Caça Às Bruxas
1 Noite de Horror
Notas iniciais
POV Christopher Hubbard
Antes de começar realmente a história, creio que devo falar um pouco sobre como era minha vida antes dela acontecer.
Eu vivia em Borreauville, na França, no ano de 1335. A única coisa na cidade que fazia com que alguém a conhecesse era o Centro de Execuções de Borreauville, que executava e torturava bruxas de todo o país ou até estrangeiras em troca de algum dinheiro. Recentemente foi construido um novo andar de torturas, e eu fui obrigado a ser o guarda dele, caso contrário eu mesmo o inauguraria.
O emprego de guarda do Centro de Execuções era altamente alvejado pela maioria dos moradores de Borreauville, tanto pelo salário quanto pelos ingressos para ver de camarote as queimas de bruxas. Provavelmente eu era o único da cidade que via como eram horríveis as execuções, e não dava valor aos ingressos recebidos.
Enfim, comecemos a história.
– Aqui estão os ingressos para depois de amanhã. Queimaremos algumas vadias bruxas irlandesas. – disse o Carrasco Johnson, meu patrão, com um sorriso sádico no rosto
O homem de meia-idade com seu par de óculos pequeninos e frágeis deu-me o par de ingressos para o detestável e macabro espetáculo. Ele virou as costas para mim e atravessou o corredor, indo para o Pavilhão das Mil e Uma Torturas. Nas poucas vezes em que eu entrara lá, eu não me lembro de ter visto um lugar com espaço para mil e uma torturas, mas quem teria coragem de dizer isso para o Carrasco Johnson? Enfim, lá foi ele para torturar as "bruxas" que ali o esperavam.
Sentei-me no chão, com minha espada ao meu lado, e observei a cidade através da janela. Haviam casas, tendas, árvores, pássaros, uma mulher voando na direção do Pavilhão... Santo Cristo!
Levantei-me imediatamente, peguei minha espada e corri para onde ela ia. Chutei a porta do salão ao mesmo tempo em que a janela dele explodiu e a mulher apareceu lá dentro, com um vestido negro, pele pálida e um cabelo volumoso, com incontáveis cachos negro. Johnson estava trancando uma gaiola onde as supostas bruxas ficariam por um mês.
O Pavilhão era um salão enorme, com a pintura branca propositalmente suja de sangue para aterrorizar as acusada, cheio de instrumentos de tortura, muitos dos quais nem mesmo eu entendia o funcionamento.
Considerem-se abençoadas aquelas mulheres, que foram salvas pelo caos que se iniciaria em alguns breves segundos.
Tudo aconteceu tão rápido que tive um pouco de dificuldade para processar o que acontecia. Quando a dama surgiu da janela, Johnson, espantado, largou a fechadura e as chaves da jaula antes que pudesse tê-la trancado. Resultado: cinco mulheres enlouquecidas jogaram-no no chão e correram para os cantos do Pavilhão, escondendo-se até que tivessem alguma chance de fuga. Restaram uma dama sobrenatural, um carrasco que perdera suas vítimas e um guarda totalmente atônito – vulgo eu.
E o horror começou.
– Lembra-se de mim? – perguntou a dama
– Quem... – balbuciou Johnson – Quem é você?
– Eu fui Agata, a menina que carrascos como você acusaram injustamente de bruxaria! – Sou Victrix, a mulher que recorreu à bruxaria por vingança! – dizia ela, dando voltas ao redor de um carrasco totalmente confuso
– O que você fará? – disse Johnson, tremendo, suando e com medo de que esta noite fosse fatal para ele
– Pare! – gritei inutilmente
Logo que o fiz, porém, minha voz emudeceu. Obviamente isso era obra da sobrenatural.
– Quase morri graças a um Centro de Execuções como esse! – continuou ela – E, com certeza, não fui a única. Agora é sua vez...
Ela apontou para a Dama de Ferro. Para os que não sabem o que é uma Dama de Ferro: é um instrumento de tortura. Um sarcófago metálico com duas comportas. Seria apenas um caixão comum, não fossem os cravos postos dentro das comportas, que atingem o peito da vítima quando se fecham com ela em seu interior. Seria somente um meio de execução, não fosse a posição estratégica dos cravos, que permitem que o infeliz viva por mais algumas dolorosas horas. Era um dos itens mais cruéis que havia naquela sala.
– N-não! – disse o carrasco – Eu lhe imploro!
– Mostrou submissão... – avaliou Victrix – submissão é boa às vezes, sabe? Você terá minha misericórdia. Ganhará uma morte rápida.
Ao ouvir a sentença de morte de Johnson, desembainhei a espada e avancei na direção de Victrix. E eis que ela me ouve correr, vira-se para mim e meu corpo se enche de luz azul. Meus movimentos pararam, como se eu fosse uma estátua.
– Voltando à nossa conversa, Johnson – não foi necessário nenhum feitiço para ele, pois o medo já o paralisara – Você terá uma morte breve. Creio que, para matar mais rápido, a Dama de Ferro precise de alguns... ajustes.
Ouviu-se um rangido metálico vindo da Dama e seus cravos entortaram.
– Pronto – disse ela – Agora não vai ter nem tempo para sofrer. A Morte buscar-te-á antes que a Dor o alcance.
Johnson chorava, enquanto via os papéis de carrasco e executado se inverterem diante de seus olhos. Lágrimas rolaram dos olhos dele.
E a Morte chegou.
Victrix apontou para a Dama e Johnson foi coberto por uma aura azul, exatamente como a que me paralisara, e seu corpo foi jogado dentro do sarcófago, como se fosse uma boneca de pano.
As portas fecharam-se sozinhas, mas nenhum grito veio da boca do antigo carrasco. Como dito, Morte veio antes de Dor. O corpo do carrasco e a Dama se transformaram em aranhas minuscúlas, que foram para os cantos da sala, escondendo-se entre os instrumentos de tortura.
Finalmente, a paralisia cedeu, junto à mudez. Corri até a Dama e toquei com a mão o caixão. O metal era frio, mas nem de longe tanto quanto o olhar de Victrix.
Em outra época eu me perguntaria o que levaria uma pessoa a agir dessa forma, mas não agora. Eu testemumhara de perto os horrores que supostas bruxas passavam; e, segundo Victrix, ela mesmo passara por isto; sentira na pele. Ela queria que fosse feita justiça, de preferência com as próprias mãos.
As acusadas, que seriam presas como animais, já haviam fugido enquanto Johnson era o meu foco, mas pouco me importavam. Eram pobres mulheres injustiçadas, deportadas de seus países por serem consideradas bruxas por Tribunais. Além disso, havia uma bruxa comprovadamente real na minha frente, que assassinara um homem. Era melhor estabelecer prioridades.
– Fuja. – disse ela – Seria suspeito demais um carrasco desaparecer junto com as acusadas e o único que permanece vivo e localizado é o seu insatisfeito guarda.
Ela tinha razão. Se ao amanhecer, quando os trabalhadores despertam, eu não tivesse sumido também, eu seria condenado. Assassinato e heresia. Talvez até mesmo bruxaria.
– Eu não tenho para onde ir. – falei
– Polônia. É pra lá que eu vou, e você pode ir também. Corra mais rápido do que as mentiras sobre você. Há uma carruagem minha à beira do Lado dos Afogamentos, pode usá-la se quiser. Em dois dias, estarei em Berlim. Daqui a quatro pretendo já estar na Polônia, em um retorno às origens. Adeus. Ou melhor... Até breve.
Ela ficou de cócoras no chão metálico, com os braços abertos encostados no chão. Lentamente, penas negras brotaram em sua pele, seu nariz se alongou em um fino bico, seu corpo encolheu e seus braços se transformaram em asas. Em menos de um minuto, eu estava sozinho na sala com um corvo negro. Victrix, na forma de ave, gravou e, de alguma maneira telepática, eu a compreendi. “Estou indo.” dizia “Faça o que eu digo, se for sensato.”. E a ave voou.
Olhei para os lados em busca de uma saída, sem sucesso mas todas às portas estavam sendo vigiadas. Mas ainda havia um jeito...
Joguei-me da janela lateral do cômodo, caindo na direção do Lago de Afogamentos.
Passado o horror da morte de Johnson, era hora de racionalizar. Seria aquela fuga possível? “Corra mais rápido do que as mentiras sobre você.” dissera Victrix. Quem poderia alcançar tal velocidade sobre-humana?
Notas finais
https://fanfiction.com.br/historia/240009/Jogos_de_Versalhes/
Fale com o autor