Caçador
3 Megan tem uma visão
Notas iniciais
O sol está começando a nascer apenas, mas já estou de pé. Cinco horas de sono podem parecer pouco, mas para mim foram quase o suficiente.
Assim que começou a clarear, pulei da cama de armar no quarto de Megan. Ela se remexeu um pouco em sua cama, mas não acordou. Saí de fininho, peguei umas Cocas na geladeira, e fui para a oficina/garagem.
Quando estou saindo, olho de relance para um espelho pendurado num canto. Um garoto de uns 17 anos olha de volta, pálido, meio magrelo. Mas com músculos bem fortes. Não o tipo “olha para meus bíceps de 30 centímetros”, mas do tipo de músculos mais normais. Roupas totalmente pretas. Um metro e oitenta.
Sem dar bola para meu reflexo, saio pela porta.
Levei o Dodge até a oficina, e estacionei em um lugar que ficasse fácil de sair rapidamente. Nunca se sabe quando vai precisar de uma fuga rápida.
Dou uma olhada em volta. O mesmo de sempre. O chão de terra batida de uns 10 metros por 10, paredes de zinco reforçado, teto alto com vigas e cabos de aço para suspensão. Em paredes e caixas ao redor estão várias ferramentas. Peças e carcaças de carros estão espalhadas por todo o lugar. A bagunça de sempre.
Abro o porta-malas e começo a tirar as armas. Duas pistolas semi-automáticas com cartuchos de 24 balas, facas de arremesso, estacas de metal e madeira, um facão de prata e um de ferro puro, duas caixas de sal com 5kg cada, um galão com água benta e três frascos vazios, uma espingarda, uma escopeta de cano serrado, um rifle, um Colt .45, um arco e duas aljavas de flechas e, é claro, munição para tudo isso. Balas de ferro, prata, normais e de sal. Balas com água benta e Sangue do Morto. Um pouco de tudo.
Depois de tirar tudo, começo a limpar as armas e verificar se tudo está ok. O facão de caça de ferro está um pouco sem fio, de quando decapitei um Vampiro e a lâmina acertou uma parede. Começo a afiá-lo.
Depois de umas duas horas, começo a ouvir movimentos na loja. Quinze minutos depois Megan aparece. Ela me entrega um papel, em silêncio. Pego e abro o papel dobrado. Dentro, em letras garrafais bem grandes, está escrito:
Você me deve R$25,00 pelas 6 Cocas
Suspiro, amasso o papel e jogo por cima do ombro.
— Nem vem. Você sabe que esse trabalho paga mal. Muito mal.
— Como se você não tivesse grana. — Ela responde, se sentando ao meu lado no chão. — Tenho que manter isso aqui funcionando, sabia? É bem difícil conseguir mantimentos.
Bufo e continuo limpando o cano do rifle.
— Então, você não me contou tudo do caso do poltergeist. — Megan estimula, pegando uma das facas e brincando com ela.
— Nada de mais. Achei a casa. Sabe, coisas normais. Barulhos estranhos, coisas se movendo sem ninguém tocar, luzes piscando... Era um espírito que morreu na casa. Fui até o cemitério e queimei os ossos. Simples.
Engatilho o rifle com um estalo, e largo-o ao lado, pegando uma das pistolas.
— Espírito que morreu? Um poltergeist? Achei que...
— Sim, é raro um fantasma se tornar poltergeist, mas existem casos. Esse, por exemplo, não vai mais incomodar.
Megan acena com a cabeça, e começa a desenhar no chão com a faca. Quando termino com o resto das armas, e começo a guardar, olho de relance o desenho que ela estava fazendo. Então volto um passo e olho de novo.
Um grande desenho, do que parece ser uma cidade. Uma visão que você teria da rua principal. Alguns prédios, um cemitério ao longe com a torre de uma igreja. Uma delegacia, e bem em frente ao que seria o observador da cena, um homem ocupa o centro do desenho.
Uns 40 anos, roupas casuais. Não parece muito forte, mas está em uma postura confiante. Um sorriso zombeteiro no rosto, e os olhos com pupilas fendidas como as de um gato. A riqueza em detalhes me surpreende.
— Como você fez isso? – Pergunto para Megan, largando a caixa de munições que estava carregando e me sentando ao seu lado.
— Isso o que? — Ela pergunta, como se estivesse saindo de um transe. Então olha para baixo e fica surpresa. — Mas o que...
Ela olha para o desenho, como se nunca tivesse visto antes. Abro a boca para perguntar algo, quando o som de pneus e motor soam da frente da loja. Nos entreolhamos, e vamos para lá.
Pego uma das pistolas e atiro a outra para Megan. Junto uma das facas e coloco no cinto. Corremos, passando pelo lado da garagem.
Na frente da loja, está parado um jipe de off-road enorme, com o motor ligado. A porta do motorista se abre, e Joe pula de lá. Ele olha em volta, nos vê, então corre na nossa direção. Guardo a arma no cós do jeans antes que ele veja. Megan também esconde a arma.
— O que foi? — Pergunto, notando que ele está visivelmente abalado.
Joe para por um instante, para recuperar o fôlego, então ergue os olhos para mim.
— Problemas. Achei que gostaria de saber. E também preciso de ajuda.
Nós o guiamos até o lado de dentro, e Megan lhe entrega uma garrafa de cerveja. Ele toma um gole agradecido.
Fico avaliando sua aparência enquanto espero ele contar os problemas, tentando ver se está machucado. Nada de mais. As mesmas roupas surradas de sempre, boné inseparável. Joe é um afro-americano de 25 anos, e um dos únicos Caçadores que tenho contato. Ou que tem contato comigo, melhor dizendo.
— Então, o que é? — Pergunto, quando ele esvazia metade da garrafa.
— Quer a Noticia 1 ou a Noticia 2? — Ele pergunta, me olhando.
— Dois. — Respondo.
— Muito bem. — Ele toma outro gole. — Minha última Caçada foi atrás de um Wendigo. O problema é bem simples e bem ruim. Era mais de um Wendigo. Achei três na toca do que eu estava procurando. Consegui matar um, mas os outros dois estão me Caçando. E estão perto daqui. Estava torcendo para achar alguém por aqui, e parece que achei uma boa ajuda.
Ele olha sugestivamente para mim, que resmungo. Ele está certo, tenho experiência com Wendigos. Uma das primeiras criaturas que Cacei foi um.
— Espere um momento. Três Wendigos na mesma toca? Se eles se transformam por canibalismo, normalmente o último sobrevivente se transforma. Como de repente aparecem três? — Megan pergunta.
— Não sei. — Joe responde, dando os ombros. — Podem apenas ter se encontrado e começado a caçar juntos. Mas uma coisa é certa, vou precisar de ajuda para cuidar deles.
Megan abre a boca para falar algo, mas um bip nos interrompe. Olho para seu notebook e vejo uma luz vermelha piscando. Megan fica pálida e tira o descanso de tela. Uma janela se abre, com um pequeno vídeo.
— Acabaram de chegar. — Ela diz. — Quinhentos metros. Vejam.
Megan sai da frente e nos mostra o vídeo. Dois borrões aparecem na tela, como um risco. Ela diminui a velocidade e passa de novo, em câmera lenta. Os mesmos borrões, mas reconheço a forma.
— Dois Wendigos. — Concordo com Joe.
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