Cavalos Selvagens

15 15 "Felicidade demais, é questionável"


Notas iniciais
Boa noiteeee! Demorei? Mas cheguei! Obrigada a todos os favoritos, acompanhamentos e a todos que comentaram ♥ BBAllen, Nebulosa, Fujoshi n alma, JuhLucena, ShalaNala, Madame Górgona, Babissf, Irmã do Silêncio, Cintia Yuli, Gowther, Deby Costa, Nathallie Donson Matterazi, Nilla e Angel Leto ♥ Cêis são demais! Boa leitura! Espero que gostem do capítulo!

15 — Felicidade demais é questionável

Cecília jogou as chaves douradas sobre a mesa e descartou a bolsa de grife sobre o balcão da cozinha. As várias sacolas de compras foram carregadas para o quarto por um dos empregados. Sempre que se sentia mal, sem muita vontade de seguir ou fazer coisas mais simples, estourava os limites dos cartões do esposo, isso a ajudava a recuperar o ânimo e a disposição.

Era fútil, mas funcionava.

Ela era fútil.

A casa estava no mais pleno silêncio. Claro, os filhos estavam longe e ela os havia descartado sem o menor pesar. Eles eram um verdadeiro furacão e reviravam todos os cômodos, ao menos, estaria livre daquelas risadas e brincadeiras que quase destruíam toda a casa.

Suspirou ao pensar no quanto era uma mãe ruim. Os trigêmeos vieram de um desejo de segurar o marido, não da vontade de ser mãe. Ela só não esperava que a gravidez acabasse com o corpo e a autoestima. Havia ganhado três filhos e perdido o marido.

E o pior era saber que, se não agradava visualmente o esposo, sabia quem o agradava. E aquela ainda era uma ferida não cicatrizada.

Quando a mãe faleceu, ela acolheu o irmão caçula e o levou para viver ali. Tinham muito espaço e Victor era só um menino que precisava terminar os estudos e ter um responsável ao lado. Ele era adorável. Ela brincava que ele tinha rostinho de boneca e amava a companhia dele.

Ocorreu tudo bem durante um longo período, mas quando os trigêmeos nasceram, foi aí que as coisas mudaram.

Ela vivia cansada, com olheiras e estava acima do peso. Tinha empregados para cuidar da casa e babás, mas queria ficar o mais próximo possível dos filhos. Victor a ajudava e aconselhava, ele sempre foi bom naquilo. Apesar da idade, era um garoto muito esperto e prestativo.

Jean, o marido, era uma ótima pessoa também, por isso o havia escolhido para dividir a vida. Era ele quem levava Victor aos cursos e o ajudava quando tinha dificuldades em alguma matéria. Ela gostava de ver como eles se davam bem, como pareciam uma família.

Essa sensação, não durou muito.

Em certa noite, uma noite comum em que ela desceu para chamar o marido para dormir, foi nessa noite que tudo aconteceu.

No momento em que pisou na cozinha, ela os viu.

A primeira coisa que sentiu, foi que cairia por não conseguir sustentar o peso do corpo, a segunda, foi a decepção. Nunca, em toda a vida pensou que o irmão, aquele a quem ela tratava como um filho, fosse traí-la daquela maneira tão baixa.

E toda aquela cumplicidade e sorrisos entre ele e o marido, fizeram sentido. Deixaram de ser inocentes e desvendaram seus olhos para o que realmente acontecia quando ela não estava ali.

E em um rompante de fúria, quando enfim conseguiu sustento para caminhar em direção a eles, foi que as coisas pioraram.

Ela puxou o marido pelos ombros, fazendo-o notar sua presença somente naquele momento e atacou o mais frágil dos dois. Primeiro o puxou pelos cabelos, naquela época, eles não passavam dos ombros, e apertou os dedos nos fios macios, sentindo a ira tomar conta de todos os outros sentidos. Ela ergueu a mão e bateu uma, duas, três vezes. E teria desferido outra bofetada naquele rosto malditamente liso e bonito, mas o pulso foi bruscamente segurado por um Jean que conseguiu tomar o controle da situação.

Cecília se irritou ainda mais. Como ele poderia defender o amante? Ela empurrou o irmão para o chão, vendo as marcas na pele branca e o sangue grosso que descia pelo nariz. Ele tinha lágrimas nos olhos e uma decepção ainda maior permeava às íris esverdeadas.

Ela não se importou.

E ela o expulsou, feito um cachorro vira-latas, sem ao menos fazer questão de ouvir sua versão. Ela só o queria fora de casa o mais rápido possível.

Ele era doente! Doente com aqueles gostos nojentos e aquele jeitinho de bom moço.

E com isso, começou a beber, pois encontrava na bebida, uma maneira de se curar da dor, do remorso, da mágoa. Ela sempre esquecia dos problemas e das questões que se fazia ao encarar o espelho. Doía demais saber que o marido preferia o irmão a ela. E por muito tempo, odiou aquele rosto, aquele corpo, aquela voz e a maneira como ele parecia encantar a todos ao redor.

Mas o pior, era a culpa. Havia batido nele, com força, com raiva, com nojo. E não se perdoava por isso.

E Victor nem mesmo foi capaz de odiá-la. Ele continuou tentando se reaproximar, sendo o caçula incrível que sempre havia sido, e isso a deixava pior. Porque Victor era uma pessoa melhor do que ela, e havia cometido uma injustiça.

Além da agressão física, palavras cruéis foram despejadas sobre ele. E ele não merecia ouvi-las.

O que a orientação sexual mudava no fim das contas? Ele era alguém ruim somente por se assumir?

E mesmo depois de tanto tempo, ainda o maltratava, pois não era capaz de se desculpar, de se jogar aos pés dele e dizer o quanto havia sido injusta.

Ela realmente não era uma boa pessoa.

A família quase se desmanchou. E a culpa era sua. A culpa do primeiro infarto do pai. A culpa da depressão do irmão. Do afastamento da família.

E a bebida a ajudava a esquecer tudo isso.

Estava só, em vários sentidos. Havia uma garrafa escondida em um dos armários e a bebida alcoólica seria sua companheira naquele dia.

Porém, antes que alcançasse a garrafa de marca cara e famosa, uma mão se fechou em seu pulso e a impediu de concluir a ação.

— Precisamos conversar.

Olhos de um verde mais claro que os de Victor, foram encontrados quando virou o rosto.

Ali estava parte de sua culpa também.

* * *

— São aquelas máquinas cheias de frescuras? — Jackie observou os "robôs" que haviam chegado há pouco tempo, no comecinho daquela manhã.

— São essas coisas que vão substituir nosso trabalho? — Um homem de meia idade perguntou em tom seco, torcendo os lábios para as novas residentes da fazenda. Ele usava chapéu e lenço. Os olhos estavam apertados devido a idade e os braços estavam cruzados sobre o peito. Uma pose altiva que esperava por uma convincente resposta.

Victor respirou fundo e deu uma última olhada nas colhedeiras. Eram um ótimo investimento e não voltaria atrás. Todos sairiam ganhando com os novos serviços que a fazenda prestaria.

Ele havia se preparado para os vários questionamentos e problemas que poderiam surgir, mas até as mãos suavam agora, e a despeito do calor, o mormaço não tinha nada a ver com isso. Até mesmo o coração estava acelerado. Certo, Victor, você consegue.

— Aposto que isso vai estragar a colheita. — Uma mulher de avental e expressão carrancuda impediu que o loiro falasse. Logo após, o burburinho foi geral.

Todos começaram a falar ao mesmo tempo e a questionar à natureza daquela troca desrespeitosa. Falavam tudo e nada ao mesmo tempo, mas o assunto era somente um: máquinas jamais seriam tão eficientes quanto as mãos humanas.

— Essa sucata quer roubar o nosso emprego! — Gritou um deles.

— Não aceitaremos esse descaso! — Exclamou outro.

— Será que vocês podem ficar quietos e ouvir?!

Jackie subiu em uma parte terrosa mais íngreme, conseguindo a atenção dos colegas de trabalho e deu espaço para que o loiro subisse também. O local agora era uma espécie de púlpito.

— Vai ficar do lado de quem, Jackie? — O primeiro homem, o de chapéu, direcionou a pergunta ao cowboy e todos pararam para esperar pela resposta dele. Se estivessem com pás nas mãos, seriam ameaçadores.

— Desde o início essa ideia foi minha! — Victor finalmente tomou a palavra ao erguer as mãos, apaziguando a situação. Ele também usava chapéu e estava com os cabelos amarrados.

— Claro, gente da cidade menospreza os caipiras.

— É fácil falar quando se é filho de gente rica!

Os lábios do loiro se comprimiram ao ser acusado de tal preconceito ou de se impor de sua condição social. Logo ele, preconceituoso com o próprio povo… Quase riu em amargura. E também jamais havia usado o status para se dar bem ou passar por cima dos outros.

— Eu disse que não seria fácil. — Jackie comentou ao suspirar. — É o que eles sabem fazer desde sempre. 'Cê sabe. 'Tão assustados.

— É, eu sei e entendo. — Sentir-se ruim por algo bom era tão ele. Havia tomado uma decisão para melhorar a mão de obra, mas quem disse que seria fácil? Nada em sua vida fora assim. — Ouçam bem! Ninguém aqui vai ficar sem trabalho e as máquinas não serão instaladas hoje.

— Só estão dando um tempo pra gente se acostumar. Vão mandar a todos embora. — O comentário veio para causar balbúrdia novamente.

— Pessoal! — Victor não permitiu que Jackie acalmasse os brados dos homens e mulheres. Ele estava ali para isso. — Estejam cientes de que ninguém será mandado embora. Todos vocês são importantes. Abriremos um novo setor em breve e até contrataremos mais gente. Sei que essas máquinas parecem ameaçadoras, mas não são elas que irão tirar o trabalho de vocês. Têm a minha palavra. Estamos todos juntos nessa nova jornada.

— Victor para presidente. — O cowboy murmurou ao lado, quase batendo palmas. — Belo discurso.

— Eu teria o seu voto? — O loiro perguntou ao dar um discreto sorriso.

— Eu usaria até a camiseta, espalharia os santinhos e entraria pro partido. — Jackie já era expert em deixar aquele rosto tão bonito vermelho.

— Não dá pra acreditar.

— Eu não tenho pra onde ir. — Preocupou-se uma mulher, ganhando a concordância de boa parte dos outros trabalhadores.

— Eu tenho aqui o projeto dos novos trabalhos. — Victor balançou uma pasta negra no ar e a entregou a um dos homens. — Vamos discutir cada detalhe juntos. E mais uma vez, ninguém vai perder o emprego.

As folhas fizeram barulho quando passaram de mão em mão. Alguns pareceram interessados, mesmo que receosos, mas já era um bom início.

Teriam produtos fabricados ali mesmo, não venderiam somente a obra-prima. Flor de Ouro seria uma marca de tudo o que se pudesse fazer com morangos. Cresceriam no mercado e todos aqueles homens e mulheres seriam os responsáveis por essa conquista.

Bartholomew surgiu naquele momento e começou a explicar algumas coisas, mantendo a calma dos colhedores. O administrador havia concordado com a ideia que ao primeiro instante pareceu descabida. Ele temia até mesmo uma rebelião, mas o caçula de Ivan era bom com as palavras.

Do outro lado, o galpão estava em reforma e os operários deram início aos trabalhos. Pintura, instalação de ar-condicionado, colocação de piso e balcões. Se tivessem a concordância dos colhedores, tudo seria perfeito. A realização de um sonho.

— Posso dizer que quase fui linchado? — Victor perguntou retórico ao ir para o chão. — Eu não tremia assim desde a apresentação do TCC.

Jackie não sabia o que era o tal TCC, mas sabia que o loiro era ótimo com as palavras.

— Mais uns cinco discursos igual a esse e eles se acalmam. — Zombou ao sorrir dos olhos verdes e estreitos que recebeu.

— Anda, cowboy. Você tem uma obra para supervisionar. — O acompanhou em direção ao galpão.

Tudo parecia correr tão bem, que Victor temeu que algo ruim estivesse por vir.

* * *

As unhas compridas e pintadas de vermelho se chocaram contra a porcelana branca decorada em dourado. Era possível até mesmo ouvir o compasso do relógio naquele duro silêncio entre irmãos.

Irmãos que não conversavam há tempos.

Como haviam conseguido?

Durante a infância, eram como gêmeos; onde um estava, o outro estava lá também. Simon defendia a irmã no colégio, ia buscá-la ao fim das aulas de balé e sempre saíam em grupo, mesmo ele sendo três anos mais novo, sempre cuidava de Cecília como se fosse ele o mais velho. Com Victor não era diferente, ambos se encarregavam de cuidar e paparicar o caçula, principalmente quando a mãe padeceu de uma terrível doença.

Eram eles três e o pai, mas Ivan estava no interior e recusava-se a deixar a fazenda, mas eram unidos, embora houvesse as divergências. Eram uma família de verdade, mesmo longe da perfeição das propagandas de manteiga, tinham problemas e estavam juntos para se apoiarem.

O que havia acontecido?

Davam mais atenção aos negócios do que a família...

— Veio aqui pra me julgar? — Cecília rasgou o silêncio com a voz rouca e baixa. Estava parada, encostada no balcão da cozinha, olhando para as mãos enfeitadas por anéis. Todo aquele ouro parecia não ter valor de repente.

Talvez sentisse vergonha? Remorso? Raiva? Talvez...

— Não, eu não vim aqui pra isso. — Simon se recostou em uma cadeira, o braço estava apoiado sobre a mesa e usava roupas despojadas, como se estivesse de folga do trabalho. Era incomum vê-lo sem a habitual gravata e os ternos, ele parecia sempre tão sério daquele jeito engomado, mas ali, ele era o irmão, o amigo, o confidente.

— Fiquei sabendo que visitou o papai. — Ela suspirou ao afastar a xícara com chá branco e limão, fazendo barulho pelo tampo de granito. Podia ver o próprio e decadente reflexo no líquido. — Ele está bem? — Podia parecer desinteressada, mas não era.

— Ele tem a saúde frágil, você sabe, mas eu o achei bem melhor do que uns anos atrás. — Foi a vez de Simon batucar os dedos na mesa. — Fizemos as pazes. Você devia tentar. É uma sensação gratificante.

— Você não deve se lembrar, mas ele disse coisas que—

— Foi em um momento de raiva. — Simon cortou o discurso já tão conhecido. — Ele jamais diria coisas assim se não estivesse tão nervoso. E você sabe que errou.

— Viu? — A loira riu em amargura. — Veio jogar o passado na minha cara. E se foi somente pra isso, pode ir embora. — Ela tentou sair da cozinha, mas teve o pulso seguro uma segunda vez e suspirou. — Eu não quero brigar.

— Eu também não.

Eram tão parecidos, até mesmo em gênio, mas estavam separados por um abismo. Abismo que o loiro do meio pretendia fechar naquele dia.

O silêncio pairou entre eles novamente, mas dessa vez era algo que beirava a cumplicidade.

— Eu não sou uma boa pessoa... — Cecília baixou os olhos e sentiu vontade de chorar. Há quanto tempo não chorava ou era sincera consigo mesma?

— Você é. Um pouco mais chata e confusa do que a maioria, mas é. — Os dedos correram pelo rosto maquiado da irmã e afastaram uma mecha loira para trás da orelha.

— Acha que ele me receberia? — A apreensão era palpável no tom, mas a mordida no lábio inferior deixava o sentimento ainda mais evidente. Uma mania que compartilhava com o irmão caçula.

— Claro. É só você deixar o orgulho de lado. — O loiro respondeu com sinceridade. — Ele não é nem um ditador militar e nem o homem mais rancoroso da cidade, é só o nosso pai.

— E o Jean? — Cecília desviou os olhos dos claros do irmão. — Também? Ou ele não poderia entrar? Ficaria feito um cão do lado de fora da casa.

Simon suspirou. Ele próprio tinha mágoa, raiva daquele homem que era, infelizmente, seu cunhado. Não era um rancor que queria eternizar, mas era difícil de esquecer ou perdoar, mesmo que a vítima da situação houvesse perdoado o francês, ele ainda não sentia que conseguiria. Não era nenhum santo para sair perdoando por aí.

— Talvez seja pedir demais por isso...

No fim, alguns rancores permaneceriam como cicatriz na pele de cada um.

E quando se abraçaram, foi como despertar todos os bons sentimentos de antes.

* * *

— A gente vai ter que vestir roupa de pinguim?

Aquele trio já era um clássico por toda Flor de Ouro. Eles eram verdadeiros terroristas, mas no fim, eram somente pequenas criaturas com bochechas rosadas e cabelos estilosos. E tinham apenas seis anos...

— Pinguim? — Tulipa perguntou. O dono da pergunta havia sido o mais espevitado; Denver. — Terno e gravata? É isso?

— Roupas de velho.

— Não são roupas de velho. São as roupas do Batman. — Daniel retorquiu com a boca cheia de bolo de abacaxi.

— Não, são as roupas do Bruce Wayne. Tem muita diferença. — Dilan corrigiu. Se fossem as roupas do Homem-Morcego, seriam muito mais elegantes e parariam a festa. Por que, simplesmente não podiam ir fantasiados? Gente grande tinha tantas regras chatas...

— Vocês vão ficar umas gracinhas com roupa social. — Tulipa queria apertar aqueles três e não soltá-los mais. Eram tão fofos quanto perigosos.

— Você também vai ficar uma graça naquele vestido, Lipa.

A mulher e as crianças olharam em direção ao recém-chegado. Sebastian aproveitou para beliscar um canto do bolo com glacê.

— Eu nem sei se eu vou. — Tulipa retrucou ao continuar varrendo o chão. Ela tinha uma roupa mais elegante e menos brega, mas não combinava muito com ela. — É festa chic demais e eu sou do campo. Não me sentiria bem com toda aquela gente do nariz empinado. — Sim, estava mesmo generalizando o que via na tevê.

— Ah, então a senhorita vai deixar o patrãozinho ir sozinho? — Sebastian provocou ao se debruçar sobre a mulher. Ela era tão baixinha que mais um pouco e o trio logo a alcançaria. — Com todo aquele charme, o que não vai faltar é solteirona rica atrás dele.

Tulipa torceu os lábios e apertou os dedos no cabo da vassoura. Oras! Daria vassouradas em todas essas exibidas cheias de plástica. Ivan era seu, ninguém ia levar.

— Se eu fosse você, ia me arrumar bem bonitona pra deixar o gatão de queixo caído. — Não que ele entendesse de moda ou de roupas femininas, ele mal sabia como pentear os próprios cabelos. Na verdade, ele nem mesmo os penteava. — Pede ajuda pra Eva ou se inspira em alguma daquelas atrizes das novelas que você não cansa de assistir.

Era uma ideia a se considerar. O que importava era não deixar o bonitão à solta. Imagina, aquelas peruas das unhas postiças e lotadas de maquiagem e perfume doce e irritante. Não, nenhuma delas ia chegar perto de Ivan.

— Você vai ir também? Índios vão à festas?

— Claro! E a dança da chuva? É uma festa.

— Ou aquela coisa de pintar o rosto e ficar em volta da fogueira. Festa.

— Tem que ter muita paciência pra aguentar esses anões. — Sebastian bufou, mesmo que não estivesse de mau humor. Crianças eram uma dádiva! Oh, sim!

Ele nem mesmo sabia se iria ou não para aquela festa de inauguração. Ainda tinha tempo para pensar, decidir se seguiria ou não com aquela situação.

Depois da conversa e do beijo, ele se recolheu em pensamentos e pesou os sentimentos na balança. Valia à pena. Valia, sim, mas também havia o medo e o friozinho na barriga pela ansiedade.

Nunca havia exigido que Simon o assumisse aos quatro cantos. Não precisava ser público, contanto que houvesse amor e fidelidade, mas parecia ao mais velho que aquela era uma decisão complicada demais. E era complicada também para ele, afinal, amores adolescentes eram perigosos e as desilusões pareciam com a morte, mas estava ali. E estava ali para ver o fim daquela história na qual ele era um dos protagonistas.

Não era mais um adolescente, e se não desse certo dessa vez, doeria, sim, mas ele seguiria em frente e de uma maneira menos inconformada que antes. Não dependia de outros para ser feliz, mas se tivesse quem amava, tudo seria melhor.

Amar... Que verbo mais filho da mãe.

— Sorriam e acenem, rapazes. — Piscou para os meninos e riu ao ouvi-los perguntar se nas ocas tinham televisão.

Ele merecia...

* * *

— Como foi? Quando você contou ao seu Ivan...? — Jackie coçou a cabeça ao fazer aquela pergunta e pela primeira vez pareceu acanhado com alguma coisa. — Foi tudo bem?

Os papéis estavam espalhados pela mesa de trabalho onde eles discutiam sobre as mudanças poucos minutos antes. Logo iriam para acasa, mas o silêncio ali era tão bom.

— Preocupado? — Victor apoiou os cotovelos na mesa e uniu as mãos sob o queixo. Aquele assunto, nunca de fato havia comentado sobre aquilo com ninguém.

— Curioso. Mas se não quiser contar, não tem problema. — O cowboy brincou com um lápis, fazendo riscos em uma folha em branco. Não era preocupação, mas era algo tão novo que ainda desejava entender. Sentir-se atraído por outro homem e praticamente embarcar em uma estranha relação com ele... Ainda se pegava pensando sobre a situação repentina.

— Tudo bem. — Victor se apoiou no encosto da cadeira giratória e esticou as pernas. Um dos pés descansou na cadeira do cowboy. — Mas eu não contei. Ele viu.

— Viu? Viu como? Onde? — E viu o quê? Porque o patrão podia bem ter visto algo proibido. Vá lá se saber.

Victor acabou sorrindo da curiosidade genuína de Jackie e se sentiu mais relaxado em contar. Ele as vezes parecia até uma criança ouvindo histórias antes de dormir. Tão fofo.

— Eu marquei um encontro em um restaurante na capital. Meu pai estava na cidade resolvendo uns negócios e eu aproveitei para finalmente chamá-lo para ter essa... Conversa. Mas aí, quando ele chegou, nós, sabe...

— Vocês estavam se agarrando? — Por que é que aquela informação parecia tão desnecessária, mesmo? — É isso? — Coisa feia se agarrar em um lugar público!

— No fim, nós não conversamos, ele virou uma fera e chamou a atenção do restaurante todo. — Victor sentiu as bochechas pegarem fogo ao recordar a vergonha que havia passado e como tinha se sentido ruim com tudo aquilo. — Mas não demorou para que ele aceitasse e viesse conversar comigo.

— O seu Ivan é uma ótima pessoa. Eu já esperava isso dele. — Jackie balançou a perna, parecendo nervoso.

— Olha, você não precisa, sabe? Nós estamos bem assim. Assim desse jeito. — O loiro sorriu, passando algum conforto ao cowboy. Estavam bem com o relacionamento de amizade, trabalho e todos aqueles beijos entre um e outro expediente. Pareciam dois adolescentes a maior parte do tempo, mas estavam bem com isso. Bem.

— Eu 'tô é pensando na parte em que você agarrava aquele cara. — Jackie soou sarcástico e deslizou a mão pela mesa, segurando a de Victor com a sua e acariciando a pele suave, brincando de contar os dedos.

— Por que eu ainda me surpreendo? — Estavam tão confortáveis que ele nem queria pensar muito sobre a parte em que a vida estava finalmente se acertando.

— Se um dia quiser contar o que o idiota te fez, vou estar aqui pra ouvir. — Falar fazia bem, mesmo sendo algo ruim como o término de um relacionamento ou cicatrizes do passado. — A gente troca experiências. Ri das desgraças um do outro e vai tomar um sorvete.

E rir era o que vinha fazendo com bastante frequência. O calorzinho no peito havia aumentado e a família logo estaria novamente unida.

Mas por que aquela sensação de que algo ruim estava prestes a acontecer?

Felicidade demais era questionável.

Bobagem. Era só ignorar e se entregar à felicidade momentânea.

Notas finais
Será que vem coisa ruim por aí? D: Amor de irmãos é tão fofo ♥ Tô achando tudo fofo na verdade. Alguém me pare! Só não é fofa a parte do Jean, né... Essa foi a versão da Cecília, como é que ficou? Cêis gostaram??? Espero que siim! Galera tô respondendo aos comentários, já chego em todos vocês ♥ Bjuss