrom mais apresentável do que o que usava antes e termina de se organizar para descer em poucos minutos, se não sua madrasta e papai lhe atormentariam até o fim dos seus dias.

No último degrau da escada, avista o misterioso caçador da vila. E odeia admitir que ele é tão bonito como dizem.

O caçador trajava uma roupa de couro atípica aos homens da vila, mas característica de caçadores. Seus apetrechos cor de creme destoavam de sua pele escura e bronzeada. Seus olhos elevam-se para o queixo quadrado do homem e seguem para seu cabelo negro cortado baixinho.

Ela abaixa o olhar mais uma vez e seus olhares se encontram. Sente arrepios na espinha. Quebra a troca de olhares e vai cumprimenta-lo.

— Milady — ele saboreia as palavras.

Acena com a cabeça, calada.

Oferece a mão para apertar a sua por educação, então ele a captura e leva aos seus lábios. A jovem fica sem reação. Quando cai em si, afasta sua mão do homem atrevido em um movimento rápido.

Ele volta a olha-la com um sorrisinho presunçoso.

— Filha, deixe-me apresentar o caçador Zummach. — meu pai se pronuncia para nos apresentar — Zummach, conheça minha querida filha mais velha Charlotte.

Zummach pisca pra ela.

Sempre que conhece qualquer pessoa, tenta não tirar nenhuma impressão ruim dela até conhece-la realmente. Porém, esse homem...ele a irrita. Ele acorda algo em Charlotte que sua intuição diz pra se manter afastada. Quiçá seja porque a mulher não gostava da ideia de ter alguém para "vigia-la", embora sua intuição quase nunca errasse.

Que os céus a ajudassem a conviver com o caçador enquanto sua família estiver na guerra.

°♤°

A noite estrelada surge e a jovem precisa dar adeus a sua família. Dos seus irmãos mais novos super protetores. Do seu adorado pai. Da sua madrasta que tornou-se sua amiga. Após despedir-se da madrasta e de seu pai no jardim, caminha aos irmãos com lágrimas nos olhos. Ela só queria acabar logo com isso.

Ela sentiria falta até das implicâncias.

Não sabe se irá vê-los novamente e dar tchau a eles dói quase tanto quanto doeu dizer adeus para sua mãe na noite quando ela se foi. A incerteza a corrói por dentro, mas ela tenta se manter estável.

Primeiro ela se vira para o que é apenas um ano mais novo que ela, com o coração partido.

— Não me olhe assim, pentelha — ele diz, tão impenetrável.

Funga, disfarçando.

— Não estou te olhando de jeito algum. — resmunga.

Ele lhe oferece um sorriso sábio. A garota sempre admirou o equilíbrio dele, mesmo que tenha somente dezessete anos. Irá sentir saudade disso. Não perde mais tempo antes de abraçar Georgei. Onde sempre encontrou aconchego. Onde sabe que está protegida.

— Você precisa voltar para sua noiva e seu filho prestes a nascer, Georgei. Para nós três.

— E eu vou. É uma promessa.

Ele afaga seus cabelos escuros na altura dos ombros.

Se afasta do aperto de Georgei para ir até Col, o mais novo entre eles, que parecia terrivelmente abalado.

Col tem dezesseis anos, mas a conexão que sente com ele é imprescindível e não parece ter idade. São tão parecidos fisicamente que alguns podem dizer que são gêmeos. E é assim que sente. Como se fosse gêmea de alma de Col.

Ele a puxa para um abraço apertado. Ela enfia o rosto no seu peito.

— Você vai tirar de letra. — murmura. Ele faz que sim com a cabeça.

Sai do abraço e os três trocam sorrisos fracos.

Se afastou do portão com eles, ajudando o cocheiro Hamo a colocar suas bagagens na carruagem. Terminam com as bagagens e apenas os observa enquanto se preparam para partir. A irmã mais velha abraça seu corpo.

Assiste Col, Georgei, papai e Elena entrarem na carruagem e partirem nela. Acena de longe, forçando um sorriso. Quando não estão mais no campo de visão, lágrimas inundam seus olhos. Só se dá conta que precisa sair do lugar porque vovó envolve seu corpo com o braço e a leva de volta pra o interior da residência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.