Catholic System

2 Capítulo 2 - O Caminho para Damasco


A chuva continuava caindo.

Silenciosa.

Constante.

Como se o céu observasse.

Como se o próprio mundo soubesse que algo estava prestes a mudar.

Shin Kagami permaneceu imóvel diante da porta de seu apartamento.

Arthur Voss aguardava do lado de fora.

Calmo.

Pacífico.

Como se não tivesse acabado de mudar completamente o rumo da vida de um desconhecido.

As palavras ainda ecoavam na mente de Shin.

"Se você quiser descobrir a verdade... me acompanhe."

Verdade.

Uma palavra simples.

Mas perigosa.

Talvez a mais perigosa de todas.

Durante toda sua vida.

Shin buscou respostas.

Escreveu artigos.

Questionou documentos.

Desafiou versões oficiais.

Mas nunca imaginou que alguém realmente apareceria oferecendo respostas.

Muito menos daquela forma.

Naquela noite.

Naquela chuva.

Naquela porta.


— Se eu for com você...


Arthur ergueu os olhos.


— Sim?


— Vou encontrar respostas?


O homem permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu.


— Algumas.


Não era a resposta que Shin esperava.

Mas era honesta.

Pela primeira vez naquela conversa.

Ele percebeu que Arthur não parecia um homem que gostava de mentir.

Parecia um homem que escolhia cuidadosamente o que dizer.

E isso era muito mais perigoso.

Shin respirou fundo.

Pegou sua jaqueta.

Desligou as luzes do apartamento.

E saiu.

Os dois caminharam pelas ruas molhadas de Kuroshima.

As luzes da cidade refletiam no asfalto escuro.

Nenhum dos dois falava.

O silêncio parecia confortável para Arthur.

Mas para Shin...

Era sufocante.

Sua mente produzia perguntas numa velocidade absurda.

Quem era aquele homem?

Quem apagou o artigo?

Por que ele?

Por que agora?

O que exatamente estava acontecendo?

Atravessaram mais algumas ruas.

Até chegarem ao estacionamento.

Arthur retirou um controle do bolso.

Um veículo preto destravou à distância.

Elegante.

Discreto.

Moderno.

Os dois entraram.

As portas se fecharam.

O motor ligou.

E poucos segundos depois.

Já estavam deixando Kuroshima para trás.

As luzes da cidade desapareceram lentamente.

A estrada tornou-se cada vez mais vazia.

Apenas o som da chuva.

O som dos pneus.

E o brilho distante dos postes.

Shin observava a paisagem pela janela.

Pensativo.

Talvez estivesse cometendo um erro.

Talvez estivesse entrando numa armadilha.

Talvez estivesse prestes a descobrir algo que nunca deveria ter descoberto.

Mas era tarde demais para voltar.

Ele havia feito sua escolha.

Então decidiu perguntar.


— Que tipo de verdade eu vou encontrar?


Arthur continuou olhando para a estrada.


— Existem muitas verdades.


— E qual delas você quer me mostrar?


— A mesma que você procurou durante todos esses anos.


Shin franziu a testa.


— Isso não responde minha pergunta.


— Eu sei.


Silêncio.

A chuva continuava caindo.

Shin cruzou os braços.


— Então responda.


Arthur suspirou.

Pela primeira vez.

Pareceu pensar cuidadosamente antes de falar.


— Diga-me uma coisa.


— O quê?


— Você acredita que uma criança conseguiria compreender toda a história da humanidade?


— Não.


— Por quê?


— Porque seria informação demais.


Arthur assentiu.


— Exatamente.


Mais silêncio.

Então ele continuou.


— A verdade funciona da mesma forma.


Shin permaneceu atento.


— O que quer dizer?


— Que ela precisa ser apresentada aos poucos.


Arthur manteve os olhos na estrada.


— Algumas pessoas passam anos procurando respostas.


— E encontram?


— Algumas.


— E as outras?


— Desistem.


A resposta foi seca.

Direta.

Desconfortável.

Shin encarou o reflexo da chuva no vidro.

Arthur prosseguiu.


— Existe um motivo para certas informações serem reveladas gradualmente.


— Controle?


— Sobrevivência.


A resposta pegou Shin desprevenido.


— Sobrevivência?


— Sim.


Pela primeira vez.

Arthur desviou os olhos da estrada.

Apenas por um instante.

Mas foi suficiente.


— A verdade completa pode destruir uma pessoa.


O silêncio voltou.

Mais pesado desta vez.


— Está exagerando.


— Não estou.


Arthur voltou a observar a rodovia.


— Algumas verdades são difíceis.


— Toda verdade é difícil.


— Não.


A resposta veio imediatamente.


— Algumas verdades são devastadoras.


Shin não respondeu.

Arthur continuou.


— Existem pessoas que perderam a sanidade buscando respostas.


— Isso parece fanatismo.


— Talvez.


— E você?


Arthur sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase triste.


— Eu já passei da fase do fanatismo.


Aquilo chamou a atenção de Shin.

Pela primeira vez.

Parecia existir algo humano naquele homem.

Algo cansado.

Algo quebrado.

Mas desapareceu rapidamente.

A estrada começou a mudar.

Os campos desapareceram.

As construções aumentaram.

As luzes tornaram-se mais numerosas.

Prédios começaram a surgir no horizonte.

Cada vez maiores.

Cada vez mais altos.

Tech Tokyo.

A maior cidade do planeta.

O centro tecnológico da humanidade.

O coração da Organização Crist.

Shin observou a metrópole surgir diante dele.

Imensa.

Brilhante.

Quase artificial.

Era como olhar para outro mundo.

Arthur diminuiu a velocidade.


— Bem-vindo.


Shin observava os arranha-céus.

As luzes.

As estruturas gigantescas.

Tudo parecia impossível.


— É aqui?


— Sim.


— Onde está a verdade?


Arthur permaneceu em silêncio.

Por alguns segundos.

Depois respondeu.


— Em todos os lugares.


Shin franziu a testa.


— Isso não faz sentido.


Arthur sorriu novamente.


— Vai fazer.


A cidade continuava crescendo diante deles.

Monumental.

Assustadora.

Majestosa.

Como se escondesse segredos antigos sob sua superfície brilhante.

E, pela primeira vez desde que entrou naquele carro.

Shin teve uma sensação estranha.

Não de medo.

Não de ansiedade.

Mas de algo muito pior.

A sensação de que sua vida anterior havia terminado.

E que tudo o que viria depois...

Mudaria para sempre sua visão sobre a humanidade.


Continua...