Caçador
55 Cigarros Fazem Mal a Saúde
Notas iniciais
— O que era aquilo? —Jene pergunta depois que saímos do beco.
— Um lobisomem que virou zumbi. — Eu respondo olhando para o beco. O fogo vai chamar muita atenção na noite. É melhor nós sairmos daqui. — Era disso que eu tinha medo.
— Mas como assim zumbi? E pensei que você era mestre em acabar com zumbis. — Joe interrompe. — Você e Megan não deram um jeito num grupo um tempo atrás?
Faço uma careta ao me lembrar do caso de Seattle.
— É, demos um jeito. Mas esses são diferentes. São do estilo The Walking Dead.
— O quê?
Paro de repente no meio da estrada, tão de repente que Megan colide comigo. Sério, nem tenho vontade de praguejar depois de ver essa. Minha vida é complicada por destino ou sou eu que procuro por isso? Nunca vou ter um caso normal?
— Por que você...? — Jene começa, mas eu apenas aponto.
Na rua principal, vindo da direção de onde estávamos, um grupo enorme cambaleia pela estrada. Ensanguentados, com partes do corpo faltando, sem inteligência, apenas um instinto faminto, uma horda de zumbis vem subindo a rua na nossa direção. Estão a pelo menos cinquenta metros. E são muito. Centenas.
John pragueja. Joe parece estar entrando em estado de choque. Jene se deixa cair ao meu lado, de joelhos no chão. Eu apenas fico parado. É, eu mereço.
Megan é a primeira a se recuperar.
— Vamos, temos que sair daqui.
Pareço acordar de um transe. A vida me deu problemas? Pois bem, vou resolvê-los. Não vou deixar nenhum deles morrer.
Me viro, ficando de costas para a horda e olhando para os quatro. Ao ver meu sorriso, Joe parece descongelar, e sorri animado. John bufa, e Jene fica apenas olhando de um para outro, sem entender.
— Lian voltou. — Joe explica. — Estou com pena dos zumbis.
Dou um soco no braço de Joe, de brincadeira, com uma risada selvagem. Ele está certo. Agora é hora da revanche.
— Escutem. Seja lá quem é o demônio que nos trouxe aqui, esse era o plano dele. Primeiro acabar com os Caçadores, os únicos que saberiam dar um fim nos zumbis. Então provavelmente ele deve querer espalhar o vírus para fora daqui, infectando o mundo. Vamos evitar isso. — Olho por cima do ombro. Ainda devo ter uns minutos. Eles são lentos. — Vamos ter que sair daqui e lacrar a cidade, e depois matar o demônio. Matar, não exorcizar. Mas primeiro, temos que fugir deles.
John assente e levanta Jene pelo braço, começando a correr descendo a rua. Joe começa a segui-lo. Antes de Megan ir junto, eu a puxo e dou um beijo. O beijo é selvagem, urgente. Quando nos separamos, sorrio para ela.
— Já alcanço vocês. — Alarme passa pelos olhos dele. — Ei, não vou me matar. Apenas atrasá-los. Confie em mim.
Antes que ela possa responder, me viro e corro na direção da horda, pescando três granadas que deixei nos bolsos.
Quando chego à apenas dez metros, pulo para cima de uma picape enguiçada na lateral da rua. Pego uma granada e puxo o pino com os dentes, atirando-a bem no meio da horda. Ouço com um sorriso as explosões. Mas os zumbis que não foram carbonizados ou retalhados demais continuam avançando, com gemidos estranhos. Sério, é por isso que detesto esse tipo zumbi. Ficam o tempo todo gemendo. Até parece que estavam fazendo sexo quando foram transformados e o disco trancou, então não param de gemer. Bom, tirando que os gemidos dão arrepios em vez de serem eróticos.
Desço da picape e corro pela rua. Então me viro de novo e atiro mais uma granada. Ela cai bem na frente do grupo, explodindo e mandando vários pelos ares. Pena que a rua é larga demais para eu conseguir atrasá-los muito apenas com essas explosões.
A minha melhor chance é que o prédio ao lado da picape em que pulei em cima está cheio de galões de gasolina. Não sei para seriam, mas gasolina mesmo velha ainda explode. E a horda já está passando do prédio.
Puxo o pino da granada e miro com cuidado, então atiro, tentando acertar uma janela quebrada no primeiro andar. Deu certo. A granada entrou pela janela.
Começo a correr na maior velocidade que minhas pernas conseguem impulsionar. Mesmo assim, não consegui me afastar muito quando a explosão ocorre. Sinto o calor das chamas nas costas, e continuo correndo. A explosão foi tão forte que meus ouvidos começam a sangrar, mas mesmo assim sorrio. Isso deve ter dado um jeito em boa parte da horda. Vai nos dar alguns minutos.
Alcanço-os depois de um quilometro, sem parar de correr. Os quatro estão parados à sombra de uma varanda, observando a rua principal. Quando me vêem, Megan vem correndo até mim e quase me derruba no chão.
— Seu maluco. Achei que tinha ido pelos ares também.
— Ainda não. — Eu brinco, olhando por sobre o ombro. Uma nuvem imensa de fumaça está por cima da região do prédio. Isso também vai botar fogo em outras partes da cidade. E ainda tem bastante dinamite para que, quando o fogo alcançar, o mercadinho vá pelos ares e dê um belo show.
John resmunga alguma coisa e pega uma caixa de cigarros no bolso. Ele tira um e coloca na boca, acendendo com um isqueiro. Dá algumas tragadas até o fogo pegar. Jene o olha surpresa e com censura.
— Desde quando você fuma?
John resmunga qualquer coisa, soprando fumaça.
— Desde sempre. — Eu respondo por ele. — Todo Caçador tem um vicio. Bebida, cigarros, drogas, Coca-Cola — reprimo um sorriso —, John apenas parou de fumar quando você nasceu e deixou de ser um Caçador. — Olho para ele. — Isso quer dizer que vai voltar a ativa?
Ele tira o cigarro da boca e sopra uma nuvem de fumaça branca. Franzo o nariz. O cheiro de cigarros em geral me faz passar mal. Nunca aprovei que ele fumasse.
— E tenho escolha? Desde que você apareceu, parece que o sobrenatural resolveu não me dar sossego.
Sorrio abertamente. Conheço bem demais esse velho resmungão para dar atenção às reclamações.
Olho para eles erguendo uma sobrancelha.
— Vamos? Isso não vai pará-los, mal vai atrasá-los.
Com gemidos, eles se erguem e começamos a andar de novo. Dessa vez mais rápido que antes, mas sem correr. Precisamos manter o ritmo.
Depois de algumas horas, começo a ouvir ao longe os gemidos dos zumbis de novo. Mas não falo nada. A minha audição é a mais apurada por causa do sangue de demônio, então eles ainda não devem ter escutado. Não vou preocupá-los com isso.
Já está amanhecendo quando finalmente chegamos ao fim da cidade. Agora é só uma planície e depois uma trilha em meio às árvores até a saída, e estamos livres. E também colocar toda a dinamite e explodir, lacrando a entrada.
Atravessamos a planície e subimos a trilha. No inicio dela olho para trás, e vejo que os zumbis estão começando a atravessar a planície. Reprimo uma praga e os estimulo a continuar.
Depois de meia hora, chegamos até o topo. Estamos todos cansados, mas agora estamos perto. E os zumbis não vão esperar.
A saída está no fim de um pequeno corredor de pedra sem teto. Parece um pequeno despenhadeiro. Bom, eu digo saída, mas cada um pense como quiser. É uma espécie de porta de pedra, trancada com um sistema complexo, parecendo cofre de banco. Muitas engrenagens e coisa do tipo.
— Divirta-se. — Eu aponto para Megan. Sem falar nada, ela se aproxima e começa a examinar a fechadura. Olho para John e Joe. — Peguem a dinamite e me ajudem.
Começamos a distribuir a dinamite. Colocamos no corredor de pedra, e em volta da entrada. Quando explodir, vai selar completamente a entrada, prendendo o pessoal aqui. E nós... Bom, nós damos no pé.
Estamos quase no fim quando começo a ouvir novamente os gemidos dos zumbis. E eles estão perto. Por sorte só falta esticar o pavio...
Praguejo veementemente. Não temos pavio o suficiente. Exagerei lá atrás, na igreja, e agora estamos com pouco.
Nesse momento, ouço um viva. Vejo que Megan conseguiu abrir a porta. Ela é grossa, bem grossa. Do outro lado, uma escadaria desce na escuridão.
— Vamos! — Megan chama, começando a descer. Jene e Joe a seguem. Olho para John.
— Não temos pavio o suficiente. Não vou conseguir fazer as explosões ao mesmo tempo. E estamos sem tempo.
John avalia rapidamente a situação, então um sorriso sinistro se abre em seu rosto. Não gosto nem um pouco disso. Ele só pode estar tendo ideias idiotas.
— Por que estão demorando? Desçam logo! — Megan grita, subindo até a porta.
John a ignora e me fala.
— Vá. Eu cuido disso.
Meu estomago se revira.
— Nem pensar. Tem que ter outro jeito. Se você ficar não vai...
— Sair. Eu sei. — John completa, olhando para o corredor de onde ecoa os gemidos dos zumbis. — Mas você não tem como explodir isso de outro modo. O ângulo é ruim para explosões com tiros, e se não fechar bem... O vírus não pode se espalhar para o resto do mundo. Não vou deixar.
Jene e Joe também sobem. Pelas suas expressões, parecem ter ouvido. Ignoro isso.
— Não, não vai ficar. Tem que ter outra maneira. — Falo teimoso.
John me olha triste.
— Você sabe que não existe outro jeito. Por favor, não dificulte ainda mais Lian. — Ele se vira, de costas para nós. — Cuide da Jene.
Fico irritado. Ninguém vai ficar, nem pensar. Me atiro sobre John, tentando derrubá-lo e puxá-lo para dentro do túnel. Mas eu esqueci como John é rápido. Ele se abaixa e lança um chute no meu peito, me jogando para trás. Caio por cima de Joe, empurrando-os para dentro. Me levanto e tento sair de volta, mas Joe me segura.
— Me larga! — Eu grito, me debatendo. Mas ele é mais forte. John fecha a porta, sem olhar para nós, nos lacrando lá dentro. Consigo me soltar e pulo na direção na porta, socando a pedra com as mãos. — Seu idiota! Você vai se matar!
Bato mais uma ou duas vezes na porta, mas não adianta. Ela se abre para dentro, e não tem maçaneta desse lado.
— Vamos. — Megan fala com urgência, me puxando pelo ombro. Jene parece estar entrando em estado de choque, mas Joe a segura pelos ombros e a ajuda a caminhar, meio que a carregando.
Não se choro, se grito, se praguejo ou fico em silêncio. Nem sei como saímos dali, só sei que continuamos descendo. Depois de um tempo, ouvimos uma explosão. O túnel treme perigosamente, e por um momento me pergunto se vai desabar em cima de nós. Mas ele se mantém estável. Continuamos andando.
O túnel se nivela, virando um corredor. Depois de algumas dezenas de metros, começa a subir. Subimos três vezes a distancia que descemos antes de vermos a “luz no fim do túnel”.
Eu saio do túnel primeiro, por via das dúvidas. O túnel termina numa sala de madeira, quadrada, com alguns móveis quebrados e empoeirados. Faço um sinal para eles, indicando que é seguro sair. Vou até a porta e saio para a rua.
Estamos numa espécie de cidadezinha de faroeste, com uma rua principal de terra batida e prédios de madeira em volta. Até parece aquela cena em que o bandido e o delegado ficam um de cada lado da cidade e vão avançando pela rua, preparados para sacar as armas.
Em frente ao que parece ser o bar da cidade, alguns carros estão estacionados. A maioria são muscle car. O que significa que são os carros dos Caçadores. E bem em frente à porta do bar, está parado um Dodge Challenger preto.
Corro até ele, com um pequeno raiozinho de felicidade atravessando as trevas causadas pela morte de John.
— Ei garoto, como está? Aquele demônio de merda não fez nada com você, certo? — Dou alguns tapinhas no capo, então abro a porta. Parece tudo em ordem.
— Desde quando você fala com o seu carro? Isso não parece meio estranho não? — Megan frisa, aparecendo atrás de mim. Solto uma gargalhada. Ela sai rouca e estranha, artificial.
— Minha vida é estranha. — Respondo saindo do carro e rumando para o porta-malas. Abro-o, e fico contente com o que acho. O demônio não mexeu no meu estoque de armas.
Largo a Winchester ali dentro, então começo a vasculhar. Pego um rifle, estudo-o por um momento com a testa franzida, então devolvo para o lugar. Tiro de lá uma cano serrado e texto seu peso. Assentindo aprovadoramente com a cabeça, começo a pegar munição para ela. Então atiro-a para Megan e pego outra para mim.
— Pra que isso? — Ela pergunta.
Me paro ereto, olhando para o bar, e respondo sem olhar para ela.
— O maldito demônio está ali. Acho que vamos fazer uma visitinha.
Megan morde o lábio, em dúvida, então assente.
— E Joe e Jene?
Olho para os dois, que estão sentados nos degraus da varanda da casa de onde acabamos de sair. Jene está escorada em Joe, que a está abraçando. Ele murmura alguma coisa em seu ouvido.
— Deixo-os aqui. Jene ainda não está pronta. E Joe deve ficar com ela.
— E você? Ela perdeu o pai, mas John também significava algo para você. — Megan aponta.
— Isso não importa. — Respondo sem emoção, com o olhar perdido ao longe. — Nessa profissão... Pessoas morrem. O tempo todo. Temos que seguir em frente. O melhor que podemos fazer por eles é continuarmos vivos matando o máximo de criaturas que conseguirmos.
— Você quer vingança. — Não era uma pergunta.
— Importa? Vou ter que matá-lo do mesmo. O motivo é irrelevante.
Megan parece que vai retrucar, mas pensa melhor e apenas acena com a cabeça, concordando. Depois de nos armarmos, rumamos para o bar.
Abro a porta lentamente, vasculhando os cantos com o olhar. Mas nada do demônio. Ele está no andar de cima, num dos quartos. Eu sinto isso. Faço sinal para Megan, apontando para a escadaria atrás do balcão. Ela concorda.
Começamos a subir. O andar debaixo está totalmente destruído, com as mesinhas viradas e cacos de vidro onde as garrafas deviam estar. As paredes estão arranhadas, e as manchas vermelho-amarronzadas pelo chão me parecem sangue seco. A escada é precária, e parece que vai cair a qualquer momento. Não conseguimos evitar que ranja a cada passo.
Particularmente, não estou preocupado. Não quero me esconder. Chega de ser cuidadoso.
Sei exatamente qual quarto é. Vou direto para a porta certa. Ela está destrancada. Empurro com o cano da arma.
Um homem, de uns quarenta anos, cabelos pretos e roupa surrada está parado de costas para nós, olhando pela janela. Ele se vira, com um sorriso. Seus olhos cintilam amarelos.
— Olá Lian. Que bom que chegou.
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