Cavalos Selvagens

14 14 "É só me olhar desse jeitinho"


Notas iniciais
Bom início de noite, galera! Como sempre, perdoem o atraso, mas os bloqueios e a falta de tempo são difíceis de lidar... Quero agradecer a todos que favoritaram, que acompanham e a todos que comentam: Fujoshi n alma, Deby Costa, ShalaNala, Maga Estelar, YuliScarlet, RenatoAmI, JuhLucena, Madame Górgona, Nathallie Donson Matterazi, Yaoi, Nilla, Angel Leto e Ghost. 'Cêis me dão muito ânimo, sério, muito obrigada ♥ E vamos a um agradecimento especial a YuliScarlet por ter presenteado a história e a autora com uma recomendação maravilhosa! É a terceira ♥ Nunca pensei que ia chegar a esse número, parece pouco para alguns autores que têm 100 ou mais recomendações, mas eu tô apaixonada por elas e só tenho a agradecer a vocês. Bom, já falei demais, espero que apreciem esse capítulo que é todo do casal mais lindo das histórias - zero modéstia mesmo. Passou um tempinho desde o encontro deles, então, não estranhem a relação desses dois. Boa leitura.

Capítulo 14 – É só me olhar desse jeitinho

Jackie fez questão de enfiar o chapéu na cabeça e olhar-se pelo que seria a trigésima vez naquele espelho de corpo inteiro.

Algo ali, definitivamente não combinava com ele.

Talvez fossem as cores, neutras demais. Ou quem sabe o corte todo reto e o tecido quente e muito enfeitado. Mas só o fato de estar em uma loja chique, a única da pequena cidade interiorana, já era algo para lá de estranho e que em nada combinava com a sua personalidade mais… Selvagem?

Até mesmo os sapatos! Oh, céus! O que era aquilo? Estava parecendo um palhaço famoso, daqueles que assustavam as crianças, mas segundo certo loiro – esse mesmo que o arrastou até ali – ele deveria se assemelhar com algum galã das telenovelas de seu país. Bobagem.

Uma volta, uma olhadela por cima dos ombros, uma erguida nos braços, uma conferida se todas as casas estavam abotoadas corretamente e um suspiro frustrado. Estava péssimo e jamais poderia ser visto assim.

Ao puxar a cortina pesada e de veludo negro, os olhos espiaram por uma fresta e encontraram o causador de todo aquele tormento, sentado em um dos bancos do departamento de ternos. Tudo bem ele ficar ali se ferrando e trajado como um bobo da corte, enquanto certa senhorita bebia um refresco e balançava uma das pernas feito uma madame, claro.

Resignado a retirar aquela roupa toda emperiquitada e a dar meia volta e nunca mais pisar ali, fez algo que chamou, não só a atenção dos outros clientes, mas dos funcionários também: um assobio alto foi o que usou para atrair um Victor a ponto do desespero.

O loiro se atrapalhou com o copo de refresco e pediu desculpas as duas mulheres que o olharam com reprovação, caminhando em direção ao provador.

— Não é assim que se chama as pessoas. — Reprovou ao cruzar os braços em clara indignação. — Eu não sou um cão ou—

— Entra logo! — Jackie fechou a cortina ao segurá-lo na altura do cotovelo e puxá-lo para dentro.

Victor primeiro arregalou os olhos, estarrecido com a situação, já que dela poderia facilmente partir um mal entendido, mas logo eles desceram pelo traje elegante que se assentuava de maneira perfeita ao corpo do cowboy.

— Eu não posso usar isso. — Jackie resmungou, pronto a retirar o terno azul petróleo. — Nem vem. — Parou ao ter as mãos suaves do loiro sobre as suas.

— Eu achei perfeito. — Victor desceu as mãos pelos braços do cowboy e rodeou o corpo dele. — É esse que vamos levar. — Sorriu de um jeitinho brilhante e bateu palmas. — Agora você pode tirar que eu vou esperar lá fora. — Tentou sair pela tangente, mas foi encostado na parede e impedido de escapulir.

Com a visita de Simon e toda a alegria que o filho do meio trouxe ao pai, veio também um convite que eles não podiam recusar. Haveria uma festa de gala em poucos dias e todos estavam convidados. É claro que Victor conseguiu convencer o cowboy a ir em uma loja de nome famoso e com ternos de corte italiano e inúmeras possibilidades de escolha. O loiro também havia escolhido um, mas enquanto Jackie provou quatro roupas diferentes, ele ficou esperando e até o momento aquele havia sido o melhor. Combinava com o tom de pele, com os cabelos e os olhos, a barba por fazer...

O ar condicionado estava ligado, mas parecia fazer um calor escaldante ali dentro. Ô lugarzinho apertado aquele!

— Estamos no provador de uma loja... — Victor cantarolou, desviando os olhos para a cortina e sentindo as bochechas esquentarem. — Vão pensar besteira. — Mordeu o lábio em apreensão.

Desde a noite em que foram ao parque e se beijaram uma, duas, três e mais vezes, criaram uma espécie de rotina meio louca: alguns beijos escondidos, briguinhas bobas e conversas descontraídas depois do trabalho. Não era um relacionamento, era algo mais como uma tentativa de conhecer um ao outro. Até o momento estava funcionando.

— Me ajuda com esses botões, loiro. — Os lábios do cowboy tocaram a orelha escondida entre os fios dourados e as mãos levaram as de Victor para abrir os botões negros do terno.

— Jackie... — O tom era repreensivo, mas os dedos logo se dispuseram a retirar os botões de suas casas e descobriram a camisa azul-marinho e a gravata. A gravata que foi puxada para que o cowboy se aproximasse um pouco mais. — Agora você pode terminar sozinho. — O chapéu também foi descartado e os cabelos castanhos que ele tanto gostava, caíram para o rosto moreno.

— Ajuda aqui também. — Jackie segurou os fios loiros da nuca de Victor e compartilhou das respirações antes de mordê-lo no lábio inferior.

Com um suspiro e o receio de serem pegos em algo que poderia se transformar em uma cena constrangedora, Victor “ajudou” e foi caridoso o suficiente até para desafivelar o cinto, mas também optou por não ver nada mais que o necessário. Se comprometeria demais caso ficasse excitado e tivesse que caminhar até o balcão para pagar pelas compras. Então, era melhor nem olhar para aquele monumento em forma de homem...

— Pro-Pronto... Me dá as roupas. — Com uma mão ele cobriu os olhos, deixando frestras para que pudesse... Bem, para que pudesse espiar um pouquinho. Acabou sentindo um calor do fundo da alma quando se deparou com uma cueca boxer vermelha, tão vermelha quanto seu rosto que ardia em vergonha.

— Aqui, senhorita. — O sussuro chegou como um hálito quente que tocou seus lábios, fazendo-o se atrapalhar com as peças seguradas de maneira desajeitada.

— Não demora! — Victor praticamente se jogou para fora do provador, abanando a mão para expulsar um pouco do calor que sentia. Aquele cowboy abusado! Que raio de ideia era aquela? Mas o importante é que estava tudo bem ali embaixo. Nada o denunciaria.

Homens eram tão sensíveis...

— Mocinha. — Uma senhora o chamou, chacoalhando a mão. — A mocinha trabalha aqui? — Perguntou interessada, descendo os olhos pela figura magra, alta e um tanto descabelada.

— Ah... Eu... — Victor colocou uma mecha do cabelo para trás da orelha e mordeu o lábio inferior, olhando para o terno que carregava no braço e rememorando o que fazia há pouco.

— É que eu me interessei por esse trabalho de ajudar homens bonitões a retirarem o terno... — Ela riu ao levar a mão aos lábios pintados de vermelho e piscou para a moça antes de seguir para uma das araras.

Se fosse possível, o rosto de Victor havia entrado em ebulição após ser alvo do sarcasmo de uma senhora em uma loja requintada. Aquele cowboy ainda o deixaria em maus lençóis. Com as orelhas coradas, seguiu até o balcão onde a vendedora o aguardava, mas não perdendo o momento em que Jackie saía do provador, ainda abotoando a camisa e chamando a atenção da parte feminina e até da parte masculina para o porte que a camisa xadrez cobria.

— Poderia cobrar esses dois, por favor? — Victor colocou o terno nas vistas da moça do caixa, fazendo os olhos da mulher voltarem do transe. — Esses aqui. — Empurrou o outro também.

— Ah, claro eu... Eu já vou passar no sistema. — Quase empurrou o loiro para que não perdesse nenhuma parte do show. — Que homem! — Comentou ao sorrir. Não era todo dia que tinham algo assim na loja. Ou na cidade. Quem sabe no país...

Victor apoiou os cotovelos no balcão e olhou por cima dos ombros, vendo Jackie conversar com as moças do departamento de roupas femininas. Eles pareciam até mesmo íntimos... Perdeu alguns segundos da conversa ao buscar pelo cartão e se atrapalhar com a carteira, mas desistiu de bisbilhotar e se contentou em pegar a sacola decorada com o nome da marca e seguir para o lado de fora, sendo recebido pelo calor abafado de Santa Luz. Ficou tentado a voltar para o ar condicionado...

— Achei que a gente tinha vindo juntos.

Ouviu a voz conhecida soar logo atrás, mas não parou de caminhar, indo em direção aos cavalos amarrados próximos a sorveteria. Ótimo! Sorvete era uma boa opção para aquela tarde de calor.

— 'Tá tudo bem? — Jackie conseguiu alcançar o garoto que caminhava mais rápido que o normal e tomou a sacola das mãos dele. — Você viu o preço disso?

— Eu paguei só o aluguel, relaxa. — Victor entrou na sorveteria e pegou o cardápio, fazendo caras e bocas antes de escolher o sabor de sempre. — E fica como um agrado, não tem nenhuma dívida comigo.

— Se quer me fazer um agrado, não tem que me dar coisas caras, 'cê sabe. — Ele deu de ombros, encostando a cabeça na juba loira em implicância. — E eu já disse que odiei esse jaleco, casaco, blusa?

— É um terno e é lindo. — Corrigiu em ultraje. Não que fosse dizer, mas a visão do cowboy de terno em toda finesse, assemelhava-se a um daqueles sonhos molhados de adolescentes pervertidos. — E se quiser me acompanhar, vai se vestir de maneira apropriada. — Sentenciou ao escolher os sabores de morango e cereja em calda.

— Eu não disse que queria te acompanhar. — Jackie coçou a cabeça e seguiu até uma das mesinhas redondas ao escolher o único sabor de picolé que gostava; chocolate. Mesmo sendo um gosto clichê. Sua vida andava meio clichê nos últimos dias.

— Então eu irei sozinho a uma festa de gala com gente conhecida e bonita. — Foi Victor quem deu de ombros agora. — Tudo bem, quer dizer, estarei com a minha família.

— Gente conhecida? — Jackie sondou, não gostando muito daquele tom. — Os amigos do seu irmão?

— Alguns. Tenho tios e tias que participam das ações da empresa também. É bem provável que eles estejam lá. — Comentou por cima, enquanto atacava o sorvete.

— Hm.

Um resmungo. Simplesmente um som que nem poderia ser definido. Victor quase sorriu, mas lembrou-se das amigas que o cowboy tinha em praticamente todos os lugares da cidade.

— Você é bem popular por aqui, né? — Perguntou como quem não quer nada, mexendo nos morangos picados da taça.

— Um pouco. Eu vivo por aqui desde que nasci, então é normal que eu conheça todo mundo. Ou quase todo mundo. — Uma mordida no sorvete e ele resolveu trocar com o loiro. De repente a ideia de vê-lo chupar um picolé pareceu bem atraente.

O apelido de pervertido, andava combinando bem ultimamente.

— As moças da boutique também? Não que eu me interesse... É que pareciam meio amigos. — Os lábios tocaram o picolé e atraíram os olhos castanhos do cowboy. Sem malícia, Victor, sem malícia.

— Eu já sabia que você era ciumento, só não imaginava que era tanto assim. — O comentário pretensioso e divertido, fez os olhos verdes se estreitarem.

— Isso não tem nada a ver com ciúmes. Foi só um comentário. — Victor o chutou discretamente por baixo da mesa. — E se fosse o caso, eu provavelmente teria uma úlcera se eu sentisse ciúmes toda vez que alguém parasse para conversar com o senhor popularidade. — Alfinetou e torceu os lábios.

— Isso foi ciúmes em todas as letras. — Jackie devolveu, no velho tom debochado. — Mas você disse: “Não é como se estívessemos em um relacionamento.” Então, tudo bem. — Talvez não estivesse tudo tão bem assim.

Certo, aquele sem vergonha estava usando o que havia dito uns dois dias antes, contra ele. E nem sequer podia desmentir. Porque não estavam em um relacionamento. Não ainda...

Victor optou por não dizer mais nada e se contentou em tomar o sorvete em silêncio. O que tinham era só uma amizade colorida talvez. Nada que passasse disso. E estava tudo bem, certo?

— Chegaram mais duas fãs...

Os olhos do cowboy se desviaram e encontraram duas garotas trajadas em roupas que ele jamais aprovaria. Elas vinham, ao menos uma delas, sorridente em direção a eles e pararam frente a mesa, porém, a de cabelos vermelhos e curtos, se debruçou para beijar o cowboy no canto dos lábios.

— Oi, bonitão! — Ela arreganhou um sorriso enorme e se sentou ao lado de Jackie, ignorando a moça loira que estava com ele.

— Deixa de ser oferecida. Eu que tenho que cumprimentar primeiro! — A outra, mais alta e de cabelos longos e cacheados exclamou, embora parecesse levemente receosa. Victor pareceu reconhecê-la. — Mano, por que não contou sobre a loira bonitona? A mãe vai pirar. — Ela beijou o irmão no rosto e estendeu a mão para a moça. — Eu sou Elizabeth, a irmã do seu homem! Nós somos cunhadas! Eu sempre quis ter uma cunhada! — Pareceu animada demais com a possibilidade de parentesco, alheia ao constrangimento impresso no rosto de Victor.

— Elizabeth... — Jackie praticamente rosnou. Adolescentes eram tão explosivos que muitas vezes irritavam.

— É claro que essa garota não é a sua cunhada. — A menina de cabelos vermelhos falou, dependurando-se no pescoço do cowboy. — Você sabe que eu vou ser a sua cunhada, Lizzie.

Era o fim. Discussão entre adolescentes. Ser confundido com uma mulher já era algo do cotidiano, não era como se gostasse, mas havia se acostumado. Não mudaria o rosto ou cabelos somente para desfazer as confusões, mas ter uma garotinha mimada agarrada ao pescoço de Jackie e o olhando como se ele fosse uma concorrente inferior, fez uma veia se tensionar no pescoço. E ela quase explodiu quando aquelas mãozinhas atrevidas se enfiaram entre os cabelos do cowboy.

— Desgruda, menina! — Jackie empurrou a garota de volta para a cadeira, irritado. Deu um jeito de enfiar o chapéu de volta na cabeça e coçou a barba. — Deixa eu apresentar; essas pestes são Elizabeth e Valentina e esse loiro, é o Victor.

As duas meninas piscaram algumas vezes e encararam a garota... O rapaz ao lado. Jackie não devia beber assim tão cedo da tarde.

— Corta essa, mano. — Elizabeth balançou a mão em descrença. — Ela parece até a Barbie. — Mirou o rosto embonecado da loira bem de perto e estreitou os olhos. — Mas tudo bem se você não quiser contar sobre a sua namorada e—

— Elizabeth, não é? — Victor se levantou e sorriu para a irmã do cowboy. — Nós somos amigos e sim, eu sou um homem. — Embora não parecesse.

Elizabeth não escondeu a surpresa e nem mesmo controlou os olhos que desceram por cada centímetro do corpo do loiro. Certo que não havia indícios de seios no peito liso, mas isso não o julgava como homem. Talvez se ela visse as partes de baixo. Oh, sim, aí ela acreditaria.

— Amigos? — Ela arqueou as sobrancelhas, mas logo sorriu, um risinho que deixava claro o que havia pensado. — Victor, você podia ir lá em casa qualquer dia desses. Pra almoçar ou jantar.

— O Jackie já me convidou. — O loiro agradeceu mesmo assim. — Eu vou adorar conhecer a sua casa e os seus pais. — E só estava esperando que o cowboy reforçasse o convite.

Elizabeth teria soltado a língua uma vez mais, mas assim, não haveria muito o que dizer quando o loiro fosse visitá-los, então era melhor guardar algumas das rápidas análises que havia feito naquele curto encontro.

— Senta. Nós podemos conversar e tomar sorvete.

— Ah, não! — Ela abanou a mão em dispensa. — Valeu, mas a gente veio pegar umas coisas pra mãe e já vamos voltar.

— Querem uma carona? — Jackie ofereceu, preocupado com a irmã andando por aí com aquelas roupas escandalosas, esquecendo-se que estavam a cavalo.

— É claro que a—

— Vamos passar no mercado ainda, então, anda Val. — Elizabeth cortou a fala da amiga e a puxou pelo braço feito uma boneca. — Bom te ver, mano. Bom te conhecer, Vivi. — Acenou de maneira atrapalhada e arrastou a ruiva para fora da sorveteria, mesmo a contragosto, parando rapidamente no balcão para despedir-se do atendente.

Jackie ainda ouviu a eterna apaixonada gritar algo sobre ele ser o amor da vida dela, mas não deu muita importância. De qualquer forma, ligaria para a mãe para conferir se elas não estavam aprontando nada.

Desde pequena, Valentina dizia nutrir um amor para toda a vida por ele, o que já o havia colocado em situações complicadas.

— O mocinho do balcão é uma graça.

O comentário do loiro foi tão inusitado que Jackie deixou um pouco da preocupação de lado e olhou para o rapaz que atendia a clientela. O menino não devia ter nem vinte anos. Dava para sentir o cheiro de leite dali.

— O moleque nem pelos na cara tem. — Comentou despretensioso, quase rolando os olhos. E além do mais, ele não era uma graça coisa nenhuma!

— Eu também não tenho pelos na cara. — Victor pareceu levemente indignado com o comentário. Seus pelinhos eram quase escassos e mais pareciam penugens em vez de barba.

— Você entendeu.

— O que eu entendi é que você é mais lerdo do que eu pensei. — Victor pareceu se divertir com algo que o cowboy não entendeu, sorrindo ao balançar a cabeça.

— Já terminou de ficar de risinho? — Jackie se levantou, tentando parecer ofendido com o deboche do loiro, mas amolecendo quando ele fez uma carinha fofa. — Faz isso de novo e eu mordo você. Não disse onde. — Foi a sua vez de sorrir, mas de uma maneira maliciosa.

— É melhor a gente ir. — Não que estivesse constrangido ou algo assim, só queria mesmo era um lugar mais... Privado.

— Ficou apressado de repente. — O cowboy passou um braço pelos ombros do loiro, trazendo-o para perto e caminhando assim com ele.

Na noite em que se beijaram pela primeira vez, ele achou que poderia rolar algum clima estranho entre eles no dia seguinte, mas tudo correu perfeitamente normal. O que mudava, eram os beijos furtivos que Jackie sempre dava um jeito de roubar, mas as conversas e o entrosamento no trabalho, continuavam iguais. O cowboy nem mesmo havia tido uma crise de hétero arrependido – um nome dado por Sebastian – e estava bem com o fato de beijar um homem. Só estava matutando umas coisas para que tudo ocorresse como devia.

— É que já ficamos bastante tempo fora. — Victor comentou, sensato. Tinham demorado horrores para escolher os trajes e também não gostava de deixar os pobres cavalos ali. A ideia de vir com eles havia sido de Jackie, ideia que o loiro prontamente aceitou. E agora era sua vez de ter ideias. — O que acha de uma corrida até o lago?

Jackie ponderou sobre a tal corrida... Mas por que não?

* * *

Fumaça era veloz, um verdadeiro alazão, trotando lépido e deixando para trás a poeira da estrada que os levaria até o lago. O condutor também era bom, atento ao caminho e bem seguro às rédeas, mas vez ou outra erguia um dos braços para tocar alguma folha das várias árvores que desciam até a margem da lagoa, colorindo a trilha com o verde e o vermelho das folhagens.

Através das copas, a luz vibrante do sol se infiltrava entre as folhas remanescentes e tocava o rosto sorridente de quem havia esquecido que estava em uma corrida. E o esquecimento foi suficiente para que Esquadro cortasse a frente. Ainda ouviu Jackie rindo de sua cara e tentou ultrapassá-lo, atritando as botas nas laterais da barriga de Fumaça, mas conseguiu apenas ficar em segundo lugar.

As rédeas foram puxadas e Fumaça parou, relinchando e erguendo a cabeça, mas Esquadro estava trotando de maneira elegante agora, trocando as patas e comemorando a vitória.

— Exibidos! — Victor acusou. Uma das mãos foi alisar a crina castanha do cavalo enquanto sussurrava que ele era um bom menino e havia feito um ótimo trabalho.

— Seja um bom perdedor, loiro. — Jackie admitiria a derrota caso não conseguisse ultrapassar a dupla dinâmica, mas aquele não era o caso.

— Claro, cowboy. Parabéns aos dois. Foram ótimos. — Desejou com certa falta de vontade. Preferia ganhar! Acabou descendo de Fumaça e alcançando o chão de cascalhos. O cavalo foi amarrado a um dos troncos de árvore e passou a pastar.

Jackie fez o mesmo com o vitorioso Esquadro, mas deu uma cenoura ao equíno de pelagem negra e brilhosa, deixando tapinhas de consideração no dorso do animal.

— Fica aí se achando... — Sim, Victor estava remoendo a derrota. Se não se distraísse até com o vento, teria conseguido chegar em primeiro.

— Eu nem disse nada. — Jackie se defendeu. Observou o loiro retirar as botas e arregaçar as barras das calças, deixando as canelas à mostra. — Gostei das canelas. Se elas estivessem de fora antes, eu teria me distraído. — Comentou com ar de riso, embora estivesse mesmo falando sério. Gostava de umas partes mais exóticas do corpo.

Victor olhou para as pernas e arqueou as sobrancelhas. Era a primeira vez que recebia um elogio para aquela parte em específico e só não sentiu o rosto queimar, porque jurava que o cowboy só estava implicando. A despeito de querer retrucar com alguma resposta atravessada, preferiu andar até a margem e tocar os pés descalços na água fria e limpa da lagoa, espreguiçando-se ao sabor do sol, tentando relaxar ao se sentar no chão gramado.

O que não ocorreria, já que bastou fechar os olhos por um momento para que ao abri-los, se deparasse com um homem de chapéu e camiseta escura a cobrir a luz do sol.

— Fiquei sabendo que sereias amam tomar sol.

O comentário despretensioso, não podia ser menos debochado e foi acompanhado de um famoso sorrisinho que se ergueu no canto dos lábios.

Os olhos verdes rolaram nas órbitas, mas ele devolveu o sorriso ao cowboy.

— E você deve ser Nessie, o monstro do lago. — Certo, era péssimo em ofensas, mas não era como se pretendesse realmente ofender ao homem folgado que vivia para tirá-lo do sério.

— Ao menos eu não fico por aí seduzindo os pobres pescadores. — Jackie deu de ombros como se o assunto fosse de teor sério, conquistando o estreitar dos olhos bonitos e indignados do loiro.

— Se eu dependesse da minha voz para seduzir alguém, provavelmente uma maritaca se apaixonaria por mim. — Zombou dos próprios dons vocais ao conseguir se erguer e bater nas calças para retirar os vestígios de grama e terra. Aquele era um assunto estranho que só poderia pertencer aos dois. — O quê? — Perguntou ao receber toda a atenção dos olhos castanhos que pareceram analisá-lo.

— É que você não precisa cantar. — A fala agora, era livre de zombaria e os braços envolveram o corpo do loiro quando ele pareceu atrapalhado e prestes a dizer alguma bobagem. — É só me olhar assim, desse jeitinho acanhado.

Quantos mais disparates aquele cowboy com alguns parafusos a menos ia soltar em tão pouco tempo? Victor, embora quisesse responder àquela sandice, cedeu prontamente os lábios quando eles foram reivindicados em um beijo que o deixou afogueado e de coração acelerado.

Os dedos magros mergulharam nos fios castanhos quando o chapéu do cowboy foi ao chão, buscando amparo, mesmo que as mãos o mantivessem bem firme, colado ao corpo maior e mais forte. Um calor que não tinha nada a ver com o sol da tarde, espalhou pela pele e o fez gemer baixinho e se entregar ainda mais ao beijo. Era impossível resistir quando o corpo reagia sem controle aos toques do cowboy. Mas ainda assim…

— É esse o seu prêmio por ter vencido a corrida? — Perguntou de rosto quente e respiração desregulada. Os dedos ainda presos nas mechas castanhas em carícias suaves e preguiçosas.

— Parte dele. — Jackie deixou os lábios roçarem pela orelha de Victor, apreciando o calor, o cheiro e matando um pouco da vontade que estava de tocá-lo. Certas vontades ficariam cada vez mais difíceis de conseguir controlar. — E então, sereia? Vamos nadar?

Victor tinha uma resposta na ponta da língua, mas tão logo Jackie fez a pergunta, ele foi empurrado para dentro da água e obrigado a mostrar os dons de Barbie Sereia.

Era um apelido pior que o outro, mas os beijos eram ótimos.

* * *

Os dedos deslizaram pelos contornos suaves por baixo da camisa vermelha e subiram pelas costas, arranhando a pele.

— Ryan... A-Aqui não... — Victor murmurou ao ser prensado contra a mesa do escritório. — Eu preciso—

— Você precisa cuidar disso aqui. — A voz sussurrada arrepiou a nuca do namorado e os lábios beijaram abaixo da orelha quando levou a mão do loiro para tocá-lo entre as pernas. — É culpa sua, loirinho.

Victor abafou um gemido e virou o rosto a procura de um beijo que foi prontamente compartilhado.

Ao final daquela loucura, ele havia dito que o amava.

Ryan levou a mão ao rosto e suspirou. As lembranças ficavam mais fortes a cada dia e embora sentisse saudades daquela época, não era isso que o fazia pensar no loiro; era o remorso.

Notas finais
Quero fazer um convite especial a vocês leitores, eu e a Luna, uma amiga, escrevemos um yaoi com a temática de piratas, mistério e ação. Se puderem passar por lá, agredeço ♥ Alguns daqui já a acompanham, mas leitores novos são sempre bem vindos. Link dessa maravilha: https://fanfiction.com.br/historia/731354/A_Ilha_do_Naufrago/ Curtiram o casal principal? Tô ainda mais apaixonada por esses dois, que apesar de estarem juntos, são bem cabeças duras em relação aos sentimentos, né... Curtiram a irmã do cowboy e a amiga atirada? E esse Ryan pensando no nosso Vivi no final... Bjuss galera, comentem o que acharam e perdão pela demora em responder os comentários, já chego lá.