Cavalos Selvagens
5 5 "A capital e suas desavenças"
Notas iniciais

Capítulo 5 — A capital e suas desavenças
— Mulher bonita assim, não precisa nem pagar.
As manhãs na cidade de Santa Luz, costumavam ser um pouco mais agitadas aos domingos. A praça, o parque e os bares eram sempre muito frequentados nos finais de semana. Havia também uma feira que vendia produtos artesanais e que atraía alguns turistas devido à qualidade e variedade artística dos itens que disponibilizavam para venda. O sol estava forte no céu azul de verão e não passava das nove e meia. Apesar do calor, um vento fresco amenizava um pouco do clima abafado do interior.
Victor e Jackie haviam saído da fazenda e parado para abastecer o Ford prata no único posto de gasolina que a cidade possuía. O veículo já estava abastecido, mas o loiro tinha inventado de comprar chocolate na lojinha de conveniências do posto. Até aí tudo bem, todo mundo sentia vontade de comer doces, mas o que o cowboy estava reparando desde o momento em que a senhorita havia descido do carro, era na maneira como o atendimento havia mudado quando o dono do lugar foi atender o loiro. Queria só ver se o coroa soubesse que Victor era, na verdade, um homem. Mal saíram da fazenda e Jackie já sentia como seria andar por aí com aquele garoto. Bem que Ivan reforçou várias vezes para que ficasse de olho em seu caçula.
O dono da lojinha em questão, estava comendo seu parceiro de viagem com os olhos e, bem, não era somente com os olhos que o talzinho queria comer o loiro. Jackie retirou o chapéu e passou a mão pelos cabelos castanhos, esperando aquela palhaçada acabar. Não culpava aquele desavisado, ele próprio tinha se engraçado para cima de Victor quando o viu pela primeira vez.
— Por que diabos você está tão mal humorado? — Perguntou a si mesmo em um resmungo. Tinha levantado um pouco mais cedo do que nos outros domingos, mas as inúmeras despedidas de Ivan e Tulipa e as gracinhas de Sebastian, atrasaram um pouco as coisas. E falando sobre as gracinhas de certo moreno desbocado; o cowboy se desconsertou com as sugestões de Sebastian quanto ao que deveria fazer para descontrair as horas que passaria ao lado de Victor. — Você pagou? — Curioso como era, não resistiu em perguntar, encarando os olhos verdes do loiro quando ele retornou.
— O que acha? Não sou uma mulher bonita. — Ele deu de ombros, sorrindo em seguida. — Ou melhor, uma senhorita bonita. — Claro que sabia a resposta daquele pervertido, mas resolveu cutucar um pouquinho.
— A primeira vista? — Jackie ponderou sobre aquela pergunta e coçou o pescoço até onde a barba fazia limite. — Se Tulipa não tivesse te chamado de Victor, até hoje eu ia pensar que você era uma moça. — Uma moça bonita, sim! — Victória, talvez...
— Nossa! Que exagero. E pode parar com essa coisa de Victória!
— Fala isso pro dono da lojinha. Ele 'tava babando em cima da moça. — Jackie abriu a porta do carro para o loiro entrar e fez o mesmo do outro lado, ajeitando-se no volante e colocando o cinto.
— E o que é que tem? Por acaso está com ciúmes? — Perguntou sem pensar, mas logo tratou de tagarelar para contornar aquela pergunta descabida. — As vezes você esquece que eu não sou uma mulher, mas obrigado por abrir a porta. — Rodou os olhos e disfarçou um pouco do constrangimento. — Só falta puxar a cadeira ou segurar a minha mão quando eu for descer do carro. Que cavalheiro…! — Implicou e colocou também o cinto. — Ou melhor, vai segurar a minha cintura?
— 'Tá bem engraçadinho hoje, hein? — O cowboy resmungou enquanto ligava o carro e seguia para as ruas pacatas de Santa Luz. Que história de ciúmes era aquela?
— Você é que está muito azedo. Depois sou eu o mal humorado… — Victor abriu o chocolate e deu uma mordida na barra. — Come que vai ficar calminho. — Ofereceu o doce ao cowboy que recusou com uma careta. Doce logo pela manhã, não era algo que o agradava.
— Não é estranho que eu também fique na casa do seu irmão? Achei que não se dessem bem…
— Eu ficaria no apartamento que dividia com uma amiga, mas eu prefiro incomodar o Simon. — Victor voltou a morder o chocolate. — E você veio me acompanhar, então, vai ficar comigo. E aquele papo de: Vou cuidar muito bem do seu filho, seu Ivan…? — O pai havia feito todo um discurso sobre confiar no cowboy para cuidar do caçula. Ivan exagerava quando o assunto era Victor.
— Tranquilo que eu vou cuidar direitinho. — Jackie acabou usando um tom que saiu mais sugestivo do que deveria. Na verdade, não era para ter saído sugestivo.
— Não começa… — Victor alertou. O cowboy não demorava muito para mostrar o quanto era abusado. Arrumou os cabelos em um rabo de cavalo e bocejou. Não havia dormido muito bem, pensando que dividiria o carro com aquele homem debochado. Começou a reparar em Jackie enquanto ainda comia o chocolate. Ele era bem o tipo que chamava a atenção das mulheres, não somente delas, claro. O porte musculoso e a pele morena eram realmente atraentes. Desceu os olhos do rosto para os braços fortes e… Droga! Tinha queda por braços exatamente como aqueles. Acabou corando ao ser pego encarando descaradamente o corpo do colega.
Jackie mirou os olhos verdes do loiro pelo retrovisor e de certa maneira se sentiu um pouquinho desconfortável com aquela atenção toda. E fora isso deveria era prestar atenção na estrada a qual acabavam de entrar e não na senhorita ao lado. O que será que ele estava pensando?
— 'Tá reparando demais não? — Se fosse um pouquinho legal, ele nem teria externado que havia pego o loiro em flagrante, mas não conseguia ficar calado. E ficar calado poderia gerar um clima estranho. — Vai tirar a minha concentração assim…
— Não olho mais. — Victor se apressou em dizer. — A estrada é mesmo mais interessante. — Encarou a janela aberta. O vento bagunçava os cabelos e aliviava um pouco do calor intenso. — Olha… — Era uma ótima maneira de começar um assunto, senta lá, Victor. — Você não tem uma namorada? — E era pior ainda em continuar o tal do assunto.
— Uma? Ah, uma é muito pouco! — Jackie acabou rindo. — Tipo, uma pra cada dia da semana?
— Eu falo de namoro sério, não das namoradinhas que você deve ter espalhadas por Santa Luz.
— Não, eu não tenho namorada a sério. As loiras 'tão em falta. — Piscou para o loiro e voltou a rir.
— Credo, como você é idiota. — Victor desviou os olhos novamente para a janela e instintivamente tocou os cabelos.
— Minha mãe nos viu juntos e foi logo perguntando: Quando vai me apresentar aquela mocinha bonita do cabelo amarelo? — Jackie continuou. Tinha rido muito quando a dona Sarah chegou com aquela história de que ele devia assumir logo um compromisso antes que o pai da moça loira ficasse zangado com aquela situação.
— E o que foi que você respondeu? — Victor ficou curioso e se ajeitou melhor no banco.
— Eu disse que você é só uma moça que eu 'tô saindo, sem compromisso… — Falou como se não fosse nada demais e acabou rindo da expressão indignada do loiro. — Eu falei que você é o filho do patrão. Ela ficou um pouco decepcionada porque queria logo era que eu anunciasse o casamento. — Na verdade, a mãe não havia acreditado muito na “desculpa” de que o loiro era um rapaz e não uma moça.
— Eu não sabia que sua família vivia por aqui. — O loiro comentou depois do momento de constrangimento. Por que raios estava tímido? O chocolate ainda estava em mãos, mas a vontade de comer o doce havia passado.
— Você não sabe de muita coisa. — Jackie deu de ombros. — Minha mãe e minha irmã moram na cidade. Hoje é o dia que eu almoço com elas, mas avisei que 'tô de guarda-costas e chofer de uma senhorita importante aí. — Sorriu de lado, diminuindo a velocidade quando chegaram na cidade vizinha.
— Você devia ter ido almoçar com elas. — Victor se sentiu culpado por ter privado o cowboy de um domingo com a mãe e a irmã. A família era muito importante.
— Depois você me acompanha pra compensar. Claro, se você quiser. — Era mais um convite, mas um convite que não deixava espaço para uma resposta negativa.
— Você vai conhecer o meu irmão e a minha irmã, nada mais justo do que eu conhecer a sua família também. — E o convite estava aceito. — Sua irmã é mais nova? — Podia aproveitar um pouco do momento para conhecer mais da vida do cowboy. Tudo o que sabia é que Jackie era muito bom no trabalho que fazia e que nas horas vagas era um maldito debochado, mas a ideia de conhecê-lo melhor era bem agradável.
— E já 'tá me dando trabalho com essa coisa de querer sair pra namorar. — Confirmou. O sangue subia só em pensar nos marmanjos que queriam se aproveitar de sua irmãzinha. — Moças dão um trabalho danado…
— Imagine se você tiver uma filha. — Victor sorriu ao pensar em Jackie como um irmão ciumento e um pai pior ainda. — Coitadinha dessa menina.
— Sou um ótimo irmão e, com certeza, vou ser um ótimo pai, mas não fico pensando nisso. — Já não bastava a mãe apressando para que ele arranjasse alguém a sério. — Seu irmão e seu pai é que parecem ser desse tipo. — Comentou como quem não quer nada. Se Victor podia especular sobre sua vida, ele também podia.
— Bom, meu pai você viu como é. Simon não é muito diferente, mas eu até que gosto dessa superproteção. Não o tempo todo, é claro, mas de vez em quando é bom. — Dava para imaginar como seria se tivesse aceitado trabalhar na empresa do irmão. Não teria descanso…
— Tá fazendo o que? — Jackie perguntou ao ver o loiro mexer no rádio.
— Será que eu estou mexendo no rádio por que eu quero ouvir música? — Victor perguntou retórico.
— Achei que quisesse conversar…
— Achei que você não quisesse mais conversar. — Os dedos desistiram de tentar mexer naquele rádio velho. — Mas então? Quer falar sobre o quê?
— Sei lá. Você tem alguém? — Jackie foi direto ao assunto. Bem, se Victor havia xeretado sobre suas possíveis namoradas, ele também podia interrogá-lo sobre o assunto. — Quer dizer... Quem é Ryan? — Perguntou de repente, mas aquela era uma questão que já estava martelando sua mente. — O patrão parece gostar desse… Dessa pessoa. É um amigo seu? — Não se importava se estava sendo curioso, estava mesmo interessado em saber quem era o tal do Ryan. Ivan havia mandado lembranças a ele.
— Um conhecido… — Victor respondeu depois de um tempo, incomodado com o assunto.
— Namorado? — Jackie percebeu o incômodo do loiro, mas isso não o impedia de descobrir mais alguma coisa.
Victor devia se acostumar com aquele tipo de pergunta, mas desviou os olhos novamente para a janela. Jackie sabia sobre sua orientação sexual e, bem, se não soubesse, Sebastian havia deixado aquilo bem claro e o cowboy não parecia se importar.
— Ex. — Respondeu baixo e com aquilo deu o assunto por encerrado. Somente Sebastian e os amigos da cidade sabiam sobre o porquê do fim do relacionamento e ele não se sentia a vontade para conversar sobre aquilo com mais ninguém. — Mas o meu pai não sabe que... Que nós terminamos. — E deveria continuar assim. Não queria preocupar Ivan ou fazê-lo passar mal com aquele assunto.
Não gostava de pensar muito sobre o assunto, mas a verdade é que havia adiantado a ida até a fazenda do pai, pois diziam que não existia nada melhor para curar um coração partido do que o sôssego do campo. Claro que estava lá pelo pai, afinal, faria qualquer coisa para vê-lo bem, mas o fato de se ocupar do trabalho no escritório, ajudava a deixar para trás aqueles pensamentos depressivos sobre ter sido usado por alguém que amava e confiava. Acabou se amuando, afundando no banco e entrando em silêncio enquanto observava as imagens através da janela.
Bem, quem é que não tinha um ex ou uma ex? Jackie tinha várias e alguns dos relacionamentos não terminaram muito bem. Era normal, mas entendeu que para o loiro devia ser algo que ainda mexia com ele. Talvez Victor ainda fosse apaixonado pelo tal Ryan. De qualquer forma, não era de sua conta e ele estava pensando demais sobre o assunto.
* * *
— Eu acho melhor ligar o GPS... — Já fazia algum tempo que estavam circulando pela famosa capital, em meio a trânsito e ruas estranhas e desconhecidas.
— Você disse que tinha certeza que era por aqui. — Jackie resmungou. Estava desacreditado que o loiro não sabia como chegar na casa do prórprio irmão.
— Faz tempo que eu não venho aqui. — Se defendeu e ligou o GPS no celular.
— Quanto tempo? Uma semana?
— Quem é o engraçadinho agora? — Victor ironizou de mau humor. — Olha, pega essa rua aqui. — Começou a indicar o caminho correto, totalmente o contrário daquele que que ele acreditava ser o certo.
— É aqui? — Jackie perguntou. Estavam em um bairro rico no centro da cidade. O lugar parecia uma disputa sobre qual das casas era mais chamativa. — Tem certeza que essa é a casa do seu irmão, né? — Era melhor perguntar, já que Victor era tão distraído. Não queria invadir a casa de um desconhecido e ter problemas com a polícia.
— Tenho certeza, sim. — O loiro retirou o cinto e pegou a mochila que havia trazido no banco de trás.
O bairro estava tranquilo e a tarde bem agradável. O clima fresco da capital era muito bem-vindo para amenizar um pouco do calor do interior. Victor espantou alguns fios que desciam para o rosto e encarou o muro alto da casa, buzinando algumas vezes. Uma casa tão grande para uma única pessoa...
— Anda, cowboy! — Bateu no braço de Jackie quando o portão se abriu. — É a casa certa, viu?. — Tudo bem que havia indicado um atalho nada confiável, mas reconhecia a casa do próprio irmão.
Jackie resmungou alguma coisa que o loiro não entendeu e manobrou o carro para dentro do quintal espaçoso. Não via a hora de chegar. Aquela viagem já havia demorado demais. Estacionou e saiu do veículo logo depois do loiro, acompanhando-o e entrando na sala espaçosa e bem decorada. Parecia aquelas mansões de filmes de Holliwood.
— Se perderam pelo caminho? — Simon desceu as escadas para receber os recém chegados. Estava com os cabelos bagunçados e com os óculos de descanso. Desde o início da tarde ele havia se enfiado no escritório para trabalhar e acabou perdendo a noção do tempo. Não recebia muitas visitas, passava boa parte dos dias na empresa de automóveis e uma mulher cuidava da limpeza da casa nos finais de semana.
— Um ou outro atalho errado... — Victor deu de ombros antes que começasse a ser acusado por um Jackie não muito feliz com o pequeno atraso. Caminhou até o irmão e o abraçou, mesmo que Simon não gostasse de abraços. Ao menos não foi repelido. — Como você está? Tem se alimentado direito?
— Não ataca de mãe, Victor. — Simon o abraçou de volta, tocando os cabelos compridos do caçula. — Eu estou bem. Olha só pra você. — Se desvencilhou do abraço e segurou o menor pelos ombros. — Você cresceu ou algo assim?
— Não, eu estou de saltos. — Rodou os olhos e comparou as alturas. Talvez tivesse crescido alguns centímetros...
Jackie não evitou compará-los. Simon era mais alto, os cabelos eram mais claros e os olhos verdes também. Fora isso não se pareciam em nada. Simon tinha até barba! Talvez Victor fosse uma versão feminina do irmão mais velho...
— Esse aqui é o Jackie. — Victor puxou o cowboy pelo braço depois de cumprimentar o irmão. — Vocês se conhecem?
— Eu me lembro vagamente. É o capataz, não é? — Simon apertou a mão de Jackie somente para não se mostrar tão desagradável. Tinha visto o cowboy algumas vezes, poucas vezes, quando visitava a fazenda do pai.
Jackie apenas confirmou, não se sentia muito a vontade em uma casa enorme e estranha com um dono que também era praticamente um estranho. Nem o Victor ele conhecia direito. Sem perceber, continuou com o braço enlaçado ao do loiro, só se dando conta quando Simon encarou aquele gesto com as sobrancelhas franzidas.
— Então... — O loiro mais velho puxou o caçula, fazendo-o se soltar do cowboy. — Vocês devem estar cansados. — Apertou os ombros do irmão e lançou um olhar estreito a Jackie. — Eu vou mostrar onde vão dormir. — Guiou os dois para o piso superior onde havia inúmeras portas espalhadas por um corredor claro e cheio de quadros nos dois lados das paredes. — Eu pedi para que arrumassem os quartos um do lado do outro, os outros estão bem empoeirados... — Comentou ao abrir as portas brancas dos dois quartos. — O banheiro é no final do corredor. — Indicou a última porta. — Eu vou pedir comida, então, fiquem a vontade. — Deu as costas aos dois e caminhou de volta para a escada. Se sentia bem estranho por ter visitas, mesmo que por tão pouco tempo. A única pessoa que frequentava sua casa era a noiva, e ele a havia dispensado naquele domingo. Não aguentaria uma Pâmela tagarela especulando a vida daqueles dois.
— Qual dos quartos você quer? — Victor perguntou quando Simon os deixou a sós.
— Tanto faz, são iguais. — Analisou o cômodo da soleira da porta. — Pode ser esse aqui. — Escolheu o que ficava a esquerda e já foi acendendo a luz. Havia uma cama de casal, cômodas de madeira e uma poltrona em um dos cantos. Obviamente que ninguém usava aqueles quartos.
— Se precisar de alguma coisa, grite. Eu vou tomar um banho. — O loiro anunciou e entrou para quarto no qual dormiria. Colocou a mochila sobre a cama e já foi tirando os tênis brancos e as meias.
— Por que você tem que tomar banho primeiro? — Jackie se escorou no batente da porta com os braços cruzados sobre o peito. — Eu também estou cansado e tive que te aturar por mais de cinco horas tagarelando nos meus ouvidos. — Resmungou e suspirou ao final da fala, dando a entender o quanto aquilo havia sido tedioso, claro, estava apenas sendo dramático.
— Quanta sutileza... — Victor se ergueu e começou a abrir os botões que prendiam as alças do macacão jeans, deixando a peça cair para a cintura, ficando com a camiseta branca. — Certo, você precisa mesmo urgentemente de um banho. — Sorriu de lado e caminhou até a porta, sentindo o piso frio sob os pés nus. — 'Tá fedendo. — Provocou e fez questão de tapar o nariz para enfatizar um odor que nem ao menos existia. Jackie até que cheirava bem.
— Eu não 'tô... — Jackie ia se defender, mas parou para dar uma conferida no desodorante ao erguer um dos braços e cheirar a axila. Não estava ruim. — Depois me acusa de ser debochado. — Empurrou o loiro pelos ombros e foi em em direção ao quarto buscar por uma troca de roupas.
— E não demora ou eu entro naquele banheiro e te arrasto de lá. — Victor gritou ao vê-lo passar pelo corredor. Uma frase bem casual.
— Eu sugiro um banho duplo, então. A sennhorita e eu. Topa? — Jackie provocou, voltando somente para observar a expressão indignada se formar no rosto do loiro. Não resistiu e piscou um dos olhos, recebendo um dedo médio nada amigável em resposta.
Victor forçou um sorriso. Claro, era mais fácil fazer gestos obscenos do que se atrapalhar e tropeçar nas palavras. Mesmo assim, foi inevitável não sentir as bochechas queimarem. Mostraria para aquele abusado a senhorita! Quando Jackie se afastou, rindo de suas fuças constrangidas, ele se jogou no colchão macio. Acabou sorrindo de maneira mais relaxada. O cowboy era um maldito debochado... Um maldito debochado com um par de braços incríveis e cabelos de galã dos anos cinquenta.
Jackie não demorou muito no banho, mas teve os ouvidos cheios de um falatório bem tedioso de um Victor mal humorado com a suposta demora. Não esperou o loiro para descer as escadas e alcançar a sala espaçosa e bem iluminada. Reparando melhor, notava-se a decoração cuidadosa e feminina espalhada em cada objeto harmonioso e muito caro distribuído pelo cômodo. Claro, a tal noiva quem devia ter organizado aquilo tudo. O cowboy jamais se acostumaria com a extravagância dos ricos. Ter tantas coisas, parecia poluir o ambiente visualmente falando, mas ele não era nenhum especialista em design de interiores para entender sobre o assunto.
O cheiro de comida fez o estômago sinalizar o quanto o aroma proveniente de uma meia dúzia de sacolas de algum restaurante caro, era extremamente agradável. Observou ao redor e encontrou o dono da casa, sentado em uma das poltronas em tom marrom, mexendo em um celular grande e muito fino. Não gostava de julgar sem antes conhecer, mas não havia ido muito com a cara do irmão de Victor. Nunca tivera a oportunidade de trocar mais que algumas palavras, mas o fato de que o loiro mais velho não se importava com o pai maravilhoso que era o seu Ivan, o deixava com o pé atrás.
— Com fome? — Simon o olhou por cima do ombro, mas logo voltou a atenção ao aparelho que vibrava insistente em uma das mãos. Havia percebido a presença do outro devido ao cheiro forte de alguma colônia de muito mal gosto que ele usava. — Sabe se o Victor vai demorar? — Ele se levantou e caminhou em direção ao cowboy, mas parou para se debruçar no balcão com tampo de mármore, encarando insistente o homem a frente.
— Não sei. — Jackie deu de ombros e não esperou ser convidado para sentar, puxou um dos bancos de couro e apoiou os cotovelos sobre o mármore frio do balcão. Simon parecia analisá-lo com aqueles olhos muito claros e aquilo o incomodou. — Ele costuma demorar lá na fazenda, mas disse que estava com fome. — Comentou somente para não dar a entender o quanto uma conversa com o anfitrião o desagradava.
— Então — Simon começou a mexar nas sacolas, retirando as embalagens de comida. —, você e o meu irmão tem alguma coisa? — Perguntou casualmente, observando a expressão calma do cowboy.
— Alguma coisa? — As sobrancelhas de Jackie se franziram com aquela indagação e ele se ajeitou no banquinho.
— Saindo. Vocês estão saindo ou algo assim? — Foi mais direto. Abandonou as sacolas e encarou incisivo os olhos do moreno. Apesar de não se comunicarem com tanta frequência e se encontrarem ainda menos, ele sentia um instinto protetor muito elevado quando o assunto era o caçula. Havia adquirido aquele cuidado exagerado quando Victor entrou na puberdade e o rosto de traços delicados demais para um garoto, tornou-se estranhamente atraente para alguns de seus colegas da faculdade, claro, havia também as piadinhas ridículas e brincadeiras estúpidas que insistiam em fazer a respeito de seu irmão.
Jackie permaneceu calado por uns minutos, prolongando a tensão do loiro, deixando uma abertura para uma resposta positiva. Victor havia comentado sobre o cuidado do irmão mais velho, mas ele não achou que Simon fosse logo mandar uma pergunta tão direta. Acabou deixando um sorisso sútil aparecer quando notou a rigidez no maxilar do loiro. O que ele faria se dissesse que sim?
— Seu irmão e eu somos apenas colegas de trabalho. — Optou pela verdade, embora estivesse tentado a criar uma pequena mentira somente para ver a reação de Simon. — Eu o acompanhei por uma decisão do seu pai. — Justificou, mesmo achando que não precisasse explicar muita coisa. Victor era adulto e vacinado, podia se relacionar com quem quisesse.
— Entendo. — O loiro suavizou a expressão. Teria rido do sotaque forte do interior se esse mesmo sotaque forte não lhe lembrasse de certo alguém. — Eu só perguntei por curiosidade. O fato é que meu irmão não se envolveria com alguém assim. — Dedicou um olhar de desprezo ao cowboy. Um olhar que evidenciava que ele era superior a Jackie. E Jackie... Que nomezinho mais ridículo. — Sabe, você não faz o tipo dele.
— O que quer dizer com— Jackie estava prestes a se alterar quando Victor, desastrado como era, chegou a cozinha e bateu a canela em uma das pernas de ferro do banco de couro.
— Droga de banco! — Ele praguejou enquanto alisava o local atingido, não se dando conta do olhar nada amigável que os dois homens no balcão trocavam.
— Você é sempre tão distraído. — Jackie rodou os olhos escuros e tocou a canela de Victor, fazendo uma espécie de massagem para a dor passar. E também, para provocar um Simon nada contente do outro lado do balcão, não querendo dar tanta atenção ao fato de achar a pele do loiro muito suave sob a palma da mão.
Victor se aproveitou da boa vontade do cowboy. Se Jackie quisesse massagear outras partes de seu corpo também, ele não reclamaria...
— É comida japonesa? — Puxou o pé ao perceber que o irmão mais velho encarava aquela cena com cara de poucos amigos e passou a fuçar as sacolas, parecendo uma criança que acabava de ganhar um brinquedo. — Vocês não vão comer? — Perguntou para amenizar a situação. — Olha que eu como tudo sozinho! — Ameaçou em tom divertido e correu para pegar os talheres, era péssimo com aquela coisa de hashi.
— Eu não duvido... — Simon resmungou para a animação do irmão, somente desviando os olhos de Jackie ao pegar umas das caixas de comida.
Jackie poderia ter se levantado e saído daquela cozinha, mas a atitude seria infantil demais até para ele. Ele fazia mais o tipo que; quanto mais sua presença irritasse alguém, mais ele faria questão de permanecer perto dessa tal pessoa. Pegou o par de palitinhos e começou a comer em silêncio. Estava certo, não ia mesmo com a cara daquele loiro azedo e prepotente.
A refeição se seguiu com um Victor falante e disposto a contar tudo o que acontecia na fazenda. O caçula gostava de compartilhar as novidades e adorava falar. Foi quem mais falou, embora Simon comentasse casualmente alguns pontos da conversa e Victor tentasse se referisse ao cowboy a cada duas ou três frases.
— Quando vai visitar nosso pai? — Victor perguntou por fim. Talvez fosse a centésima vez que direcionava aquela pergunta a um dos irmãos, mas tinha fé que um dia conseguiria fazê-los ceder.
— Eu tenho muito trabalho, você sabe. — Desconversou. Odiava quando vinham com aqueles questionamentos. Odiava ainda mais quando tentavam arrastá-lo para a fazenda.
— E tem muitos funcionários trabalhando pra você! — Victor argumentou. — A empresa é sua. Não acha que merece umas férias? Você está um trapo! — Tocou o rosto do irmão. — Olha só essas olheiras horríveis! — Os péssimos hábitos do mais velho não mudavam nunca.
— Não é tão simples, você sabe. — Afastou-se do toque dos dedos frios e coçou a cabeça, pensando na próxima desculpa que daria. — Não posso deixar minhas responsabilidades e jogá-las nas costas de um funcionário qualquer. Nenhum deles me parece preparado para ficar a frente de um negócio tão grande mesmo que por poucos dias. — O que era uma mentira bem estúpida.
— Ouvi dizer que sempre usa essa mesma desculpa. — Jackie, que se manteve parcialmente calado durante a refeição, não aguentou e soltou a língua. — Devia inovar. Ou parar de rodeios e dizer que não se importa com a saúde do seu pai.
A atenção dos dois loiros se dedicou totalmente ao cowboy que mantinha os braços cruzados sobre o peito. Victor quis estapeá-lo por dizer uma coisa daquelas, mesmo que concordasse em gênero, número e grau com suas palavras. O fato é que ficou preocupado, pois aqueles dois passaram a se encarar de maneira estranha e ele entendeu que teria que interferir caso rolasse alguma agressão física. Embora ele soubesse que não conseguiria apartar uma briga entre dois homens muito mais altos e fortes que si.
— E o que você sabe sobre o quanto eu me importo com o meu pai? — Simon sentiu as palavras amargarem. Quem aquele homem pensava que era para se intrometer naquele assunto?
— É só ouvir essa famosa ladainha. Não preciso ser um perito no assunto pra chegar a essa conclusão. — Jackie arguiu, encarando o loiro com a mesma intensidade.
— Vocês dois— Victor tentou apaziguar o clima tenso, mas foi subitamente interrompido pelo irmão. Aquilo não ia dar certo...
— É só o que me faltava, um caipira estúpido criando suposições a meu respeito. — Simon se indignou, erguendo-se do banquinho e espalmando as mãos sobre o mármore, deixando claro o que pensava sobre aquele homem intrometido. — O fato de eu não querer me enfiar naquele lugar, em nada tem a ver com o que eu sinto pelo meu pai. — Resolveu deixar claro. Amava o pai, mas como ambos eram cabeças duras, um esperava pela visita do outro.
— Você parece fugir de alguma coisa... — Ou talvez devesse dizer; alguém. — Mas essa sua fuga afeta inteiramente o seu Ivan. Essas suas tais férias podem demorar demais e aí já vai ser tarde para uma visita. Você devia pensar nisso. — Levantou-se também. Tinha ciência da saúde frágil do patrão, embora Ivan tentasse passar uma realidade forte e inabálavel, a ausência e falta de preocupação dos filhos mais velhos, o afetava e muito. — É só o conselho de um caipira estúpido para um riquinho mimado e cheio de preconceitos.
Simon ia protestar, mas Victor se ergueu e entrou na frente do cowboy, utilizando-se de um pequeno espaço entre o corpo forte e o balcão de mármore. Era melhor se intrometer antes que as coisas ficassem feias.
— Já chega vocês dois! — Falou em tom irritado. Pareciam até duas crianças de birra. — Eu devia fazer vocês pedirem desculpas e apertarem as mãos, mas sei que o mínimo de cooperação entre vocês seria impossível. Simon... — Encarou o irmão com as sobrancelhas franzidas, mirando os olhos claros e estreitos. Jackie havia tocado exatamente no ponto certo ao mencionar que Simon fugia de algo. — Eu penso igual ao cowboy aqui. Eu já falei várias vezes sobre isso, mas—
— Esse assunto não é pra ser discutido na presença de estranhos. — Simon cortou o caçula. Uma ponta de indignação surgindo devido ao fato de o irmão ficar do lado de um caipira insuportável como aquele. Odiava gente intrometida. — Eu dei os meus motivos e o assunto se encerra por aqui. Eu vou subir e trabalhar. O casalzinho pode ficar a vontade. — Crispou os lábios e deixou a cozinha, não sem antes dedicar um olhar assassino ao cowboy que correspondeu a altura.
— Seu irmão é o maior babaca. — Jackie resmungou quando ficaram a sós. Com o cotovelo ele empurrou o loiro para o lado e voltou a se sentar no banquinho de couro. — Vai comer isso? — Apontou para a comida que havia sobrado na caixinha de Victor, mas não esperou por uma resposta e foi logo comendo o conteúdo.
— Achei que vocês dois fossem se agarrar feito cães raivosos... — Victor comentou. Havia um leve tom de chateação na voz baixa. Ele se sentou no banquinho também e começou a mexer na barra da camiseta larga e cinza. — Eu ia tentar separar, mas provavelmente acabaria apanhando e—
— 'Tá usando alguma coisa por baixo disso aí? — Jackie interrompeu, não querendo falar sobre o outro assunto.
— Quê? — Victor perguntou, aparentemente confuso com a pegunta deslocada.
— Parece que 'tá de vestido... — O cowboy implicou, fazendo questão de puxar o tecido grosso da peça de roupa estranha que ele usava. — Tá de lingerie ou algo assim?
— Idiota! — Victor expulsou a mão atrevida do moreno e sentiu o rosto queimar. — É um pijama... Parte dele. Eu devia mostrar a lingerie pra você calar a boca. Posso ter cara de senhorita, mas aqui embaixo, nós somos muito parecidos. — Fez questão de enfatizar as duas últimas palavras.
— Acho que não é tanto assim. — Jackie continuou com a implicância. — Ou melhor, talvez seja. Você disse que eu não tenho nada de mais.
— Bem, eu não fiquei reparando... — Aquele assunto estava muito estranho. — E deixa de ser abusado! Estávamos falando sobre a discussão que você teve com o—
— Com o mala do seu irmão. — Jackie completou, interrompendo-o uma segunda vez. Havia acabado de comer e agora brincava com os palitinhos. — Essas coisas me deixam nervoso. Ele tem um pai maravilhoso e não dá a mínima. Pais não duram pra sempre, mas acho que ele não sabe disso. — Suspirou ao passar as mãos pelos cabelos castanhos que caíam para a testa.
— É bem como você disse, mas talvez agora ele pense melhor e pare de inventar desculpas. Não é só com o nosso pai que ele tem que se resolver, tem mais gente nessa história. — Comentou por cima, não querendo expor o relacionamento entre o irmão e o melhor amigo. E não passou despercebido o fato de Jackie não ter falado em nenhum momento sobre um pai, mas Victor não queria parecer indelicado ao perguntar algo a esse respeito. — Desculpe pelo jeito como ele falou. O Simon é assim mesmo. — Encolheu os ombros e deu um sorrisinho amarelo.
— Não tem que se desculpar por ele. Eu 'tô aqui pra te acompanhar e já cheguei causando confusão. — Jackie deu um tapinha amigável nas costas do loiro. — Que bom que você é bem difrente dele.
— Rolou um sentimentalismo agora. — Victor acabou rindo, mas em seguida fechou a expressão. — Pare de falar mal do meu irmão e desencosta. — Resmungou como se estivesse zangado. — E se prepara pra conhecer a minha irmã. Cecília é ainda pior.
— Pior? — Jackie se levantou quando Victor começou a colocar as caixas vazias dentro das sacolas, ajudando o loiro. — Da próxima vez você vem sozinho. Digo ao Seu Ivan que você dirige muito bem.
— Eu já disse que te odeio hoje? — Victor jogou o lixo e lavou as mãos. Se escorou na pia de mármore e cruzou os braços sobre o peito, encarando os olhos escuros do cowboy. Acabou sorrindo de uma maneira tão genuína e brilhante que Jackie desviou os olhos por uns segundos, sentindo-se estranhamente atraído por aquele sorriso.
— Hoje ainda não. — Sorriu de lado, achando-se estúpido. Sorriso de homem não era bonito coisa nenhuma! Se bem que, Victor tinha uns dentes bem bonitos e certinhos. Durante toda a semana o loiro, quando estressado, dizia que o odiava, mas o fato é que se aproximavam cada vez mais, como colegas, quem sabe como irmãos...
— Então lá vai: Eu te odeio. — Bateu um dedo no peito do cowboy para enfatizar a frase, mas... — Nossa, como é duro! — Espalmou a mão por sobre a camiseta de Jackie, sentindo os músculos nas pontas dos dígitos, nem se dando conta do duplo sentido das palavras.
— Não é a única coisa dura por aqui. — Jackie arqueou as sobrancelhas, meio surpreso com a fala do loiro e com a atitude repentina, mas não podia perder a oportunidade de provocá-lo.
— Você só pensa em besteira, credo! — Victor recolheu a mão e se emburrou. Na verdade, queria que a cara emburrada disfarçasse o constrangimento que havia se instalado nas bochechas. — Mantenha essa dureza bem longe de mim. — Ele resmungou antes de sair da cozinha e ir para as escadas.
O cowboy apenas sorriu e passou a seguir o loiro, ainda era fim de tarde e ele não via programa melhor do que implicar e provocar uma senhorita mal humorada e que se envergonhava com facilidade.
E sobre ele não fazer o tipo do loirinho; Simon havia errado e muito feio.
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