Caçador

23 Reta Final


Notas iniciais
Hora da peleja!

Sexta-Feira; 19 horas e 10 minutos; Arredores de Seattle.

Megan. Amanda e eu olhamos de dentro do Dodge para a antiga sede da fazenda. Anos atrás deve ter sido um lugar enorme, de algum fazendeiro rico, mas agora não passa de um amontoado de escombros.

O campo não existe mais. O terreno onde os prédios deviam estar foram “roubados” pelo mato. Algumas árvores e muito mato. A sede da fazenda está caindo aos pedaços, com o celeiro e a torre de silagem ao lado.

— Devem estar no celeiro, os zumbis. E ele deve ter alguns zumbis e lobisomens o protegendo na sede. — Falo para Megan e Amanda.

— E como você achou Harren mesmo? Achei que ele estivesse escondido. — Amanda comenta.

Olho para ela.

— Podia confiar um pouco em mim. Não custa nada. — Então acrescento quando ela abre a boca para interromper. — Eu usei um ritual para achá-lo. Usou muita necromancia ultimamente, e isso é fácil de detectar.

Amanda levanta uma sobrancelha.

— Então por que não detectou antes?

Dou os ombros.

— Muitos zumbis. Isso fez com que ficasse muito espalhado, e então era difícil de eu detectar a fonte. Mas agora que diminuíram. Sabe, admito que nem eu esperava que saísse tão bem o meu plano. Mas agora, é hora de atacar.

Saímos do carro. Se isso fosse um filme, ia ser aquela cena de nós andando quase em câmera lenta com um ventinho soprando para o cabelo de Megan e Amanda balançar em volta do rosto de um modo bem épico. Mas como não é um filme, vamos tentando abrir caminho em meio ao mato e praguejando em voz baixa quando pisamos num buraco ou enroscamos os pés na grama muito alta.

Paramos atrás de um tronco caído perto da sede da fazenda. Estamos com armamento pesado. Não o tipo SWAT, o tipo Caçador. Elas são elas, mas eu estou preparado para uma briga com um demônio. Uma faca de caça na perna esquerda, e um punhal na direita. O Colt na cintura, junto com uma pistola nove milímetros. Um cantil de água benta e mais três fracos colocados em mini compartimentos. Um em cada braço, e um na cintura. Um potinho de sal no bolso.

Junto a isso, carrego uma escopeta de cano cerrado carregada com sal, e vários cartuchos para ela. No braço esquerdo, tenho tatuado um conjunto de marcas feitas especialmente para combate. São desenhas com sangue de demônio e depois queimadas na pele. Isso deixa marcas pretas no braço. Elas são especialmente para combate contra zumbis. Se Harren tiver alguns com ele, posso desfazer o feitiço que os trouxe de volta apenas tocando neles. No braço direito, tenho marcas para facilitar os feitiços. A maioria dos magos usa saquinhos de bruxa para fazer os encantos, mas descobri um jeito de suprir isso com as marcas.

Aceno para Megan e Amanda, e elas me seguem em direção à fazenda. Penso por um momento em tentar nos esgueirar, mas Harren deve saber que estamos aqui. Então é perda de tempo.

Na entrada da sede, dois vampiros saem correndo de dentro em velocidade espantosa. Mas antes que consigam chegar até mim, que estou na frente, Megan e Amanda os alvejam com tiros de escopeta. O impacto faz com que eles sejam jogados para trás. Sem perder tempo, pulo para frente sacando o punhal e abrindo a garganta de um deles. Com outros golpe, raspo no oco. O terceiro é o bastante para arrancar a cabeça de vez. Me viro para o vampiro restante, mas Megan já cuidou disso. Com um único golpe, faz a cabeça rolar pelo chão.

— Se esses são os porteiros, vai ser fácil.

— Se ele não quisesse que entrarmos, não entraríamos. Seu orgulho vai fazer querer brigar comigo, ver o meu nível.

Amanda me olha cética.

— Isso não é um game. E ele não é idiota.

— Lian não disse idiota. Disse orgulhoso. Harren era um dos melhores na época dele, e está possuindo um dos Novos Necromantes, então tem mais ou menos uma ideia do que eles podem fazer. Deve estar a fim de ver o que Lian é capaz. Se ele for melhor, vai ganhar e ninguém mais o ameaçará realmente. Se Lian for... Seria o mesmo que morrer viver com o conhecimento de ter sido superado. Para ele é um jogo. Para ver quem é melhor. O melhor vai sair vivo daqui.

Olho para Megan surpreso. Ela tem ficado meio quieta ultimamente. Megan devolve o olhar firme, me desafiando a contrariá-la. Balanço a cabeça, e sigo em frente.

Por dentro, é apenas um quadrado de terra com um telhado e cheio de escombros. As paredes continuaram inteiras, mas foi só. Do lado oposto da entrada, uma porta escura está aberta.

No momento que pisamos dentro do salão, a porta se fecha atrás de nós. Mas a escuridão dura apenas alguns segundos, antes de verdes se acenderem em tochas penduradas nas paredes.

— Exibicionista. — Murmuro, olhando em volta.

Da porta escura, o som de passos ecoa. Em alguns segundos, dez zumbis, quatro lobisomens e dois vampiros saem de lá e se posicionam em frente à porta. Os lobos estão transformados, nos recepcionando com as presas expostas e as unhas preparadas. Os zumbis estão com o olhar morto no rosto, e os vampiros mostram a fileira extra de dentes.

À uma ordem que não ouvimos, eles se posicionam em duas fileiras em frente à porta, criando um corredor vivo e um morto-vivo (tenho de contar os zumbis). Um vulto surge andando em meio à fileira, com seus passos ecoando. Ele se para de frente para nós. Está usando um manto preto comprido, com o capuz na cabeça. Ele ergue as mãos pálidas de dedos esqueléticos para abaixar o capuz.

O cara me lembra um pouco o Voldemort de Harry Potter. A cara comprida e sem nenhum pelo. Só que ele tem nariz, até um pouco grande. Mas a pele é pálida. Branca, sem cor. Eu sou pálido que nem um cadáver, mas ele faz os zumbis ao seu lado parecerem corados. Os olhos são branco puro. Beleza. Um demônio de olhos brancos.

— Bem vindos à minha humilde residência. — Ele fala numa voz gelada, sem vida.

— Legal Michel Teló. Boa noite para você também. — Murmuro. Megan sorri com a piada, mas Amanda continua séria, sem expressão. Ergo a voz. — Não diria que foram boas vindas os dois vampiros lá atrás.

Harren sorri. O sorriso mais parece um esgar de dor, mas imagino que seja um sorriso.

— Presumi que não seriam empecilhos para vocês, e acho que acertei.

— É, depois de acabar com mais da metade de seu exército sem erguer um dedo, dois foram fáceis.

O sorriso endurece, ficando gelado.

— Bom saber que... Acertei. — O descontentamento é visível na voz dele. Parece que falar do extermínio de seu exército sem problemas foi jogar sal na ferida. — É uma honra receber um necromante tão poderoso, capaz de usar estratégias... Incríveis. Gostaria de trocar conhecimentos com você, se não for pedir demais.

Suspiro e balanço a cabeça.

Adraken’nen. — Falo. A palavra ecoa pelo ressinto, como uma rajada de vento frio. Amanda e Megan se encolhem, e Harren faz uma careta de raiva.

Mas noto isso com um décimo da minha atenção, pois o foco é nos dez zumbis que investem em minha direção. O que eu dei foi uma ordem de atacar, e eles a acataram.

Dou alguns passos para frente, para deixar uma distancia segura entre mim e as garotas. Me ponho em posição de combate corpo-a-corpo. Não saco nenhuma arma, minha melhor jogada vai ser a magia. Combater magia com magia.

Os vampiros e lobisomens começam a avançar, mas Harren ergue uma mão e eles param olhando desconcertados para ele. A expressão de Harren é pensativa e ávida. Deve querer ter uma amostra do que eu sou capaz.

Quando eles estão a apenas dois metros de mim, me movo, indo para frente e me abaixando um pouco. Desvio da primeira investida, que são três zumbis, indo para o meio deles. Ainda em movimento, seguro um pelo pescoço com a mão esquerda e o atiro em direção aos três que estão atrás de mim agora. O zumbi volta a ser apenas um cadáver ao meu toque, e empurra os três para o chão. Sem parar o movimento giratório que usei para atirar o cadáver, bato com a mão no ombro de um e na perna de outro, fazendo mais dois cadáveres despencarem no chão.

Dois segundos se passaram desde que ataquei, e agora estou do outro lado, com os sete zumbis entre mim e as garotas. Elas fazem menção de avançar para me ajudar, mas balanço a cabeça Megan entende e segura Amanda pelo ombro, fazendo-a parar. Amanda olha para ela come se Megan fosse louca, mas ela apenas balança a cabeça e fala alguma coisa, mas minha atenção está voltada para os zumbis novamente.

Eles se viram para mim. Os três que caíram se levantam. Sem hesitar, eles atacam em massa novamente. Esse é o problema dos zumbis. Podem ser difíceis de matar por meios convencionais, mas são absolutamente desprovidos de capacidade avaliativa. Eles não são capazes de avaliar uma tática e mudá-la se for preciso. Apenas continuam atacando da forma mais idiota possível.

Sete. Sete não são nada, para a preparação que tenho agora. Quase tive uma overdose de sangue de demônio, tomando tanto quanto consegui manter no estomago. Então eles vão ser fáceis de derrotar.

Mantenha o inesperado. Esse é o truque de lidar com zumbis. Eles não lidam bem com isso.

Me jogo no chão, na frente deles. Isso s faz perder o equilíbrio, e no rolar consigo “desligar” mas dois, reduzindo o número para metade do pelotão original. Vejo Harren de relance. Sua cara está tomada por um esgar de raiva.

Esse lapso quase me custa o pescoço. Um zumbi consegue me agarrar pela garganta e começa a apertar, mas fecho a mão esquerda em um punho deixando o dedo indicador e o médio juntos e apontando para frente, e golpeio a barriga do zumbi. O golpe perfura levemente a pele. Com a mão direita, seguro ele e uso como um escudo contra o próximo ataque, e jogo-o em cima do atacante, desequilibrando-o. Com uma finta, desligo outro zumbi e acerto um soco em outro.

Sobram dois. Eles me atacam um vindo de cada lado. Seguro a mão de um com o a mão esquerda, desligando-o. E aponto com a direita para a cabeça do outro, fazendo uma arma de dedo. Encostada em sua testa.

Narrak’cadrarys’erum. — Um jato de fogo negro sai dos meus dedos, incendiando o zumbi. Ele cambaleia para trás e cai, aceso como uma tocha humana.

Olho para Harren. Ele me fita por um momento, com uma expressão pura raiva no rosto, e então se vira, fazendo o mato rodopiar, e sai pela porta.

— Vocês podem cuidar deles? — Pergunto para Megan e Amanda, me referindo aos lobisomens e aos vampiros,

— Será um prazer. E são apenas seis. — Amanda saca um facão de prata.

Megan me fita, e não consigo decifrar totalmente sua expressão. Vejo preocupação, e algo a mais.

— Volte vivo, está bem? Apenas... Volte. — Ela me pede.

— Vai ser uma festa. E você fique viva também, certo? Detestaria ter que ir várias vezes ao cemitério para depositar flores no seu tumulo. Fica caro ficar comprando tantas flores.

Megan ensaia um sorriso.

— Volte, e eu sobrevivo. Estamos combinados?

— Estamos.

Corro em direção a porta, preparado para abrir caminho a força se for preciso. Mas nenhum deles tenta me impedir. Depois da porta, me deparo com uma escada precariamente equilibrada no esqueleto do que parece uma sala de jantar. Subo a escada o mais rápido que consigo.

A escada vai dar no telhado. Uma extensão plana de madeira, meio apodrecida, que pode ceder sobre o nosso peso a qualquer momento. Se os planos de Harren incluem uma luta, isso pode acabar terrivelmente mal.

Harren está no extremo oposto, de costas para mim. Na beirada do telhado, a brisa balança seu manto. Agora isso está parecendo um filme.

A madeira range agourentamente enquanto dou alguns passos para frente. Paro exatamente em cima de uma viga de madeira, o que vai proporcionar um pouco mais de apoio, e começo a falar.

A cantiga que sai dos meus lábios é um feitiço destinado à amarrar uma alma em um corpo. Um demônio é, essencialmente, uma alma, mesmo que se apresente sobre a forma de uma fumacinha preta.

Harren não faz qualquer movimento para me impedir. Quando termino, relaxo minimamente. Isso vai impedir que ele escape do corpo.

— Acabou? — Harren pergunta, se virando. Seus olhos estão totalmente brancos. — Isso era desnecessário. Você previu meus planos muito bem. Se não puder matá-lo aqui usando esse corpo, seria melhor morrer.

Aceno com a cabeça.

— Antes de lutarmos, quero saber uma coisa. Por que você está fazendo isso? Deve ter algum motivo para ter o trabalho de trazer zumbis e juntas vampiros e lobisomens num só grupo.

— O objetivo... O objetivo é a liberdade. — Ergo uma sobrancelha. Harren começa a explicar, literalmente discursando, como se pensasse que se me convencesse iria evitar uma luta. — Desde o inicio dos tempos, temos sido Caçados... Exterminados. Você deve ter pensado que eu queria trazer Lúcifer de volta. Nunca. Lúcifer era um Arcanjo. Não sabe nada sobre se tornar um demônio. Foi ele que nos criou a partir de Lilith. Através de suas escolhas egoístas criou criaturas cujo destino é a perdição. Por causa dele somos o que somos. Por causa dele, desde o inicio dos tempos somos Caçados e exterminados. Somos considerados cânceres da terra. Nós e as outras criaturas do sobrenatural. Pois para mim chega. Fantasmas, lobisomens, vampiros, demônios, wendigos, todas essas criaturas já foram humanas, como você. Nós, os feiticeiros, ainda somos humanos, mas somos Caçados do mesmo jeito por humanos. E as outras criaturas sobrenaturais, mesmo os deuses, vocês Caçadores nos condenaram à morte e a extinção. Pois temos o direito de viver. Temos tanto, se não mais, direito a esse mundo que vocês. Por isso, a partir de hoje, levaremos os Caçadores à extinção. Chega de viver fugindo e com medo. Vamos mostrar a vocês o que é viver sendo caçado. Vamos nos juntar para acabar com vocês, vamos... Por que está rindo?

Deixo a risada prolongar, no fim se tornando um riso sem graça. E então ela morre. Olho para ele divertido.

— Essa é a desculpa? Direito de viver? Não me faça rir. — Minha voz se torna dura e feroz, tendo o poder do próprio destino no tom. Legal a frase né? Hoje to inspirado. — Você falando de direito de viver? Quantos morreram para que você pudesse tentar nos atingir, três Caçadores? Não, não responda. Isso não fará diferença. Vou matá-lo do mesmo modo.

— Você se sacrifica por pessoas que iriam matá-lo pelo que é. É um necromante. Venha para o meu lado, juntos podemos...

— Juntos uma ova. Você só esperaria eu baixar a guarda para me matar. E quanto a morrer pelos humanos... — Dou os ombros. — Se alguém soubesse o que sou, tentaria me matar. Sou o “esquisito”, o perigoso, a aberração. Isso tudo é verdade, mas... Eu ainda sou humano. E não me importo de morrer pelos humanos. A maioria das pessoas não sabem que essas criaturas existem, então sobre para nós protegê-las. A maioria dos Caçadores luta por vingança, teve algum membro da família morto. Admito que no começo foi assim para mim, queria vingar meus pais. Queria acabar com todos os demônios do Inferno, queria dispersar todos os fantasmas do mundo. Levar a extinção wendigos, vampiros e lobisomens. Estava soterrado em ódio. Não sei quando mudou, mas sei quando começou a mudar. Conheci Megan, e isso mudou um pouco a minha perspectiva. Ganhei meu primeiro motivo para lutar. Mantê-la viva. A primeira pessoa que se importou realmente comigo em muito tempo. E depois... Ver as pessoas a salvo se tornou minha maior satisfação. As pessoas normais que morreriam ou quase morreram por causa do sobrenatural... Vê-las bem me dava uma sensação boa. Poder chegar nas crianças e realmente dizer que o bicho-papão não vai vir, espantar os pesadelos para longe das pessoas. Isso se tornou meu motivo de viver. E, se para mantê-los vivos eu tiver de trabalhar no escuro, sem reconhecimento, sendo Caçado por humanos e por monstros, que assim seja. Desço ao Inferno se for preciso, mas não vou desistir. Pode mandar tudo que tiver, pois eu aguento. E esse é meu trabalho.

Fico meio constrangido pelo discurso que acabei de fazer. Harren apenas me olha, impassível.

Depois do que pareceu uma eternidade, Harren se move. Ele fala, e sua voz transborda de desprezo.

— Sacrificar a vida... Carregar todo o peso do sobrenatural nas costas e receber golpe após golpe, suportando-os todos por causa de seres fracos que não ligam para sua existência e o matariam sem hesitar... Achei que era mais sábio. Por algum motivo que não entendo, você é o necromante atual mais poderoso que existe. Talvez seja até mais poderoso que os melhores da Era Antiga, mas não importa. Hoje irei matá-lo.

Sem mais nenhuma palavra, Harren se posiciona. Faço o mesmo, sabendo que decidiremos nosso destino no próximo movimento.

Notas finais
Acho que foi meu capítulo mais comprido até agora. Estava bem inspirado.