Caçador

62 O inicio do fim


Notas iniciais
Título animado... Um aviso: eu já tinha planejado usar esse fim, sabe, então nos próximos capítulos, não pensem que eu estou acelerando de propósito para terminar logo. Era esse fim que eu queria usar desde que comecei a escrever. Aproveitem!

— Espero que você saiba o que está fazendo. — Megan fala.

Quase respondo “eu também”, mas não é hora para isso.

— Eu sei. Confie em mim. — Lhe dou um sorriso confiante. Megan assente distraída, olhando pela janela.

Os últimos dias foram... Longos. Cruzar metade do país não é brincadeira. E o que nos espera ainda me dá calafrios.

Sam e eu não contamos para os outros todos os nossos palpites. São assustadores demais, o bastante para desesperá-los. Eu próprio espero ardentemente que esteja errado.

Sam e Dean entraram em contato com Bob. Aparentemente ele vai pessoalmente com outro Caçador para uma das cidades. Eu consegui um velho contato, que quase me deixou surdo de tanto praguejar no telefone. O cara me odeia, mas me deve um favor, e é um ótimo Caçador. Jene e Joe estão indo para um lado, Sam e Dean para o outro... Então Eu e Megan estamos fazendo uma relaxante viajem para Thompsom tentar impedir o Apocalipse. Um dia normal de trabalho.

Dei a Winchester para Sam. Ele pode precisar, e eu tenho meus próprios truques. A marca em meu braço está coçando, como tem feito nos últimos dias, como se estivesse ansiosa por ser liberada. Não sei se foi por eu ter liberado-a brevemente para matar o demônio ou se é por antecipação ao que vamos enfrentar. Sendo sincero? Não quero saber.

Minha mente racional, toda a minha lógica e capacidade dedutiva me diz para seguir em frente, todas as minhas estratégias culminam nesse fim, mas... Por que meus instintos dizem que estou tão errado? Que estou abordando o problema errado de forma errada?

Repasso o plano, ou o que talvez seja um plano, embora seja meio desesperado, refletindo. Todas as variáveis, todas as possibilidades... Tenho certeza que não há nenhum erro. Tudo aponta na direção que devo seguir, mas a sensação inquietante não me abandona.

Balanço a cabeça e aumento o volume do rádio. Carry On Wayward Son. Profético e irônico.

Relaxo no banco, afastando as preocupações. O que tiver de ser, será. Eu vou apenas fazer o que sempre faço. Seguir em frente, nunca hesitar, nunca recuar. Apenas vencer essa guerra.

Faltam duas horas para chegarmos em Thompsom. A região é mais fria do que eu gostaria, mas não há nada que se possa fazer. Pego um desvio em direção a uma pequena montanha que vejo quinze quilômetros ao oeste da cidade.

Não faço ideia por que fiz isso, mas tenho certeza que está certo. Dou os ombros. Não é a primeira vez que me dou bem chutando o caminho que preciso seguir.

Paro o Dodge em frente à entrada de uma caverna. Cercado por árvores altas, com cascalho no chão, fico olhando para a caverna. Meus sentidos estão vibrando como loucos, me dizendo que é ali. Megan está com uma expressão séria, observando a caverna.

— Chegou a hora. — Sua voz é inexpressiva.

Tento manter meu tom leve e despreocupado.

— Vamos vencer. Sempre vencemos, não é? Só precisamos para o Apocalipse, sem problemas.

Megan sorri e se estica para me beijar.

— Ótimo — ela fala quando se afasta. — Mas depois disso, eu quero umas férias. Para começar, um jantar de verdade em algum restaurante decente. Depois, um mês curtindo seus cartões de crédito falsificados, com nossa única preocupação sendo o que comer na próxima refeição.

— Entendido, milady. — Respondo, batendo uma continência. — Tudo vai dar certo, eu prometo.

Ela assente, satisfeita, e abre a porta do carro. Tomara que eu esteja certo.

Saio do carro e vou até o porta-malas. Observo meu não tão pequeno arsenal, pensando no que pegar. Lança granadas? Chamativo demais. Bazuca? Incomodo demais. AK-47? Minha favorita quando preciso de poder de fogo e velocidade, mas não sei se será muito útil.

Por fim me contento com o habitual. Uma escopeta carregada com balas de ferro, um Colt M1911 e meu bom e velho punhal.

Megan pega duas pistolas e um facão de ferro. Testa a lâmina, antes de assentir e embainhar. Vasculha o porta-malas até puxar uma arma de lá.

Ergo uma sobrancelha ao ver a sniper. Ela engatilha e olha pela lente da mira.

— O que quer com um rifle de precisão? — Pergunto cético para ela. — Acertar os inimigos a quinhentos metros?

Dou uma olhada melhor na arma. Comprei ela logo depois que comecei a caçar. Não usei muito. Munição subsônica, calibre .223, disparos certeiros... Esquece os quinhentos metros. Essa belezinha atira mais longe.

Entramos na caverna. Eu na frente, com a lanterna e a escopeta engatilhada, preparada para acertar qualquer coisa.

A caverna se revela um túnel escavado na rocha pura. Depois de quinhentos metros seguindo reto, ele começa a descer.

Andamos até perder a noção de distancia. Tudo que sei é que descemos cada vez mais, curva após curva, volta após volta. Depois de cerca de uma hora, sinto uma coceira na nuca. Desligo a lanterna. Estamos perto.

Seguimos mais lentamente, no escuro, tentando fazer silêncio. Depois de mais duzentos metros e duas curvas, uma luminosidade avermelhada começa a se infiltrar, permitindo que, lentamente, possamos enxergar novamente.

Mais alguns metros e a claridade está em seu máximo. Tenho certeza absoluta que, seja o que quer que estejamos procurando, está após a próxima curva. Ergo uma mão, fazendo sinal para Megan parar. Não sei como a luz conseguiu ir tão longe, mas isso não me interessa no momento.

Olho para Megan. Ela assente lentamente, a expressão dura e concentrada. Não fazemos ideia do que vai estar do outro lado, e esse talvez seja o principal furo da estratégia. Conheça seu inimigo melhor do que ele te conhece, sempre foi um dos princípios desse trabalho. Mas dessa vez estamos improvisando totalmente, mais do que estou acostumado. Eu sempre improviso, mas dessa vez não tenho a menor ideia do que estou enfrentando. Sei o que planejam, e tenho uma ideia vaga de quem está comandando, mas fora isso...

Respiro fundo e puxo Megan para um último beijo. Ela se surpreende, mas devolve o beijo com vontade. Ficamos assim por alguns segundos, e tenho vontade de estender esse tempo, esquecer essa merda de vida, mas não posso. Precisamos parar o Apocalipse. Ser Caçador é uma merda, mas eu escolhi isso. Fora que não consigo me imaginar simplesmente indo para a faculdade e acordando todo dia no mesmo lugar.

Me afasto e aceno uma vez com a cabeça. Megan concorda e engatilha a sniper. Faço o mesmo. O estalo da escopeta em minhas mãos lança uma onda de tranquilidade, o ruído familiar que me tranquiliza.

— Entrando lá, primeira regra de combate. — Eu sussurro para Megan. Ela assente.

— Atirar primeiro e não perguntar. — Ela responde.

— Essa é minha garota.

Respiro fundo uma última vez, e avanço. Faço a curva e entro correndo no aposento iluminado, apontando a escopeta para todo lado, pronto para disparar.

Está vazio.

Uma caverna ampla, com quatro colunas de pedra nos cantos, com tochas penduras. Um altar ocupa o centro da sala, com um pentagrama de bronze incrustado em cima, envolto por um circulo e com alguns símbolos marcados. Parece uma armadilha do diabo, só que muito mais antiga. Uma vela está acesa em cada ponta do pentagrama.

Com isso, o último item do mobiliário é uma espécie de trono de pedra no fundo da caverna.

— Vazia? — Megan pergunta incrédula, baixando o rifle e girando no mesmo lugar. — Eu esperava um mini-exército ou coisa parecida. Isso está fácil demais.

Sou obrigado a concordar com ela. Ando até o altar, sem baixar a guarda, examinando todos os cantos da caverna, preparado para tudo. Meus sentidos estão quase explodindo, me dizendo que não estamos sozinhos, mas não consigo detectar nada. Apenas uma sensação estranha.

Toco no pentagrama. Parece exatamente o que é: um pedaço de bronze antigo, aquecido pelas velas. Não sinto nenhuma energia mágica vindo dele, nada. É quase impossível acreditar que ele é uma das chaves para conectar todos os mundos.

— Não fique surpreso. — Uma voz ecoa vinda de uma das colunas. — Isso é apenas um adorno.

Antes que eu possa mesmo pensar, já apontei a escopeta e disparei duas vezes na direção da voz. Fico surpreso com a velocidade dos meus reflexos. Observo o que eu atingi.

Um dos disparos atingiu a coluna, mas o outro acertou um homem, que olha desinteressado para o peito sangrando. Os tiros não parecem tê-lo ferido muito. Usa roupas comuns, altura mediana e cerca de cinquenta anos. Talvez devesse maneirar um pouco no garfo e fazer alguns exercícios. O cabelo é de um castanho seboso e sujo. Demônio, consigo perceber só de olhar. E sua pele está coberta por feridas vermelhas.

— Não precisava ser tão violento. — Ele comenta, sem se preocupar com os ferimentos.

Megan entra em ação, disparando. Consegue dar cinco tiros. Dois no peito, um em cada perna, e um tiro acerta o homem bem no meio da testa. Então ele balança a mão. O rifle escapa das mãos de Megan, indo se grudar no teto, oito metros acima.

— Nem pense nisso. — Ele aponta para minha escopeta. — Eu posso fazer o mesmo com você.

Coberto de sangue e com mais furos no corpo, ficou ainda mais feio. Mas não parece abalado, como se tivesse recebido apenas picadas de agulha. Uma suspeita se abate sobre mim, mas é impossível.

— Quem é você?

A pergunta paira por um minuto, antes de ele responder.

— Eu sou Lúcifer.