Causas e Consequências
1 Dissabores – Capítulo Único
Notas iniciais
Quando eu era criança e manifestei meu dom, o de criar explosões através do meu próprio suor, pela primeira vez, meu pai disse a seguinte frase para mim: “No mundo atual em que vivemos, as pessoas com as individualidades mais poderosas estão na glória e os sem individualidades estão para servir os mais poderosos. Você nasceu com uma individualidade poderosíssima e por causa dela você será o maior herói de todos os tempos, combatendo todo o mal com suas explosões e as pessoas sem individualidade estarão ali para te adorar e servir.”. Como toda criança de quatro anos, acreditava que aquelas palavras era como o mundo funcionava e tomei elas para mim como filosofia de vida. Ela também passou a tornar-se a principal justificativa para eu começar a agir diferente com as pessoas ao meu redor, principalmente com Izuku Midoriya, meu praticamente vizinho.
No dia em que eu vi-o chorar por não ter individualidade (consequentemente, ele nunca poderia realizar o sonho de tornar-se um herói), pensei imediatamente que meu pai estava certo e nossos destinos já estavam marcados. Naquela época, achava que era certo o meu destino de ser maior herói de todos os tempos e o dele de me servir. Por isso, também formou-se na minha cabeça o pensamento de que precisava fazê-lo saber desde já o seu “lugar” nessa sociedade.
Logo no dia seguinte a isso, comecei a apelidá-lo de “Deku” — acrônimo para “Izuku Sem Defesa” — para ele ficar ciente de que era igual a todas pessoas sem individualidade neste mundo, um bando de inúteis que se contentam sendo empregadas de quem possui individualidade. Ele, obviamente, ficava inconformado, dizia que ia provar para mim que estava errado, mas, no final, tudo que ele fazia era ficar num canto resmungando e chorando. Tinha as vezes que ele ficava mais nervoso e usava até o único herói sem individualidade existente como exemplo de que eu estava errado, entretanto eu mandava logo a real para ele:
— Deku, você não nasceu bilionário e fodão igual ao Morcego Negro para ser herói, mesmo sem individualidade. Um Deku sempre será Deku e você nasceu para servir a mim. — e depois ele voltava para o canto dele chorar, porém antes disso ele sempre falava que eu estava errado e que um dia eu ainda veria ele como igual.
Além disso, confesso que fazia isso também por achar divertido o jeito teimoso e inconformado dele. Não, não tenho nem um pouco de orgulho de ter feito isso, na época.
Não lembro exatamente quando comecei a fazer isso, porque comecei a tomar essa atitude bem pequeno, porém não demorou muito para eu incentivar meus coleguinhas de infância a maltratá-lo junto comigo, devido ao meu pensamento de superioridade a pessoas sem individualidade e, confesso sem nenhum orgulho, também por achar divertido ver ele se fodendo.
Os anos passaram, eu e Izuku continuamos a frequentar os mesmos colégios até chegarmos ao último ano da Escola Secundária, época na qual decidi prestar o vestibular para entrar na melhor escola colegial para heróis de todos os tempos, a U.A, pois achava que sendo o único estudante daquele colégio público a entrar lá, meu caminho como herói número um estava garantido. Naquela época, também achava que isso seria fácil, porque eu tinha um bom conhecimento teórico e força suficiente para passar no teste prático.
Por outro lado, as minhas atitudes contra o Deku continuaram praticamente as mesmas com o passar dos anos, apenas acrescentei outras justificativas para maltratá-lo. Passei a achar também que tudo que ele fazia comigo era um afronte para não ser comandado por mim e não aceitava isso. Acreditava piamente que ele estava realmente destinado a me servir e nada poderia mudar isso, mesmo que eu precisasse ser extremo com ele para fazê-lo entender isso. Entretanto, esses pensamentos pioraram quando eu descobri que ele também ia prestar vestibular para a U.A:
“Esse nerd maldito está me tirando?! Quando esse idiota vai entender que o destino dele é estar sempre atrás de mim? Vou acabar com essa merda toda antes que isso comece!” — Movido por eles, eu cometi atos terríveis contra o Deku para impedi-lo de passar no exame de admissão: desde persegui-lo diariamente após as aulas para bater nele até queimar o caderno de anotações de heróis dele.
Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorria, eu também era cada vez mais admirado pela minha força. Costumava ouvir que tinha potencial para ser o maior herói de todos os tempos e alguns até diziam que eu poderia ultrapassar All Might.
O dia do exame chegou, prestei ele normalmente e achei que estava arrasando, pois fui o primeiro a terminá-lo e ainda fiquei em primeiro lugar. Entretanto, como um pai severo, o destino deu o primeiro tapa na minha cara logo lá mesmo, quando fez o Deku “tirar poderes do cu” e prestar o exame como um estudante qualquer. O segundo tapa veio quando eu descobri que ele pontuou mais do que eu na prova teórica e ainda tirou uma nota alta no requisito “Resgate” do teste prático, por ter salvo uma fracote com nome de chá, cuja individualidade é ser uma cabine de gravidade zero da NASA ambulante, enquanto eu tirei zero nele. Fiquei puto de raiva naquela época:
“Já não bastou esse nerd maldito ter ferrado meu feito de ser o único de escola pública de nível D a passar na U.A, ele ainda pontou mais do que eu? Se ele não tivesse tirado zero no requisito “Combate aos vilões”, ele seria o primeiro? Já não bastou ele ter sido idiota em se arriscar ao tentar me salvar daquele vilão? Ah, merda!”
— Deku maldito, morra! — berrei de raiva no meu quarto e estava decidido: ia fazer a estadia do Deku na U.A um inferno, ele ia se dobrar a mim de qualquer jeito. Como eu era idiota naquela época!
Primeiro dia de aula, já entrei dentro da sala mostrando a todos que não estava ali para fazer amigos, estava ali para ser o maior herói de todos os tempos. Já comecei com aquele “nerd de óculos” reclamando de eu estar com os pés em cima da carteira. Depois, quando vi o Deku, fiz questão de saber qual truque ele usou para passar no exame e falei para ele sair do colégio. Ele sorriu daquele jeito dele, respondeu meu requisito com uma negativa, falou que tinha alguém que acreditava nele e completou a resposta, falando que ia provar o quanto eu estava errado com a minha ideologia. Não sei de onde eu tirei forças para não voar na cara dele naquele instante e essa sensação piorou conforme fizemos os testes físicos até chegar uma hora que não aguentei, fui para cima dele, porém fui impedido pelo Erasehead. Depois, levei uma bronca dele e descobri que agressões só pelo prazer de foder com o outro acarretavam em expulsão imediata do colégio.
No dia seguinte, tivemos no colégio o treinamento para a disciplina de Heroicidade Básica, onde fomos divididos em “heróis” e “vilões” e os “heróis” tinham que combater os “vilões”. Fui parar como “vilão” com o “nerd de óculos” e teria que enfrentar Izuku mais a “NASA ambulante”. Naquela época, pensava que aquela era a oportunidade de mostrar para o Deku o quanto ele estava errado e daria uma derrota humilhante para ele. A vida deu mais um tapa na minha cara com Deku me enfrentando com tudo, mesmo sem te muito controle da própria individualidade e ele ainda ganhou… Aquele nerd maldito! Odiava reconhecer isso na época, mas naquele colégio já tinha gente que tinha individualidades tão poderosas como a minha (como meu colega de classe que depois viraria um grande amigo, Eijirou Kirishima). Tanto que os meus pensamentos naquela época eram os seguintes:
“Como eu pude perder para aquele maldito nerd? Onde foi que eu errei? Não é possível que haja gente tão ou até mais poderosa que eu? Por que estou chorando e de onde vem esse sentimento terrível de frustração? Isso é perder?”
Mais um dia de aula, minha cabeça ficou ainda mais com raiva após o Erasehead apontar onde eu errei, contudo tomei aquilo como uma lição para esfregar na cara dele que aprendi ela na primeira oportunidade.
“Afinal, para vencer sempre, eu preciso aprimorar minha força.” — era o que eu pensava na época. Já a vida deu outro tapa na minha cara, quando os vilões invadiram o colégio durante nossa aula de “Simulação de Resgate e Combate aos Vilões” e vi o Deku lutando de igual para igual com eles, porém ignorei a lição que ela tentava passar com isso e achei que por ter salvo ele, meus pensamentos estavam certos. Como eu era tolo!
Duas semanas após o incidente com os vilões, veio o Festival da U.A e pensava que esmagaria todos sem piedade para mostrar que eu sou o maior herói em potencial ali, tanto que fiz um discurso onde deixei explícito esses pensamentos em alto e bom som. Obviamente fui vaiado até dizer “chega”, mas não me importei. Também achava que só tinha gente fraca ali, apesar de alguns terem dons impressionantes, mas com vontade de competir comigo. Ledo engano!
Para começar, a “NASA ambulante” foi osso duro de roer junto com o “gótico trevoso”, o “Pica pau punk” e eu tive com aquela luta com o “Trakinas meio a meio”. Ele praticamente desistiu da luta e deixou eu ganhar sem resistência:
“Que porra é essa, filhinho do Endeavor? Por ser quem você é, você deveria lutar com tudo contra mim! Por que ele não reage?” — eram resumidamente meus pensamentos durante aquela luta. Ganhei ela, porém foi a pior derrota que tive. Se eu não tivesse levado anos para entender o coração do Todoroki e de todos naquele festival, eu faria diferente… porém tudo que eu sentia, naquela época, era raiva. Tanto que tiveram que me amarrar para receber minha medalha de ouro vergonhosa.
Após o festival terminar e voltar para casa, quase quebrei o quarto inteiro de raiva e ainda levei uma senhora bronca mais um senhor castigo dos meus pais por causa disso. Já não bastasse tudo aquilo, dois dias após o Festival, houve o momento da escolha dos codinomes de heróis e todos eles foram rejeitados.
No dia seguinte, comecei meu estágio com o Best Jeanist. Lá, aprendi na marra sobre a importância de manter uma boa imagem como herói, respeito hierárquico, veio todo aquele incidente do Stain, etc e ali comecei a pensar que talvez Deku nunca quis me afrontar, talvez ele sempre quis apenas… seguir o sonho dele? Naquela época, achei que estava influenciado demais pelas “baboseiras” que o Best Jeanist falava e deixei aquilo de lado. Se pudesse ter sido mais esperto e usado justamente aquela situação para… deixa para lá.
Uma semana após o estágio, vieram as provas e elas eram focadas na gente passar no exame para tirar a licença provisória de herói, tanto que nossa prova prática foi lutar contra um dos nossos professores e eu lutei justamente contra o All Might, meu ídolo. Contudo, o destino, esse maravilhoso, me deu um chute no saco bem dolorido ao me fazer esse teste em dupla com o Deku. Achava que era muita afronta e que tinha que garantir o meu para tirar boas notas, tanto que já fui para cima dele. Sem sucesso e para piorar, Izuku ficava apitando no meu ouvido que ele tinha um plano. Não aguentei, soltei todos os cachorros para cima dele, ele também soltou os dele, mas, no final, entramos em um acordo, conseguimos passar e ele ainda arranjou tempo de me salvar, quando eu estava na pior.
No dia seguinte, fiquei bem puto com Izuku não ter atacado o All Might e preferir me salvar, já que de qualquer jeito, a gente ia passar. Ele falou a mesma coisa de quando eu fui capturado pelo vilão ano passado: que meus olhos expressavam que eu precisava de ajuda. Mandei ele ir para casa do caralho, discutimos de novo, porém paramos quando Erasehad anunciou a viagem de treinamento na qual deu a merda de ter sido sequestrado. Só contei meses depois, mas aqueles malditos me torturaram. Desde falar que as pessoas não me achavam poderoso, mas, sim, tinham medo de mim, passando por eles aplicarem suas individualidades contra mim totalmente imobilizado até ameaças de matar minha família. Nunca tive tanto medo da morte como aquele dia. No final, fui resgatado pelos meus colegas e pelos professores, dei um longo depoimento na delegacia e meus pais me buscaram, entretanto foi o meu sequestro que causou o embate entre o All Might e o One For All, cujo resultado custou a aposentadoria do primeiro.
Em casa, sentia-me a pior pessoa do mundo:
“Fui eu quem causou a aposentadoria do All Might. Se eu fosse mais forte… Merda! Por que isso aconteceu comigo de novo? Eu sou a pessoa mais forte dos alunos da 1-A, eu deveria dar conta disso de boa! Eu… eu…” — Achava que eu era o culpado de ter destruído a imagem do meu herói favorito e da crise de confiança nos heróis que deu-se logo em seguida.
Como toda merda era pouca, ainda não passei no teste para tirar a licença provisória de herói. Somente tinha sentimentos de frustração e raiva dentro de mim:
“Droga, o mundo deveria ser a meu favor! Eu tenho a individualidade mais poderosa, mesmo que existam pessoas mais poderosas do que eu; eu não deveria ir para porra de aulas extras para passar na caralha do exame! E ainda por cima ser salvo de novo por aquele maldito nerd… Deku, eu vou acabar com você e colocá-lo no seu lugar, pois se minhas suspeitas estiverem certas, você não deveria ter aceitado ele! Se você não quer almejar vitória, por que você tenta ser herói? Você nasceu para me servir e irei provar isso!” — Carregava uma culpa idiota e uma raiva ainda mais irracional do Deku. Como eu era trouxa e infantil naquela época, tsc, tsc!
Ainda por cima, logo que o colégio mudou o sistema para internato, eu convoquei Izuku para uma luta. Relutante, ele aceitou e lá desabafamos todos nossos sentimentos de raiva, frustração, onde, no final, eu disse que ganhei, porém, na prática, nenhum de nós ganhamos. Após a luta, All Might veio e falou pra mim sobre a origem do “One For All” — não foi tão novidade assim, pois meio que confirmou que minhas teorias sobre os poderes dele (e naquele momento, do Izuku também) estavam praticamente certas. Por outro lado, aquela situação serviu para eu perceber que o que meu pai e a sociedade, no geral, sempre disseram para mim era uma grande mentira.
Pessoas sem individualidade não estavam ali para servir quem tem individualidade, elas nasceram também para viverem as suas vidas do jeito que elas bem entenderem, como meu herói favorito fez e o Deku faziam naquele momento… mas naquela época eu era cabeça dura demais para entender isso, tanto que demorei para plenamente reconhecer e aceitar essa lição. No final, aquilo só serviu mais para tirar minha culpa sobre tudo aquilo que angustiava meu coração.
Um dia depois da briga, o novo semestre começou oficialmente, eu e o Izuku fomos parar na diretoria por causa dela. Se não fosse pelo All Might amolecer os corações do Diretor e do Eraserhead, nós seríamos expulsos da U.A. Pegamos suspensão de três dias e como castigo, fomos obrigados a limpar os dormitórios. Na maioria das vezes, fazíamos isso em silêncio, porém comecei a entender que ele era, na realidade, tão igual a mim quanto a outro aluno qualquer.
Quando nossa suspensão acabou, já conhecemos os três melhores alunos da U.A, que eram do último ano, eles falaram aquele discuso típico de quem será herói semiprofissional daqui alguns meses e fomos desafiados a combater o que estava no topo, Mirio Toogata. Obviamente, ele deu uma surra em todos nós e com ele, aprendi de vez a nunca subestimar a força de um adversário e a sempre aprimorar sua própria força para a vitória.
Logo depois, voltei a fazer estágio e fui fazer justamente com o Erasehaed., uma fase infernal, pois eu queria mídia, destaque e ele era mais “ditador” do que na sala. Contudo, no final, foi um grande aprendizado sobre vitórias e resgate. Ao mesmo tempo, também veio o chamado “Incidente Eri”, o salvamento fracassado da filha do Overhaul onde ela, o Sir Nighteye e o Toogata morreram no lado dos heróis, além da própria morte do último Yakuza junto com vários da Liga dos Vilões. Por causa disso, Deku saiu com a fama de salvador do dia, mas ele sentia-se a derrota em pessoa. A mídia queria paparicar ele, porém ele pedia para respeitarmos o sacrifício daqueles que morreram junto a vida da inocente garota. Fora que ele não sorria mais como antes, ele ficava mais no canto sendo consolado pela galera que era próxima dele. Além disso, acredito que a morte do Sir Nighteye e do Mirio, de certa forma, contribuíram para piorar cada vez mais a saúde do All Might, pois uma semana depois, foi anunciado o falecimento dele de ataque cardíaco. Digo isso, porque as poucas vezes que fui visitá-lo em casa após a tragédia, ele estava tão mal e sentia tanta culpa que me senti horrível por não fazer nada, além de vê-lo lamentar a morte dos amigos.
O velório mais o enterro do All Might foi um evento televisionado, comentado pelo mundo inteiro e quando recebi essa notícia, foi como se o chão tivesse aberto para mim e tudo que eu tinha para esperar era um abismo sem fim. Cara… meu herói favorito, aquele que sempre almejei superar, morreu. É engraçada essa história de finito, não?! Todos nós nascemos com a certeza de que iremos, um dia, morrer, porém ao mesmo tempo não queremos nos despedir desse mundo. E o mais estranho, por que eu me importava agora com as lágrimas do Deku? Por que, após o enterro, nos abraçamos e utilizamos aquele momento de emoções à flor da pele para desabafarmos nossos sentimentos mais profundos sobre perda, confusões e raiva?
Um dia depois da tragédia, Shigaraki, junto com alguns da Liga dos Vilões, invadiram o dormitório do colégio para acabar com Deku. Junto a ele, eu, Uraraka, Iida, Kirishima lutamos com todas nossas forças contra ele, enquanto Todoroki, Momo e Asui chamavam os professores. Com isso, descobrimos também que Mineta era o traidor dentro da U.A, por isso os outros tiveram que lutar contra ele e Tooru foi a encarregada de chamar os professores, porém era tarde demais. Conseguimos vencê-los, entretanto durante a luta contra Shigaraki, o maldito deu um golpe na cabeça Deku, que caiu inconsciente no chão. Imediatamente ele foi levado para o hospital, enquanto a polícia chegava para prender os vilões e Mineta.
Dentro do hospital, as notícias eram mistas para Deku. Ele entrou em coma e os médicos junto com Recovery Girl avisaram que ele tinha o prazo de dois meses para acordar, porém eles já deixaram avisados que eles não sabiam como ele ia acordar, ou seja, ele poderia acordar com sequelas irreversíveis, e caso ele não acordasse em dois meses, significaria automaticamente que o cérebro dele não respondeu ao tratamento, dizendo a grosso modo, morte cerebral. Os pais dele junto com os meus colegas de sala mais professores da U.A, no geral, entraram em desespero naquela época, mas eu também passei a questionar o porquê chorava com a possibilidade de não ter mais o sorriso, a voz dele me cumprimentando, a vontade de sei lá… me desculpar com ele? Desculpar pelo quê?! Quando foi que o jeito dele parou de me irritar e passou a me encantar? Quando passei a chorar pela possibilidade de não voltar ter ele na minha vida? Por que eu passei a não querer mais apenas vencer, mas também salvar vidas? Importar com ele e consequentemente com as pessoas?
Após todo o incidente, houve mais uma crise ferrada no sistema de heróis e nessa época algo em mim começou lentamente a mudar. A partir dali, comecei a perceber que realmente tudo que aprendi era errado, aceitei que pessoas sem individualidade não tem culpa de ter nascido assim, que viver em sociedade é, de certa forma, depender dos outros. Também cheguei até a cogitar sair da U.A., como vários de outras classes fizeram, porém que merda de herói eu poderia ser se não soubesse lidar com a vitória? Por esse e outros motivos, decidi continuar, mesmo contra vontade dos meus pais. Além de tudo isso, no dia seguinte era meu exame de admissão para tirar a licença provisória de herói. Se mesmo com tudo, eles não adiaram ou até mesmo cancelaram o exame, tá bom que eu ia desistir a essa altura do campeonato. Dar de bandeja o posto de maior herói para outra pessoa ou até mesmo para o Deku? Jamais! Meus pais, All Might e todos que morreram ali, onde quer que estejam, nunca me perdoariam se eu desistisse.
Meu codinome de herói como “Mr. X-plosion” foi aprovado, fiz novamente o exame, passei em segundo lugar, mas estranhamente ele era como primeiro lugar, pois eu fiz ciente de que ser um herói não é apenas vencer. É ter algo chamado altruísmo. Por que eu tive que aprender isso da pior forma? Se fosse menos egoísta…
Estranhamente, depois disso passei a visitar Izuku no hospital, porém cada vez mais sufocava em mim o incomum sentimento de medo de perdê-lo. Eu, que nunca fui de orações, pedia para alguma força do destino maior que eu fazê-lo acordar e não tirá-lo de mim. Conversava com ele, sem esperanças, pedindo para ele cumprir sua promessa de competir comigo para ser o maior de todos, falava que não havia sentido continuar sem ele. Quando voltava para o dormitório ou no intervalo da sala, chorava baixinho de medo de perdê-lo. Às vezes, era encontrado por Kirishima, ou Seto, ou Denki e achava uma vergonha eles me acharem assim, mas com o tempo passei a entender que eles também passavam pelos mesmos medos que eu. Uma vez, no hospital, cheguei ao cúmulo de chorar nos braços da Uraraka.
Duas semanas passaram e Deku finalmente acordou. Ele acordou exatamente quando eu estava prestes a despedir-me dele. Ao ver seus olhos abrirem novamente e ele dizer com uma voz bem fraca, porém com um sorriso bem sincero:
— Kacchan, o que você está fazendo aqui? — Ali comecei a chorar, meu coração começou a disparar e depois falei com ele algo tão trivial que nem lembro mais, mas eu lembro que logo após isso, eu liguei para os pais dele que vieram imediatamente para o hospital e trataram logo de falar as boas novas para os meus pais mais o resto do pessoal. Depois de tudo, eles me agradeceram e deixei o hospital.
Três semanas passaram, Deku continuou a recuperar-se no hospital e continuei a visitá-lo, porém passei a estranhar sobre o porquê sentia meu coração disparar mais forte apenas ao ver o sorriso dele ou quando ele falava “Kacchan” e, aos poucos, ele passou a disparar somente de estar junto com ele. Além disso, um dia, quando ele comentou sobre a beleza de uma enfermeira, eu senti uma bizarra sensação de pontinha de… ciúmes. Que porra estava acontecendo? Desde quando esse tipo de sensação começou a vir? Contudo, preferi pensar que isso era apenas, sei lá, um trauma de tudo que aconteceu e não sabia como lidar, na época. Não conseguia falar sobre isso para os meus pais, apenas inventava que estava pressionado demais com a escola. Só queria saber o que sentia, de fato.
Os dias passaram, a sensação de coração disparar diante de estar na presença de Deku continuou e comecei a pensar na possibilidade de que, talvez, estivesse passando por aquilo que a minha mãe ensinou uma vez, quando eu vi um tio meu com o namorado dele, quando eu tinha uns sete anos de idade. Resumidamente, ela ensinou que apesar de existir caras que curtam outros caras, caras que curtam outros caras e outras minas, ou curtam outros caras e até pessoas que não se identificam como “homem” e “mulher”, ou até pessoas que não ligam para esse lance, a sociedade espera que homens curtam mulheres e que isso é nocivo para quem não segue essa normativa. Lembrei também que isso foi ensinado nas aulas de educação sexual na Escola Secundária, mas a possibilidade de ser um deles era algo totalmente diferente. Primeiro, veio a confusão, porque… cara se é normal curtir outros caras e outras minas, por que a sociedade impõe que todo cara curta mulher? Isso não é tão errado quanto a sociedade pregar que pessoas sem individualidade são inúteis? Além disso, não tinha com quem contar no colégio, pois todos os meninos da sala com quem eu tinha mais intimidade para esse tipo de assunto, na época, curtiam mulheres — só anos mais tarde que Kirishima revelou para mim sua homossexualidade. Depois, um belo dia, eu tive um sonho onde me imaginei beijando e fazendo tudo aquilo com o Deku. O Deku! Cacete, eu nunca o vi daquela maneira, que porra estava acontecendo?! Para piorar, comecei a perceber que, apesar do meu sonho com Izuku, ainda ficava excitado com as atrizes pornôs dos filmes que víamos escondido no quarto do Denki. Caralho, o que estava acontecendo comigo? Fui até a internet pesquisar “meninos que querem meninos e meninas” e deu como resultado “manuais” de como ser o rapaz ideal para qualquer mulher. Aí fiquei confuso de vez, mas resolvi deixar para lá e não pensar nisso.
Um dia depois dessa busca, por causa do incidente com o Mineta abriu uma vaga disputadíssima na minha classe, cujo vencedor foi um cara do 1-C chamado Hitoshi Shinsou ou “Controller” e ele passaria a estudar com a gente a partir de amanhã, além de ocupar o quarto que um dia foi daquele cuzão. O cara era famoso por usar sua individualidade de lavagem cerebral, geralmente atribuída a vilões, para o bem e por ser o melhor estudante da classe 1-C, a classe dos estudantes com individualidades insuficientes para serem heróis, mas eu particularmente nunca dei uma foda para ele até aquela noite.
Após as aulas, o povo da minha sala resolveu fazer uma festa do pijama de boas vindas para o “lavador de cérebro” no quarto dele. Estava tudo bem até eu ir fuçar não sei o que embaixo da cama dele, acho que foi o copo que tinha acabado de tomar ponche, e acabei achando um filme pornô gay. Minha curiosidade falou mais alto, anotei o site do filme no navegador do celular e senti a estranha necessidade de matá-la logo. Falei que estava com sono, despedi do povo, fui para o meu quarto, desbloqueei o celular, concluí a entrada do site no navegador e ao ver aquilo comecei a sentir a mesma excitação que sentia com atrizes pornôs. Pior, comecei a me visualizar fazendo aquilo com o Deku…fechei aquilo imediatamente e fui dormir, mas sonhei novamente que estava fazendo aquilo com Izuku, com o Shinsou e com a atriz pornô do último filme que assisti. Acordei, no dia seguinte, bem atordoado e para piorar, acordei todo gozado. Que caralhas estava acontecendo? Não pela polução noturna, mas por ter sonhado isso. Tanto que, durante as aulas, eu nem conseguia olhar para o “lavador de cérebros”, muito menos consegui olhar para o Izuku na visita que fiz para ele.
— Está acontecendo alguma coisa, Kacchan?
Não ia falar para ele, “sonhei que te pegava numa suruba”. Menti:
— Briguei com meus pais no telefone. — Agradeci por ele ter engolido essa desculpa, pois ele imediatamente falou para eu desabafar sobre o que aconteceu.
Depois da visita, voltei para o dormitório no colégio e fui direto para o meu quarto. Deitado na cama, estava totalmente pensativo no que rolava comigo até resolver encarar os fatos. Peguei meu celular, digitei na ferramenta de busca do navegador de imagens “mulher pelada” e conforme via as fotos, comecei a ficar excitado, mas logo em seguida, pensei em qualquer coisa broxante para passar minha excitação. Depois digitei “homem pelado” e comecei a ficar excitado do mesmo jeito que fiquei ao ver mulheres nuas e detalhe: sem imaginar o Deku. Aí comecei a cogitar a possibilidade de experimentar para descobrir qual é a minha de verdade, mas, ao mesmo tempo, uma parte dos meus desejos era querer o Izuku? Argh! Contudo, recomecei a raciocinar:
“Se o “lavador de cérebros” tem um vídeo pornô gay, ele provavelmente ele deve curtir outros caras ou outros caras e minas. E por causa da individualidade dele, ele é obrigado a saber algumas coisas de psicologia, então ele deve saber o que está acontecendo comigo.” — Respirei fundo, esperei todo mundo dormir e fui até o quarto do Shinsou. Ele convidou para eu entrar, sentei na cama dele e desabafei tudo que estava acontecendo comigo, exceto meus pensamentos estranhos com o Deku. Realmente, eu estava certo sobre ele saber o que estava acontecendo comigo. Mesmo bem tímido, Shinsou explicou para mim que o que rolava comigo era algo totalmente normal, por mais que a sociedade dissesse o contrário, chamado bissexualidade e até falou sobre como foi o processo dele de descoberta mais aceitação da própria bissexualidade. A confusão que eu sentia, ele também sentiu e depois ele falou que deveríamos dar um foda-se para essa sociedade, pois nascemos para amar quem a gente quiser — gostei desse lado dele. Senti-me, por um lado, aliviado por saber o que finalmente eu era nesse sentido. Depois, continuamos a conversar sobre nossa bissexualidade, fomos entrando em um rol de conversas cada vez mais íntimas até, no final, nossas palavras transformarem-se em beijos, em roupas jogadas no chão do quarto e na perda da minha virgindade.
Acordei no dia seguinte nos braços de Shinsou, porém ainda com o sentimento de confusão dentro de mim. Não mais pela minha sexualidade, mas sim porque fui até os últimos dos meus desejos com ele imaginando que estava fazendo com o Deku. O Deku! Cacete, que porra estava acontecendo?! Sem ele perceber, saí dos braços dele e fui direto para o chuveiro do vestiário. Lá dentro, eu chorei muito por ter feito o que fiz e me sentia confuso por toda essa situação. Queria falar a real para o Shinsou, contudo… e a coragem? Por que eu estava com medo de magoar ele? Eu que sempre preferi perder o amigo do que ser falso com ele? Por que caralhos estou me importando com os sentimentos dele? Fui para aula, entretanto mal conseguia prestar atenção nas aulas. Depois delas Shinsou quis falar comigo a sós no terraço do colégio. Fui até lá e estranhamente fiquei aliviado pelo tópico da conversa, pois ele veio falar que o que rolou entre nós não ia passar de uma transa para não nos machucarmos futuramente, porém ele perguntou também se, pelo menos, nossa amizade poderia continuar. Respondi para ele falando que sim, porque nós éramos os únicos que poderíamos desabafar nossas experiências sexuais de igual para igual. Desde então, ficamos próximos por um tempo, porém depois de um tempo meio que nos afastamos, mas nunca deixei de falar com ele.
Logo um dia depois disso, após as aulas, uma veterana do terceiro ano que sempre achei atraente chegou em mim, falou sem rodeios que sempre quis passar uma noite comigo e perguntou se eu queria dormir com ela naquele sentido. Ela também deixou bem explícito que não passaríamos de uma noite, pois ela não estava a fim de namoro. Aceitei o convite para dormir escondido no quarto dela e transamos lá dentro, entretanto aconteceu a mesma coisa com o Shinsou, imaginei que fazia tudo com o Deku enquanto tinha meus momentos com ela… Que caralhos está acontecendo?!
No dia seguinte a isso, as mesmas lágrimas de arrependimento, novamente fiquei sem concentração nas aulas e quando fui dormir, aquele “nerd” passou a invadir os meus sonhos com cada vez mais frequência. Às vezes, eles eram com a gente observando as estrelas no topo de uma montanha de mãos dadas, outras a gente almoçando juntos em um restaurante e junto a esses sonhos românticos, vinham os sonhos eróticos e quando menos percebi, cheguei ao cúmulo de usar as lembranças dos meus sonhos eróticos para me masturbar pensando nele. Bizarramente passei a querer concretizar meus desejos mais íntimos somente com ele.
Os dias passavam e cada vez mais tinha meus pensamentos iam novamente para Deku e isso piorou quando em uma bela segunda-feira, uma semana depois do meu ocorrido com o Shinsou e a veterana, ele voltou para a escola, pois passei a me perder no sorriso dele durante as aulas, nas sardas espalhadas pelas suas costas, braços, abdômen e seu corpo inteiro durante a troca de roupas no vestiário, no seu tom de voz em nossas conversas rápidas, nos seus movimentos durante as lutas nas aulas práticas… até em uma risada dele me perdia sem querer e não queria mas voltar. Além disso, tinha que lidar com as provas finais do colégio e tentava processar como ele voltou mais forte do que antes e ainda conseguiu passar em tudo. Entretanto, em vez achar que ele trapaceou ou usou a individualidade do Shinsou para gravar a matéria, afinal eles ficaram bem amiguinhos depois que o Izuku saiu do hospital (e esse foi o principal motivo da gente parar de andar juntos no colégio, turmas diferentes, mas só de andar juntos. Como disse, a gente nunca deixou de se falar), eu apenas pensei que ele estudou o triplo do que nós lá no hospital para poder acompanhar a gente. Que porcaria era essa? Isso ficou mais estranho quando em vez de querer ultrapassá-lo somente pela sensação de ser melhor que ele, torcia para ele aprimorar cada vez mais os poderes dele.
As férias de inverno chegaram e fomos autorizados a voltar para nossas famílias, contudo elas não foram tranquilas. A cada dia que passava pensava cada vez mais em… Deku? Como assim, caralho?! Ao mesmo tempo em que queria distância, contato nenhum com ninguém da sala para essa confusão passar, pois achava que era ainda trauma pelo que aconteceu com o Izuku, eu também queria também estar mais próximo dele. Um horrível conflito que me fazia agir como idiota, como recusar um convite para sair com a galera porque o Deku ia, mas cinco minutos depois aceitar justamente porque ele ia. Pensei em até pedir autorização para os meus pais para viajar sozinho, mas deixei para lá por pensar em Deku? Merda! Fora também o penúltimo dia de férias, onde eu saí com ele, o Iida, o Kirishima, o Seto, o Denki, o Shinsou para o cinema e me senti estranho quando ele comentou sobre a Uraraka com os olhos brilhando, pois estranhamente desejava que ele falasse sobre mim assim. Que bosta estava acontecendo?
As férias passaram, primavera chegou, a classe 1-A virou 2-A e minha mente estava cada vez mais confusa por causa daquele “nerd”.
“Foda-se, estou aqui para ser o maior herói de todos os tempos, não para… Merda, por que você não sai dos meus pensamentos, Deku?!” — Mesmo focado nos estudos, Deku continuava a invadir minha mente, meus sonhos, desejos, fantasias e tentei parar com isso. Acha que se falasse apenas o realmente necessário com ele, passaria meu “trauma” e voltaria tudo ao normal, mas não adiantou. Desde o primeiro dia de aula até o último do segundo ano mais as férias de inverno pós provas finais, eu continuei pensando em Deku e estava cada vez mais desesperado com isso. Não consegui falar isso para ninguém e olha que não foi por falta de tentativas! Eu simplesmente travava e ficava cada vez mais sufocado por esses sentimentos.
Terceiro e último ano de colégio chegou e a confusão sobre meus pensamentos sobre o Deku permaneceu e pior do que antes, mas, mesmo assim, tinha o objetivo de ser o melhor herói ali. Dediquei-me bastante aos meus estudos, estágio para, no final, conseguir passar com honra como segundo melhor aluno do colégio, atrás apenas do Izuku e estranhamente não estava com raiva disso? Estava mentalmente parabenizando ele e até querendo um beijo dele pelo meu segundo lugar? Não, não, não!
“Ainda bem que a formatura é daqui duas semanas e amanhã começa meu treinamento de boas-vindas como herói semiprofissional no escritório do Thunder Bomber. Dois dias depois da formatura, estarei ocupado trabalhando e vou trabalhar tanto que nem terei tempo de pensar em Deku! Ou seja, meu tormento acabou!” — Mera ilusão minha! Nas duas semanas que passaram de treinamento, eu pensava mais em Deku do que nunca pensei em toda minha vida.
Um dia antes da colação, eu não aguentava mais aquela situação e resolvi desabafar sobre ela com a úncia pessoa que achava que poderia me compreender. Pedi para Shinsou me encontrar em uma praça próxima de casa, porém meio isolada, ou seja, lugar perfeito para conversarmos em paz. Uma hora depois, ele chegou e lá, sentados nos balanços, eu joguei para fora toda a minha confusão de sentimentos sobre o Deku desde que ele foi para o hospital, desabafei mesmo. Após ouvir tudo sem dar um pio, Hitoshi deu uma risadinha e:
— Tá rindo do quê, porra? — Soltava até explosões para demonstrar a raiva que sentia ali. Eu chamo o cara para desabafar coisa séria minha e ele dá risadinha?! Vai se foder! Mas deixei ele falar.
— Calma aí, cara! Até peço desculpas por esta rindo, mas é que é meio surreal imaginar você… apaixonado. É isso, cara. Essa confusão, esse “trauma” aí se chama “estou apaixonado pelo Deku e não sei como admitir isso”. Sendo sincero? Desde o início eu já suspeitava que você era a fim do Izuku, porém quando eu vi você chorando no banheiro e lamentando por ter transado comigo pensando nele, ali eu tive a certeza e por isso falei o que falei naquele dia lá no terraço. Se continuássemos a transar, iráimos insistir em algo fadado a não dar certo e ia dar merda das grandes. Por outro lado, você não falava nada, aí preferi não te pressionar, nem me meter e a gente ficar só na amizade mesmo, como estamos agora.
— Hitoshi, eu nem tenho como te agradecer ou exatamente o que falar. Acho que sei sim… er… desculpa por ter transado contigo pensando em outro e desculpa também ter ficado nervoso por você ter rido. Achei que você tava me tirando!
— Relaxa, eu já te desculpei faz tempo, mas não faça mais isso. Não é todo mundo que é compreensível com eu, sabe?! — alertou ele e continuou. — E voltando ao assunto da sua situação com o Deku, cara, você só está apaixonado e isso não é errado… mas você está também ciente que fez muita coisa errada contra o Izuku, né?!
— Que coisas erradas? Ah, se for o que talvez estou pensando…
— Não vou entrar em detalhes, porque não sou fofoqueiro, mas se eu fosse você usaria a formatura como uma oportunidade para você recomeçar com ele, sabe?! Falar com ele, ouvir o que ele tem a dizer em relação as mágoas dele contigo, resolver qualquer mágoa que você ainda tenha dele, pedir desculpas para ele para aí sim você explicar seus reais sentimentos por ele e se declarar para ele. O “não” você já tem garantido, agora o “sim” depende de você. Sério, Katsuki, você não tem nada a perder falando com ele. — Realmente eu estava certo sobre ele ser a única pessoa que me compreenderia naquele momento.
— Valeu aí, cara! Até amanhã.
— Até!
O dia da formatura chegou e a cerimônia foi aquela chatice: discursos clichês, Iida falando bostas ainda mais clichês como orador da turma, subir no palco, receber os cumprimentos dos professores, fazer uma pose bacana com o canudo, abraços e choro em família, em amigos, em colegas, e meus pais segurando uma placa “Katsuki, você não fez mais do que sua obrigação”. Após o término dela, na primeira oportunidade que tive de achar o Deku sozinho, longe dos amigos ou dos pais dele, perguntei se poderíamos conversar a sós. Ele aceitou.
Saímos do auditório e fomos até o pátio do colégio, caminhando em silêncio. Meu coração faltava saltar pela boca, nunca senti esse tipo de nervosismo antes e naquela época, eu odiava me sentir assim, mas sei lá o porquê lembrei do Shinsou falando para eu pensar em algo que me relaxasse naquele momento e pensei nas porradas que dei nos vilões em estágios. Passou um pouco. Chegamos até uma parte meio isolada dele, onde era difícil ter alguém por lá. Ficamos parados em frente um ao outro:
— Kacchan, o que você quer falar comigo?
Era naquela hora ou nunca. Respirei bem fundo e comecei:
— Primeiro de tudo, Deku, me desculpe por tudo que eu fiz contra você desde criança. Me desculpe pelos anos de bullying que eu fiz contra você, me desculpe por ter queimado teu caderno, por ter batido em você, por todos os xingamentos, abusos psicológicos e físicos que cometi contra você, por ter desprezado você. Me desculpe também por ter interpretado você tão mal durante esses anos todos. Eu fazia isso porque achava que essa sociedade estava certa sobre pessoas como você nascerem para me servir, por achar que eu era o fodão e você deveria estar sempre nas minhas costas como um cachorrinho, achar que você dependia de mim, que tudo que você fazia era para me afrontar e não aceitar seu “destino”. Você, o All Might, todo mundo com quem convivi e conheci por cauda da U.A, e principalmente a vida me ensinaram o quanto eu estava errado. Por isso, eu me curvo a você e reforço as minhas sinceras desculpas a você, Izuku. Sei que o que eu fiz te deixou marcas muito profundas e que talvez nem seja digno do seu perdão, mas beleza. Pelo menos, estou aqui, sendo homem suficiente de reconhecer meus erros. Como está escrito naquele “belo cartaz” que meus pais fizeram para mim, estou fazendo nada mais do que minha obrigação.
Izuku deu um suspiro, me olhou meio espantado e falou:
— Você não veio aqui apenas só para isso, né?! Fico feliz realmente que você finalmente está reconhecendo seus erros, mas algo me diz que você tem mais coisas para me falar, né?!
— Sim.
— Então, vou deixar você falar o resto para depois eu falar qualquer coisa. Continue. — Fiquei chocado com a postura e a resposta dele. De certa forma, também me senti humilhado. Como o Deku conseguia ser tão maduro, mesmo tendo a mesma idade que eu? Voltei a ficar com a postura ereta e fui em frente:
— Você está certo, eu não vim aqui somente para me desculpar. Eu vim também para falar algo. — respirei alto e continuei. — Esse reconhecimento pelos meus erros veio junto ou veio através, sei lá, de eu finalmente admitir que, no fundo, eu sempre admirei você e só não sabia como expressar. Enfim, a real é que eu gosto de você, Izuku, mas não é aquele “gosto” de amizade ou algo do tipo. É de paixão que estou falando, de fazer fodendos três anos que você não sai da minha cabeça, sabe?! Três fodendos anos que meu coração dispara só de te ver, três caralhos anos que eu sonho contigo. De desejar você, abraçar você, fazer coisas de casal contigo; de gostar de você ao ponto de cagar de medo de te perder, quando você foi atingido na cabeça e ficou em coma por duas semanas naquele hospital. É isso, eu estou apaixonado por você e me desculpe caso os meus sentimentos te ofendam. Simplesmente… aconteceu.
Ele chorava e não era pouco, eu também chorava. Queria abraçá-lo imediatamente quando vi aquilo, mas uma parte de mim dizia para não fazer isso. Refreei meu instinto e deixei ele falar:
— Como eu disse antes, fico feliz de verdade que você finalmente tenha reconhecido seus erros, mas é como você mesmo disse, o que você fez comigo no passado deixou muitas marcas. Fantasmas pesados que carrego até hoje na minha autoestima, feridas que já se fecharam, porém as cicatrizes estão lá. O que você fez comigo esses anos todos doeu muito, Kacchan. Se você, no fundo, me admirava, que você fosse menos cabeça dura, infantil e me falasse, cacete! Que você me pedisse desculpas, assumisse que gostava de mim e pedisse para gente recomeçar, como você está fazendo agora, quando ainda era tempo. Esse negócio de “quem enche teu saco, no fundo gosta de você” só funciona em filme e fanfic clichês ruins. Na vida real, Kacchan, o bullying que você cometeu contra mim, todas as vezes que você me chamava de “Deku” para me xingar, batia em mim, afundava minha cabeça na privada do banheiro estilo ocidental da diretoria, pichava minha carteira, todas as vezes que você me subestimou e todo o resto o que você fez contra mim não dá para apagar! Tá, tínhamos nossos momentos de “pax romana”, tivemos momentos em que realmente nos demos bem, momentos bons juntos e também confesso que foi por começar a olhar seu físico com outros olhos, que percebi a minha bissexualidade. Entretanto se eu for colocar na balança todas suas atitudes comigo, essa balança dá muito mais negativa do que positiva, meu. Kacchan, eu chorei muito por causa das agressões que você fazia contra mim, muitas vezes você me fez sentir um lixo, me fez sentir incapaz. Apesar de usar muitas das suas palavras negativas contra mim como gana para provar que você estava errado, elas doíam, doem até hoje. Você sempre cultivou sentimentos de medo, raiva, frustração e várias vezes até ódio contra você dentro de mim. Como você quer que eu te ame?
Ouvir aquelas palavras doeram muito. Como eu pude ser tão, como eu não pude… Naquele momento queria que houvesse um buraco para eu entrar lá dentro e nunca mais sair. Ali, eu percebi o quanto minha teimosia, meu orgulho excessivo, minha demora em expressar meus sentimentos de forma clara foderam com tudo. Percebi o quanto eu fui errado nesses anos todos. Apenas consegui falar com lágrimas nos olhos:
— Você está certo, mas… desculpa… não, pode continuar a falar.
— Kacchan, é como eu disse naquele dia da briga, lá no primeiro ano, quando o sistema de dormitórios foi implementado. Eu jamais quis afrontar você. Apenas queria seguir o meu sonho de ser herói como o All Might e aqui estamos, formados. Só queria que você dissesse alto que reconhecia as minhas habilidades e me pedisse desculpas, como você está fazendo agora… Talvez se você tivesse essa maturidade uns quatro anos atrás ou até mesmo bem no começo do nosso colegial, poderíamos estar juntos, mas agora é tarde demais. Katsuki, eu perdoo você, permito que a gente ser colegas e tal, mas, por favor, não me peça para corresponder seu amor. Por favor, também não corra atrás de mim para tentar me convencer do contrário, porque eu sei o teimoso que você é. O que você plantou em mim durante esses anos todos não dá para eu cultivar por você sentimentos como paixão ou amor. Além de tudo isso, eu já estou apaixonado por outra pessoa.
— Acho que até suspeito quem seja… é a Uraraka, né?! Você sempre elogiou ela perto de mim.
Ele respirou fundo e me respondeu:
— Sim. Ao contrário de você, ela sempre plantou respeito, companheirismo, amizade sem nenhuma competição ou “hierarquia” e carinho comigo. Como consequência, ela cultivou em mim os melhores sentimentos em relação a ela até acontecer de eu me apaixonar por ela, da mesma forma que aconteceu de você se apaixonar por mim. Eu entendo, de certa forma, sua demora por falar sobre sua paixão por mim, pois imagino o quanto você deva ter ficado confuso até admitir que estava apaixonado e expressar esse sentimento, como está fazendo agora. Eu também me senti confuso até eu reconhecer que estava apaixonado por ela, contudo você não deveria ter demorado tanto, Kacchan e agora meu coração é apenas da Uraraka. Ontem ela veio falar comigo e… — interrompi ele. Não queria ouvir em detalhes o que no fundo já sabia:
— Não precisa entrar em detalhes, até imagino o que seja. Ela veio falar que gosta de você, você se declarou para ela e essa pulseira aí no seu braço… vocês estão namorando, né?!
— Sim, Kacchan. Estamos juntos. — Era o soco final no estômago que faltava. Nunca quis tanto um buraco na terra, um saco de pão, o saco de dormir do Aizawa, qualquer coisa onde pudesse me enfiar lá dentro e não sair mais de tanta vergonha como naquele momento. Apenas consegui falar:
— Que vocês sejam felizes e tenho certeza que você vai ser um herói fodástico. Ah, valeu aí por não zombar dos meus sentimentos e ser sincero comigo. Tudo de bom aí na sua caminhada, Deku. A gente se vê por aí.
— Eu digo o mesmo para você, Kacchan. Agora vou lá. Boa sorte do mundo para você e a gente se vê por aí. Tchau! — Deku partiu e logo depois de alguns minutos, saí do pátio e voltei para o auditório. Logo depois da formatura, saí para jantar com meus pais e voltamos para casa para dormir, mas quem disse que eu conseguia dormir? As palavras do Deku atingiram em cheio minha mente e nela só havia um sentimento chamado arrependimento:
“E se eu fosse menos teimoso? Se tivesse a maturidade de entender que pessoas sem individualidade eram pessoas, acima de tudo? Entender que ele tinha o direito de correr atrás do sonho dele? Entender que eu não sou o centro do mundo e que, do jeito dele, o Deku apenas queria que eu parasse de ser escroto e voltasse no tempo onde eu só tratava ele bem? Entender que ser herói é, acima de tudo, uma combinação de gana por vitória e altruísmo? Por que eu vacilei tanto? Como eu sou burro, meu deus! Tive a oportunidade, ali, na minha cara, de fazer o Deku feliz e o que eu fiz? Ofereci meu pior lado para ele e ainda entreguei ele de bandeja para Uraraka. Parabéns para mim, só faço merda na vida!” — Peguei meu celular e resolvi assistir qualquer programa na televisão dele para distrair minha cabeça e parei naqueles programas musicais de K-Pop que o Todoroki, a Yaoyorozu e a Jirou gostavam. Ele tocava uma música muito triste chamada “If You” de um grupo de lá que era bem famosinho aqui, chamado NU’EST e fiquei chorando com a música até dormir nas minhas lágrimas.
No dia seguinte, acordei sozinho, pois meus pais foram trabalhar. Fui tomar banho, fazer minha higiene básica, escovar os dentes. Depois de enxugado, roupas trocadas, fui preparar meu café da manhã e enquanto tomava ele, assistia a televisão para tentar distrair, mas nada funcionava. Após tomar café, resolvi fazer algo bem atípico meu:
“E aí, Hitoshi?!”
“Você tomando a iniciativa de falar comigo aqui no LINE, que raridade! E aí, aconteceu alguma coisa?”
“Você está livre hoje?”
“Estou.” — ele respondeu.
“Você poderia dar uma passada aqui em casa agora? Eu preciso muito falar com você e o assunto não dá para ser falado por aqui, tem que ser pessoalmente.”
“Tudo bem. Vou só trocar de roupa e chego daqui uma hora, blz?! Qualquer coisa a gente vai se falando.”
“Ok!” — respondi de volta.
Uma hora depois em ponto, Shinsou chegou em casa. Atendi ele, cumprimentei-o e pedi para ele subir no quarto. Sentados na cama, eu comecei:
— Ontem eu segui o seu conselho e me declarei para o Deku.
— Aí sim, hein?! E então?
— E não foi apenas isso, aproveitei a oportunidade também para pedir desculpas para ele de tudo que eu fiz, pedir para recomeçar, sabe?!
— Que bom, Katsuki. Sério, fico contente que… — interrompi ele e contei o resto.
— Não, a gente não está junto. Na verdade, ele desabafou sobre como todas as merdas que eu fiz com ele desde crianças foderam com tudo. Ele esfregou na minha cara as cicatrizes que ele carrega na alma devido a cada erro que eu cometi contra ele, cada mancada, cada maltrato. Tipo, o Deku também admitiu que ele sentiu atração por mim bem no passado, mas em vez de perceber os sentimentos dele, pedir desculpas para ele e tentar recomeçar, não, eu continuei a fazer bullying com ele e a agir como moleque mimado covarde. Aí não há tesão que dure e muito menos amor que floresça, né?! A gente poderia estar junto se eu não fosse tão infantil, arrogante, cabeça dura. E para piorar, ainda descobri que minhas merdas fizeram ele indiretamente se apaixonar pela Uraraka e praticamente entregaram ele de bandeja para ela. Tanto que eles estão juntos desde ontem. Você sabia como o Deku se sentia de verdade em relação a mim e que ele não gostava de mim, mas sim da Uraraka, né?!
— Sabia sim. Como eu disse para você antes, eu não sou fofoqueiro.
— Tudo bem. Só uma coisa, você contou para o Deku sobre o nosso lance ano retrasado?
— Contei, mas foi só porque ele perguntou se a gente estava namorando, devido a nossa aproximação repentina. Não foi porque ele pensou em te dar uma chance ou algo do tipo, foi só de curiosidade dele mesmo.
— Caralho, eu só fiz merda mesmo, hein… — Não esperava mesmo que logo após eu ter dito isso, Shinsou me abraçasse e dissesse para eu chorar, botar para fora toda minha tristeza e que ele não ia contar para ninguém que o herói Mr. X-plosion chorou por ter tomado um senhor fora do seu primeiro amor. Aceitei o abraço e chorei como só chorei nos braços da minha mãe quando o All Might faleceu. Esses, de longe, foram os dias em que mais chorei em toda minha vida.
Os anos passaram, eu segui meu árduo caminho de perdas e ganhos, apostas e certezas, ensinamentos e aprendizados da vida até me tornar o que sou hoje: um dos maiores e mais populares heróis. Todos os outros formandos seguiram bem, do jeito deles, e Deku tornou-se o novo símbolo da paz daquele jeito especial dele.
O fora que Izuku me deu, usei para amadurecer muita coisa em mim ao longo desses anos todos. Aprendi na marra o que é ter empatia pelo sofrimento alheio, a expressar melhor meus sentimentos, a ter gentileza, a tratar todo mundo com respeito, a trabalhar minha teimosia, a balancear melhor meu temperamento forte, a pensar duas vezes antes de falar. Do Katsuki adolescente cabeça quente, prepotente teimoso, e infantil, não sobrou quase nada; só um pouco de teimosia e ainda parte do meu temperamento forte. Levei muita porrada na vida? Sim, mas elas foram necessárias para eu parar de ser escroto.
Admito também que demorei para esquecer o Deku, principalmente nos dois primeiros anos após o fora. Doía acessar as redes sociais dele e lá estar mais uma declaração de amor dele para Uraraka e vice-versa, doía quando a gente conversava, ele falar sobre ela com um brilho intenso nos olhos que, no fundo, queria que fosse para mim. Confesso que também mantinha uma esperança dele voltar a ficar solteiro um dia para conquistar o coração dele. Conforme os anos passavam, eu ficava cada vez mais ocupado com as minhas responsabilidades de herói, conhecia novas pessoas e amadurecia, a sensação de frio na barriga toda vez que ia encontrar o Deku, do coração disparar só de pensar nele e pensar constantemente nele foram diminuindo até aquele dia chegar.
Deku chamou todo mundo para uma reunião na casa dele. Lá, ele anunciou que eles estavam noivos, que casariam daqui a dois meses e ainda a Uraraka anunciou que estava grávida de dois meses. Se isso ocorresse alguns anos atrás, eu estaria arrasado, pois lá se foram todas as chances de ficar com o homem que eu amo, porém fazia cinco anos desde que levei o fora e tudo que eu consegui sentir de verdade foi desejar que eles nunca se separassem. Além disso, assim que eu cheguei e o vi, não passei a sentir nada além daquela sensação normal de nervosismo, quando você vai encontrar uma pessoa querida que não vê há muito tempo. Ali, naquele dia, eu tive a certeza de que finalmente superei o Deku e estava finalmente pronto para amar outro alguém.
Dois meses depois, a data do casamento do Izuku chegou. Ele foi fechado para a mídia e foi realizado nos moldes tradicionais xintoístas. Não dava para dizer quem estava mais bonito, se era o Deku, com o quimono preto tradicional para essa ocasião, ou a Uraraka, cujo quimono branco para noiva estava com o obi, sua faixa, afrouxado por causa da gravidez. Eles radiavam felicidade durante toda a cerimônia, impossível não se emocionar. Tá, confesso que passou pela minha cabeça o seguinte pensamento, quando eles trocaram as alianças:
“Se eu pudesse voltar no tempo e ter consertado todas as merdas que eu fiz contra o Deku, antes dele encontrá-la, talvez poderia ser eu ali com ele…” — Porém foi algo efêmero que rapidamente voltei a colocar os pés no chão e encarei a realidade de frente. — “Mas não. Talvez poderíamos ter namorado, porém dá para ver de longe que a pessoa destinada para ele é a Uraraka. Provavelmente em algum momento, a gente ia terminar, ele ia ficar com ela e o Deku continuaria sendo a mesma coisa que ele é hoje para mim: meu primeiro amor, só mudaria de amor não-correspondido para primeiro relacionamento que não deu certo”.
Após a cerimônia, veio a festa de casamento e foi normal. Diverti-me bastante, matei saudades de pessoas que não via há um bom tempo, principalmente dos meus tempos de U.A e entreguei meu presente para os recém-casados. Até toquei na barriga da Uraraka e chorei de emoção, pois o bebê se mexeu. Quando que eu ia conseguir fazer isso, caso tudo acontecesse, por exemplo, logo depois que a gente se formou? Essa sensação de paz era e é maravilhosa demais. Eu realmente superei minha paixão pelo Deku e consegui converter tudo em algo bom, no final. Esse orgulho bom de fazer a coisa certa, sabe?!
Momentos antes do final da festa, Izuku queria falar comigo. Fui com ele até uma parte isolada do jardim japonês do santuário, sentamos no primeiro banco que vimos e conversamos:
— Quem diria, né, Kacchan… o Deku adolescente que só queria ser como o All Might… hoje herói, casado e pai. — As lágrimas dele foram inevitáveis junto as minhas.
— Onde quer que o All Might, Sir Nighteye, Toogata e todos aqueles que não estão mais aqui entre nós estejam, eles estão orgulhosos para porra de você e de todos nós. Tá, menos do Mineta, que desviou do caminho e hoje a gente tem que combatê-lo como vilão, mas… enfim, foi uma escolha dele, e não vamos falar disso para estragar esse momento tão bacana. — percebi que ele estava começando a ficar emotivo por causa desse assunto e logo falei — Deku, você pode encostar tua cabeça no meu ombro e me abraçar como você fazia quando éramos crianças.
— Mas…
— Não se preocupe, o amor que eu senti por você, Deku, ficou na adolescência mesmo. Era isso que você queria falar comigo, não é?! Saber se eu estava chateado pelo seu casamento. Relaxa, foi difícil, mas faz tempo que eu te superei.
— Sim. Obrigado, Kacchan. Fico feliz em saber que você está em paz e que você agora realmente me vê apenas como um amigo. — respondeu ele, encostado ao meu ombro e abraçado a mim.
— Vou te dizer uma coisa, eu sempre lembrarei de você como meu primeiro amor e também como minha primeira decepção amorosa. Por outro lado, eu precisava daquela conversa. As verdades que você jogou na minha cara naquele dia me fizeram amadurecer para porra, meu. Foi o “acorda para vida” que eu estava precisando. Usei todas as suas palavras junto com as porradas que a vida me deu para ser uma pessoa melhor. Se hoje eu te superei, estamos aqui, de boa, conversando sobre o passado e me tornei alguém bacana para você e a Uraraka a ponto de me convidar para o casamento de vocês, foi porque você falou o que eu precisava ouvir naquele exato momento. Obrigado, Deku, por me salvar de mim mesmo. É isso que heróis fazem.
— Eu também agradeço você, Kacchan, a ter me ensinado que ter sede de vitória e autoconfiança, na dose certa, não faz mal a ninguém e também faz parte do papel de ser herói. — No final, nós dois ficamos igual dois chorões rasgando seda um para o outro, do nosso jeito até ele falar que deu a hora de ir. Despedimos um do outro, desejei tudo de bom para ele e fiquei um tempo ali, sentado no banco e observando a lua, quando, de repente, ouvi uma voz muito peculiar me chamando. Era Uraraka sentada do meu lado. Ela não perdeu o hábito de flutuar silenciosamente até chegar no lugar desejado e usar a gravidade zero para sentar-se sorrateiramente em bancos, cadeiras ou parecidos. Esse hábito ela adquiriu quando parou de vomitar ao se auto flutuar e está aprimorado agora que ela é adulta e heroína profissional.
— Caralho, Uraraka, que susto! — Ela ria do meu susto, com direito a eu soltar algumas explosões involuntárias e completei. — Tem coisas que nunca mudam, hein?!
— Você também, tá, Bakugou! Você também. — acabamos rindo disso, mas logo em seguida, falei para ela:
— Há quanto tempo que nós dois não ficamos assim?
— Pode ter certeza, tem muito tempo.
Fui direto ao ponto:
— O que fiz para trazer a honra da Senhora Ochaco Midoriya para falar comigo?
— É só um desabafo sobre algo que rolou entre nós dois que me incomoda há tempos e acho injusto não compartilhar com você.
— Então fale, estou a todos ouvidos.
— Quando éramos adolescentes lá no colegial, você gostava do Midoriya, certo?!
— Sim, mas é passado. Aliás, até agradeço seu marido ter me dado o fora, pois eu precisava ouvir as verdades que ele me disse, naquela época, para finalmente parar de vez de ser escroto. Não vou ser hipócrita, Uraraka, várias vezes quis estar no seu lugar, mantive esperanças do relacionamento de vocês terminar para ficar com ele e até peço desculpas por isso. Por outro lado, é aquilo: que culpa você tem de você ser a pessoa destinada para o Izuku e não eu? Além disso, é como ele mesmo disse para mim, eu só dei mancada com ele, como ele ia me amar? Você fez tudo que eu devia ter feito com ele desde sempre. E outra, mesmo que eu tivesse feito tudo certo, a gente tivesse namorado, vocês estariam como estão hoje, casados. Você faz o Izuku sorrir como eu nunca conseguiria fazer, mesmo que eu tentasse.
— Quem poderia imaginar que até Bakugous amadurecem, hein?!
— Ei!
— Estou brincando. Também não vou ser hipócrita, quando o Deku confessou que teve uma “quedinha”, por assim dizer, por você no passado, fiquei bem enciumada. Na verdade, eu sempre tive meio que ciúme de você, Bakugou, pois você conseguia mexer com ele como eu achava que não mexia. Fora que tinha questões pessoais minhas de me fortalecer para ser a heroína de mim mesma, sem me “escorar”, por assim dizer, no Izuku.
— Você nunca foi “escorada” no Deku, como alguns falavam de ti pelas costas. Você só precisava confiar mais no teu taco e se fortalecer em um todo. Tanto que no nosso embate no Festival da U.A, lá no último ano, você me deu um baile justamente usando as fumaças das minhas explosões para levitar sorrateiramente, tocar em mim suficiente para me levitar e me arremessar do ringue. Detalhe, nos embates você só perdeu pro Deku, conseguiu o segundo lugar e ficou em quarto no geral. E aquele salvamento do barco que afundou? E o do incêndio? E a luta contra a Tomuga que você acabou com ela, mesmo grávida de uma semana, né?! — ela confirmou e ainda fez questão de ressaltar que realmente não sabia que estava grávida na ocasião. Depois completei. — O que eu quero dizer é, Uraraka, você sempre foi um mulherão da porra.
— Eu sei que eu sou maravilhosa. Obrigada, Bakugou.
— Quem poderia imaginar que até Urarakas amadurecem, hein?! — Não me aguentei e começamos a rir por causa disso. E pensar que cinco anos atrás essa cena seria impossível.
— Continuando meu desabafo, eu cheguei a achar que o Deku gostava de você, mas quando ele falou no hospital sobre os reais sentimentos dele por você e ainda você estava todo unha e carne com o Hitoshi, aí pensei: “Opa, o Izuku não gosta do Bakugou e mesmo se gostasse, não daria porque ele namora” (só depois que eu fui saber que o que rolou de verdade entre você e ele foi só uma transa) e fiz uma promessa de só falar meus sentimentos para ele um dia antes da formatura, devido ao foco no meu fortalecimento pessoal como heroína. Aí quando esse dia chegou, fui lá cumprir minha promessa com a cara e a coragem, me declarei para o Izuku e também o pedi em namoro. Ele respondeu minha declaração inesperadamente com o nosso primeiro beijo e o “sim” dele foi colocando a pulseira no meu braço primeiro, depois no braço dele.
Segurei minhas lágrimas, entretanto elas não eram de inveja pela Uraraka ter sido o primeiro beijo do Deku e vice-versa. Eram de admiração de como o amor deles começou de maneira tão sincera e bonita. Isso apenas confirmou que um foi predestinado para o outro.
— Que sorte a sua do seu primeiro beijo ser digno de filme romântico. O meu foi digno de um filme independente todo desconstruídão desse conceito de amor romântico. Tipo, chamei o Hitoshi justamente para me abrir sobre a questão da minha bissexualidade, porque eu estava confuso para caralho naquela época e quando menos percebi, lá estava eu beijando ele na boca, comendo o cu dele e depois rebolando no pau dele. — Pela cara de espanto que Uraraka me olhou, com certeza ela e o Deku demoraram um bom tempo para começarem a transar, mas nem atrevi a perguntar. Ela continuou o assunto anterior:
— Enfim, o dia da formatura chegou, você se declarou para o Izuku, ele te deu o fora e assim que a cerimônia terminou, eu fui para casa dele. Ficamos na sala e lá ele me contou do ocorrido com você. Confesso que fiquei meio na defensiva contigo e com medo de perder o Deku. Foi a única vez que eu quase explodi de ciúme de você, de querer sair dali imediatamente e ir até sua casa tirar satisfações, porém contei até dez e pensei: “Que culpa ele tem de ter se apaixonado pelo Deku? Ei, acontece! São coisas da vida duas pessoas se apaixonarem pela mesma pessoa. E outra, se ele sentisse algo pelo Bakugou, ele nem toparia namorar comigo. Então, pare de ciúmes bobo e curte seu namoro, mulher!”. E assim, os anos foram passando. Pelo seu olhar de quase segurando as lágrimas, quando via a gente juntos, dava para perceber que você ainda gostava do Izuku. Por outro lado, também deu para perceber que conforme os anos passavam, você foi ficando uma pessoa bem bacana, Bakugou, até que no dia do nosso noivado, o brilho do seu olhar não era mais de segurar as lágrimas. Ele era de pura torcida pela nossa felicidade. Ali tive a certeza de que tomei a melhor atitude. Então era isso que eu queria falar, desabafar meus reais sentimentos durante todos esses anos sobre essa questão da gente ter se apaixonado pelo mesmo homem e pedir desculpas por todas as vezes que tive ciúmes bobo de você. Extrair o resto do veneno que ficou pendente lá no ano retrasado, quando você me pediu desculpas pelas vezes que você me tratou mal no colegial, e transformá-lo em vacina para juntos curamos o resto das feridas que ficaram na nossa amizade.
Não consegui segurar as lágrimas. Que mulher maravilhosa você escolheu amar, hein, Deku?! Somente consegui agradecer a vida por me dar pessoas que, no fundo, nunca desistiram de mim. Afinal, é isso também que heróis fazem. No final, nós dois ficamos abraçados, enxugando as lágrimas um do outro e agradecendo o nosso amadurecimento. Depois passamos a ter conversas triviais, lembranças nossas do colegial, algumas intimidades e deu a hora dela voltar para festa. Despedi-me dela e Uraraka perguntou se eu não vinha junto, respondi que ia observar a Lua mais um pouco para depois voltar e assim o fiz.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!De volta para a festa, me diverti mais um pouco, criei momentos felizes até ela acabar e eu resolver voltar para minha própria casa com o Shinsou.
Lá dentro, bebemos mais algumas cervejas, jogamos conversa fora até ela começar a tomar tons mais íntimos onde, no final, ela acabou em “revival” maravilhoso da minha primeira vez, pois fiz o ato pensando, desejando e querendo quem saciava o tesão junto a mim naquele momento.
Os meses passaram, eu continuei na mesma, com as minhas responsabilidades de herói, salvando vidas, combatendo vilões, visitando meus pais quando dava tempo e quem sabe inspirando novas pessoas a serem heróis. Já em relação a minha vida amorosa, tive poucos namoros com homens e mulheres, mas atualmente estou bem, solteiro e feliz. Gosto da minha própria companhia e sou foda demais para topar namorar qualquer pessoa. Às vezes, acontece de rolar um “revival dos tempos adolescentes da U.A” com o Shinsou, meses mais tarde a minha amizade com o Kirishima coloriu e acontecia da gente transar de vez em quando. De umas semanas para cá, aconteceu também da minha amizade com a Ashido colorir também, a gente transar quando desse na telha. Afinal, como dizem por aí: “solteiro, sim; sozinho, nunca”.
Se alguém falasse para o Bakugou de dez anos atrás que eu ia me apaixonar justamente pelo cara que eu julgava ser fraco, ia arrepender de todas as merdas que eu fiz contra ele mais todas as pessoas que não fui legal nessa vida, me declarar para ele, tomar um fora épico dele e descobrir que as minhas más atitudes meio que contribuíram para ele hoje ser um herói da porra, achar uma esposa maravilhosa e ainda ser pai, com direito a eu tirar foto da filhinha deles no meu colo; além de tomar um monte de porrada da vida e das pessoas para amadurecer e virar alguém bacana, ele simplesmente ia mandar você parar de fumar maconha e mandá-lo para casa do caralho.
“No mundo atual em que vivemos, as pessoas com as individualidades mais poderosas estão na glória e os sem individualidades estão para servir os mais poderosos. Você nasceu com uma individualidade poderosíssima, então você será o maior herói de todos os tempos e combaterá todo o mal com suas explosões e as pessoas sem individualidade estarão para te adorar e servir.” — Se eu pudesse não ter concordado com essa frase desde o início, não tomaria um décimo das porradas que levei da vida para aprender que isso é uma falácia, pai, mas não é 100% sua culpa.
Entretanto há outra frase que ele costumava dizer muito para mim, quando criança — “O amor, quando bem aplicado, salva.” — e eu sou a prova viva do quanto essa frase é verdadeira, porém aprendi na dor dele a salvar. Se pudesse criar uma máquina do tempo, voltaria para fixar isso no Bakugou criança para ele aprender isso pela suavidade do amor, não pela dor dele, mas como o único vilão que tinha esse poder foi morto pelo All Might em conjunto com o Erasehead, tenho que contentar-me em encarar de cabeça erguida meus acertos, erros, qualidades, defeitos, arrependimentos, causas e consequências. Afinal, ser humano é isso.
Vida que segue.
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