Caçador

64 Como sempre, somos interrompidos


Notas iniciais
Está cada vez mais perto do fim. Espero conseguir terminar antes de 100 capítulos. Na verdade, como esse é o 64, vai ser moleza. A história não dura 36 capítulos. À não ser que eu pegue a mania de fazer capítulos de 1000 palavras de novo. Uh, estava escutando Kansas enquanto escrevia esse. "Carry On Wayward Son... Don't Cry no More"

Flexiono os dedos, um após o outro. Observo os músculos trabalhando, a pele ondulando levemente por cima deles, as veias parcialmente visíveis na área inferior ao punho... A pele branca e lisa do antebraço, sem marcas.

Ouço passos curtos e suaves. Não me movo, continuo observando meu braço esquerdo. Sinto algo roçar em meus ombros, e alguns segundos depois Megan deposita um beijo no canto do meu queixo. Giro levemente a cabeça até nossos lábios se encontrarem. Sinto uma onda de calor se propagar pelo meu corpo. Megan cheira à canela e mais alguma coisa, algo mais exótico, mais poderoso... E seu hálito tem cheiro de menta.

— Dormiu bem? — Pergunto, com a voz baixa. Ela assente ligeiramente e ronrona. Abro um sorriso.

— Como você consegue fazer tudo isso? — Megan acena para o computador à minha frente.

Pego a lata de energético em cima da mesa e a ergo, num brinde brincalhão, antes de beber o último gole no fundo. Balanço a cabeça, tentando me focar. A mesa à minha frente está coberta por jornais, folhas cheias de anotações e copos e mais copos de café, intercalados por latas de energético. Não me lembro quando foi a última vez que dormi. Uma escopeta e uma pistola carregadas estão pousadas no canto da mesa, perto o bastante para eu pegá-las com velocidade.

Diretamente à minha frente, está meu notebook, ligado, com o brilho da tela baixo. No momento, está aberto em um site de noticias, exibindo uma reportagem sobre o primeiro ataque. Sem volume, o vídeo mostra apenas uma série de imagens. Já sei tudo de cor, nenhuma novidade. Ao segundo plano, um programa está rodando, filtrando feeds de noticia, perfis em redes sociais e fóruns on-line, procurando qualquer coisa que possa ser útil.

— Não foi isso que eu quis dizer. — Megan retruca, puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado. Ela observa as anotações, os recortes de jornais, os arquivos do computador, então grunhe. — Informação demais de uma vez só, e você mal dormiu desde que fugimos.

Solto uma risada amarga.

— Fugimos. Ótima escolha de palavras. Foi exatamente isso que fizemos. — Respiro fundo. Por incrível que pareça, o iminente fim do mundo não alterou tanto as coisas assim. E a ameaça constante de um ataque nuclear não parece ter sido o suficiente para amedrontar a dona do hotel onde nos escondemos desde que fugimos da caverna. Oitenta quilômetros ao sul de Thompsom, literalmente um hotel beira de estrada. Consigo ouvir cada carro passando na auto-estrada oitocentos metros além do estacionamento. Um quarto pequeno, com apenas o bastante para sobrevivermos. Me parece muito bom. — Consigo trabalhar melhor em meio ao caos. Sou hiperativo. Minha mente trabalha de uma forma mais rápida e caótica. Resumindo, não é informação demais para mim. É apenas o bastante para evitar que eu enlouqueça. — Solto um suspiro. — Desculpe. Estou apenas curtindo a experiência de ser humano, coisa que alguns dias atrás eu não podia afirmar.

— Você era humano. — Megan retruca.

— Não completamente. — Digito mais alguns comandos, então faço uma careta. Empurro a cadeira e me levanto, me espreguiçando. Meu corpo estala, e meus músculos reclamam. — Acho que você está certa. Preciso de uma pausa.

— Você precisa relaxar um pouco.

— Adoraria. — Respondo, me sentando na borda da cama que não tenho usado muito desde que cheguei. — Duvido que vá conseguir fazer minha mente se aquietar tempo o bastante para relaxar. Tenho uma tempestade aqui dentro, sabia? — Dou uma batinha na têmpora direita, para enfatizar.

— Talvez eu possa fazer algo para distraí-lo. — Megan comenta, suavemente.

Ergo o olhar analisando o tom de sua voz e percebendo o sorriso transbordando de segundas, terceiras e décimas sextas intenções. Engulo em seco.

Ela vem lentamente na direção da cama. Se posta atrás de mim. Minha respiração é superficial. Megan passa as mãos lentamente pelo contorno de meus ombros e beija de leve a base de meu pescoço, lançando um arrepio por minha coluna.

— Relaxe. — Ela sussurra em meu ouvido, a respiração fazendo cócegas.

É fácil falar, penso. Se ela conseguiu algo, foi me deixar ainda mais ligado. Meu coração parece estar tentando esmigalhar minhas costelas. Minha respiração está superficial, acelerada. Meu corpo está quente e frio ao mesmo tempo.

As emoções... Quase não consigo controlá-las. Consigo sentir a proximidade de Megan, sua presença apenas alguns centímetros de mim, me tocando de leve. Sinto sua respiração fazendo cócegas em minha nuca, posso sentir o calor emanando de seu corpo, posso sentir cada cheiro que ela emana...

Nunca imaginei como meus sentidos eram afetados por minha... Condição sobrenatural. Claro, não tenho mais o faro aguçado, capaz de detectar um leve odor do outro lado da sala, ou a audição que me permitiria ouvir as batidas do coração de Megan, e minha resistência parece um pouco menor, mas... Tudo me afeta de uma forma diferente. Os cheiros, os sons, as cores... Tudo é mais intenso e vivido. Perto de Megan, mal consigo ficar focado e lúcido o bastante para formar uma frase compreensível. É como se meus sentidos fizessem hora extra, sempre tentando ter o máximo dela que conseguirem.

E agora eles estão prestes a explodir. Ela estava certa sobre uma coisa: me distraiu dos assuntos apocalípticos. Só que me deu muito mais coisa para me ocupar.

Hummm... Mas o novo assunto é muito mais agradável, tenho que admitir.

Me viro e encontro seus lábios. O beijo dura alguns minutos, o bastante para meu cérebro derreter enquanto centelhas de eletricidade percorrem meu sistema nervoso. Megan passa os braços por meu pescoço enquanto envolvo suas costas com as mãos. Sinto a maciez de seu corpo contra o meu, ambos se aproximando, se modelando, se conectando...

Quando me dou por mim, estou deitado na cama, com Megan acima de mim. Ainda estamos nos beijando, fora algumas pausas rápidas para retomar o fôlego.

Não sei onde chegaríamos se alguém não batesse na porta.

Megan afasta o rosto do meu por um instante, me olhando com uma expressão consternada. Então ela ri, e eu acompanho a risada. É claro, não importa o quanto as coisas mudem, uma coisa não vai mudar: nosso péssimo timing. Sempre vai existir alguém para nos interromper. Sempre.

Megan rola de cima de mim, ficando deitada na cama. Me levanto e ajeito as roupas, mais automaticamente do que conscientemente. Tenho problemas maiores do que minhas roupas. Como, por exemplo, descobrir quem vou ter que matar por nos interromper.

Abro a porta. A filha da dona, uma garota de vinte anos, cabelos escuros com uma mecha vermelha e fortes tendências punks, está parada, segurando uma mochila que parece ter passado por uma batalha. Quando me vê, seus olhos enegrecem. Totalmente.

— Entre. — Eu falo, dando espaço. Ela entra, checando o chão e o teto. — Não pus armadilhas. Só proteções. E você está atrasado, Chuck.

— Desculpe — ele/ela responde, me olhando torto. Os olhos voltaram à cor normal, um castanho tom de chocolate. — Não foi exatamente fácil. Por que não carrega um desses com você, se usa para rituais?

— Ocupa espaço que posso usar para munição. — Respondo, como se fosse óbvio.

Chuck parece perceber Megan só agora. Ele estreita os olhos, e depois me olha atentamente. Um sorriso sarcástico se insinua em sua face.

— Estou interrompendo?

— Cale a boca. — Megan e eu respondemos juntos.

Chuck dá os ombros e me entrega a mochila, indo ocupar minha cadeira na mesa. Observo-o mais atentamente. A garota também parece ter passado por uma batalha. Os jeans estão rasgados, os coturnos possuem alguns furos, a camiseta preta está em frangalhos, não escondendo muito da pele branca marfim. Um corte avermelhado marca a região acima da sobrancelha esquerda.

— Que foi? Está uma loucura lá fora. E isso aqui foi o melhor que eu achei. — Chuck se defende, percebendo meu olhar. Balanço a cabeça, ignorando o comentário. Puxo o zíper da mochila e inspeciono o conteúdo.

— Valeu, Chuck. — Hesito por um décimo de segundo. — Alguma informação sobre...

Chuck balança a cabeça.

— Fiquei de olhos e ouvidos abertos, mas não consegui nada. Ele parece ter sumido. Seja o que for que fez na luta de vocês, o esgotou pra valer.

— Ou ele apenas está esperando a hora de atacar. — Eu murmuro. — Ok, vamos logo com isso.

Desligo o notebook e jogo em cima da cama. Empilho as anotações com cuidado e largo ao lado dele, fazendo o mesmo com os jornais. Sem paciência, apenas empurro o lixo para fora da mesa. Começo a esvaziar a mochila.

Primeiro tiro cinco velas pretas. Confere. Depois um galão de sangue de demônio. Confere. Cálice de prata para vídeos-conferência sobrenatural. Confere.

Com um giz branco, desenho um pentagrama no centro da mesa, com um círculo em volta dele. Adiciono as runas entre cada ponta do pentagrama. As runas de visão, audição, voz, busca e poder. Posiciono uma vela em cada ponta do pentagrama e ascendo com um isqueiro zippo. Então pego o cálice.

Prata maciça, uns vinte centímetros de altura. Base simples e lisa, entalhes no copo. Quatro rostos demoníacos se sobressaem. Posiciono o cálice no centro do pentagrama de forma que cada rosto fique virado para um ponto cardeal. Pego o galão de sangue de demônio e encho o cálice até a borda.

— Não queria precisar usar magia tão cedo — grunho enquanto trabalho.

— Foda-se e complete o ritual. — Chuck responde. É sério, às vezes tenho vontade de dar um tiro nele.

Megan se aproxima, fitando o cálice de sangue.

— Tem certeza que vai dar certo?

— Não. — Eu admito. — Mas é nossa melhor alternativa. É um milagre conseguir sinal de telefone, e nenhum deles atende. Não consigo ativar o rastreador do celular de Jenne, e está um inferno para hackear o sistema de controle remoto de um satélite. Então vamos por meios mágicos.

— Você consegue hackear um satélite? — Megan me pergunta, pasma. — E por que está mais difícil?

— Primeiro: sim, eu consigo. Segundo: fim do mundo. Normalmente você encontra uma duzentas pessoas que realmente conseguem mandar um ataque poderoso contra os sistemas de segurança mundial. Agora, existem milhares de ataques por dia. Está difícil me mover em meio a tantas informações. O sistema de defesa muda oitocentas vezes a cada hora. Os países com menos tecnologia de defesa provavelmente vão ter todo o banco de dados do governo saqueado.

Olho para o sangue de demônio. Respiro fundo e me concentro numa imagem de Jenne, com todas as minhas forças. Mergulho o indicador no sangue e começo a mover o dedo, seguindo o contorno da borda do cálice, criando um pequeno redemoinho. Tiro o dedo e começo a entoar um rápido encanto. Por favor, funcione, por favor!

O sangue começa a clarear, se tornando transparente como vidro. Uma imagem começa a se formar aos poucos na superfície.

Levo alguns segundos para reconhecer o interior do GTO de Joe. Ele está sentado ao volante, com os nós dos dedos brancos, dirigindo freneticamente. Suor goteja de sua testa, e uma expressão preocupada domina seu rosto. Dou uma olhada para o velocímetro. 185 km/h. Ele está com pressa.

Por um momento deixo o alívio me dominar. Ele está vivo. Já é um começo. Mas onde está Jenne? Me concentro, e a imagem para girar, mostrando o banco traseiro do GTO.

Qualquer alívio que eu pudesse ter sentido evapora. Jenne está deitada, com os olhos fechados. Seu rosto está muito pálido, parecendo um cadáver. Suor cobre seu rosto, e a respiração é rápida e superficial. Está de olhos fechados, mas posso percebê-los se revirando. De tempos em tempos ele murmura alguma coisa, se contorcendo no banco. Levo apenas alguns segundos para perceber por que está com uma camiseta vermelha.

Primeiro: não é camiseta. Ela está nua da cintura para cima.

Segundo: o vermelho é sangue, cobrindo-a totalmente.

Terceiro: um corte longo se estende da base do pescoço até a cintura. Ele é dentado, lacerado. Parece pulsar de uma forma grotesca. Vejo alguma coisa branca na parte superior do corte, e preciso reprimir um palavrão ao reconhecer uma das costelas dela.

Megan ofega ao meu lado e recua. Preciso de toda a minha força de vontade para me manter parado. O corte é fundo, foi até o osso. Não faço ideia de como ela ainda está viva, mas isso não vai durar muito.

A primeira coisa que passa pela minha cabeça é que John vai me matar. Depois lembro que ele está morto, o que não melhora nem um pouco meu humor.

Fecho os olhos por um segundo, cerrando os dentes, me concentrando. Quando abro, tudo que sinto é uma profunda convicção. Eu a mandei para lá. Eu vou evitar que morra.

Passo a mão por cima do cálice. A imagem treme, mudando. Alguns segundos depois entra em foco novamente. Um mapa dos Estados Unidos, com um ponto brilhando. Alguns quilômetros ao norte de Denver. Não sei onde Joe planeja ir, mas o quanto mais perto estiver, melhor.

Me afasto do cálice, deixando a imagem sumir. As velas se apagam.

— Pegue as coisas e vá para o carro. Precisamos ir. — Eu falo para Megan, juntando as velas e jogando na mochila. Começo a juntar minhas anotações.

— Lian, são centenas de quilômetros. Vai precisar cruzar metade do país. Como espera chegar a tempo? — Olho para Mega. A expressão dela é triste, quase desesperada. Parece estar segurando as lágrimas.

— Eu vou conseguir. Apenas isso. Vamos, não temos tempo a perder.

Megan abre a boca para dizer mais alguma coisa, mas então pensa melhor e começa a me ajudar. Olho para Chuck, que tem estado parado na cadeira, brincando distraído com uma faca de caça.

— Vai vir junto? — Pergunto.

Chuck dá os ombros.

— Não tenho nada muito melhor para fazer. E até que gostei desse corpo.

Aceno concordando. Não tenho tempo para reclamar sobre a garota. Ela provavelmente viu coisas que não gostaria de ter visto. E eu preciso de ajuda. Não é hora de bancar o herói.

E, principalmente, não é hora de me preocupar. Isso vai com certeza matar Jenne. Tudo que preciso é me concentrar. Ela não vai morrer, não se eu poder evitar. E eu posso.

Eu tenho um plano.