Caça Fantasmas
2 Para Quem Você Liga?
— Que preguiça! – boceja Camila, enquanto estende seus braços para o alto e tenta levantar-se de sua cama. Ela olha para o relógio e, em um pulo, já começa a colocar sua roupa. Já passavam-se das cinco e meia e se não se apressasse, não conseguiria chegar a tempo no trabalho. Com isso em mente ela faz sua higiene diária e nem pensa em tomar café. Pega as chaves que estavam penduradas na parede e vai direto para o estacionamento de seu prédio. Chegando no carro pega o molho de chaves e, aleatoriamente, coloca uma chave na porta do carro, tendo certeza de que aquela era a correta. Ela gira. Uma, duas, três vezes, mas a porta mal mostra sinal de que vai abrir.
— Que droga! – diz ela, chutando o pneu do carro. Peguei o chaveiro errado! Percebendo seu erro, Camila, dotada de incrível velocidade, vai até o elevador que, para sua sorte, já estava em uso. Olhando rapidamente para os lados ela percebe a presença de uma figura desconhecida, as escadas. Sem opções, ela, bufando de raiva, começa sua escalada. Pobre mulher, tinha que morar logo no vigésimo andar. Com paços rápido, em ritmo de marcha, ela chega em seu apartamento, abre a porta, joga o chaveiro errado em cima do sofá, pega a chave do carro e com semelhante agilidade, desce novamente as escadas.
Tendo voltado ao estacionamento, ela abre seu carro e, finalmente, consegue partir para seu trabalho. Ela era cientista, sendo responsável por pesquisas relacionadas com o estudo de novas dimensões. Seu laboratório não era muito espaçoso e nem possuía muitos integrantes, porém, ela estava fazendo avanços. Recentemente ela, em conjunto com sua parceira de pesquisa Francine, conseguiu detectar portais interdimensionais, espalhados em várias partes diferentes da cidade. Não existia muito em comum sobre eles a não ser o fato de que todos os locais ou foram ou estão sendo foco de aparições fantasmagóricas. Mais cedo, as três da manhã, Francine a telefonou eufórica. Um novo caso de aparição havia ocorrido próximo dali, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e elas haviam sido chamadas. Segundo Francine, duas pessoas viram um fantasma no banheiro feminino no dia anterior, durante uma seleção de professores.
Por ser algo questionável, a reitoria da universidade resolveu abafar o caso. Contudo, eles não esperavam que uma das vítimas, uma jovem, fosse buscar a ajuda de centros religiosos. Aparentemente, ela ficou tão perturbada que chamou padres, pastores, pais de santo e vários outros membros de ordens religiosas para benzer o local. Segundo relatos de estudantes, o banheiro feminino ficou interditado durante toda a noite e os líderes disputavam quem iria benzer aonde, uma verdadeira confusão. A bagunça foi tanta que os próprios professores foram atrás de uma solução, e ai entra Camila e Francine. Como ambas possuíam trabalhos acadêmicos sobre espectros ectoplasmáticos, os conhecidos fantasmas, foram a primeira opção. Francine já estava no local. Camila, entretanto, esforçava-se para chegar o mais rápido possível, ultrapassando o máximo de carros que podia. Até chegar a universidade, passou uma hora no transito, chegando no campus meia hora depois do horário combinado.
— Finalmente! – exclama Francine com seus braços cruzados e olhar de reprovação.
— Desculpa. Acabei dormindo no ponto. – responde Camila, em tom de piada.
— O que eu faço com você?! Então, trouxe os equipamentos? – questiona Francine.
— Claro. – responde Camila enquanto direciona-se para o porta malas. Eu peguei os medidores e....
— E? – continuou Francine.
— Meu Deus! Esqueci as coisas! – diz Camila, colocando suas mãos sobre rosto.
— Ah não, Camila! Essa é a única chance que temos de provar que nosso trabalho é sério e você não traz os equipamentos?! O que vamos fazer?! – exclama Francine, aumentando seu tom de voz.
— Se acalma Fran. Eu não esqueci todos. Ainda temos os medidores de campo eletromagnético. – diz Camila, entregando um dos equipamentos para sua amiga. E com esse seu relógio podemos fazer um ótimo indicador, só colocar alguns fios de cobre que tenho no carro com uma bateria e-
— Nem pensar! Você sabe quanto custa esse relógio? – diz Francine, protegendo o objeto com uma de suas mãos. Os medidores bastam! Vamos, antes que desistam de nos pagar.
As duas cientistas, devidamente equipadas com seus medidores, vão até o encontro de Francisco, um dos professores de física. Ele está as esperando logo na porta do instituto. Ao chegarem ele as olha da cabeça aos pés.
— Então vocês são as pseudocientistas? – diz Francisco, com um claro olhar de desprezo.
— Pseudocientistas?! Com quem você acha que tá falando seu v- exclama Francine, pronta para dar um tapa na cara do professor.
— Se acalma Fran. – sussurra Camila. Bom dia, senhor. Você deve ser Francisco Schmitt, nosso empregador.
— Sim. – responde Francisco com um sorriso sínico em seu rosto.
— Então, o que nós, “pseudocientistas”, podemos fazer para lhe ajudar? – questiona Camila, fazendo aspas com os dedos.
— Vocês devem ter ficado sabendo o que aconteceu aqui, eu presumo. Aquela louca ali disse que tem um fantasma no banheiro feminino. – diz Francisco, apontando para uma jovem mulher. Nós queremos que vocês entrem, façam o que vocês tiverem que fazer, saiam e digam que não existe nada lá dentro, combinado? Não queremos mais histeria do que a atual.
— E o nosso pagamento? – questiona Francine.
— Assim que saírem daquele banheiro receberão o seu dinheiro. Agora vão. – diz Francisco, sinalizando o banheiro com o olhar.
Ambas cientistas se afastam do professor que as observa de longe, com um contínuo sorriso.
— Cami, eu vou bater naquele velho! Olha a cara dele. – diz Francine, olhando para Francisco. Ele está debochando de nós!
— Esquece ele Fran. Estamos aqui pelo pagamento, você mesma lembrou. Foca na garota e no fantasma, depois nos acertamos com ele. – diz Camila, indo em direção a garota indicada por Francisco.
— Olá, bom dia! – diz Camila. Tudo bem por aqui?
— Bem? Como poderia estar bem? Eu vi um fantasma! As pessoas acham que eu estou louca! Aquele cara acha que eu estou louca! – diz a garota, apontando o dedo na direção de Francisco. Eu sei o que vi!
— Calma, moça. Não estamos aqui pra questionar você. Só precisamos que você descreva exatamente o que viu, tudo bem? E aliás, eu me chamo Camila e ela é a Francine, prazer – diz Camila, estendendo sua mão para cumprimentar a jovem.
— Natasha. – responde a jovem, apertando a mão de Camila.
Natasha respira fundo e começa:
— Era uma mulher, alta, loira, muito bonita. Da cabeça dela saia um líquido estranho, avermelhado, mas que não era sangue.
— Ectoplasma. – diz Francine.
— Ela também usava um vestido branco e estava flutuando. Foi horrível! Também tinha uma mulher junto comigo quando o fantasma apareceu, mas o susto foi tão forte que ela acabou indo pro hospital. Isso é tudo o que eu sei. – diz Natasha, segurando o choro.
— Muito obrigado, Natasha. Agora sente-se um pouco, tá? Nós estamos aqui para resolver o problema. – diz Camila, ajudando Natasha a sentar-se em um banco que havia ali perto.
Após recolherem as informações, Camila e Francine se distanciam um pouco de Natasha e iniciam um diagnóstico da situação.
— Alta, loira, vestido branco. Parece que estamos dentro de uma lenda urbana. – diz Francine.
— A loira do banheiro é bem popular aqui em São Paulo mesmo, mas nunca ouvi falar que ela atacava universidades! – diz Camila, rindo da situação.
— Camila, a moça está falando sério! Você não viu como ela estava?! – retruca Francine, encarando Camila.
— Foi uma brincadeira! – diz Camila, rindo de Francine. Você leva tudo muito a sério!
— E você brinca com tudo! Essa é a maior oportunidade que já tivemos! Agora pega seu medidor e vamos entrar! – exclama Francine, em voz alta.
— Ok, capitã! Você na frente! – diz Camila, apontando com ambas as mãos a direção da porta do banheiro.
— Deus! – diz Francine, entrando no banheiro.
Ao entrarem no banheiro elas deparam-se com uma ambiente normal, tirando o fato de que várias cruzes e sinais foram pintados nas paredes.
— A noite foi animada! – diz Camila.
— Nem me fale. Parece que deixaram restos da “festa” espalhados no chão. – diz Francine, colocando luvas plásticas que estavam em seu bolso e coletando, com um espátula de silicone, os resíduos e colocando-os em plásticos para a análise.
— Eca! Você está querendo dizer que eles fizeram s- retruca Camila, estranhando a colocação de sua amiga.
— Não! Que mente poluída! – responde Francine.
Enquanto ambas analisam os sinais e buscam por mais amostras, um barulho começa a ser emitido na segunda cabine sanitária.
— Ei, Fran. Tá escutando isso – sussurra Camila, tocando no ombro de Francine.
— Pega seu celular Cami. Se prepara para filmar o que estiver ali dentro. – diz Francine, se preparando para abrir a porta da cabine. Quando eu falar três. Um, dois, agora!
A porta se abre e dentro da cabine elas encontram...
Fale com o autor