Cavalos Selvagens
26 26 "Não era grande coisa"
Notas iniciais

Capítulo 26 – Não era grande coisa
Foi um choque para todos os olhos que focaram no recente acontecimento.
Algumas louças caíram para o chão com a intensidade do corpo que se chocou contra a mesa, resumindo-se em cacos que ao se partirem soaram escandalosos pelo salão.
Brenda, a irmã de Ryan levou as mãos aos lábios e abafou o grito de surpresa ao ver um desconhecido agredir o irmão.
Não demorou para que os seguranças tomassem posição e segurassem o rapaz, o imobilizando e o afastando da mesa, ainda irado.
— Você está sangrando! — Brenda se ergueu em auxílio do irmão, um tanto desesperada por ver sangue manchar o rosto do mais velho.
— Acho que… Ele quebrou o meu nariz! — Ryan chiou pela dor, fazendo careta ao segurar o local ferido. Aquele garoto era doido! Nunca o tinha visto na vida e ele o socava sem mais nem menos! Estava horrorizado, com dor e sequer sabia o motivo por ter apanhado.
— Soltem ele!
A voz de Simon chegou furiosa aos ouvidos de quem estava no aglomerado. Ele ainda sinalizou para os seguranças deixarem Sebastian em paz, vendo a forma como o seguravam, como se ele fosse um criminoso, torcendo um dos braços dele para trás das costas enquanto ele resmungava alguma coisa.
— Ele agrediu um dos convidados, senhor. — O segurança informou, não muito certo se podia mesmo soltar o rapaz que se debatia, ainda raivoso, na tentativa de se soltar.
— O infeliz mereceu! — Foi o que Sebastian alegou, soando dolorido ao ter o braço torcido naquele ângulo ruim. Seria bem a sua cara se, um soco, arrecadasse um de seus braços quebrados. Aquele cara era enorme e parecia um touro, mantendo-o no lugar sem nenhum esforço. Devia ter ao menos socado a cara daquele homem uma segunda vez e, aí sim poderia ser retirado dali como naquelas cenas de filme.
— Soltem ele! — Novamente, Simon se pronunciou, tomando ele próprio a atitude de livrar o mais novo daquele agarre. — Você está bem? — Preocupou-se ao vê-lo alisar o braço maltratado, mas os olhos verdes seguiram para onde Sebastian olhava e se surpreenderam ao verem o mestre de obras com a mão sobre o nariz e a expressão de dor.
Céus…!
A família estava como todos os outros convidados, alarmados, mas ele não entendeu o que de fato tinha acontecido para desencadear aquela ação tão bárbara.
— Está tudo bem! Foi só um mal entendido! — Simon anunciou ao erguer as mãos e pedir para que os convidados se acalmassem. Ele próprio estava tão surpreso quanto todos naquele salão, mas estava certo de que Sebastian tinha bons motivos para fazer o que fez. O conhecia bem, sabia que ele não era um rapaz violento, embora não fosse dono de muita paciência, mas agredir alguém do nada como ele havia feito? Era mais que estranho e queria ouvir o que o tinha impulsionado a agir assim, mesmo que jamais aprovasse a violência, ele próprio havia socado o cunhado quando descobriu o que o maldito fez com o irmão.
Com um suspirar profundo e os dedos que passearam entre os fios claros, ele se aproximou do funcionário e averiguou o estrago feito no rosto dele. Não conseguiu manter a imparcialidade e torceu os lábios.
— Perdão por isso. — Pediu, ainda sobressaltado com aquele espetáculo nada agradável que todos foram obrigados a presenciar. — Por favor. — Fez sinal para a equipe de primeiros socorros que se mantinha em alerta. — Cuidem dele e me mantenham informado. Novamente, peço desculpas. — Estava morrendo de vergonha e também estava preocupado.
— Tudo bem. Acho que não vou morrer… — Ryan brincou, sorrindo dolorido, mas tentando amenizar a situação. Brenda estava certa de que ele poderia sim morrer, sendo dramática ao seguir o irmão e a equipe de socorristas.
— Perdão a todos por esse infeliz acontecimento. Por favor, não foi nada grave. — Esperava mesmo que não tivesse sido ou teriam complicações.
A imprensa estava ali. E tinham muito o que escrever nas revistas agora.
Um a um, os convidados retornaram aos devidos assentos, ainda curiosos, outros ressabiados com o que tinham acabado de presenciar, comentando baixinho sobre o incidente, especulando qualquer possível resposta para tal cena deplorável. Muitos tinham a certeza de que convidar certa “gentinha”, não poderia trazer qualquer benefício ou acréscimo ao ambiente. Esperavam sempre o pior de gente assim, o que ficava exposto nos olhares desdenhosos que lançavam ao responsável por aquele show fora de hora.
— Por que fez aquilo? — Simon perguntou, exigindo uma resposta, embora ainda estivesse preocupado com ele. O tom era baixo, não queria mais escândalos. — O senhor Clarck te fez alguma coisa? — Tudo mudaria se o outro tivesse usado de um comportamento impróprio.
Sebastian estava nervoso. Não queria mais fazer parte daquele jantar, mesmo com a satisfação pela bela direita nas fuças do babaca, ele queria sair dali, mas o dono da celebração merecia uma explicação acerca de sua péssima conduta.
— Ele não—
— Sebastian!? — Victor se aproximou a passos rápidos e atrapalhados, assustado com o que tinha visto. — Não devia brigar. Você se feriu?
Nada era tão claro quanto o olhar que recebeu do amigo notavelmente abalado.
Argh! Por que Victor tinha que ser assim?
* * *
Os ânimos estavam um tanto afetados após o recente acontecimento nada esperado para um jantar fino e elegante como aquele. E tudo piorava quando a cena era protagonizada por um rapaz matuto que agrediu um rapaz distinto.
Sebastian podia sentir os olhos do bando de engravatados em suas costas, como se esperassem que ele fosse surtar de uma hora para outra e eles tivessem novamente o que comentar. Talvez quisessem colocá-lo numa camisa de força. Ricos se impressionavam fácil, tinha sido só um soquinho...
Certo, ele estava errado quanto a agredir alguém, ainda mais assim, em público, e ainda mais ali, na comemoração especial da família Green. Agora, após uns momentos nos quais Simon se preocupou com sua mão de nós avermelhados e doloridos, ele estava sentado no lugar de antes, com o champanhe de antes e com um humor péssimo. Em sua opinião, era melhor ter ido ver o filme do Pelé que estar ali.
Não era como se estivesse arrependido, o miserável mereceu aquele soco! Mas sentia vergonha por chamar atenção para algo ruim. Pediria desculpas aos amigos depois pelo constrangimento. Até mesmo o trio de pinguins o encarava com certa curiosidade e sabia o que eles estavam pensando sobre sua conduta.
Agora ele era uma espécie de índio guerreiro aos olhinhos azuis dos três terroristas mirins. E ao ver o brilho nas íris claras, se sentiu uma espécie de má influência que receberia alguma bronca da mãe. Da avó, ele a conhecia bem, receberia as congratulações por ter socado o embuste do ex de Victor e quase sorriu ao pensar assim, mas continuou como um cãozinho arrependido para as pessoas que o acompanhavam na mesa.
Victor estava inquieto com aquela situação, mas tinha se feito entender ao olhar o amigo com os olhos cheios de um receio palpável. Não queria, de forma alguma, que acontecessem mais coisas assim, como aquela violência gratuita e sabia que era muito melhor que o irmão não soubesse os motivos reais de Sebastian ter agredido um de seus funcionários. Não agora.
Mas não poderia escapar do cowboy. E devia alguma sinceridade a ele, claro, depois daquele jantar.
Simon havia conseguido fazer com que as coisas voltassem ao habitual, mesmo que ainda insistissem naquela espera muda de que Sebastian poderia fazer alguma coisa impensada a qualquer momento, ele sabia que nada assim voltaria a ocorrer.
Tinham manchetes suficiente para aquela noite.
— Boa noite a todos. — Novamente cumprimentou, agora, do microfone do púlpito, no palco onde todos podiam vê-lo. Estava notavelmente nervoso, ainda mais depois de ver um certo alguém socar o rosto do senhor Clarck, mas seus convidados eram elegantes demais para que comentassem qualquer coisa a respeito da confusão. Ao menos, em sua presença. Ao menos, não em voz alta.
As vozes dos homens e mulheres responderam ao cumprimento. Victor se ajeitou melhor na cadeira e dedicou um olhar a figura do pai que mostrava-se como o mais orgulhoso dos seres. Ouviu quando ele comentou que Camille ficaria feliz ao ver onde o filho havia chegado e o viu receber o apoio de Tulipa, que confirmou com um aceno de cabeça e enlaçou a mão a dele. Seu coração se aqueceu com aquela visão que passava uma infindável ternura.
A noite não havia terminado e não seria tão ruim quanto pensou, quando estava no banheiro e teve que encarar o homem que tanto o havia magoado. Não podia se deixar abalar de tal forma a não conseguir apreciar a família que estava unida e a companhia de Jackie que, era mesmo um homem incrível.
E pensando assim, tocou-o por baixo da mesa, cobrindo a mão dele que estava sobre o joelho, unindo os dedos e compartilhando calor. Os olhos castanhos escuros encontraram os seus com um brilho sutil de surpresa e um sorriso muito parecido ergueu os cantos dos lábios. Bem, eles estavam juntos. Não tinham como negar.
— Depois disso aqui, ainda vai ter que enfrentar um almoço com a sua sogra. — Jackie comentou baixinho, sentindo borboletas no estômago ao receber um sorriso tão bonito em retorno. E não era um sorriso de constrangimento, era um sorriso de provocação. Céus, estavam mesmo flertando em público? Ele não tinha maturidade para isso. Queria agarrar aquele loiro logo de uma vez!
— Tivemos alguma agitação hoje. Espero que não ocorra nada assim na casa da minha sogra. — Era óbvio que estavam cochichando, mas era mesmo difícil perceberem o quanto estavam próximos e bobos um pelo outro?
— Não, a minha mãe vai te adorar. — Não era a primeira vez que dizia algo assim, mas pensava que era mesmo impossível não gostar de alguém como Victor, mas teria sim um tempo para falar com a mãe sobre o assunto de estarem juntos. E também ao seu Ivan. É, tinha algumas pessoas para enfrentar antes de algum certo pedido. — Depois que o jantar terminar, a gente…
As atenções foram novamente para onde Simon estava, parecendo ainda mais altivo que o de costume, fazendo agradecimentos aos apoiadores, aos amigos e colegas de trabalho e a todas as pessoas de relevante importância e que impulsionaram o crescimento da empresa.
— A DLG, é hoje uma das empresas no ramo da construção civil, mais prestigiadas de todo o estado e ela não seria nem metade do que é hoje, sem o apoio de pessoas queridas e importantes em minha vida.
Havia feito uma cola para se lembrar de citar alguns nomes, mas agora eram os daqueles que mais importavam e não precisaria ler.
— Minha mãe, a senhora Camille De Leon, é certamente a primeira a merecer todos os méritos desse sucesso que vem aumentando a cada dia. — Era fato que ele sempre se emocionava quando tocava no nome da mãe e ainda mais quando uma foto dela surgiu no telão que contava parte da história da empresa.
Apesar de Cecília ser a única filha de Camille, quem mais se parecia com ela era Victor, nos cabelos lisos escorridos e no sorriso luminoso. Houve uma salva de palmas em homenagem a ela, afinal, a senhora De Leon foi quem mais apoiou a fundação daquela empresa e deu o suor e o sangue para que as coisas fossem para frente.
— É, você se parece muito com ela. — Jackie comentou, notando agora os olhos verdes e úmidos do loiro. Quis beijá-lo na testa, mas reprimiu a vontade. — Porque não acho que tenha herdado a beleza do seu Ivan. — Brincou, vendo que o rosto de Victor quase se tornava uma careta.
— Meu pai é um homem muito bonito. — Victor retrucou, soando em um tom falsamente ofendido, fazendo Jackie rir. — Eu me pareço com os dois. — E assunto encerrado!
Jackie ia implicar um pouquinho mais, mas retornou a atenção ao outro loiro no palco. Estavam parecendo adolescentes conversando em uma importante aula que resultaria em provas.
— Agradeço ao meu pai que, mesmo estando longe e tendo nossas divergências, sempre me foi um homem incrível e que acreditou em mim. — Simon apontou para onde Ivan estava sentado e o pai se ergueu, incentivado pelos filhos. — O senhor sabe que eu o amo e que sou muito grato por tudo. — Declarou, sorrindo ao ouvir os murmúrios dos convidados, indicando o seu momento “fofura”.
— Eu também te amo, filho! — Ivan respondeu, emocionado pelo momento, parecendo ter recebido um dos maiores prêmios em muito tempo. O coração chegava a falhar, mas era de felicidade. Depois de anos estavam bem novamente, como a família que sempre deveriam ter sido.
— Minha mãedrasta, Tulipa, também tem o seu lugar especial aqui. — Simon retomou a fala e Tulipa quase pulou da cadeira ao ouvir justamente aquela palavra
— Eu sou a mãedrasta deles! — Falou enquanto acenava para os convidados e se fazia notar para que não restassem dúvidas quanto ao seu papel naquela bela família. E que as sirigaitas que pretendiam se alistar para futuras esposas de seu Ivanzito, ficassem bem longe depois daquela declaração. — Sou euzinha aqui!
— Acho que eles já entenderam. — Ivan a tocou no braço de maneira sutil. Oras, como assim mãedrasta? Ele chegou a ficar corado e bebeu um pouco do champanhe.
Mas era uma sensação agradável, por mais que o deixasse constrangido.
— Aos meus irmãos, Cecília e Victor que me ajudaram e me ajudam nessa caminhada, posso dizer que são dois amores da minha vida, apesar de achar que as vezes não mereçam tanto afeto.
Simon implicou, fazendo os convidados rirem e entenderem aquela implicância típica de irmão para irmão, embora os citados estivessem ofendidos e pensando numa revanche.
— E… Eu agradeço também, além de todos os colaboradores, os parceiros de anos, os funcionários e essa família incrível que nos tornamos, a alguém que é também muito especial e é um outro amor da minha vida. — Deixou no ar quem poderia ser, pois sabiam que ele já não estava mais com a noiva, claro que mais especulações viriam, mas ainda faria questão de deixar claro com quem estava, só não naquele momento, já que primeiro contaria a família.
Sebastian esperava muito que aquele tal amor, fosse ele ou as coisas ficariam complicadas para certo empresário.
— Ficamos separados por um tempo e eu fui o mais idiota dos homens por achar que estava bem sem essa pessoa do meu lado. — Simon retomou a fala.
Certo, Sebastian estava mesmo recebendo uma declaração?
Os olhos negros estavam cientes do olhar que Simon dedicou a ele por mais de uma vez naquela noite, mesmo que separados como estavam agora. Aquela pieguice! Sentiu o peito aquecer e cavalos trotarem em seu estômago. Ansiedade era o que o definia depois de ouvir e sentir as palavras como a mais doce e macia das declarações.
Ainda teriam uma conversa séria sobre o que o impulsionou a socar um convidado, mas a aura amena e afetuosa era o que importava agora.
— Estamos novamente juntos e você sabe que eu te amo. — Declarou por fim, recebendo novos murmúrios que indicavam o quanto estava sendo sentimental e romântico. Ainda pegaria Sebastian de jeito e, não no sentido bom – também – da palavra, mas depois.
Os convidados buscaram por alguma possível namorada de Simon sentada em alguma das mesas, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Estavam tão curiosos! Até mesmo seu Ivan tentou encontrar alguém, mas desistiu, certamente o filho contaria a eles mais tarde.
— Obrigada a todos pela presença e aproveitem a noite. — Deixou o microfone com um dos organizadores e desceu para conversar com conhecidos e amigos. Tinha começado um tanto nervoso, mas parecia um show de standup no fim, mais leve e relaxado.
— A gente já pode ir embora? — Denver perguntou a mãe, esperançoso de uma resposta positiva. Estava cansado daquele lugar e… — Quero ver o papai.
Era óbvio que os filhos estavam com saudades do pai, mas Cecília sentia o peito comprimir cada vez que ouvia os pequenos perguntando sobre o pai. Era um assunto que ainda não sabia como enfrentar e contar a eles.
— Nós vamos daqui a pouco, querido. — Passou os dedos pelos fios curtos e claros do filho do meio. Ainda era relativamente cedo para irem embora. — Ele também está com muitas saudades de vocês. Vai estar em casa quando chegarmos. — Por enquanto…
E ela ainda queria conversar com alguém antes de retornarem ao lar, doce lar.
— Por que o tio Sebastian bateu naquele homem? — Daniel perguntou, relembrando do incidente de momentos atrás.
Cecília prestou atenção somente em um detalhe… Tio?
Os olhos castanhos buscaram pela imagem do rapaz de pele avermelhada e cabelos negros. Lembrava-se dele quando ainda era um menino, e embora ele fosse alto e estivesse mais velho agora, ainda não passava de um garoto sem muito juízo. Ele podia ter estragado o jantar tão esperado por seu irmão e pela família. E ainda atenta ao rosto dele e pensando na forma como um dos filhos o tratou, lembrou-se de como Simon pareceu terrivelmente alarmado com o modo como os seguranças conduziam a situação.
É claro que o irmão se importaria se um dos homens designados à segurança dos convidados fosse opressor com algum deles, mas ela o conhecia bem e viu algo a mais naquela preocupação toda.
— Índios e homens brancos vivem em guerra. — Denver respondeu, na falta de falas da mãe. — Eu vi naquele filme, lembra?
Daniel e Dilan pareceram ponderar sobre tal fato, as vezes, Denver sabia dos assuntos mais incomuns por passar boa parte das horas vendo tevê. Mas então, se os índios estavam sempre em guerra com os homens brancos como no drama de ação que o irmão mais novo tinha visto… Eles também estavam na linha de fogo? E depois de ver como Sebastian sabia socar um homem que tinha o triplo de seus tamanhos, era melhor que não o irritassem.
Será que conseguiriam arranjar alguma bandeira branca e balançá-la pedindo por paz?
Sebastian sentiu a incômoda sensação de ser observado e buscou pelos olhos de quem o encarava de maneira incisiva. Ah, a mãe das três pestes loiras que o olhavam cheias de receio. Arqueou as sobrancelhas em uma pergunta muda, mas Cecília logo foi puxada para um assunto com uma senhora que se sentou ao lado dela. Tanto melhor, ele nem mesmo era próximo dela e não suportava aqueles olhares de gente rica e julgadora.
Os dedos tocaram a taça quase vazia sobre a mesa e algo interessante entrou em seu campo de visão ao virar o rosto. Os olhos escuros observaram um certo loiro subir para o andar de cima do salão. Ele estava curioso sobre o que poderia encontrar caso também subisse a escada em caracol que era o detalhe mais bonito daquele lugar. E bem, tinha recebido um olhar rápido e significante em sua direção.
O piso superior era muito mais interessante que permanecer ali embaixo.
* * *
Ryan fechou os olhos enquanto um dos enfermeiros fazia um elaborado curativo na região onde fora acertado por um maldito soco. A sorte é que havia uma equipe médica para casos assim e ele não teve muito tempo para sentir dor.
E doía como o inferno ter um punho pesado sobre o nariz!
E uma sorte ainda maior é que não precisaria fazer nenhum procedimento cirúrgico, pois o que havia se deslocado minimamente já tinha sido colocado no lugar, mas mesmo com o analgésico e os preparos médicos, sentia-se péssimo.
Não fazia ideia de quem poderia ser o rapaz que partiu para cima dele como uma fera selvagem, pegando-o de surpresa e acusando-o com os olhos vibrando em ódio. Ele não soube no momento e não sabia até agora, mas juntando algumas peças, chegou a uma conclusão; o garoto de traços indígenas era amigo de Victor e sabia sobre a relação dos dois. Tinha percebido, ainda que estivesse com dor e tendo a irmã desesperada ao lado, que o loiro e ex-namorado, estava chocado com aquele acontecimento, parecendo reprovar a atitude do outro ao encará-lo com os verdes arregalados.
Victor não havia mudado, novamente pensou sobre esse detalhe na personalidade tão calma e gentil dele, porque afinal, merecia aquele soco.
— Aquele garoto doido… — Brenda murmurou. Estava nervosa com aquilo tudo e antes estava preocupada sobre a gravidade do ferimento. — Vamos dar parte dele. Ele te agrediu e—
— Não. — Ryan cortou a irmã, recebendo o olhar confuso dela. Brenda costumava fazer um estardalhaço com coisas mais simples e fáceis de resolver. O nariz estaria novo em folha em alguns dias, não havia motivos para tornar aquilo ainda maior.
— Mas ele é perigoso! — A mulher alegou. — Deve ser um desequilibrado, bater em alguém sem mais nem menos. — Ela só conseguia chegar àquela conclusão como sendo a mais plausível. — Não acho que ele tenha te confundido com alguém, e mesmo se for o caso, ele tem que pagar pela dor e a vergonha que nos causou.
— Eu disse não. — O mais velho reforçou, indignando ainda mais a irmã. — E não é pra tanto, ele não chegou a quebrar o meu nariz. — Mas foi quase, faltou muito pouco e tinha a certeza de que ele lhe daria outro soco se tivesse a oportunidade.
— Ele é um selvagem. — Brenda retrucou, fazendo o enfermeiro quase rir pelo tom emburrado de menina mimada que ela deixou escapar. — Foi uma péssima ideia vir nesse jantar. — Ela nem mesmo havia conseguido um flerte com o homem atraente e de sotaque forte que sentava a frente da mesa onde estavam. Tinha sido uma noite bem frustrante e estava toda produzida para ir embora e dormir, mas era um alívio que o irmão estivesse bem.
Ryan abriu os olhos e encarou o teto. Estava sentado sobre a maca, medicado e com o nariz arroxeado.
Mas, novamente, tinha merecido aquela demonstração de afeto a qual Victor jamais se dignaria a lhe dar.
Depois de tudo, um nariz fraturado não era grande coisa.
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