Caçador

21 Invocação


Notas iniciais
Feitiços. Um pouco do trabalho de um Necromante.

Preparo tudo para o ritual. Deixo Megan e Amanda no Dodge. Será melhor elas não verem isso.

Passa um pouco do meio dia. Esse tipo de coisa tem mais efeito em noite cerrada, mas não posso esperar tanto. Quando passo, atiro uma pequena bomba de gás dentro da administração do cemitério. Sonífero. Então ergo uma barreira à minha volta, para evitar que qualquer um venha até aqui. Um truque muito antigo que qualquer mago deve conhecer, mas adaptado para a Necromancia. Um escudo de medo e de morte. Uma aura tão sombria que ninguém se aproximaria, seu próprio subconsciente faz com que recue.

Uma vez localizada a cova certa, o resto é preparar. Largo minha mochila no chão, pego uma pá e começo a cavar. Anotação mental: Aprender um feitiço que abra covas.

Paro quando ouço o som da pá batendo em madeira. Cheguei no caixão. Atiro a pá para cima e saio do buraco, então começo a preparar o ritual.

Não irei contar exatamente o que fiz. Essas coisas não se devem descrever, por segurança. Saibam apenas que desenhei um pentagrama usando uma mistura cuja receita irei manter em segredo, e coloquei velas feitas com cera misturada com outra mistura que manterei em segredo.

Pulo novamente para o buraco e abro o caixão. Franzo o nariz ao sentir o cheiro. Foi uma das últimas vítimas de ataque de lobisomem. O ataque, seguido da autópsia, não deixaram o corpo muito bonito. Sem falar que já está ali à uma semana. Bom, ossos do oficio. Pelo menos esse cadáver não vai tentar me matar.

Ignorando o nojo (sim, o corpo está bem nojento. Faz The Walking Dead parecer desfile de moda) toco em sua testa. Ou pelo menos, o que parece ser sua testa.

Começo a cantar. Bom, não bem cantar (vocês não querem me ouvir cantando), mas as palavras saem numa cadencia que parece um cântico. As palavras do feitiço saem da minha boca, uma atrás da outra, numa cadencia estranha e sobrenatural.

As palavras são... Inumanas. Não naturais. Estranhas e ao mesmo tempo familiares. A temperatura cai. Vento sopra uivando pelo cemitério, e, embora seja dia, tudo parece escurecer. Mas continuo cantando, com o som gutural das minhas palavras ecoando pela cova.

Então o vento parece sair de dentro do buraco, quase me soprando para fora. Uma luz branca brilha intensamente, me cegando. Quando ela se dissipa, me vejo cara a cara com o fantasma de uma mulher. Mais exatamente, a mulher que foi enterrada.

O fantasma dela é diferente do corpo (ainda bem, já chega morrer, ficar naquele estado é castigo demais). Só consta o ferimento que a matou. Ou seja, um buraco onde devia estar o coração.

Ignorando o buraco, foco o olhar em seu rosto. Cabelos loiros, rosto levemente mais pálido que o normal, e uma expressão de divertimento no rosto. O mesmo fantasma que vi no meu sonho. Parece que acertei o palpite.

O vento amaina até ser apenas uma leve brisa, então para por completo.

— Anne Ricksharen. — Comprimento brandamente.

— Lian Dark. — Ela responde, ainda com os braços cruzados.

Ficamos em silêncio por alguns momentos, então eu solto uma risada.

— Sério, parece aquelas cenas clichês de filme. — Me sento no chão, ao lado do caixão. Que se dane a sujeira. Aquele vento foi o bastante para me cobrir de terra. Tenho de me lembrar de tomar cuidado quando sair do buraco. É bem capaz daquelas duas loucas acharem que sou um zumbi e me tacarem um tiro.

— Me trouxe de volta de que modo? Espírito ou eco? — Anne pergunta.

— Eco. Não sou louco de trazer em forma de Espírito. Ecos não conseguem matar ninguém.

— Então não tinha certeza de como eu ia reagir?

Suspiro desanimado.

— Ultimamente, não tenho certeza de mais nada. Estou tentando parecer confiante e mostrar que sei o que fazer para elas, mas quase tudo que faço é de improviso. Não sei o que fazer. Não sei como sobreviver sem ser fugindo. — Ergo os olhos para ela. — Você poderia me ajudar.

Tento não deixar ela notar a esperança na minha voz, mas acho que não fui muito bem sucedido.

— O que quer de mim?

Penso cuidadosamente no meu próximo movimento. Se eu souber jogar, tenho Harren nas mãos.

— Eu sou especialista em Ceifeiros. E um dos maiores Caçadores de demônios vivo. Sem falar que lido muito bem com fantasmas. Mas... — Hesito por um momento. — Vampiros e Lobisomens são diferentes. Foram humanos, e foram transformados. Ao contrário de demônios e fantasmas e outras criaturas, os únicos modos de matá-los é atacando fisicamente. Bala de prata e decepar a cabeça.

— Onde quer chegar? — Anne parece interessada. É difícil dizer num Eco.

— Quero o nome de todos os 19 lobisomens e 32 vampiros que estão com Harren. Quero também o nome dos 50 zumbis e da casca de Harren. — Tendo os nomes, consigo descobrir aparência. Redes sociais, planos de saúde, ficha policial, eles devem ter os nomes em algum lugar. — O resto é comigo.

— Você quer bem pouco. — E eu achando que fantasmas não podiam usar sarcasmo. Lá se vai essa teoria por água a baixo. — Mas acho que posso ajudar. Lhe consigo os 19 lobos, 27 sanguessugas e 40 zumbis. Harren não. Está escondido por barreiras tão fortes quanto as suas. Mesmo daqui do meu lado, é impossível achá-lo.

Defesas... Hum, isso me dá uma ideia.

— Bom, então os nomes.

— Quer anotar?

Assinto com uma careta. Pego meu celular e começo a anotar os nomes. Tendo o cuidado de marcar quem pertence a cada grupo. Parece que vou ter um grande trabalho de hacker quando sair daqui. Só que primeiro, um banho.

— Pode ir.

Anne parece que vai reclamar, mas faço um aceno e seu corpo espiritual se desfaz. Saio do buraco e começo a jogar a terra de volta. Argh. Preciso de dois feitiços. Um que cave covas, e outro que às feche.

Volto para o Dodge. É incrível como tudo parece normal depois de tudo que eu fiz.

Megan leva um susto quando me vê, então cai na gargalhada. Amanda segue seu olhar, e começa a rir também.

Olho de relance para mim mesmo. É, não estou tão apresentável assim. Vou ter que dar uma limpada minuciosa no Dodge quando voltar para o Hotel. Seja lá em qual vou parar agora.

— Conseguiu? — Megan pergunta depois que consegue se controlar.

Aceno que sim com a cabeça.

— Vem cá, uma Tabua Ouija não seria mais prática? — Amanda pergunta.

— Seria, mas fantasmas mentem. Ecos não.

Notas finais
Vê só? A Bella (Bella Talbot) usa a tábua, mas eles nem sempre falam a verdade.