Caçador
8 Ameaçamos matar um defunto
— Muito bem, onde é o ninho?
— E por que eu diria? — O Vampiro pergunta, cuspindo uma bola de sangue.
Suspiro. É, ele até que aguentou bastante. Já gastei uns cinco litros de Sangue do Morto na tortura, quer dizer, interrogatório. Mas ele parece ser resistente.
— Vou deixar para você. — Digo para Megan. — Arranque o que poder.
Fecho a porta do quarto, tendo como ultima visão Megan molhando um facão de caça com Sangue do Morto. Então começam os gritos. Tomara que o isolamento sonoro do quarto do hotel seja bom.
Vou para o hall do Hotel, onde o wi-fi pega melhor. Fico tentando achar algo de útil na internet. Deu um pouco de trabalho, mas hackeio o banco de dados da policia.
Umas duas horas depois (quinze minutos depois de eu ter hackeado o banco de dados), Megan desce pelas escadas. Olho inquiridoramente para ela. Ela apenas balança a cabeça e se senta num dos sofás da recepção ao meu lado.
— Não soltou um pio. Quer dizer — ela olha por cima do meu ombro, para verificar se a recepcionista está fora do alcance da audição —, ele praguejou pra caramba. Me chamou de algumas coisas bem bonitas, e aprendi dois palavrões novos, mas nada sobre os Vampiros. Ele acaba de desmaiar, e você vai ter que achar uma funerária meio logo se quiser continuar com ele como cativo.
— Sei. — Respondo, tomando um gole de Coca. Então me engasgo e praguejo em voz alta, fazendo a recepcionista erguer o olhar da tela do computador dela. – Merda, era tudo que eu precisava.
— O que foi? — Megan pergunta, puxando o sofá para mais perto e olhando para o computador.
— Problemas. — Respondo, baixando a voz. — Parece que a policia descobriu alguns corpos sim, mas não divulgou. Num aterro afastado daqui, acharam uma pilha de corpos.Mais exatamente, cinquenta corpos. Está aqui no banco de dados, que bom que eu fucei até entrar. Todos os corpos estavam mutilados e muito arranhados, como se tivessem sofrido o ataque de um animal selvagem bem grande. E o mais interessante. Parece que o coração de todos havia sumido.
Megan arregala os olhos.
— Lobisomem?— Ela sibila, incrédula.
— Infelizmente. — Concordo. — Isso aqui está virando uma festa. Vampiros, Lobisomens, só falta alguns zumbis e um poltergeist, daí a vai ficar completo.
— Sim, e eu realmente amo uma caça diversificada. — Megan fala, revirando os olhos. Sou obrigado a rir com isso. Então fico sério.
— Bom, é minha vez de tentar arrancar algo dele. — Falo, fechando o notebook.
— Boa sorte. — Megan replica, se levantando.
Subimos para o quarto. Megan fecha a porta atrás dela e fica parada na frente. E eu fico olhando para o Vampiro. Ele está semi-inconsiente na cadeira, pendendo nas cordas que o seguram.
— Pare de se fingir. — Falo para ele, indo até a mesa, onde está metade do nosso arsenal. Algumas armas, e todas as lâminas que tenho.
O Vampiro ergue os olhos, com um sorriso zombeteiro.
— A que me dão a honra dessa ilustre visita? — Ele pergunta, lambendo o sangue que escorre da mandíbula ferida.
Ando até ele e desfiro um soco. Um gancho de direita, que quase quebra a mandíbula já ferida. Mas seguro o punho, então tudo que faço é arrancar alguns dentes. Pego um deles no chão.
— Acho que não vai precisar deles, já que têm alguns a mais. — Jogo o incisivo branco por cima do ombro.
O Vampiro me dá um sorriso banguela e ensanguentado. Solto um longo suspiro. Vai ser do jeito difícil.
Me abaixo até meu rosto estar na altura do dele, e falo lentamente, com a voz dura.
— Sabe à quanto tempo está aqui? Dez dias. — Ele arregala os olhos e abre a boca para me interromper. — Calado. Você perdeu a noção do tempo, por causa do interrogatório. Nos últimos cinco dias, não usamos mais Sangue do Morto em você. A tontura que você sente é sede. Hoje é dia catorze. — Acrescento, mentindo a data.
O Vampiro olha em volta, preocupado, assustado até. Continuo falando, lentamente, mas com a voz dura.
— Os seus pegaram muitos humanos. Como não sei onde está o ninho, não pude fazer muito. Mas achei alguns Vampiros por aí. Quatro, na verdade. Estão presos em quartos separados. Peguei uma fêmea ontem mesmo. Mostrei seu corpo para ela. Ela gritou muito, chamou você, se desesperou. Gritou seu nome, então disse que estava morto. Isso pareceu fazer mais efeito que a tortura.
O Vampiro vai arregalando cada vez mais os olhos, e parecendo cada vez mais desesperado. Então, quando termino, ele geme:
— Trish. Você... Você não pegou Trish. Não pode ter pego.
Bingo. Acertei na mosca. Viro o rosto levemente para Megan, sem tirá-lo da minha vista.
— Traga a cabeça da garota para ele ver. Só a cabeça.
— Com prazer. — Megan responde, pegando um punhal no bolso. Ela abre a porta e começa a sair, mas o Vampiro grita:
— Espere! Eu falo. Só não a machuquem. — Ergo uma mão, e Megan volta para dentro. Então foco o olhar no Vampiro.
— Fale.
— Estamos num armazém abandonado na rua comercial. Sabe, a rua vazia. O décimo quinto armazém à direita. É todo azul, com Blue Gredmont escrito na fachada.
— E vocês são entre quantos?
O Vampiro hesita e desvia os olhos.
— Cinquenta Vampiros.
— Sei que não são só Vampiros.
— Não sei do que está falando. — Ele responde, constrangido.
Fito-o por um momento, então me levanto.
— Traga um braço dela, para ver se ele não recupera a memória. Se continuar esquecido, talvez uma tortura aqui dentro funcione. — Instruo Megan. Ela assente, e abre a porta de novo. Novamente, assim como eu esperava, o Vampiro grita:
— NÃO! Espere, por favor!
— Fale! — Ordeno.
— Não são só... Não são só Vampiros. Temos Lobisomens também.
— Sei disso. — Respondo, com um sorriso sarcástico. — Achei alguns corpos sem coração. Mas não são só Lobisomens, não é? Têm algo mais.
O Vampiro hesita.
— Megan? O braço, por favor. — Peço. O Vampiro se sacode como se tivesse levado um choque.
— Está bem. Está bem. Temos mais uma raça. Zumbis.
— Zumbis? — Megan pergunta cética.
O Vampiro assume um ar superior.
— Não os zumbis que aparecem nesses filmes de segunda categoria. — Ele fala arrogante. — São como se fossem humanos. Só que mais fortes, mais difíceis de matar, e sem alma.
— Eu sei o resto, pode parar. — Falo para ele, tendo minhas piores suspeitas confirmadas. — Está bem, acabou.
Me aproximo dele, e pego um facão na mesa. Corto sua cabeça antes que ele possa fazer mais do que me olhar assustado.
— O que um bom blefe não faz. — Comento em voz alta, chutando a cabeça para longe.
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