Caçador

29 O espírito chifrado


Notas iniciais
Não difícil adivinhar o que é pelo título, né? Não sou muito bom em manter o suspense sobre quem é o inimigo.

Tento segurar as gargalhadas, mas não consigo. Megan também ri junto comigo. Pode parecer meio exagerado, mas depois do nosso ultimo caso, não dá pra ficar sério olhando Noite dos Mortos-Vivos. Toda vez que aparece um zumbi tentando matar alguém, não podemos evitar cair na risada.

Foi Megan que escolheu o filme, e foi meio irônico. Uma maratona de Noite dos Mortos-Vivos. Mas não reclamo. Estar com ela é bom, e desde que nossa vida parece um filme de terror todos eles perderam o poder de assustar e viraram comédias.

Quando finalmente terminamos o último, já são umas cinco da madrugada. Tivemos alguém trabalho para conseguir se hospedar em Forks. É uma cidade que têm mais tráfego de montanhistas do que de turistas, se bem que depois de Crepúsculo de vez em quando turistas aparecem por ali. Mas uma coisa a autora acertou quando escreveu: Todo mundo conhece todo mundo. Imagino que não vamos ter trabalho em achar parentes e conhecidos da vitima, e algumas fofocas.

Puxo meu notebook. Temos tempo ainda. Podemos dormir de dia. E a internet daqui é uma porcaria, mas de madrugada fica razoável. Passo por alguns sites de noticia procurando tudo que poder arranjar. Infelizmente, é muita pouca coisa. Vou ter que depender do xerife para nos dar as informações.

Megan se aproxima e me dá um beijo. Retribuo, então ela recua com um sorriso malicioso.

— Nunca para de trabalhar não? Vai dizer que achei um namorado intelectual? — Seu tom é fingidamente sofrido.

Ponho a mão em cima do coração, como se tivesse levado um golpe e falo numa voz magoada:

— Isso que recebo em troca dos meus esforços?

Megan ri e me beija de novo.

Dessa vez sou eu que recuo, com um sorriso no rosto.

— Quer que eu busque uma camisinha? — Pergunto, com um sorriso malicioso. Megan atira um travesseiro em mim, mas não parece brava ou ofendida. Interessante. — Vamos tentar dormir um pouco. Temos que sair o mais cedo possível amanhã.

— Tipo duas da tarde? — Megan pergunta inocentemente. Dessa vez é eu que atiro um travesseiro nela.

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Paro o Dodge na frente da pequena delegacia da cidade. Vejo dois garotos que parecem ser da reserva de La Push ficam olhando boquiabertos para o Dodge. Quil e Embry, penso brincando.

Então suas bocas se abrem ainda mais ao ver Megan. O sorriso atrevido some dos meus lábios, substituído por uma carranca. Me inclino e sussurro para Megan:

— Não olhe agora, mas acho que aconteceram dois Imprinting.

Megan segue o meu olhar e reprime um sorriso.

Existem lobisomens nos Quileutes ou é só exagero da autora?

Fico em silêncio até chegarmos na entrada da delegacia.

— Um pequeno grupo de Skinwalker, mas foram extintos alguns anos atrás por Caçadores. Um dos Caçadores continua por aqui, por gostar do local mesmo. Construiu família, o que é perigoso para nós. — Dou os ombros. — A história da purpurina ainda é exagero. Nunca houve nenhum ninho por aqui, até onde sei.

Megan ri. Abro a porta e entro. Lá dentro, é uma típica delegacia de cidade pequena. Um espaço quadrado, com duas mesinhas e um quadro de camurça para colocar recortes de jornais e fotos de criminosos. Ele está limpo. Uma das mesas também está vazia, mas a outra está ocupada. Cheia de papeis, uma garrafa de cerveja pela metade, um pouco de tabaco e um copo de café já frio.

O homem atrás dela faz pouco contraste com isso. Já passando dos cinquenta, com os cabelos brancos já rareando. O rosto duro e marcado pelas rugas, os olhos cinzentos indecifráveis. Usa uma farda de xerife que cobre a barriga de cerveja ainda pequena. Talvez, no passado, tenha tido uma condição física de atleta, mas isso foi antigamente. Tipo, nos tempos da TV preto e branco.

— Xerife Swan? — Pergunto.

O homem atrás da mesa ergue a cabeça rapidamente, então reconhecimento cintila em seus olhos quando se levanta, colocando uma carranca no rosto.

— O próximo que me chamar disso vai preso, é sério.

Solto uma risada bem humorada. A carranca dele se desfaz.

— Vamos lá seu velho rabugento, desde quando alguém conseguiu me prender? E desde quando você pode beber em serviço?

— Ora, seu moleque, e desde quando pode me julgar, viciado em Coca-Cola? — Ele vem até mim e me dá um abraço um tanto bruto. Cara, já estava com saudades desse velho. Então ele se afasta e examina Megan. — Ela é...?

— Megan Hunter. — Megan se apresenta. Sempre ri da ironia do seu sobrenome ser tão condizente com a profissão.

Pego a mão dela antes de acrescentar.

— Minha namorada e parceira de Caçada.

Ele ergue uma sobrancelha.

— Namorada? Bom, meu nome é John. John Walker. — Ele volta para a mesa e acena para nós nos sentarmos. — Então, o que é a visita? Pelo que me lembro, nunca faz visitas de cortesia. É o caso de Seattle? A coisa está bem feia lá, FBI e CIA em peso.

Aceno que não com a cabeça.

— Nops. Na verdade, já resolvemos aquilo. Alguns zumbis, vampiros e lobisomens. Mas posso te explicar isso depois. Sim, é um caso. — Me interrompo e me viro para Megan. — Acho que estou começando pela metade. Esse velhote aqui é quem cuidou dos cachorrinhos em La Push. Me ensinou 30% do que eu sei, e meio que me criou quando meus pais morreram. Foi ele que me ensinou o que é o sobrenatural, mas não posso dizer “tudo o que eu sei”, pois sei bem mais do que ele.

John faz uma careta.

— Humilde como sempre. E então, o que é o caso?

Dou os ombros.

— Sabe aquele garoto que sumiu... Charlie Stark? Ele. Pelo que sei, sumiram mais dois do mesmo jeito. Sumiram no meio da estrada, mas o carro ficou.

John parece surpreso.

— Aquilo? Um dos nossos casos? Nem pensei nisso. — John abre uma gaveta e pega alguns papéis. — Tenho a ocorrência. Estão como desaparecidos. Se quiser examinar o perfil e falar com a família, a vontade. Nem vou oferecer ajuda nisso, você sabe fazer muito bem.

Ele me entrega três fichas. Passo o olhar por elas.

— Três garotos. Um de dezesseis, um de dezoito e um de vinte e um. Todos namorando, e sumiram no meio da estrada de noite. Na mesma estrada. Tirando isso, nada em comum. A não ser estudar no mesmo colégio e serem amigos, pelo que suponho, mas numa cidade dessas isso não é nem um pouco incomum. E o de vinte e um se formou ano passado. — Ergo os olhos. — Vou falar mesmo com a família, mas... Isso é meio óbvio. Mulher de Branco.

John dá os ombros.

— É com você. Pode usar os arquivos da policia a vontade. Sabe a senha melhor do que eu. Se precisar ajuda para queimar os ossos, é só pedir.

Aceno que sim e faço sinal para Megan vir junto. Saio da delegacia, ficando feliz ao notar que os dois garotos sumiram. Entro no Dodge e dou partida quando Megan se ajeita.

— Se fossem acidentes, não me surpreenderia. O local é bem perigoso. Mas como são sumiços... Imagino que a mulher se matou ou coisa parecida lá.

Megan pega as fichas e começa a ler. Depois de alguns instantes me pergunta:

— O que é mesmo a lenda da Mulher de Branco? São tantas, que não decorei todas. Qual é essa?

Olho para ela, para ter certeza que não está me zoando. Pelo olhar franco, não está. Volto a prestar atenção na estrada.

— Uma mulher traída, e se mata por causa da traição. Todas as lendas concordam nisso. Algumas dizem que matou os filhos também. Sabe, episódio piloto de Sobrenatural? Elas assombram o lugar onde morreram, pedindo carona no meio da estrada e tentando seduzir os que param o carro. Então matam-nos por serem infiéis.

Megan enruga a testa.

— É, vai ser meio complicado. Quer falar com a família das vitimas?

Aceno concordando.

— Para ter certeza. Depois vou tentar descobrir quem foi a mulher.

A primeira casa é perto do litoral. A família da vitima mais recente, o garoto de dezesseis, Charlie. Eles estão, pelo que posso ver, velando o corpo em casa. Merda. Detesto quando isso acontece. Se bem que se torna mais fácil fazer o pessoal falar. Fuço no porta-luvas do Dodge até achar a identidade que queria. A vantagem de ser alto é que posso fingir ser mais velho do que sou sem muitos problemas.

Me lembro de repente que eles não tem corpo para velar. Hummm... Isso pode ser útil. Vão me contar o que for que eu pedir se der esperanças de trazer seu filho de volta. Infelizmente, não posso. O cara já deve estar fedendo a essa hora. Mas vou conseguir algumas informações, ainda mais se tiver vizinhos solidários e a família em volta. Talvez se eu achar as famílias do outros sumidos ali dentro...

Saio do Dodge e armo uma cara profissional e séria. Megan me segue.

O único problema que temos nesses casos normalmente é que minhas roupas de bandas de rock não ajudam muito. Mas detesto ternos, e isso pode ser contornado. Toco a campainha.

Uma mulher de meia-idade atende a porta. O cabelo castanho está começando a ficar grisalho, e tem estatura baixa. Pela expressão de luto antecipado, posso adivinhar que é a mãe da criatura que não se agüenta ao ver uma mulher na beira da estrada pedindo carona.

— Pois não? — Ela pergunta, coma a voz firme. Mesmo assim, consigo notar o sofrimento no fundo de sua voz. Fico com pena. Para as pessoas normais, é muito azar cruzar com o sobrenatural. É para isso que servimos. Evitar que a vida dessas pessoas seja despedaçada pelo sobrenatural. Infelizmente nós, Caçadores, ainda somos poucos para antecipar o sobrenatural. Tudo que podemos fazer é remendar as coisas depois que acontecem.

— Sou o agente Fox. Essa é minha parceira, Lara. — Mostro o distintivo, Megan faz o mesmo. A mulher olha de um para o outro, um pouco assustada e um pouco confusa. Suavizo a voz. — Viemos pelo Charlie. Imagino que seja seu filho?

Ela acena com a cabeça, sem forças para responder.

— Bom, senhora Stark, temos algumas pistas do possível paradeiro dele, mas gostaríamos de falar com a senhora para poder restringir mais o local das buscas. Se importa se entrarmos e lhe fizermos umas perguntas? Não quero incomodar.

— Não é incomodo... Vocês sabem onde Charlie pode estar? — Ela se afasta da porta perguntando. Entro, com Megan me seguindo. Noto com um rápido relance que a sala está cheia, com a maioria das pessoas curiosas. Associo as pessoas ao que sei. O homem perto da janela corresponde a descrição do pai, e a garota chorando no sofá com as mãos no rosto e sendo consolada por duas mulheres é a namorada. As mulheres, uma é a tia de Charlie e a outra a mãe da garota. O menino de nove anos perto da escada deve ser seu irmão. Desvio o olhar e sigo a senhora Stark até a cozinha.

— Sentem-se, por favor. Aceitam uma bebida? — Ela pergunta, nos indicando as cadeiras.

Acenamos que não, então ela se senta com o olhar vazio. Ela cruza as mãos no colo, como se não soubesse o que fazer com elas. Ignoro isso e vou direto ao ponto, sem deixar de me surpreender com o fato de não ter nos achado jovens. É sério, pode parecer frio, mas agradeço por ela não começar o papinho “tão jovens, assim como o meu pobre Charlie” e etc. Já ouvi isso vezes o bastante para uma vida inteira.

— O seu filho... Ele desapareceu perto da curva da estrada, como deve saber. É perto o bastante da floresta para nós termos mobilizado a guarda-florestal, mas... Queremos saber algumas coisas. Peço para que responda todas as perguntas com sinceridade, por mais estranhas que possam parecer. São cruciais para a vida de seu filho. — Ela acena levemente com a cabeça, parecendo ter que controlar o choro. É hoje... — O seu filho estava agindo de modo estranho antes de desaparecer? Falou algo que possa parecer estranho, como alguma sensação ou ver algo diferente?

— Não... Ele estava normal. Você acha que podem ser drogas? Ele...

— Não, nada disso. Creio que seu filho não era viciado em nenhuma droga, mas meu trabalho é cogitar todas as hipóteses para poder eliminar as improváveis, e me concentrar nas prováveis. — Faço uma pausa. — Próxima pergunta: Como estava o namoro dele? Falou alguma vez de terminar com a... Jene? — Quando ela balança a cabeça, eu continuo. — Ele andava naquela estrada com frequência? — Ela assente. Ótimo, diminui as chances de acidente. — E... Onde estava indo naquela hora?

— Visitar a Jene... Era o aniversário de namoro deles. Ele... Saiu tão contente daqui e... — Ela se interrompe, com a voz pesada. Parece tudo que vai conseguir falar antes de cair no choro, e de qualquer modo é suficiente. A namorada me interessa mais.

— Muito bem, deixarei você agora. Já me ajudou muito. Vamos conseguir encontrar seu filho, acredite em mim. — Me levanto. — Apenas quero falar com Jene antes de ir embora. Imagino que seja a garota na sala?

A senhora Stark assente. Faço um gesto para Megan e sussurro no ouvido dela.

— Você é melhor para cuidar disso do que eu. Ela vai estar mais sujeita à uma garota.

— Sim, eu sou a mestra da persuasão. — Megan retruca, mas vai fazer o que pedi. É verdade, sou melhor nisso que ela.

Megan se aproxima da garota e se apresenta, então se abaixa para ficar na mesma altura que ela, sentada no sofá. Elas trocam algumas palavras que não consigo ouvir, e então a garota se levanta e nos segue Megan até onde estou, parado na porta. Dou um passo e saio para a rua, preferindo ficar do lado de fora.

Fico um pouco surpreso com a garota, vou admitir. Uma perfeita rebelde, por assim se dizer. Botas de couro e calças legging pretas, camiseta do Black Sabbath e jaqueta de couro. Brincos de caveira e uma mecha vermelha no cabelo preto. Uma pulseira de prata com um pingente que parece incrivelmente com uma presa de vampiro. E um pentagrama no pescoço pendurado em uma corrente. Consigo ver na dobra do pulso dela uma tatuagem que tenho certeza que complementa um jogo de chamas negras que vão até o ombro. Sabe, igual a marca do selo amaldiçoado do Sasuke que aparece em Naruto. Não sei outra explicação para dar, e sou sim um Otaku. Bom, são chamas totalmente negras indo desde as costas da mão esquerda ato o ombro respectivo.

Agora vocês perguntam como eu sei tantos detalhes se só vejo o começo dela no pulso.

Simples. Tenho uma igual no braço direito. E o significado dela é algo que é direto apenas para Caçadores. E só alguns de nós a tem. Muito poucos, na verdade. Olhando para ela, e reconhecendo os olhos cinzentos, faço uma associação que não fiz antes. Ela é a filha do John. Oh merda, isso vai piorar. Explica um pouco por que John não se interessou pelo caso. Ele mantém o sobrenatural o mais longe possível da família.

Praguejo baixinho, mas ela não nota nada. Megan sim, mas ela me conhece muito bem.

— Sou Fox, como Lara deve ter lhe falado. Estamos aqui por Charlie.

Jene assente. Por mais que estivesse chorando antes, ela está mais calma que a mãe do garoto. Percebo que ela é muito forte, mais forte que John, eu diria. Isso vai ser interessante.

— Só quero confirmar... Charlie estava indo lhe visitar, certo?

— Sim, tinha me ligado. Depois disso, não soubemos mais nada dele.

— Posso ver a hora da chamada?

Jene me estende o celular. Olho no identificador de chamadas, decorando a hora. Pela hora em que acharam o carro, e pela hora que saiu de casa, velocidade média e esse tipo de coisa, presumo que se tiver achado a Mulher de Branco quinze minutos depois da ligação, ele esteve com ela meia hora no carro. Tempo mais que suficiente para uma rapidinha e para ela sumir com ele.

Entrego o celular pensativo. Cada vez mais parece que era uma Mulher de Branco.

— Como andava o namoro de vocês? — Pergunto genuinamente curioso, não apenas querendo saber para o caso. Embora ela não saiba, é quase uma irmã de criação. E deve ter mais ou menos a minha idade, uns dezessete anos. Lembro vagamente que John nunca me apresentou sua filha ou esposa, por causa do que eu sou.

Jene sorri duramente, sem humor nenhum.

— Provavelmente teríamos terminado em uma semana, se ele não tivesse sumido.

Faço uma careta.

— Por? Se não for me intrometer demais.

— O cara era meio galinha, por assim se dizer. Eu gostava dele, mas... Metade das minhas amigas conheciam ele melhor que eu. Ia dar um pé na bunda dele. Parece que exagerei no desejar que ele sumisse.

É, parece que é realmente uma Mulher de Branco. Só falta descobrir quem, e queimar o corpo. Nem vou me dar o trabalho de falar com a família das outras vitimas. Comparado com o último, esse caso está fácil.

Dá azar dizer isso né? To sabendo.

Notas finais
Capítulo mais comprido até agora. To perdendo a mania de fazer os curtinhos.