Caçador
10 Matamos um defunto
Notas iniciais
— Abaixa! — Ouço Megan gritar. Acho melhor aceitar. Me abaixo bem em tempo de desviar do tiro de espingarda.
Olho para trás e vejo que ela acertou o zumbi bem na testa. Ele apenas cambaleia alguns passos para trás. Põe a mão no rosto e fica olhando o sangue. O buraco se fecha, o que significa que não o matamos, de novo.
— Vocês me deram um tiro? — Ele exclama, meio surpreso meio indignado. Aparente ser um homem de uns 40 anos, tirando o fato de ser pálido como um cadáver (má piada) e não ter pulsação.
— E o que esperava? Flores? — Pergunto, engatilhando a minha espingarda, carregada com balas de prata assim como a de Megan. — Vocês não me parecem muito amigáveis. — Falo displicentemente enquanto atiro para o lado estourando a perna de um zumbi, uma mulher de meia idade.
— Eles apenas querem falar com você, nos mandaram aqui. — Fala o que parece ser o líder deles, um homem com cabelos grisalhos que parece um executivo. Ele ergue as mãos mostrando as palmas, como quem pede calma.
Olho em volta. Megan e eu estamos de costas um para o outro, com as armas apontadas e prontas para disparar. Quando resolvi vir nesse beco espionar, não esperava uma legião de zumbis para nos dar oi. E agora tenho de lidar com 10 mortos-vivos chiliquentos.
— Eles quem? — Megan pergunta, sem tirar os olhos dos zumbis que se aproximam.
O líder parece notar isso, e ergue uma mão. Todos eles param imediatamente.
— Isso ajuda? Talvez pudessem baixar as armas... — Ele nos olha esperançosamente. Quando vê que não vamos fazer, dá os ombros e fala. — Nossos mestres. Eles nos trouxeram de volta da morte. O mínimo que podemos fazer por eles é ajudá-los no que precisarem.
Ele parece o mais normal entre os zumbis, mas mesmo assim sua voz é apática e o olhar vazio. Só lembranças. Nada de alma.
Abaixo levemente a espingarda e pergunto:
— Onde ele mandou nos levar?
— Temos ordens de não revelar isto. Se você aceitar, podemos levá-los lá.
Suspiro e me resigno. Não vai ter jeito.
— Bom, já que pediram com carinho... — Dou um passo para frente, ignorando o olhar alarmado de Megan e paro na frente do líder.
— Vai conosco em paz? — Ele indaga, com a voz monótona.
Como resposta, ergo a arma e disparo a queima-roupa em sua cara. O disparo faz ele recuar vários passos, até ficar com as costas contra a parede.
— Não. — Respondo secamente.
Uso o cabo da espingarda para empurrar um zumbi que investiu em minha direção. Então recarrego a arma e disparo mais duas vezes no líder, estourando as duas pernas. Isso deve fazê-lo ficar quieto por enquanto.
Seguro a arma pelo cano e uso como um bastão, literalmente arrancando fora a cabeça do adversário mais perto. Ela vai voando numa pontaria certeira, e cai dentro de uma lixeira. O corpo cai mole no chão. Isso só vai atrasar, mas pelo menos fica fácil de queimar depois.
Saco um facão com lâmina de prata e olho em volta.
Megan não ficou parada enquanto eu lutava. Atirou mais algumas vezes, sendo que o mais espetacular foi colocar o cano duplo na espingarda dentro da boca de uma zumbi e disparar duas vezes em sequência. Destroçou a cabeça. Então partiu pro corpo a corpo, quebrando as duas pernas de outro zumbi.
Deixamos os cinco zumbis momentaneamente inutilizados no chão, e vamos em direção ao restante do grupo. Alheios a qualquer emoção, partem na nossa direção, tentando cumprir as ordens. Tento me tranquilizar pensando que provavelmente não vou nos matar, pois suas ordens são apenas de nos levar até o local vivos. Mas uma vozinha me lembra de que eles provavelmente não vão conseguir “pegar leve”, já que já estão mortos. Não deve fazer muita diferença para eles.
Corto o primeiro do ombro esquerdo ao quadril direito. Ele ainda tenta me pegar com a mão direita, mas chuto seu tórax derrubando ele. Então decepo a cabeça e chuto para longe. A lâmina de prata atravessa tendões, pele e ossos como se não tivessem consistência.
Um morto-vivo tenta me pegar enquanto estou distraído, mas Megan estoca ele com a ponta do facão, acertando o peito. Com um movimento, separa ele em dois, nos dando algum tempo.
Retribuo o favor despachando um zumbi que tenta pegar Megan pelos cabelos. Mas assim que arranco a cabeça, um deles põe a mão no meu ombro. Antes que possa fazer qualquer coisa, ele me segura num abraço gelado e me puxa para trás. O facão está frouxo na mão, sem chances de golpear. Então dou uma cotovela com toda força, que o atinge nas costelas. Ele mal recua.
Piso no seu pé, mas faz tanto efeito quando. Bom, hora de improvisar.
Respiro fundo, estufando o peito. Então, num movimento rápido, solto o ar e me abaixo ágil como uma cobra.
Despreparado para o súbito movimento, e com mais o fato de meu peito encolher ao soltar o ar, o zumbi afrouxa um pouco o aperto, o que me permite escapar. Antes que ele possa fazer algo, dou um chute para trás que acerta sua perna, quebrando. Mas foi como chutar concreto.
Sem me deixar abater, uso o facão para cortar fora a outra perna dele. Desmembrando-o cuidadosamente, e por último decepo a cabeça. Então me viro para descobrir por que o outro não atacou, e por que Megan não ajudou.
Me deparo com uma cena que tira todo o ar dos meus pulmões e sinto meu próprio sangue congelar nas veias.
Megan está jogada no chão, o facão largado no chão à vários metros dela.
E em cima dela está o zumbi que faltava.
Ele está segurando as mãos de Megan juntas, acima da cabeça, onde não podem incomodar. A perna esquerda está apoiada no chão, e a direta com o joelho em cima da barriga de Megan, evitando que possa se mover.
A mão direita, livre, está levantando a blusa de Megan, indo em direção aos seios. Num jato de raiva, me lembro que um dos “desaparecidos” era um estrupador conhecido, com várias vítimas.
É, parece que alguns costumes nunca mudam, mesmo morrendo.
Num ímpeto de fúria, pulo para frente, deixando o facão cair no chão, esquecido.
Jogo meu ombro com toda força contra o morto-vivo. Eles podem ter força superior à humana, mas com a adrenalina e a raiva, meu golpe o joga longe como se não pesasse mais que um peso de papel. Ele bate com tanta força contra um dos prédios que cercam o beco, que ouço o estalo satisfatório dos ossos quebrando.
Estico a mão para Megan. Ele pega e se puxa para cima.
— Cuide dele, sim? — Peço para ela, me acalmando aos poucos. Adivinho seus pensamentos pelo olhar. — E nem perca seu tempo. Zumbi. Sem dor. Sem sentimentos. É o mesmo que torturar um cadáver.
Megan faz uma careta para o trocadilho ruim, pega o facão no chão e se para ao lado do zumbi. Satisfeito, olho em volta
Alguns dos outros mortos-vivos estão começando a se erguer, já quase completamente curados dos ferimentos. Com exceção dos que foram decepados. Quem me dera a prata atrasasse eles mais do que alguns segundos.
É um prazer macabro retalhá-los e empilhar os pedaços. Em poucos minutos, tenho uma pilha de corpos salgados, misturados com gasolina e um palito de fósforo riscado. Me viro para pegar o último morto-vivo. Mas Megan ergue um braço, me impedido de me aproximar.
— Vamos Megan — reviro os olhos. — Precisamos queimar o Sr. Apodrecido.
Faço piada com a história de uma parte do pescoço dele estar necrosada. Mas Megan não ri.
— Ele já está morto.
— Bom, acho que é por isso o nome “morto-vivo”. — Ergo uma sobrancelha. — Vamos lá.
Megan balança a cabeça, fazendo o cabelo cair na frente do rosto. Ela empurra para trás com uma mão.
— Eu quero que dizer que está de fato morto. De novo. Pode conferir.
Olho torto pra ela, mas faço o que pediu. Me agacho do lado do zumbi.
— Vamos cara, sem gracinhas. Nada de se fingir de morto, por mais que seja fácil para você. — Nenhuma resposta. O zumbi fica parado no chão, do mesmo modo que eu joguei. Olho mais atentamente. Normalmente, os zumbis têm uma espécie de aura. Como um frio na espinha, a gente sente que tem algo errado. Não natural. Mas isso sumiu. Parece só um cadáver comum. — Se não estivesse vendo, não acreditaria. — Murmuro comigo mesmo.
— E tem mais. — Megan se agacha ao meu lado. — Olhe isso, no ombro dele, onde você acertou com o braço.
Ela puxa um pouco a gola do zumbi, expondo o ombro. Uma grande marca preta, como uma queimadura, se estende desde o topo até metade do braço. Exatamente o local onde o meu ombro acertou ele.
Balanço a cabeça desanimado.
— Não estou entendendo mais nada. — Mas mesmo assim, meus pensamentos correm imediatamente para algo que tenho cuidadosamente escondido no Dodge.
Megan me olha com os olhos semicerrados, como se soubesse que estou escondendo algo. Mas, para meu alívio, sua expressão relaxa e ela dá os ombros.
— Bom, mal não faz. — Ela agarra o cadáver e joga nas chamas. Ficamos por um momento olhando as labaredas engolir a montanha de corpos, então damos no pé antes que alguém apareça para descobrir o motivo de tanta fumaça.
É, a polícia vai ter um dia cheio.
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