Causal
1 Terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Notas iniciais
Terça-feira, 20 de janeiro de 2015
01:59 a.m.
Se existe uma razão capaz de infligir na hora de optar por ouvir bobagens ou apenas evitá-las, essa razão é, sem dúvida alguma, o emissor da mensagem. E se tal razão é sublime o suficiente ao ponto de fazê-lo pegar todas essas bobagens e considerá-las filosofias de vida, com certeza estamos falando de Hayashi Miyako.
Certo, se formos levar em conta o significado da palavra sublime a partir do dicionário, e não cogitar o fato d’eu ter escolhido logo a que achei mais bonita, a frase se torna como um elogio e isso não é bem o que eu quero aqui. Embora Miyako transcenda o humano; divino, na minha opinião, esse não é o ponto.
Estou escrevendo nesse fórum porque realmente não sei mais como lidar com a loucura desvairada do meu namorado. Eu o amo, em nenhum momento desse texto duvidem disso, mas é complicado entender o que ele quer dizer, de vez em quando. O relatado aqui é referente ao nosso aniversário de dois anos que aconteceu mês passado, acreditem, ele é bastante perturbador quando quer, o suficiente para fazer com que eu continue ponderando as coisas que ele fala um, dois, oito meses após serem ditas. É uma narrativa, porque ao contrário dele, eu não consigo contar uma história sem tal.
Miyako é um gênio, no fim das contas.
Essa foi a desculpa que eu atribui como justificativa às suas manias, obsessões, objeções e gostos excêntricos.
Ninguém aqui o conhece realmente e talvez isso faça com que fique mais difícil me ajudar. No entanto, ainda guardo no fundo do meu coração a expectativa de resolver esse pepino sozinho; de alguma forma eu espero que colocar minhas frustrações à margem de outro alguém me auxilie em algo.
Eu vou introduzi-lo, sim, uma hora, mas preciso primeiro deixar claro o porquê de estar aqui. Agora. Quando podia muito bem estar dormindo com ele, de conchinha, em sua casa.
Significado de Narrativa:
s.f. Relato, exposição de um fato, de um acontecimento; narração.
Sinônimos de Narrativa:
Conto, história.
Eu sei que narração é um texto dinâmico, e que contém vários fatores de dependência que são extremamente importantes para a boa estruturação do texto, ou da história, claro, porque são dependentes. Narrar é contar um fato. E todo fato ocorre em determinado tempo, com um começo um meio e um fim. Esses são os requisitos básicos e o óbvio que a gente encontra em sites educativos por aí.
Miyako insiste que não é preciso uma narrativa para contar uma história. E eu como o bom aspirante a jornalista, amante de línguas e aluno número 1 em redação durante todo o ensino médio, não consigo ver sentido nenhum nisso que ele fala, e por essa bobeira nós brigamos feio em uma data especial, quando não precisávamos ter feito nada além de nos amar incondicionalmente durante a noite inteira.
Tudo bem, foi o que fizemos, na verdade, mas quando se está exausto e alguém importante resolve divagar às 2 horas da manhã, sobre um assunto que na sua cabeça está incontestável e resolvido, porque foi afirmado e declarado correto há sabe-se lá quantos anos e vem sido aderido como verdade absoluta por milhares de pessoas importantes ou não, é meio complicado não ficar estressado.
Eu só queria dormir, e Miyako é insistente demais. É uma de suas manias, além objetar proporcionar-me uma noite de sono saudável sempre que tem alguma coisa perturbando sua pobre cabecinha.
Não posso negar que é adorável, mas irritante.
Às apresentações. Ele acabou de completar 20 anos, daqui a pouco estará dirigindo e eu morro de medo d'ele resolver me abandonar. Ele é esguio embora pareça extremamente pequeno para mim, talvez seja somente o meu jeito protetor de vê-lo como minha criança. Minha pequena criança de 20 anos de idade e mais de 1 e 70. Miyako gosta de mudar a cor do cabelo, gosta muito, sinceramente não sei como ele ainda não ficou careca, mas considerando que o meu cabelo é igualmente tingido, eu não implico tanto com isso. A não ser que eu não goste do novo tom. Mesmo que qualquer cor combine com a carinha infantilizada (na maior parte do tempo). Miyako é um fashionista e nos damos muito bem por isso, é bem gay, mas para quem libera lá, demorar 2 horas para escolher uma roupa não é nada, então tudo legal. Miyako não é a pessoa mais sociável do mundo, tem poucos amigos, no máximo uns oito e eu não estou exagerando. Em compensação tem muito medo de me perder.
Não tenho metade da capacidade necessária para descrevê-lo, de verdade ainda não sei por que tento, então apenas mantenham em mente que ele é uma criança muito hiperativa, peculiar e única.
Dia 27 de dezembro foi assim:
Era mínima de -4 e nós dois estávamos completamente desacostumados ao clima frio de Tóquio, isso porque nos adaptamos muito bem ao calor da América do Sul, e não fazia mais de uma semana que tínhamos voltado de férias do Brasil. Férias incríveis, por acaso, que ficam para outro tópico. Voltando ao frio devastador – para quem passara um mês inteiro andando somente com o calção de banho debaixo do sol torando 38 graus célsius – também estava de noite, e como as boas criaturas noturnas que eu e Miyako somos, encontrávamo-nos bem acordados degustando dum fondue improvisado feito com chocolate de padaria e frutas da última compra (com exceção dos morangos que ele me fez sair para comprar no dia, sem objeções).
Ele ainda insistiu para que arrumássemos a cozinha, por que a pesar da cara e atitudes de criança, Miyako era muito ordeiro e neurótico com limpeza, total o meu oposto. Porém o cômodo não estava a zona que ele alegava, e eu estava um pouco desesperado para terminar de esquentar nossos corpos fazendo outra coisa. Como sempre, até fazê-lo desistir da ideia foram quinze minutos contados no relógio do microondas e quando finalmente entramos na banheira preparada com água quente e a indispensável (para ele) espuma colorida que me fazia engasgar, deixei bem claro que teria que valer à pena.
Mas o decorrer dessa parte eu não preciso narrar.
Nem a próxima, que é quando vamos nos enfrentar no 2º round, na cama, estupidamente vestidos apenas para nos livrarmos das roupas novamente. Tenho certeza de que se eu não o tivesse beijado naquele momento, ele começaria a lamentar o trabalho que a empregada teria.
Miyako é difícil de cansar, muito difícil, principalmente quando vem para cima de mim com aquela história de hormônios femimasculinos que ele acha que eu não sei que é invenção da cabeça dele, e só uma desculpa para transar a noite toda como se eu não fosse, ou melhor, como se eu fosse um ser humano cuja função era saciar seus desejos sexuais.
Mas naquela noite eu não reclamei claro.
Quando eu pensei que Miyako não fosse me deixar gozar nunca, eis que ele me surpreende com um orgasmo duplo consensual – invenção da minha cabeça – e finalmente se joga do meu lado na cama, aninhando-se em meu peito e me abraçando possessivamente pela cintura. Finalmente.
O relógio marcava 2:46 da manhã e eu estava exausto o suficiente para dormir o resto do dia caso ele não tivesse interrompido o silêncio do quarto e nossas respirações ofegantes com tal pergunta:
— Naoto-senpai... você acredita que dê para contar uma história sem narrar ela realmente?
Até aí tudo bem, não era a primeira vez que Miyako fazia uma pergunta sem noção em momentos que ficar quietinho, na melhor das intenções, seria o ideal. Então apenas suspirei e dei a corda que ele expectava.
— O que?
— Bem, você sabe... Relatar, só que sem narrar.
— Como isso poderia ser possível quando contar, relatar e narrar são sinônimos, Tae?
— Você está sendo cético, senpai.
— Eu só não entendi o que você quis dizer.
— Você nunca entende...
— Ah, qual é, são quase 3 da manhã, você deveria me dar um desconto.
— Presta atenção, com um emissor um receptor e um referente dá pra contar uma história.
— Se você tiver um emissor um receptor e um referente sua mensagem é inevitável.
— Mensagem é algo muito objetivo e sólido, senpai, se concentra.
— A história seria a mensagem.
— Mas não estaria escrita num papel.
— Continuaria sendo a mensagem.
— Mas não necessariamente com todos os recursos de uma narrativa.
— Não necessariamente, é? Quero um exemplo.
— Bem...
— Você não tem um.
— Apenas espere.
E é claro que eu esperei, como o bom paciente que era – quando se tratava de Hayashi Miyako.
— Eu já sei. Fotos, senpai, fotos!
— Tempo, espaço e personagens. E já que falta enredo, narrador, introdução, trama, clímax e desenlace, não é uma narrativa.
— Esse é o ponto.
—...
— O que?
— Eu não entendi.
— Não é uma narrativa, mas existe uma história.
— Subentendida, se não houver uma explicação não haverá entendimento.
— E um conjunto de fotos?
— Anula-se a falta de enredo e uma trama. Falando de forma abstrata.
— Isso senpai, você está começando a pegar o jeito.
— Ainda não dá para contar uma história.
— E por que não?
— Porque é subjetivo.
— Toda história é subjetiva.
— Quem disse?
— Eu disse.
— Mas nas histórias escritas por pessoas que não se abstém da narrativa existe uma mensagem clara do que quer ser passado, um “com quem aconteceu”, “quando aconteceu” e “onde aconteceu” explícito. Além do “o que aconteceu”, “como aconteceu” e “por que aconteceu” devidamente exemplificado. E a conclusão, com um fim que não dá para mudar.
Depois desse argumento infalível eu pensei que ele não fosse mais me contrariar, ledo engano, Miyako não tinha morrido e sido substituído naquele curto espaço de tempo em que permaneceu em silêncio.
— Apenas para o autor e seus leitores mais chatos. Para alguém maçante. Tipo você, senpai.
— Você me acha maçante?
— Às vezes eu acho sim.
— Bom, me desculpe por não corresponder às suas expectativas 24 horas por dia 7 dias por semana.
— Não se trata disso...
— Se trata do quê, Miyako?
Bem, só por isso aí dá para perceber que o que veio a seguir não foi a discussão mais pacífica do mundo. Muito menos a mais sensata, ou necessária.
Miyako acusou-me de estar com aquelas críticas e acusações oprimidas há muito tempo, e disse que se eu estava cansado daquele jeito frívolo e infantil dele – palavras que ele colocou na minha boca – bastava que eu terminasse. E é claro que foi aí que eu perdi o controle. Não pude evitar concordar com a parte em que ele se chamava de infantil e dizer que terminar não era a solução do nosso problema, até porque não havia problema nenhum. Não há problema na nossa relação, ela só não é a mais normal do mundo. Ele não é a pessoa mais normal do mundo. Mas eu nunca disse que isso é um problema, disse?
Não para ele, nem para ninguém.
Acontece que daí a merda já tinha sido jogada no ventilador e o nosso aniversário de dois anos havia sido completamente arruinado.
Hayashi não me deu tempo suficiente para engolir o orgulho e pedir desculpas, simplesmente saiu catando as roupas espalhadas pelo chão da sala e vestiu-as a caminho da porta. Depois teve que refazer o caminho ao quarto, pois tinha deixado a chave do apartamento junto com o celular em cima da cômoda. Quando ele bateu a porta e me deixou plantado naquele hall de entrada ainda chamando o nome dele – se eu não estivesse com a raiva de oito touros daqueles que provocam para a mera diversão humana, eu teria ido atrás, teria mesmo, até porque Miyako não tinha maturidade suficiente para sair por aí às 3 da manhã, de cabeça quente e totalmente propício a fazer alguma merda. E droga, eu ainda tinha meu orgulho.
Meu orgulho estúpido, idiota, inconsequente e desnecessário que tinha nos levado àquela situação, numa madrugada importantíssima para nós dois, talvez bem mais para ele, porque tá para nascer alguém mais sentimental que Hayashi Miyako. Orgulho tolo que me excluiu da sua festa de aniversário – que por acaso havia sido surpresa, eu não fui por opção (e porque achei que ele não gostaria de ver a minha cara) –, e nos manteve separados no fim, na virada e no começo do ano. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, o que foi uma catástrofe total para a minha sanidade. Porque enquanto ele estava consideravelmente bem com os amigos e família, eu só tive o insensível do Yoongi para me consolar durante aqueles vinte dias de calvário.
Refletir sobre a discussão agora, um mês depois e dê pazes feitas, acaba de me colocar em outra circunstância chata, que é reconhecer a minha culpa. Coisa que até hoje não fiz nem para ele, porque a vaidade não permite.
E, caras, leiam de novo o porquê de termos brigado, é tão... Banal... Isso me deixa louco. Não é como se eu devesse tê-lo ignorado e dormido, não é assim que a gente funciona, mas também não se tratava de um assunto que eu não pudesse ter simplesmente o dado a razão, e não era a nossa primeira vez enfrentando uma discussão daquelas. Posso até afirmar que já consegui convencê-lo várias outras vezes.
Por quê?
Por que convencer Miyako do contrário e continuar com a razão é tão importante para mim?
Quando comecei a escrever tal desabafo eu jamais imaginei que ele tomaria outro rumo. Aparentemente lidar com a cisma de Miyako não é o meu problema. Meu problema sou eu, e a minha própria birra de querer sempre estar certo no relacionamento.
Porque vejam bem, antes de pedi-lo em namoro eu já o conhecia há um ano, e há um ano Miyako me surpreendia todos os dias com as perguntas mais aleatórias que você jamais vai ouvir em toda a sua vida. Não dá para simplesmente surtar com isso de uma hora para outra, no nosso aniversário de dois anos, três dias antes do seu aniversário e quatro da virada do ano.
Ademais, acredito que tenha conseguido resolver o meu pepino sozinho... Resolvê-lo não, mas ao menos tomar ciência dele, sim. Isso é bom, e torna esse post dispensável, eu o excluiria agora mesmo se não tivesse exigido tanto da minha capacidade às duas da manhã, e tido que sacrificar passar um tempo com Miyako para sanar essa maldita dúvida.
Pois bem, desfrutem desse drama, seja para distração ou, se quiserem, tomem algumas conclusões como exemplos a se seguir. Também estipulem teorias para a pergunta de Miyako: “você acredita que dê para contar uma história sem narrar ela realmente?”. Estaremos aguardando-as ansiosamente.
Com afeto, para os queridos que se propuseram a ler até aqui,
Sasaki Naoto
Quando finalmente clico no botão “postar” do site, já quase não existe peso em meu coração, e basicamente o que sinto é saudade de Miyako.
Fazem cinco dias desde que voltamos a nos falar, que eu o parabenizei pelo aniversário e desejei os típicos cumprimentos pelo ano novo. Também são cinco dias desde que consegui falar de novo com Jimin, Jeongguk, Hoseok e Seokjin sem que os mesmos quisessem me matar. É um alívio, ao mesmo tempo em que é uma lástima saber que todos os meus melhores amigos mudaram para o lado do meu namorado.
Nós nos resolvemos, em partes. As coisas se tornaram um pouco diferentes e em cinco dias ele ainda não veio para cima de mim com nenhum assunto ou pergunta louca. Isso me preocupa, já que estou completamente desacostumado com esse Miyako que pensa descaradamente antes de falar qualquer coisa. Minha intenção jamais foi muda-lo de alguma forma, mas ao que parece, ele não permaneceu vinte dias me amaldiçoando e aparentemente tentou reformular o seu “eu” para quando estivesse comigo outra vez. Faz com que eu me sinta culpado, e não posso culpá-lo por isso.
A outra parte referente à nossa reconciliação é: voltamos a nos falar, mas depois daquele dia ninguém ousou tocar naquele assunto outra vez. Eu por conta do orgulho eminente e ele por medo de que eu perdesse a cabeça outra vez.
Na verdade demorei bem mais do que ele para esquecer aquela briga e encará-la com os olhos de um adulto, o texto de hoje foi definitivamente a primeira vez em que pensei sobre aquilo sem me dar razão, coisa que inflige naquela questão em que digo que Miyako é “a minha criança”... Talvez o bebezão seja eu.
Finalmente são 3 horas da manhã e lembro-me do quanto Miyako teme estar acordado nesse horário. Sorrio sozinho porque sinto tanto a falta dele que seria capaz de visitá-lo agora mesmo. Levanto da escrivaninha bagunçada e desligo o computador na iminência de tomar um banho quente e chorar de saudades até dormir. Ignoro a luz do corredor do lado de fora do apartamento acesa àquela hora, mas não posso evitar o toque escandaloso do meu celular, assim levando um susto.
— Senpai? – ouço a voz que tanto acalenta o meu coração e sou capaz de me debulhar em lágrimas ali mesmo. – Você está acordado?
— Sim... E você, por que está de pé essa hora da manhã?
— Tenho algo para falar com você e eu não podia mesmo esperar amanhecer. Você pode abrir a porta, por favor?
Jogo o celular em qualquer canto e de qualquer jeito sem fazer questão alguma de verificar se ele sobreviveu à queda e corro de volta para a porta do meu próprio apartamento, abrindo-a num súbito e deparando-me com a visão mais encantadora do mês, que era Miyako vestido naquele pijama de coelhinhos que dei no aniversário retrasado, com os cabelos louros desalinhados e os olhinhos inchados próprios de alguém que acabou de acordar. Segurando uma caixa.
— Você tem certeza de que não podia deixar para amanhã? Porque para mim você estava bem adormecido um tempo atrás.
— Também estava com saudades suas. – ele ignora a minha alfinetada anterior (graças a Deus) e me rouba um selinho. Sorrio.
— Então, o que te trás aqui no horário em que as almas saem para vagar no mundo terrestre?
— Isso – ele aponta para a caixa. – E a sua postagem no fórum.
— Como foi que você...?
— Apenas releve. Você está sem camisa, ia tomar banho?
— Sim...
— Pode ir. Eu te espero na sala.
Não posso dizer que não senti falta do seu sorriso pervertido e de uma propícia sugestão para tomarmos banhos juntos, porque eu senti. E era o que ele faria.
— Tudo bem, fique à vontade.
— Eu vou ficar.
Se antes a minha intenção de tomar um banho quente para relaxar era presente agora já não passa de um pensamento longínquo. Miyako sozinho em casa não me é estranho, mas Miyako sozinho em casa às 3 da manhã com uma caixa misteriosa, de pijama e uma determinação jamais vista, isso sim é motivo para me impedir de relaxar o suficiente. Apesar da curiosidade, meu receio é dominante, fazendo com que eu demore mais que o normal num banho em que quase me esqueço de lavar o cabelo para disfarçar a demora.
Estou só de toalha quando saio do banheiro da suíte e me deparo com Miyako deitado de bruços em direção à porta de onde vim, com os pezinhos infantilmente balançando no ar e um sorriso sapeca no rosto.
— Você fica ótimo assim, senpai. – ele pisca, e joga uma cueca samba canção na minha cara.
— Você também, quando não me expulsa do quarto para se trocar. Como se eu já não tivesse te visto pelado um milhão de vezes.
— Que exagero!
— Tô pronto – anuncio depois de vestir a peça, enquanto seco meu cabelo superficialmente.
— Muito bem, vamos lá.
Ele sorri e me abraça por trás. É tão reconfortante estar em seus braços novamente que não consigo reprimir um murmúrio de prazer. Anteriormente ele não havia feito nada parecido por conta própria, me deixando muito frustrado.
Mas seu plano para agora não era bem transar. Na sala, organizadas numa fila extensa que começa no sofá lateral e se estende por todo ele, até a poltrona e o sofá que fica encostado na parede, estão uma sequência de polaroids e fotos reveladas. De primeira não consigo estabelecer relação nenhuma entre as mesmas, que parecem bem aleatórias para mim.
— Observe-as atentamente, senpai.
E então eu saco.
As fotos estão ali, sem narrativa alguma narrando para mim as melhores partes do meu relacionamento com Hayashi Miyako. Uma a uma em sua miúdes, simplicidade e aleatoriedade contando-me sobre os momentos em que foram tiradas.
E ninguém além de mim entenderia, de fato, a história por trás daquilo. Já que os únicos a vivenciá-la fomos nós dois. E alguns amigos, vez ou outra.
A primeira é uma foto borrada, do aniversário de Hoseok, quando eu e Miyako nos conhecemos, três anos atrás. A foto saiu tremida porque todo mundo estava bêbado pra caralho naquela hora, e naquele dia Miyako dormiu na minha casa, porque seus pais não podiam saber que tinha ingerido bebida alcoólica.
Três fotos não-tão-significativas assim depois, tem uma foto onde eu estou debilmente apoiado numa bolsa, dormindo, enquanto um Tae de braços cruzados encara-me com piedade no olhar, quem quer que tenha tirado aquela foto nos pegou desprevenidos, ainda assim, já parecíamos um casal.
Depois vinha uma foto com o Jimin, num restaurante onde Miyako e eu o ignoramos durante todo o jantar, porque simplesmente havíamos descoberto o quão legal éramos. Fotos de festas, onde nossos encontros eram basicamente causais; fotos com os amigos, quando nossos encontros começaram a serem planejados por outras pessoas. E um sofá inteiro depois, começavam as nossas selcas. Com certeza Miyako tinha muito mais delas, mas teve o cuidado de selecionar as mais significativas: do nosso primeiro encontro, de quando fomos num tour por Tóquio, da viagem à praia de Odaiba, do dia em que ele veio passar a noite em casa pela segunda vez, de quando eu o pedi em namoro.
Do nosso primeiro mês, do segundo, do terceiro, da viagem ao Japão, uma foto em que eu estou sozinho, de olhos fechados, topete e cara de idiota, mas que ele não me deixou apagar porque disse que aquela era a sua foto favorita de todos os tempos, uma foto que eu tirei do seu rosto corado quando eu disse que ele era a minha pessoa favorita de todos os tempos. Duas fotos seguidas e parecidas porque Miyako esta me imitando na segunda. Umas quatro minhas fazendo poses conceituais em paisagens aleatórias e três suas copiando um desses meus photoshoots caseiros. Uma foto nossa nos beijando. Outra em que ele esta escondendo o rosto no meu pescoço e mais uma onde estou completamente apagado em seu colo.
E então uma foto que eu tenho certeza ser do dia 27 de dezembro. Paro nela e suspiro profundamente, sinto meus olhos marejados e que fosse pro inferno a minha frescura com masculinidade e afins. Olho de relance para as fotos que sucedem aquela e todas possuem datas. Dia 28 e 29 são fotos dele fazendo carinho em Soonshim, com a mão em que nossa aliança de compromisso reluz. As fotos do dia 30 são extremamente significativas, só quem o conhece profundamente sabe que aquela não é bem a sua faceta de felicidade. Mesmo ao lado da família Miyako não está esboçando o sorriso retangular que eu tanto amo. Percebo que estraguei não só seu aniversário como o seu ano novo.
E do dia 1 ao 12 as imagens são completamente aleatórias: tem Soonshim, uma foto da tela do computador dele, onde está aberta uma foto nossa e sei que naquele dia ele sentiu saudades o suficiente para superar sua aversão à minha cara e procurá-la em arquivos do computador. Dia 13 ele esta sorrindo com os olhos vermelhos entre Jimin e Jeongguk, e na mesma foto existe um pedaço de cabeça que reconheço ser de Hoseok.
Dia 15 uma foto minha espontânea.
Dia 17 é uma selca.
19 é uma foto de Soonshim e Rapmon juntos.
Não tem um dia 20.
Desperto-me do transe e olho para trás, onde Miyako está encostado na parede com uma Polaroid na mão. Não tenho tempo de protestar ou impedi-lo e quando me dou conta ele tem em mãos uma pequena foto minha com cara de choro. Minha ruína, num universo paralelo. Dou três passos grandes o suficiente para me deixarem próximo dele e o abraço como se me agarrasse à vida. Clichê, mas verdade. Imediatamente começo a sussurrar um milhão de desculpas.
O que Miyako tinha acabado de me mostrar era a demonstração concreta de que todos os seus pensamentos e argumentos anteriores tinham valor, e que, de alguma forma, eles faziam todo o sentido do mundo na sua cabeça, e agora na minha, porque ele teve a paciência e cuidado de provar para mim que não tinha me perturbado com mais uma pergunta aleatória em vão.
Ele queria entender, queria inovar, queria dar vida às dúvidas mais banais e bobas da sua mente. Porque não era preguiçoso, e não tinha nada a perder querendo aprender mais. Percebo agora que muitas vezes falhei no cargo de contribuir com o que sabia, de alimentar suas esperanças e complementar suas ideias mirabolantes com as minhas próprias. Ideias que fazia questão de reprimir por “já ser grandinho demais”.
Tempo era um detalhe muito superficial para Miyako.
Ainda assim, ele não perdia.
E eu finalmente entendi.
— Eu entendi Tae! – anuncio, mostrando-me mais feliz do que jamais demonstrara antes. – É a nossa história! Toda ela, narrada do começo ao fim, sem nenhum detalhe faltando porque eu conheço a nossa história, e sem narrativa! – ele me sorri.
— Fico feliz por isso, senpai.
Miyako vem a mim e me abraça outra vez, apertado, seu queixo apoiado em meu ombro porque ele é grande demais para se esconder em meu peito.
— Contudo eu também entendi uma coisa hoje. Há um tempo, na verdade. Uma história contada por fotos é uma história subentendida, sim? Histórias subentendidas deixam leitores a desejar porque nunca se concluem, nunca se explicitam e quando se explicitam são confusas. Nossa história não é confusa, senpai. Eu posso ser, muitas vezes. Perturbando-te incansavelmente com o meu lado que você carinhosamente apelidou de genial. Mas se tem uma coisa da qual não me restam dúvidas, objeções ou filosofias a serem debatidas é o meu amor por você. A minha necessidade de você. A minha urgência de ter a sua atenção a todo o momento, para que você nunca se esqueça de que é meu. Para eu não me esquecer de que não estou sozinho, senpai, porque eu tenho você. – faço menção de interromper o abraço e interrompê-lo, mas ele me aperta mais forte. – Em uma história com narrador, quem conta somos nós. A trama é que existimos. O clímax é quando eu digo que te amo com toda a minha vida. E o desenlace é quando esquecemos todas as nossas diferenças, desavenças e desentendimentos e ficamos juntos. Permanecemos juntos. Porque nos pertencemos.
“Eu te amo, Sasaki Naoto, mais do que amo cismar com banalidades e te perturbar com teorias, mais do que ficar agarrado com você em noites frias e em quentes também, mais do que viajar contigo pra China”.
“E descobri que prefiro narrativas porque nelas dá para deixar claro quando se ama alguém, e eu te amo”.
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