Catholic System

36 Capítulo 36 - O Peso da Traição


A tarde estava tranquila na base da Judas.

Depois da batalha contra o Anjo...

Os pilotos finalmente tinham algum tempo livre.

Aiko caminhava pelos corredores quando encontrou Kenny sentado sozinho em um banco.

Ele mexia no comunicador sem fazer nada particularmente importante.

Aiko parou.


— Kenny.


Ele levantou os olhos.


— O quê?


— Posso te perguntar uma coisa?


— Se for sobre meu cabelo, não.


Aiko franziu a testa.


— Não é.


— Então pode.


Ela sentou-se ao lado dele.

Por alguns segundos...

Nenhum dos dois falou.

Até Aiko perguntar:


— Por que você é tão irritante?


Kenny olhou para ela.


— Essa foi direta.


— Estou falando sério.


— Eu também.


Ele voltou a mexer no comunicador.


— Nasci assim.


Aiko revirou os olhos.


— Não.


— Não?


— Você faz isso de propósito.


Kenny parou.

Aiko continuou:


— Fica fazendo piada.


— Provoca todo mundo.


— Age como se nada importasse.


— Até quando a situação é séria.


Kenny ficou em silêncio.

Aiko percebeu.


— Tem alguma razão?


Ele demorou para responder.


— Tem.


Aiko esperou.

Kenny guardou o comunicador.


— Mas não é uma história bonita.


— Eu não pedi uma história bonita.


Kenny olhou para o chão.


— Minha família era pobre.


Aiko permaneceu quieta.


— Muito pobre.


— Os conflitos em Israel já tinham afetado nossa vida por muito tempo.


— A situação econômica era péssima.


— E minha família foi sendo destruída junto com tudo aquilo.


Ele respirou fundo.


— Meu pai ficou cada vez mais agressivo.


Aiko abaixou os olhos.

Kenny continuou:


— Eu tinha uma irmã.


Aiko olhou para ele.


— O nome dela era Kathleen.


Sua voz ficou mais baixa.


— Kathleen Match.


Aiko não disse nada.


— Ela tinha doze anos.


— Eu tinha dezessete.


Kenny apertou as mãos.


— Em 2116...


Ele parou.

Parecia difícil continuar.


— Houve uma briga dentro de casa.


— Meu pai perdeu o controle.


Kenny fechou os olhos.


— E a Kathleen acabou morrendo.


O silêncio tomou conta do corredor.

Aiko não sabia o que dizer.

Kenny continuou:


— Eu não consegui simplesmente ficar parado.


Ele olhou para as próprias mãos.


— Eu ataquei meu pai.


Aiko ficou imóvel.


— Depois disso...


— Minha mãe me denunciou.


— Fui preso.


— Passei dois anos lá.


Aiko respirou fundo.

Kenny continuou:


— Fiquei preso até 2118.


— Quando saí...


Ele olhou pela janela.


— A Judas estava me esperando.


Aiko franziu levemente a testa.

Kenny explicou:


— Eles já eram conhecidos em Israel.


— E, naquela época, eram praticamente os únicos que realmente se preocupavam com o povo israelense.


— Enquanto outras organizações estavam preocupadas com poder e influência...


— A Judas ainda se preocupava com gente.


Aiko ficou em silêncio.


— Eles não fingiram que eu não tinha cometido um crime.


— Não apagaram o que aconteceu.


— Só me deram uma escolha.


Aiko perguntou:


— Uma vida nova?


Kenny assentiu.


— Uma vida nova.


Ele sorriu fracamente.


— E foi aí que eu virei piloto.


— Do Judas.


Aiko olhou para ele.


— Por quê?


Kenny demorou alguns segundos para responder.


— Porque eu traí minha própria família.


— Judas traiu.


— Eu também traí.


Ele abaixou a cabeça.


— Só que...


— A minha traição aconteceu depois de tudo que aconteceu com Kathleen.


Silêncio.

Aiko finalmente perguntou:


— Então você se identificou com o nome?


Kenny deu um pequeno sorriso.


— Talvez.


— Ou talvez eu só achasse apropriado.


Aiko soltou um suspiro.


— Você realmente transforma tudo em piada.


Kenny olhou para ela.


— Se eu não fizer isso...


Ele ficou em silêncio.


— Eu penso demais.


Aiko abaixou os olhos.


— Entendi.


Kenny levantou-se.


— E é por isso que eu sou irritante.


— Não exatamente.


— Não?


— Você é irritante porque é você.


Kenny ficou olhando para ela.

Aiko sorriu.


— O passado explica algumas coisas.


— Não justifica tudo.


Kenny soltou uma pequena risada.


— Justo.


Alguns metros atrás...

Alguém havia parado no corredor.

Shin.

Ele tinha acabado de chegar.

Não pretendia ouvir aquela conversa.

Mas ouvira parte.

Kathleen.

A prisão.

A família.

A Judas.

Ele permaneceu imóvel.

Não quis interromper.

Kenny e Aiko continuaram conversando.


— Você sente falta dela? — perguntou Aiko.


Kenny demorou.


— Todos os dias.


Silêncio.


— Kathleen era minha irmã.


— Não importa quanto tempo passe.


— Eu ainda lembro dela.


Aiko olhou para ele.


— Então talvez você não seja tão indiferente quanto parece.


Kenny sorriu.


— Não espalha.


— Por quê?


— Tenho uma reputação para manter.


Aiko riu.

Kenny também.

Mas o sorriso dele não escondia completamente a tristeza.

Shin se afastou silenciosamente.

Ele caminhou pelo corredor.

Por alguns segundos...

Não pensou nos Anjos.

Nem na Crist.

Nem nos artigos.

Pensou apenas em Kenny.

O garoto de dezessete anos.

A irmã de doze.

Uma família destruída.

Dois anos atrás das grades.

E uma organização que decidiu oferecer uma segunda chance.

Shin parou diante de uma janela.


— Então era isso...


Ele murmurou.

Agora entendia.

As provocações.

As piadas.

O jeito irritante.

A forma como Kenny transformava situações sérias em brincadeira.

Não era simplesmente porque ele não se importava.

Talvez fosse justamente o contrário.

Ele se importava demais.

Shin abaixou os olhos.

Sentiu pena dele.

Não pena como quem olha para alguém inferior.

Mas aquela tristeza silenciosa de perceber que alguém havia passado por coisas que nenhuma pessoa deveria ter enfrentado.

Kenny havia sobrevivido.

Mas sobreviver não significava sair ileso.

Shin voltou a caminhar.

E, pela primeira vez...

Quando pensou em Kenny Match...

Não pensou no piloto irritante do Judas.

Pensou apenas em um irmão mais velho que ainda sentia falta da irmã.

Kathleen Match.

Enquanto isso...

Kenny continuava sentado com Aiko.


— Então...


Ele olhou para ela.


— Você ainda acha que eu sou irritante?


Aiko cruzou os braços.


— Muito.


Kenny começou a rir.


— Pelo menos isso não mudou.


Aiko sorriu.


— Mas agora eu entendo um pouco melhor.


Kenny ficou em silêncio.

Então levantou-se.


— Não conta para ninguém.


— Não vou.


— Especialmente para o Kagami.


Aiko olhou para o corredor.

Por um instante...

Pensou ter visto alguém passando.


— Pode deixar.


Kenny sorriu.


— Valeu.


Os dois seguiram pelo corredor.

Sem saber...

Que Shin já conhecia uma parte da verdade.

E que, dali em diante...

Talvez ele enxergasse Kenny de uma maneira diferente.


Continua...