Cavalos Selvagens

24 24 "Não queremos brigas"


Notas iniciais
Boa noite, galera! Depois de muito tempo eu ressurgi! Perdão pela demora, mas quando o bloqueio ataca... Bem, vamos aos agradecimentos: Obrigada a todos que colocaram a história pra acompanhar, a todos que favoritaram e aos que comentaram nos capítulos passados ♥ Chegamos aos 400 comentários, muito obrigada, de verdade! O apoio de vocês me motiva muito: Maxx, Ru Damas, ShalaNala, Ariane Munhoz, Cintia Yuli, bruna, Nilla, Ghost, Mey Torres, Giovanne Augusto, Sairenjii, Lola Mene, Thay, princesa de jade, LaryChan, Snow Charming e a Babs, a parça e miga que tá sempre me motivando a continuar ♥ Obrigada também aos que vem me perguntar se eu estou bem e se vou continuar com a fic ♥ Cêis são um amorzinho e podem ficar despreocupados, eu vou terminar essa história sim O/ Vocês "amaram" a aparição do Ryan no último capítulo, vamos ver o que vai rolar :3 Boa leitura!

Capítulo 24 — Não queremos brigas

— Você não mudou nada.

Victor não soube dizer se esse fato era algo bom ou ruim. Ele se manteve parado por alguns momentos, encarando o semblante conhecido enquanto apertava os dedos no mármore da pia. Havia dado alguns passos para longe ao ouvir aquela voz.

E não fazia tanto tempo assim desde que ela lhe fizera promessas que o dono nunca chegaria a cumprir.

Talvez ele não tivesse se referido a sua aparência ao comentar sobre uma mudança, já que havia sim, mudado naquele tempo, mas ao fato de seus olhos estarem como da última vez que tinham se encontrado; prestes a transbordar.

— Está tão bonito. — Tão logo as palavras deixaram os lábios, o arrependimento o tomou, mas evitou se desculpar por algo tão banal quanto um sincero elogio. — Como sempre, é claro.

O loiro sempre fora mesmo muito bonito e aquela beleza foi um dos motivos que despertou seu interesse, mas estava claro que ele não desejava ouvir nenhuma de suas falas enfeitadas.

O que era evidente no cintilar dos olhos verdes. O conhecia tão bem...

Victor sentiu os olhos embaçarem e girou o corpo, voltando a encarar o espelho enquanto um misto de vários sentimentos o envolvia e o sufocava. Nunca chegou realmente a pensar no que faria se o encontrasse ao acaso pela cidade. Na fazenda estava seguro, mas como poderia imaginar que o encontraria justamente no lugar mais improvável? Se soubesse que algo assim aconteceria, não estaria ali e provavelmente inventaria uma desculpa qualquer para fugir do compromisso sem deixar a família magoada.

Ele fugiria em vez de enfrentar os próprios sentimentos, algo tipicamente Victor. Sentiu vontade de rir com toda a amargura e rancor que tinha dentro do peito, mas os lábios estavam trêmulos assim como as mãos e o olhar.

Bonito, o infeliz ainda tinha cara para elogiá-lo.

— O que está fazendo aqui? — Finalmente perguntou ao erguer o rosto e pressionar os lábios com força, impedindo-se de gastar mais que o vocabulário necessário com aquele homem. O olhar trêmulo dançou pelo rosto conhecido. Infelizmente, tão conhecido a ponto de saber todas as pintas que decoravam a bochecha e o pescoço dele. Tão conhecido e que trazia tantas lembranças que queria esquecer.

O terno que sempre caía muito bem naquele corpo era preto e, embora simples, o deixava elegante como em dias passados. Os cabelos estavam mudados, mas, ainda assim, o reconheceria mesmo com uma máscara e com os fios de outra cor. E a constatação de tudo o que sentiu ao revê-lo; raiva, mágoa e um coração acelerado e pesado fazendo entorpecer os ouvidos, deram a ele uma única certeza: ainda não o havia superado.

Não havia exatamente uma receita para que se esquecesse do ex ou que jogasse os sentimentos por ele em algum cesto de lixo como fazia com os papéis descartáveis, aquilo levava tempo e seu maior infortúnio era não ter percebido como ainda se sentia em relação a ele.

Talvez…

Talvez porque era tolo e levava tão a sério as primeiras relações. Havia sido com ele que se permitiu aceitar e se entregar de corpo e alma para que, no fim, ele o deixasse como se nada tivesse importância. Havia se iludido em tão pouco tempo, que perdeu o chão ao ouvi-lo dizer palavras tão cruéis.

É que se parasse para pensar, havia sido sua culpa por idealizar muito mais do que ele poderia oferecer. Ou do que ele estava disposto a dar em troca.

Ryan enfiou as mãos nos bolsos da calça social após ajeitar os óculos com a ponta dos dedos. Victor devia odiá-lo e com toda a razão do mundo, mas era tão educado a ponto de continuar ali, sem ofendê-lo ou agredi-lo, algo que ele realmente merecia. Era como havia dito, ele continuava o mesmo.

— Eu quero conversar com você.

* * *

Em meio a todas as pessoas que desfilavam pelo salão, nas vozes que sobressaíam em conversas enfadonhas sobre negócios e no tilintar das taças cheias de champanhe que brindavam à noite, Jackie dava importância somente a um detalhe: Victor estava demorando.

Fazia mais de quinze minutos que ele havia saído, alegando que voltaria rápido pois não queria perder o início do discurso do irmão. A área dos banheiros não era assim tão distante e, a não ser que ele estivesse lidando com algum problema fisiológico, não havia motivos para aquela demora.

Os dedos batucaram na mesa e ele pensou se deveria ir atrás do loiro ou esperá-lo, afinal, não era um segurança ou algo do tipo, era só um homem preocupado e… Preocupado. Quando pensou que se preocuparia com o fato de o filho caçula do seu Ivan demorar para fazer as necessidades? Céus! A cada dia, as constatações o alcançavam com mais força, deixando claro que estava com as quatro patas de um cavalo, arreadas pelo rapaz que confundiu com uma loira bonitona no primeiro encontro. Não havia muito o que fazer quando era atingido pela dose de realidade, somente aceitar que já não era mais o mesmo de antes e que agora tinha um par. Depois de muito tempo ele tinha um par.

Estava mesmo enlaçado.

Tão enlaçado que olhou novamente no relógio e praguejou o fato de toda aquela preocupação o deixar tão ansioso e impaciente. Conhecendo Victor como conhecia, tinha a certeza de que ele estava aproveitando para ajeitar as roupas ou o cabelo, ou até mesmo havia encontrado um conhecido e, por ser extremamente agradável e simpático, não tinha conseguido fugir de alguma conversa sobre como estava indo a vida.

Não havia motivos para ficar preocupado. Talvez só estivesse mesmo assustado com a proporção do que sentia em tão pouco tempo. Ou talvez aquele jantar não tivesse muita importância sem o loiro por perto. Um bando de engomados sorridentes tomando champanhe… Preferia muito mais um churrasco com gente conhecida e simples, mas fazia parte daquela família, não somente por estar com Victor.

Enquanto pensava nos inúmeros motivos óbvios para sentir falta do caçula dos Green, de repente, sentiu-se incomodado, como se alguém o olhasse de maneira insistente. Buscou pelo olhar de quem quer que fosse e se deparou com uma mulher de cabelos castanhos e um sorriso que ele conhecia o significado. Ela era atraente e jovem, mas não se demorou na análise. Se fossem outros tempos, provavelmente a convidaria para sentar-se na mesma mesa ou quem sabe não saíssem para tomar um ar e se conhecerem melhor. Isso no passado. No presente ele ainda queria saber o porquê daquela demora.

Será que estava se tornando aquele tipo de homem o qual não dava espaço para a companhia respirar sem que fosse atrás e verificasse com os próprios olhos que o parceiro estava mesmo no lugar citado? Isso era preocupante, mas não combinava muito com sua personalidade. Só havia algo o incomodando, embora não fizesse ideia do que poderia ser. Essa era a pior parte; imaginar.

— Posso te fazer companhia?

Uma voz feminina soou próxima aos seus ouvidos e os olhos castanhos encontraram um par da cor do mel envoltos por uma delicada maquiagem que ressaltava o olhar e o deixava com um ar provocante, assim como não pôde deixar de observar o decote ombro a ombro que deixava à mostra um par de clavículas muito sinuosas.

Era a mulher que sorria e o encarava com insistência na mesa à frente. Sequer havia percebido aquela aproximação. O que se ateve ao momento, é que o perfume dela era realmente convidativo.

— Eu posso me sentar? — Ela perguntou. Vestia um elegante vestido azul-escuro com detalhes em preto e segurava uma taça com os dedos longos e de unhas pintadas.

Ah, pronto! Seu charme havia atraído uma bela mulher com ares de gente importante e que se interessara a ponto de tomar alguma atitude. O pior é que não gostava de ser um grosseirão, um matuto como gente da cidade dizia, e não ficaria bem dispensar a moça assim. Além do mais, a cadeira ao seu lado estava vazia por falta de Victor e de Cecília com as crianças. Resolveu então apenas acenar com a cabeça e voltou os olhos em direção a área dos sanitários, somente para constatar que não havia loiro algum retornando de lá.

— Eu nunca o vi antes. — Os dedos brancos deslizaram pela borda dourada da taça de maneira despretensiosa.

Jackie quis rir quando ela claramente buscava por algum anel de compromisso em sua mão ao dedicar um olhar atencioso a elas. Ainda não tinha nada assim, mas pretendia ter um dia.

— É porque eu não sou daqui. — Sorriu de maneira gentil. Passar tanto tempo com o Victor, o deixou um pouco mais manso em relação a outras pessoas, por mais que não quisesse conversar, não se mostraria de tal maneira deselegante à pobre moça.

— É do interior. — Ela sorriu, deixando à mostra os dentes brancos e enfileirados. — Sotaque forte. — Os fios de cabelo foram afastados para trás das orelhas com brincos de pérolas e a mão se estendeu ao se apresentar. — Brenda Clarck.

— Perdão? — Jackie franziu o cenho, percebendo somente segundos depois que a mulher estava se apresentando. — Ah… Eu gosto desse nome. — Comentou ao se ajeitar na cadeira. Aquele era o nome de sua avó materna. Tinha certeza de que estava fazendo papel de bobo e parecendo até mesmo tímido frente a uma mulher bonita e interessante, mas ela não o interessava da maneira como devia estar pensando. — Jackie. — Teria tirado o chapéu se usasse um.

— E então, Jackie? — A fala dela era agradável como uma brisa, mas novamente, não estava interessado naquela voz. De repente, certo loiro havia virado uma espécie de parâmetro para todas as outras pessoas. E no momento, preferia uma voz masculina soando em seus ouvidos. — Veio acompanhado? Digo, uma companhia feminina.

Eis a questão. Sim, ele estava acompanhado, mas não se sentia à vontade em expor o companheiro e o que tinham, já que ninguém ali sabia que estavam juntos, mas se dissesse que não, Brenda entenderia que era bem-vinda e isso poderia gerar alguma situação constrangedora e desagradável entre Victor e ele.

Embora um Victor enciumado, fosse uma imagem atraente de se ver. E quase riu com o “companhia feminina”. Seu loiro era chamado de senhorita, mas definitivamente não era uma mulher.

— Algo assim. — Que espécie de resposta elaborada era aquela?

Brenda perdeu o sorriso ao ouvir a resposta. Devia ter imaginado que um homem assim estaria acompanhado, mas não conseguiu ficar na mesa enquanto o via ali, somente com a família, mas antes, lembrava-se de ter visto uma moça loira de terno e cabelos presos. Certo, não sabia se era mesmo uma mulher cheia de estilo ou um rapaz com traços suaves.

— Eu não imaginava. — Sorriu sem graça, dando uma desculpa pouco convincente. — Espero que ela não se importe.

Ela… Jackie suspirou, incomodado com o pronome feminino. Tão incomodado a ponto de não se importar em dizer a uma recém-conhecida o que disse a seguir:

— Não é “ela”. — Esclareceu, vendo-a arregalar os olhos e parecer desacreditada. Alguns não se importavam, outros se assustavam, outros descarregavam discursos de ódio. Brenda logo voltou a sorrir.

— O loiro de terno escuro e cabelos longos — Ela comentou para confirmar. —, é mesmo muito bonito. Com todo o respeito. — Ergueu as mãos.

Jackie se aprumou na cadeira. Bem, se era para falar sobre Victor, ele podia dar alguma atenção a nova e simpática conhecida.

* * *

O olhar trêmulo ainda encarava a porta por onde Ryan havia saído, mesmo após longos minutos que ele o deixou só. Sentiu que, se não lavasse o rosto, provavelmente não conseguiria esconder que esteve prestes a chorar. O perfume dele ainda impregnava o ar e as falas ainda ecoavam pelo cômodo. Devia ter se recusado a ouvi-lo. Devia ter dado as costas ou simplesmente o ignorado, como sempre imaginou que faria caso o encontrasse depois de tudo.

Mas bastou que o encarasse nos olhos para que perdesse qualquer coragem. Todo o rancor misturado à raiva e amargura que se permitiu sentir durante aquele tempo, pareciam ácido queimando no estômago e levando um gosto amargo à boca. Não havia como ignorá-lo.

Cobriu o rosto com as mãos antes de puxar o ar e virar-se para o espelho novamente, odiando o reflexo. Girou a torneira e levou as mãos em concha para que a água limpasse aquele estado vergonhoso o qual se encontrava. Agora, depois daquela conversa, sentia-se culpado e desejou ficar ali até que o jantar terminasse. Perderia a confraternização, o discurso do irmão, a alegria no rosto dos familiares e amigos e a companhia de Jackie.

Jackie...

Tolice! Não poderia passar a noite toda ali enfiado em um banheiro! Com esse pensamento, foi impulsionado a pegar algumas toalhas de papel e secou o rosto, tentando recuperar a compostura de antes.

Por que raios Ryan tinha que aparecer? Por que raios havia ficado tão abalado com a presença dele? Evitou encontrar uma resposta ou sentiria-se ainda pior.

— Victor?

O corpo estancou no lugar quando a voz de Jackie o chamou. Ainda não estava seguro de sair e se mostrar, mas a noite reservava muito mais que apenas um jantar em família. Deixou um suspiro abandonar os lábios e descartou os papéis no cesto, buscando pelo melhor sorriso antes de se virar e encontrar o cenho franzido no rosto preocupado do mais velho.

— Você estava demorando… — Jackie justificou o fato de estar ali. Não era para ser estranho, era? Ainda não tinham um relacionamento oficializado, mas estavam a um passo disso. Bem, era esse o seu pensamento e sua vontade. — Pensei que talvez estivesse passando mal.

Aquela preocupação era tão fofa e tão bem-vinda. Aqueciam seu peito aqueles gestos, por mais singelos que fossem. Victor não evitou sorrir ao pensar que talvez não o merecesse, tão bom companheiro ele se mostrava ser, mas não disse nada. Ficou somente o encarando e sem coragem para sair dali. Novamente a coragem lhe escapava.

— O que aconteceu?

A voz de Jackie soou mais perto, assim como os passos que se aproximaram e o fizeram apertar os dedos no tecido do terno. Estava claramente desconfortável, mas como diria o motivo de tal desconforto? Não sabia nem mesmo por onde começar sem dar a entender o completo oposto do que gostaria de passar.

— Victor? — Os dedos calorosos o tocaram no queixo, contornando a mandíbula e fazendo-o erguer o rosto. Não era impressão sua que ele estava fugindo de seu olhar.

Era bem óbvio que havia algo de errado com o loiro. Ele estava radiante feito um raio de sol quando ainda estavam no salão, bem diferente de como se mostrava agora, com uma expressão culpada e com os olhos verdes decorados em conflitos que ele gostaria muito de desvendar, embora sentisse um incômodo no peito ao imaginar o que poderia ser.

— Foi só uma dor de estômago. — Foi o que Victor disse após uns momentos de silêncio. Era péssimo em disfarçar e amargurou esse fato. Não queria de forma alguma estragar a noite com as lamentações e se mostrar tão abalado como realmente se sentia. Estavam ali para comemorar uma vitória entre amigos e familiares e seus sentimentos seriam mantidos em segredo até o fim daquele jantar.

Ou quem sabe, ele não devesse contar nem mesmo depois.

Seria melhor que Jackie não soubesse ou ele poderia interpretar a situação de forma errada.

Mas havia alguma outra forma de interpretar aquilo? Era apenas um esbarrão com o ex que não via há algum tempo, somente isso. Certo?

O cowboy analisou as falas contidas e a expressão no rosto antes tão suave. Conhecia Victor e sabia que havia algo que passava bem longe de uma dor no estômago o preocupando, mas também sabia que não conseguiria ouvir dele nada mais que aquela desculpa boba. Ele devia achar que era melhor não preocupá-lo com os problemas e, mesmo que pudesse confrontá-lo ao pedir sinceridade, afinal, estavam juntos como o próprio Victor havia afirmado, decidiu que faria as perguntas mais tarde, quando estivessem a sós e pudesse ouvi-lo e entender o que o estava preocupando.

— Então… 'Tá tudo bem agora? — Sondou ao buscar por alguma sinceridade no olhar trêmulo e vago. Imaginava que algo extremamente desconfortável havia acontecido, mas… — Alguém tentou te agarrar ou algo assim? — Foi direto, incomodado com o desconforto que o loiro exibia ao desviar os olhos. Talvez ele estivesse constrangido com algum engraçadinho que o confundiu ou tentou se impor. Se Victor confirmasse, ele sairia daquele banheiro direto para o filho da mãe e se desculparia depois por ter comprometido o jantarzão dos pinguins granfinos.

— Não. — A resposta veio sem muita flexão. Não queria se mostrar alarmado e simplesmente dizer que nada havia acontecido para tal alarde, mas também era um péssimo ator. Diziam que era transparente nos sentimentos e ele concordava. — Foi só um mal estar. É verdade. — Buscou se aprumar ao ajeitar o terno como se tirasse alguma poeira invisível das mangas. Disfarçar, não era mesmo o que sabia fazer. Era péssimo em tudo que envolvesse sentimentos.

E dada a expressão do cowboy, sua tentativa, além de inútil, era cômica e digna de pena. Mas mesmo assim, continuou a agir como se nada demais houvesse acontecido.

— Não queremos brigas essa noite, certo? — Fingiu um sorriso implicante, trazendo a voz mais leve ao se posicionar ao lado de Jackie. Ainda tinha as mãos trêmulas, mas as enfiou nos bolsos da calça, apertando-as em punho. — Cowboy?

As sobrancelhas claras se franziram quando uma confirmação imediata não veio e se arquearam em surpresa quando as mãos foram trazidas para fora dos bolsos e seguradas entre as do mais velho com certa ternura.

Os olhos castanhos refletiam um brilho curioso e que lhe passava segurança. Era um fato que sentia-se seguro ao lado dele, mas havia também a confiança. Tinha verbalizado o "estarem juntos", mas não conseguia dizer com quem havia se encontrado. "Jackie, eu estava com o meu ex, e eu senti umas coisas, sabe?" Como diria algo assim? Nem mesmo sabia o que realmente sentia e não queria precipitar as coisas.

No fim, pensou que não merecia mesmo aquele homem.

— Pode me contar qualquer coisa, sabe disso. — O tom sério veio com um afago nas mãos frias. As suas estavam quentes e eram morenas e maiores, diferindo das brancas e suaves. Gostava, particularmente daqueles contrastes.

— Jackie, eu sei—

— Confia em mim? — Perguntou ao interromper a fala do loiro, encarando-o incisivo nos verdes claros e apreensivos.

Como Victor não confiaria? Embora não quisesse comentar sobre o assunto que ainda o deixava desconfortável, confiava no cowboy para dizer qualquer coisa e já havia provado isso ao contar sobre parte do passado. Ele só… Precisava de um tempo. E saber como iniciar aquele assunto.

— Eu confio. — Foi o mais próximo de um sorriso aliviado aquele que enfeitou seus lábios. Eram sensações tão diferentes as que sentia por Jackie e as que sentiu quando Ryan o reencontrou. Estava sendo tolo, afinal, o cowboy era para quem todos os seus sentimentos estavam direcionados agora. — Pode ficar tranquilo. Eu estou bem. — Soltou as mãos para ajeitar os fios castanhos no lugar, aproveitando para roubar um beijo dos lábios dele. — Mas agradeço a preocupação. É tão bonitinha.

Aquele sim era o tom que queria ouvir desde que chegou ali. Algo mais descontraído e leve como o sorriso cheio de dentes brancos e perfeitos que via agora. Foi como se tirasse um cavalo do peito. E não contente com o beijinho que recebeu, puxou-o pela cintura e colou a boca na dele, fazendo-o caminhar até a porta para que a passagem de um novo convidado fosse impedida.

Não era sua culpa se não conseguia resistir ao jeitinho absurdamente adorável daquele loiro, mesmo que o local não fosse o mais apropriado para tais demonstrações de afeto. Era só um beijo e com menos ardor do que gostaria e mais rápido do que deveria.

Os lábios se separaram em um sonoro estalo. O rosto de Victor estava vermelho pelo constrangimento de sempre e por sua barba acariciar a pele clara, a boca rosada e úmida era uma tentação a parte, entreaberta em busca de fôlego.

— Não me olhe assim… — Recomendou ao buscar ajeitar novamente os cabelos que insistiam em cair nos olhos. Um chapéu fazia mesmo muita falta!

Olhar assim? Victor se questionou mentalmente sobre a qual tipo de olhar o cowboy se referia, pois estava certo que o encarava com espanto por todo aquele vigor exigido no beijo.

— Não me beije assim! — Replicou ao se desgrudar da porta. Acaso Jackie sabia ou tinha alguma ideia sobre as dúvidas que se passavam em sua cabeça e estava impelido a saná-las com beijos?

— Assim? — O cowboy questionou, parecendo um tanto ofendido. — Assim como? — Já tinham se beijado e ido até um pouquinho além, se bem lembrava. Certo, jamais esqueceria daquela noite. E estava com saudades, poxa.

De rosto vermelho e lábios marcados e sensíveis, Victor se recompôs. Pensou que o misto de sensações tinha se exaurido somente naqueles momentos no banheiro de um salão de festas. Estava um pouco desnorteado com o final da ida ao toalete, mas precisava voltar e curtir o jantar ao lado da família. Era para isso que estava ali.

— Assim! — Tentou explicar ao gesticular com as mãos, não obtendo sucesso. — Com esse fogo. — Sussurrou, como se dissesse algo proibido.

Ah, sim, fogo Jackie tinha de sobra. Um risinho de puro convencimento surgiu e agora estava pronto para ir. E claro, não deixou de desejar que o jantar não se estendesse por toda a noite, pois queria aproveitá-la com o loiro que era facilmente desestabilizado com um beijo.

— Anda. — Tocou-o novamente na cintura, fazendo-o caminhar para fora do banheiro. — Ou eu não me responsabilizo por suas roupas amassadas e por seu penteado desfeito.

Os olhos verdes rolaram nas órbitas, discordando do que provavelmente não aconteceria no banheiro. Ou talvez sim… Céus! Que tipo de pensamentos eram aqueles? Qualquer um poderia pegá-los em flagrante e aos beijos, não podiam se descuidar assim. Mas era realmente complicado quando somente de olhar, as mais proibidas vontades surgiam e consumiam seu juízo.

— Em festa de rico também tem desses barracos? — Em certa altura, Jackie perguntou, atraindo a atenção de um Victor meio deslumbrado encarando seu rosto.

Os convidados pareciam alarmados com o que havia acontecido, mas entenderam pouco até avistarem Sebastian no aglomerado e Simon pedindo para que os seguranças se afastassem.

Notas finais
Gostaram? Espero muito que siim! Tivemos a continuação daquela cena do último capítulo, com o menino Ryan, carinhosamente chamado de embuste por todos vocês XD e então? O que acharam dessa parte? O Victor ficou um tanto abalado com a presença do ex :x E opa, e essa tal de Brenda que é a irmã do Ryan e queria justamente o Jackie?! Tudo em família, migos! Mas o cowboy mandou logo a real e falou que tá acompanhado. Eu amei ele ter deixado claro que 'tá com um moço e não uma moça ♥ Ai que orgulho ^^ E enquanto o Jackie ficou de conversa com a Brenda, o Victor tava lá no banheiro, tendo um "vale a pena ver de novo" com o ex... E no fim, parece que 'tá tudo resolvido né? Victor é péssimo em disfarçar, Jackie é um boy todo preocupado com o amorzinho dele e nem consegue ficar longe desse loiro. E eita que teve um barraco ali no fim! Se o Victor não quer brigas, o Sebastian quer :x hohoho Espero muito que tenham gostado! Vejo vocês no próximo!