Caçador
69 Olhos laranjas
Por que você?
Olho para o lado, e percebo que Chuck está sentado ao meu lado. Cara, detesto essa mania que anjos e demônios têm, de aparecer do nada.
Estou sentado no topo do trailer, olhando as estrelas, aproveitando a noite, depois de uma discussão cansativa sobre os pormenores de nosso plano para evitar o Apocalipse. Queria um tempo sozinho, mas aparentemente demônios não têm boa capacidade de entender indiretas.
Por que eu o que? Me faço de desentendido, mesmo sabendo exatamente do que Chuck está falando.
Por que precisa ser você. Eu sei os motivos, mas queria escutar da sua boca.
Solto uma risada seca.
Quer mesmo? Bom, vamos lá. O primeiro é que eu sou o único desesperado o bastante. Todos eles estão assustados, apavorados, mas ainda não mergulharam em desespero. Segundo, eu não simplesmente iria ficar quieto aqui e enquanto um deles se arrisca. Se tem que ser alguém, pode muito bem ser eu. O terceiro... Bom, esse pode parecer o mais idiota, mas eu estou curioso. Quero dar uma boa olhada nesse cara.
Chuck assente.
Esqueceu de acrescentar que é o único que está preparado para enfrentar o Inferno.
É, isso também, eu acho.
Chuck observa as estrelas, como se estivesse tentando contá-las.
O que você vai tentar fazer, é arriscado. O Inferno... Bom, só descendo lá para ter uma ideia. Nenhuma descrição está à altura dele.
Até aí eu adivinhei sozinho, Einstein. Não tem nenhuma dica?
Chuck fica em um silêncio pensativo. Eu espero, curioso sobre o que ele vai dizer.
Poucos viram a verdadeira face do Inferno. Nem eu, na verdade. Não sei se Lúcifer sabe exatamente como ele é. Aquele lugar foi feito para ser seu pior pesadelo. Só de estar lá você já está em uma tortura intensa, e às vezes terá um demônio cuidando de você, se for importante o bastante, se tiver potencial para se tornar um de nós.
Legal. Respondo sarcástico. Agora pode me dizer algo de útil?
Chuck revira os olhos.
Você, mais do que qualquer um deles, está preparado. Se você conseguir se manter controlado, manter sua mente sob controle lá em baixo, pode obrigar o Inferno a lhe mostrar o caminho.
Do que está falando? Pergunto, confuso.
O Inferno é uma dimensão psíquica, está tudo na sua mente. Ele não atua sobre seu corpo, pois você nem tem um corpo. Atinge seu espírito com força, e faz uso de seus piores medos, das coisas que mais irão lhe ferir.
E eu tenho que evitar que ele faça isso? Pergunto, tentando acompanhar.
Você estudou as fronteiras da Morte, sabe como funciona, sabe como é tênue a linha entre os mundos. O Inferno não vai influenciá-lo tão facilmente. Chuck solta uma risada seca. Claro, não vai passar incólume. Afinal, aquilo é o Inferno. Você vai sofrer, vai chegar ao seu limite, mas talvez consiga salvar o mundo.
Legal. Repito. Mas, caso eu encontre dificuldades, eu quero uma... Carta na manga. Tenho um plano, e para isso vou precisar de ajuda.
Imagino. Chuck murmura. O que quer que eu faça?
Para começo de conversa, mostre a verdadeira cor de seus olhos.
Chuck parece confuso, mas seus olhos ficam completamente negros. Balanço a cabeça.
A verdadeira cor de seus olhos. Repito.
Compreensão passa pelo rosto de Chuck. Os olhos clareiam, até ficarem completamente laranjas.
Desde quando você sabia disso? Chuck pergunta.
Uns meses atrás. Respondo. Década de 70?
Posso me divertir, certo? Chuck dá os ombros.
Reviro os olhos. Na década de 70, ouve uma série de ataques estranhos. Mulheres recém-casadas atacavam seus maridos num estilo Psicose, e os poucos sobreviventes relataram que os olhos das esposas brilhavam num tom laranja. Nosso pequeno amiguinho demoníaco aqui. Agora, o que eu descobri que nenhum Caçador sabe, é que ele é mais do que aparenta, graças a um texto que remota a época da Babilônia, a original, da Torre de Babel e tudo mais. Tive um trabalho desgraçado para traduzir, além de ter que evocar algumas dezenas de fantasmas.
Por que um demônio do seu calibre se diverte assim e fica na sombra, fazendo alguns pactos, possuindo algumas pessoas aleatórias, fazendo acordos com Caçadores... Você poderia ter me estripado com um estalar de dedos da primeira vez que te ameacei.
Chuck solta um suspiro e olha para o céu novamente.
Os humanos, os Caçadores especialmente, parecem pensar que todos os demônios querem a destruição da humanidade o tempo todo. Não é bem assim. Alguns de nós não são tão sádicos, apenas temos nossas manias. Eu observo a humanidade há milênios, sempre fui curioso sobre vocês, criaturas frágeis e tudo mais. Destruição total? Chuck balança a cabeça. Por tudo que vi, percebi que não vale à pena salvar a humanidade, mas também descobri que existem algumas pelas quais vale à pena lutar.
Ok, não é bem esse o discurso que eu esperava ouvir de um demônio.
Chuck me dá um olhar cortante.
Você sabe por que meus olhos são laranja, por que sou o único demônio com olhos laranja?
Dou os ombros.
Estavam com falta de lentes de contato?
É porque eu nunca morri. Nunca estive no Inferno antes de me tornar um demônio. Eu matei um demônio de olhos brancos, não me lembro o nome dele, mas mais poderoso até que Lilith. Foi quase acidental, mas acabei bebendo seu sangue. Chuck estremece. Você já bebeu sangue de demônio, mas possui sangue de Ceifeiros nas veias, um filtro natural. E nunca bebeu de um dos originais de Lúcifer. O poder que aquilo me deu... Destruiu minha alma. Me fez uma criatura única. Com o tempo, acabei me tornando completamente um demônio, mas eu era humano.
Tento encaixar as coisas que ele me disse. Muita coisa que eu não sabia, nem fazia ideia. Então é isso que acontece com um humano que bebe sangue sem estar preparado? Tipo, Sam tinha sangue nas veias, assim como eu, nós fomos criados para usar aditivos sobrenaturais. Mas um humano comum...
Não. Nem todos. Chuck fala, como se tivesse lido meus pensamentos. Vários já fizeram isso. Todos morreram. Eu fui o único a sobreviver. Não me pergunte por quê.
Assinto.
Bom, se é tão poderoso, pode me fazer esse favor?
Chuck assente, a expressão cuidadosa. Explico meu plano, tentando convencer a mim mesmo que não é maluquice. Não consigo, mas que seja. Chuck ouve tudo sem interromper.
Posso fazer. Ele responde finalmente, num tom neutro. Mas você deve saber o preço.
Sempre soube. Respondo com um sorriso fraco.
Chuck assente.
Então considere feito. Chuck me dá um meio sorriso, como se estivesse se desculpando. Vou deixá-lo sozinho agora.
Ele pula do trailer. Antes de entrar, olha para mim uma última vez, com preocupação no olhar.
E, cara, vê se volta vivo disso, ok?
Abro um sorriso.
Vou fazer o meu melhor.
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