Cavalos Selvagens

3 3 "Certas liberdades"


Notas iniciais
Oláa! Desculpem a demora! Obrigada a todos que estão comentando e acompanhando ♥ Espero que gostem. Boa leitura!

Capítulo 3 — Certas liberdades

A manhã estava quente e abafada, o sol se escondia atrás das densas nuvens em um céu cinzento e, na opinião de Victor, bonito. O loiro adorava aquele tempo nublado. Dali da janela do quarto, podia ver todo aquele verde e boa parte das terras do pai. Sentia orgulho de ter voltado, mesmo que não ficasse por tanto tempo; um ano faria grandes diferenças ali. Era tudo tão diferente da sua amada capital…

Os olhos verdes e dispersos deslizaram pela paisagem de muito verde e marrom e se encontraram com certo moreno de chapéu. Imediatamente os lábios se torceram. Era uma péssima visão logo pela manhã.

Jackie o encarou de volta. Não sabia exatamente porque fazia aquilo, mas era como se o loiro clamasse por alguma provocação.

— Bom dia, senhorita. – O sorriso era simpático, mas o tom era debochado.

Victor fechou a cara e mostrou-lhe o dedo do meio. O pai certamente o reprovaria, mas Ivan não estava ali no momento e foi a melhor resposta que o loiro conseguiu dar ante a provocação daquele estúpido. Pronto, a manhã não era mais cinzenta e bonita. O cowboy metido havia arrancado seu bom-humor. Desencostou-se da janela e caminhou até o espelho de parede que tinha ali. Não havia dormido bem, era uma cama estranha e o lugar diferente, demoraria um pouco para se acostumar. Um suspiro melancólico deixou os lábios quando os dedos finos ergueram os cabelos longos em um rabo de cavalo. Ele não queria, mas se pegou analisando o rosto, os traços que deixavam quase impossível saber de imediato se ele era homem ou mulher. Era dolorido admitir, mas Jackie não estava errado ao tê-lo confundido com uma senhorita. Era ainda mais dolorido lembrar-se do ex-namorado. Do que Ryan havia lhe feito…

Mais um suspiro e ele desistiu de inventar algum penteado. Era por isso que evitava espelhos. Sempre ficava melancólico quando via o próprio reflexo. Tomou um banho rápido e vestiu uma camisa azul, calças escuras e botas. Não precisava de luxos ali, mas também não andaria mal arrumado.

Fez uma visita ao pai e ficou feliz ao ver que, apesar de irritado, ele estava tomando o café na cama.

A mesa estava recheada com tudo o que ele mais gostava. Os olhos até brilharam ao ver a deliciosa torta de abóbora da qual sentira tanta falta. Adorava a maneira como Tulipa era caprichosa e fazia de tudo para lhe agradar; uma segunda mãe. Sorriu ao avistar a mulher pequena e tão cheia de energia. Sinceramente? Não se importaria nem um pouco se o pai desse início a um relacionamento com ela. Aquele estresse todo que Ivan sentia, era em parte, por falta de uma companhia feminina.

— Bom dia, meu menino! – Tulipa cumprimentou com um sorriso radiante e foi recebida com um beijo na bochecha. — Dormiu bem?

— Consegui dormir umas três horas, talvez… – Falou disperso, sentando-se na cadeira e já atacando uma torrada com geleia de morango.

A torrada quase foi ao chão ao notar pelo canto do olho quem se aproximava. Jackie chegou a sala e atacou Tulipa com um beijo no rosto, ouvindo a mulher reclamar sobre a barba do cowboy. Não era de sua conta e Victor ignorou a presença daquele homem. Ignorou até ele se sentar ao lado, quase colado em sua cadeira. Espaço pessoal. Ele com certeza, não sabia o significado disso.

— Tinha mesmo que se sentar aí? – Victor não aguentou e teve que perguntar. Tinha várias cadeiras vazias.

Jackie o olhou com o cenho franzido antes de pegar também uma torrada com geleia.

— Esse é o meu lugar. – Deu de ombros e continuou comendo. Estava faminto.

— Ao menos chegue com a cadeira um pouco para lá. – O loiro não quis ser rude, mas quase empurrou Jackie para a cadeira ao lado.

O cowboy não deu nenhuma importância e continuou ali, apesar de Victor ser o filho do patrão, era ele o visitante e Jackie só recebia ordens de Ivan. Além do mais, não estava fedendo e nem tentando provocá-lo ao sentar-se ali. Era apenas o seu lugar.

Victor percebeu que não teria sucesso em fazê-lo se afastar e bufou, assoprando uma mecha comprida do cabelo loiro. Para ele, Jackie fazia de tudo para irritá-lo, e o pior, ele conseguia irritá-lo.

— Fiquei sabendo que costuma cavalgar no meu cavalo. — O loiro comentou, tomando um pouco do suco de laranja. Não tinha intenção de discutir, mas não gostava daquela liberdade.

— O Fumaça? – Jackie perguntou o que já sabia. Sebastian nunca o deixava esquecer. 'Fumaça é o cavalo do filho do patrão, tome cuidado com ele.' — Fumaça é meu amigo. Belo cavalo. – Foi tudo o que disse e sem nem olhar para o loiro.

— Amigo? – A sobrancelha clarinha se ergueu e o canto dos lábios se repuxou em desagrado. — Fumaça é meu. Não quero ninguém andando nele por aí. – Deixou claro e voltou a comer, agora era um belo pedaço da torta de abóbora.

Jackie engoliu a torrada e bebeu o suco, sem muita vontade de dar continuidade ao assunto.

— Entendido.

Victor arqueou as sobrancelhas e encarou o moreno. Esperava que ele não fosse aceitar o fato de perder Fumaça, assim, tão normalmente.

— Bem, é melhor assim. – O loiro concluiu e voltou a comer. Talvez, Jackie não fosse tão irritante quanto ele havia pensado…

— Ouvi dizer que você não dormiu bem. Ficou revivendo algumas cenas interessantes antes de pegar no sono?

Victor parou com o garfo a caminho da boca. Não, Jackie era mesmo muito irritante. Os olhos verdes se estreitaram e ele pegou a faca que estava ao lado e não precisou dizer nada para que Jackie entendesse a ameaça.

— Não está mais aqui quem falou. – As mãos se ergueram em rendição. — Mas admita que–

— Você está pagando pra ver, não é? – Perguntou baixinho, ainda segurando a faca. — Se tocar uma vez mais nesse assunto, eu não respondo por mim.

— O patrão sabe que o caçula tem tendências psicóticas? – Provocou. E pra piorar estava falando de boca cheia. — É o que ensinam na cidade grande?

Victor tentou usar o garfo – porque a faca causaria um maior estrago –, mas Jackie segurou sua mão e, naquela pequena luta, acabaram derrubando suco e café.

— Pretendem acabar com a minha paciência? – Tulipa perguntou, pegando um pano e jogando nos dois. — É melhor vocês limparem essa bagunça.

Victor e Jackie limparam a sujeira que haviam feito e nem por um momento pararam com as discussões. O loiro era tão pacífico, não entendia o porquê de ficar discutindo com aquele homem que mal conhecia. Já Jackie era um provocador por natureza.

— Vocês estão muito estranhos. – A voz de Sebastian alcançou o loiro e o moreno e os dois pares de olhos foram ao jovem de chapéu. — Não pensem que esqueci o quão esquisitos vocês estavam ontem durante a festa.

Sebastian se sentou e apoiou os cotovelos sobre a mesa. Os olhos puxados e analíticos, observando as expressões dos amigos.

— Ah, meu deus! – Ele exclamou de repente, assustando os amigos. — Vocês transaram, não é?

A pergunta descarada fez o queixo de Victor e Jackie despencar. Como assim?

— Quer dizer, eu sei que o loirinho não é fácil de levar pra cama e o grandalhão aí ataca de macho alfa, mas olha, nunca se sabe. Vocês estão com cara de quem está–

— SEBASTIAN!

O grito veio em uníssono. Victor estava com o rosto corado até as orelhas e Jackie completamente desacreditado. Sebastian conseguia ser pior que o cowboy.

— Que foi? Só estou brincando. Foi pra descontrair. – Deu de ombros, fingindo estar chateado e aparentemente acreditando que não havia falado nada demais.

— Perdi a fome. – Victor se levantou e percebeu que Jackie fazia o mesmo.

— O senhor inconveniência sempre causa esse efeito. – O cowboy deu uma última olhada no loiro antes de seguir o caminho oposto ao que Victor supostamente seguia.

Quando notou que Jackie já não estava mais ali, o loiro voltou correndo para a mesa e atacou Sebastian com um cascudo, derrubando o chapéu que ele usava.

— Ai! – Reclamou ao sentir dor, fazendo careta e alisando a nuca.

— Que bicho te mordeu pra sair falando uma besteira daquelas? – Victor bateu o pé e atacou Sebastian novamente com outro cascudo.

— Sai pra lá! – Pulou de cadeira, mas Victor o seguiu. — Já disse que foi só uma brincadeira. Por que toda essa irritação?

— Como assim por quê? Você claramente me expôs para aquele cowboy metido. – Os braços estavam cruzados e o rosto ainda vermelho.

— Ah, não! 'Tá falando sério? – Sebastian gargalhou. O amigo era adorável. — Se é sobre a sua sexualidade, Victor, meu querido, isso a gente percebe de longe.

— O que se percebe de longe? – Victor franziu o cenho e se preocupou.

— O seu gosto por machos. – Sebastian era língua solta e não via problemas em falar sobre aquele assunto com o amigo. — O gaydar apita.

— Você não disse isso. – O constrangimento do loiro era evidente.

— O quê?

— Gaydar. – Respondeu baixo, desviando os olhos.

— Olha, Victor. Você 'tá parecendo o infeliz do seu irmão. – Sebastian comentou e a menção fez os lábios se torcerem. — Vai ficar escondendo? Ou virou hétero depois do que aquele infeliz te fez?

— Você é um idiota, Bastian. – O loiro murmurou. Era difícil falar sobre aquele assunto. — E de qualquer forma, você disse que dá pra perceber de longe.

— Me desculpe. – Sebastian bagunçou os cabelos do amigo. — Mas duvido que não tenha reparado naquele físico. – Piscou para Victor e sorriu de maneira maliciosa. — Hein, aqueles braços e aquela bunda. Moço da cidade grande e homem rústico do campo. Um adorável clichê. – O moreno bateu palmas e aumentou o sorriso.

— É melhor você calar a boca ou eu vou tentar te furar com aquele garfo. – Ameaçou. — Chega de clichês na minha vida. E o seu é pior do que o meu. – Piscou também para o moreno e saiu da cozinha, a tempo de não ser atingido por um copo que se partiu na parede.

— Idiota! – Sebastian gritou.

— Além de xingar o meu menino ainda quebra um dos copos. – Tulipa apareceu ao ouvir a confusão. — Dá o fora da minha cozinha antes que eu te espante a vassouradas, garoto!

Sebastian sorriu e, antes de correr, pegou um pão doce e o enfiou na boca.

É, a manhã havia começado agitada.

*

Victor preferiu que Bartholomew lhe mostrasse como andava a fazenda. Não queria ter Jackie como companhia nem por todo o ouro do mundo. Aquele homem era irritante até o último quadradinho da camisa xadrez que usava.

Os negócios iam bem. Claro, podiam melhorar e ele tinha algumas ideias que logo apresentaria ao pai de como expandir os negócios. Passeou pelas estufas repletas de morangos e ajudou na colheita de alguns frutos, mas ele mais comeu do que ajudou. Viu como embalavam e fiscalizou os pedidos que iam para diferentes lugares do país.

— São deliciosos. – Falou com a boca cheia. Estava com uma cestinha com alguns morangos que havia ganhado de um dos colhedores, alegando que ele era uma jovem adorável.

— Depois de tantos anos trabalhando com isso, mal suporto o cheiro. – Bart comentou.

O sol forte havia surgido no início da tarde e queimava a pele de Victor que já estava vermelho por andar livremente sem ao menos um chapéu. Ele quis saber o nome dos trabalhadores e apertou a mão de todos, conversando e fazendo uma pequena entrevista com cada um deles. Ele poderia ganhar a faixa de miss simpatia sem problema algum.

— Quero visitar a capital. – Falou depois de algum tempo em silêncio, somente apreciando o sabor cítrico das frutas arredondadas e vermelhas.

— Você acabou de chegar na fazenda. – Bart estranhou e o olhou com curiosidade. — Esqueceu algo importante por lá?

— Não exatamente. – Encolheu os ombros e fez careta ao morder um morango muito azedo. — Quero trazer meus sobrinhos pra passarem uma temporada aqui. Meu pai tenta disfarçar, mas fica remoendo o fato de ter filhos desnaturados que nem ao menos ligam pra saber da saúde dele. Faz um bom tempo que ele não vê os trigêmeos. – Um suspiro triste deixou os lábios do loiro e Bart compartilhou daquela melancolia. — Pensei em te pedir ajuda. Sabe, ir de carro. É só por um dia. Buscá-los e voltar na manhã seguinte. – Fez a melhor cara de cãozinho abandonado que conseguia.

— E fazer uma surpresa a Ivan. – Bart pareceu pensar por um momento e concordou que o patrão precisava de algo assim para ter mais ânimo. — Mesmo sendo somente por um dia, não posso abandonar a fazenda. — Falou se sentindo culpado. — Se você inventar uma desculpa, ele te deixa ir.

— Vou dizer que a culpa por eu mentir, é toda sua. – Sorriu e parou de caminhar ao chegarem no escritório. — Precisa de uma reforma… – Implicou ao olhar a construção que parecia que despencaria a qualquer momento.

Bart concordou, mas não se importava muito com a aparência do local.

Ao entrar no escritório, Victor não entendeu como alguém poderia trabalhar ali. Ivan não estava muito presente nos negócios devido a saúde e Bartholomew estava em seu lugar, mas o homem não era nada organizado.

— Credo, Bart. Você faz muita bagunça. – O loiro reclamou, chutando uma garrafa de plástico. O lugar era simples. Uma sala ampla com móveis velhos e sem nenhum detalhe. Um terror para Victor.

A mesa de madeira estava repleta de documentos e canetas espalhadas. Parecia que um furacão havia passado por ali.

— Não me dou muito bem com papéis… – Bart admitiu com um pouco de vergonha. — Mas é assim que eu consigo trabalhar.

— Se Tulipa entrar aqui, você é um homem morto. – Victor brincou e recebeu um olhar assustado do mais velho.

— Nem brinque com uma coisa dessas. – Bart falou sério. Ganharia algumas vassouradas se aquela mulher resolvesse bisbilhotar seu lugar de trabalho. Não queria nem pensar. Tulipa era louca. — A moça que cuida da limpava vem aos finais de semana.

— Tenho passe livre pra arrumar essa bagunça? – Perguntou ao pegar uma pasta preta dentro de uma das gavetas da mesa de madeira.

Bart apenas confirmou e pediu licença, dando uma desculpa descarada de que precisava ver algo na fazenda. O fato, é que não queria ajudar na arrumação da sala.

Victor começou a organizar os documentos em pastas diferentes, etiquetando e guardando-as na estante velha que tinha ali. Teve que tirar a poeira dos móveis e retirar o lixo. Tulipa provavelmente jogaria documentos importantes, por isso o pai não a deixava limpar aquela sala.

Já era fim de tarde quando ele terminou a arrumação e pegou a vassoura para varrer a poeira e as bolas de papéis que havia amassado.

— Droga. – A pulseira que usava caiu debaixo da mesa e ele ficou de quatro para tentar recuperá-la.

Não sabia que seria algo constrangedor até ouvir um assobio debochado e sentir uma palmada no traseiro. Bateu a cabeça na mesa, perdeu o ar e piscou uma sucessão de vezes antes de se erguer nos joelhos.

— Bela bunda.

Okay. Os olhos verdes não podiam estar mais arregalados com o acontecimento e com a frase descarada. O rosto logo ficou vermelho e ele se levantou com raiva, não dando espaço para mais gracinhas e estapeando o rosto do abusado.

Jackie quase caiu para trás com a força da mão pesada de…

— Victor? – O cenho se franziu ao perceber o que havia feito. — Onde está a Eva?

O loiro estava irado e repetiu o ato, estapeando a outra face do cowboy, vendo com satisfação os dedos marcados na pele morena.

— Eu deveria te dar um soco, abusado! – Bradou e pensou duas vezes antes de fazer o que tinha vontade.

— Eu jurava que era a moça que cuida da limpeza… – Justificou e se afastou do loiro, temendo levar mais tapas. Tapas que eram mais que merecidos.

— E você costuma cumprimentar a moça da limpeza assim? – O rosto ainda estava vermelho. E piorou quando ele prestou atenção na frase que Jackie havia falado ao dar-lhe a palmada. Acabou puxando a camisa que usava, na tentativa de cobrir os quadris.

— As vezes sim. – Deu de ombros e não se sentiu nem um pouco envergonhado ao admitir aquilo.

Victor pareceu desacreditado por um longo momento até que se deu conta de com quem estava falando.

— Não quero nem imaginar o que andaram fazendo por aqui. – Comentou logo depois, voltando a se abaixar e conseguindo pegar a pulseira. — Você deveria apanhar.

— Você acabou de me bater, caso tenha esquecido. – Jackie falou e reclamou ao sentir o rosto queimar.

— Sim. E você mereceu, mas devia apanhar mais. – Deu de ombros.

— Você me bateu duas vezes. – O cowboy é quem agora estava desacreditado e as mãos se espalmaram nas bochechas quentes.

— Um tapa foi por mim e o outro pela tal Eva. – Falou ainda raivoso. Estava pra nascer homem mais abusado que aquele.

Um silêncio incômodo se instalou entre os dois e Victor deslizou os olhos para a janela, encontrando dois cavalos amarrados na pilastra que sustentava o escritório.

— Você trouxe o Fumaça. Sabia que eu estava aqui. – Afirmou e voltou a encarar o moreno, dessa vez com os olhos estreitos.

— Não, não, eu costumo cavalgar com dois cavalos, mesmo. – Jackie falou mal humorado. — Que mão pesada…

— É só fazer outra gracinha que eu te mostro o quão pesada ela pode ser. – Ameaçou e passou pelo cowboy, empurrando-o com o ombro.

— Aonde vai? – Jackie perguntou com o cenho franzido.

— Pra casa, oras! – Não esperou por mais perguntas, saiu do escritório e caminhou até o cavalo, apoiando o pé no estribo e subindo em Fumaça.

Jackie resmungou um provável xingamento e voltou a esfregar o rosto, seguindo uma caminhada não muito animada até a égua em que tinha vindo.

Trotaram até o casarão em silêncio. A tarde caía em tons de laranja e azul e o sol se escondia atrás das montanhas. Pararam no estábulo e Victor foi o primeiro a saltar do cavalo, mas acabou pisando de maneira errada, quase indo ao chão.

O cowboy desceu para ajudá-lo e só pôde constatar que ele era mesmo um desastrado. O ajudou a se equilibrar, mas foi logo espantado com um empurrão.

— Nem vem, pervertido! – Era melhor manter uma distância segura. — Vou cumprir com a ameaça de te dar um soco.

— Foi mal, senhorita. – Jackie falou ao retirar o chapéu. — Quer que eu me ajoelhe e peça perdão? Você é cheio de frescuras.

Victor abriu a boca em indignação e levou um dedo fino até o ombro de Jackie, cutucando-o dolorosamente.

— Você deveria mesmo se ajoelhar e pedir perdão. Devia beijar meus pés. – Tornou a empurrá-lo, mas dessa vez voltou a se desequilibrar e acabou com as fuças no peito forte do cowboy, aproveitando para socá-lo. — Não me chame de frescurento e muito menos de senhorita, seu ogro!

— Por que estão brigando? – A voz de Ivan se fez presente, assustando os dois.

Victor paralisou e Jackie fez a melhor cara de paisagem.

— Pai? O que o senhor faz por aqui? Deveria estar descansando. – Victor conseguiu disfarçar com um sorriso amarelo.

— Eu estou bem, filho. Preciso de ar puro também. Ainda não me responderam, por que brigavam? – Se havia uma coisa da qual ele não gostava, essa coisa era de brigas e discussões sem fundamento.

— Ninguém aqui estava brigando. Foi só impressão. – O loiro se afastou do cowboy.

— É, somos como irmãos. Tipo irmãos a primeira vista. – Jackie forçou, atrevendo-se a passar o braço pelos ombros de Victor para dar mais realidade as palavras.

O loiro apenas concordou com um sorriso congelado. Sua maior vontade era acotovelar aquele grandalhão, mas se conteve para não deixar o pai estressado.

— É bom ver que vocês estão se dando bem. – Ivan sorriu. — Sabem que odeio brigas e vocês são os únicos filhos que se importam comigo.

Victor acabou suspirando melancólico e Jackie desviou os olhos para um lugar que não fosse o olhar desolado do patrão. Conhecia bem a história dos filhos de Ivan.

— Vamos entrar e jantar. – Ivan falou ao acenar com a mão, esperando que Jackie entregasse os cavalos a Sebastian e seguisse para o casarão.

Victor tomou banho e vestiu o pijama, calças brancas e regata de mesma cor. Estava cansado, mas jantaria com o pai. Quando chegou à mesa, Ivan e Jackie já estavam lá, somente aguardando sua presença. Os olhos verdes encararam o cowboy por um rápido momento e ele não pôde deixar de apreciar os cabelos negros e molhados que caíam pela testa e nem os braços fortes que ficavam à mostra na camiseta simples que ele usava. Viu que o rosto ainda estava marcado e sorriu com aquilo.

— Foco, Victor, foco. — Murmurou. — Ele é só um ogro.

— Disse alguma coisa, filho? – Ivan perguntou ao notar que o loiro movia os lábios, mas sem conseguir entender o que ele dizia.

— Eu estava cantando. – Disfarçou. — Fico tão feliz com a comida da Tulipa que me dá vontade de cantar.

Tulipa o agradeceu e encheu-lhe o prato com uma porção reforçada da macarronada com almôndegas. Jackie apenas fez careta ao ouvir aquilo.

— Bart me disse que você pretende ir a capital. – Ivan puxou o assunto e todos olharam para ele. Até Tulipa parou o que fazia para encará-lo.

— Você mal chegou, menino, já vai embora? – A mulher franziu o cenho e terminou de servir o suco no copo de Ivan.

— Eu só vou resolver uns assuntos da faculdade. – Victor inventou. — Volto rápido. Vão ter que me aturar por bastante tempo.

Tulipa pareceu aliviada e Ivan balançou a cabeça. Jackie estava quieto e não prestava atenção na conversa. Aquela macarronada estava divina.

— Mas Bart não poderá acompanhá-lo. – Ivan retornou. Havia falado com Bartholomew mais cedo e ele havia lhe explicado os motivos de não poder ir.

Victor pareceu desanimado por um momento. Pensou que Bart tivesse comentado com o pai porque tinha mudado de ideia e o acompanharia.

— Tudo bem, irei sozinho. É só me dar as chaves do carro e–

— Jackie pode ir com você.

Foi aí que Jackie prestou atenção no que estavam falando. Na verdade, ele quase engasgou com a almôndega, tossindo e arregalando os olhos. Victor não estava diferente, havia parado de sugar um canudo de macarrão e só esperava que tivesse entendido errado.

— Algum problema com vocês? – Ivan resolveu perguntar ao ver a expressão dos filhos. — Você pode acompanhá-lo, Jackie? Não quero Victor dirigindo por aí sozinho.

— Ah, é… Eu… Claro. – O que ele diria? Não tinha nenhuma desculpa para não ir com o filho do patrão até a capital, infelizmente.

— Pai, é sério, eu posso ir sozinho. – Victor tentou consertar o que o pai havia sugerido, mas Ivan não parecia querer ouvir.

— Você dirige muito mal, filho. – Falou com um suspiro e quis rir quando Jackie quase derrubou os talheres com a informação.

— Pai!

— Mas você é um péssimo motorista, filho. – Ivan riu e recebeu um olhar estreito, voltando a ficar sério. — Jackie irá com você, está decidido.

E a palavra do pai não deixava espaço para contestação.

Notas finais
Sim, a relação deles será movida por provocações e comédia ♥ Sebastian é um doce de pessoa, não é? Gostaram?