Caçador
26 Acertamos as coisas, e dou uma de açougueiro com Amanda
Notas iniciais
Solto um gemido e abro os olhos. Não dá em nada, pois ainda não consigo ver nada. Tento mexer a cabeça, para olhar em volta, mas paro quando sinto a dor aguda. É aí que noto que estou soterrado do pescoço para baixo. Estou torcendo para que ainda seja a casa, e não um tumulo. Detestaria ter que escavar para sair da minha própria cova.
Ouço vozes chamando algo que se parece meu nome. Tento responder, mas tudo que sai é um gemido abafado. Me conformo em esperar.
Contei até 137, e então os gritos chegam mais perto.
— Lian! — Parece Megan. — Onde você se meteu seu idiota? Se morrer aqui, eu te mato. Juro que te mato. — É, é Megan.
— Acalme-se. Ele ainda deve estar vivo. Estou vendo um punhal ali que parece ser o dele. Ali, perto daquela porta.
A voz parece Amanda. Suspiro aliviado. As duas estão vivas. Noto que ainda estou segurando o meu Colt. Começo a recuperar os movimentos, e a sentir dor no corpo.
De repente, o que quer que seja que estava em cima de mim é removido, deixando o luar entrar. Dois vultos se inclinam na minha direção. Pisco até conseguir distinguir Megan e Amanda.
— Lian! — Megan exclama, embora só consiga ver minha cabeça.
— Eu disse que estava vivo. — Amanda murmura.
— É, vivo e enterrado. Se puderem me dar uma ajudinha... — Peço, conseguindo finalmente falar.
Megan começa imediatamente a cavar em volta de mim. Quando fico com os dois braços livres, ajudo ela. Depois, usando a força dos braços e uma ajudinha dela, me puxo para fora.
— Ai! — Solto um gemido ao sentir o meu corpo. Quase prefiro que continuasse sem sentir. Dor em cada parte dele. Megan me olha preocupada. — Não foi nada, ou quase nada. Só algumas costelas fraturadas e muitos, mas muitos hematomas. Alguns arranhões. Me saí bem, eu acho.
Megan assente preocupada. Tento me esticar, então paro com um silvo. Tudo bem, ficar parado.
— Harren... Está morto? Acharam o... ai... corpo?
Megan assente e aponta. À dois metros de nós um corpo está caído, torcido em um ângulo estranho e um pouco chamuscado. Um buraco na testa pálida comprova que acertei o tiro.
— Ótimo... ai... me saí melhor... ai... que ele. Só... ai... algumas fraturas. — Então noto a posição do braço de Amanda. — Temos de botar o... ai... ombro e cotovelo... ai... no lugar. Venha aqui.
Amanda ergue uma sobrancelha.
— É você que está gemendo de dor a cada palavra.
— São as marcas. — Respondo. — Elas vão ir me curando, e o sangue de demônio no corpo faz isso. Os gemidos são os ossos indo pros lugares.
Amanda hesita, então assente. Levo ela até o Dodge e a faço sentar no banco da frente, então examino o ferimento. Isso não vai ser bom. Dou um pano para ela morder.
— Vai doer. — Aviso, quando ela pega o pano.
Amanda me olha como se eu fosse louco.
— E o que pensa que eu achava? Que só ia ficar dormente?
Ignoro isso e coloco uma mão no ombro dela. Amanda morde o pano e fecha os olhos. Então assente minimamente. Com um movimento, empurro o ombro dela para o lugar. Amanda se contorce e solta um gemido, abafado pelo pano. Então respira fundo e assente novamente.
Torço o cotovelo dela, colocando-o no lugar e faço o mesmo com o braço. Isso é muito doloroso, acredite, eu sei. Já desloquei o ombro duas vezes e o cotovelo três, e nenhuma vez simplesmente fui para o hospital. Mas Amanda agüenta tudo sem dar nenhum grito, apenas um e outro gemido abafado pelo pano. Então ela cospe o pano quando eu termino, com a respiração pesada. Ela solta uma praga.
— Vai ter que manter o braço parado por algum tempo. Um mês no mínimo.
Amanda nem sequer me dá uma resposta sarcástica. Me estico. Dessa vez consigo fazer o movimento, mas ainda estou dolorido. Pego uma garrafa de conhaque e atiro para Amanda. Ela agradece com um gesto e entorna metade da garrafa. Eu não bebo, mas conhaque pode ajudar a limpar um ferimento na falta de água ou álcool. Arde pra cassete, mas é melhor que o machucado.
Olho para Megan que está parada atrás do Dodge, meio sentada na mala do carro. Ela está olhando para o céu estrelado. Vou até o lado dela.
— Ainda estamos vivos. — Falo. Ela assente, sem me olhar. Fico em silencio, apenas aproveitando a sua companhia.
— E agora?
— Agora? O mesmo de sempre. Lamber as feridas, mudar de cidade, achar outro caso. E ir nesse ritmo, até que algum caso seja demais para nós.
Megan não pode deixar de notar o “nós”, mas mesmo assim eu sei que não foi isso que ela perguntou.
Megan se vira para mim e me observa. Não desvio o olhar, fitando seus olhos. Dessa vez nenhum de nós recua ou avança.
— Se você não beijar ela, eu te mato. Estou falando sério. — Amanda grita do carro. Deve estar vendo tudo pelo retrovisor.
Megan desvia levemente o olhar e abre a boca para dar uma resposta para Amanda, mas não dou essa chance. Pela primeira vez, aceito um conselho de Amanda.
Me inclino para frente e beijo Megan.
Primeiro, ela parece surpresa demais para reagir. Então ela devolve o beijo, passando os braços pela minha cintura. Coloco uma mão em suas costas, e a outra em sua cabeça. O beijo dura mais alguns momentos, até que nós dois recuamos sem fôlego.
— Já não era sem tempo! — Amanda exclama. Nenhum de nós dá atenção para ela. Não precisamos. E de qualquer modo, temos bastante tempo ainda.
Fale com o autor