Catholic System

10 Capítulo 10 - Oleiro e o Vaso


O enorme hangar da Crist permanecia silencioso.

Apenas o som das máquinas preenchia o ambiente.

Cabos metálicos conectavam-se aos gigantes adormecidos.

Eva Unidade 00.

Azazel.

Dois mechas.

Dois pilotos.

Duas histórias completamente diferentes.

Na sala de monitoramento.

Naomi Shimizu analisava dezenas de gráficos.

Ao seu lado, Akane Takahashi observava atentamente as telas.


— Iniciando sincronização simultânea.


Uma voz ecoou pelos alto-falantes.

No cockpit da Eva Unidade 00, Shin respirou fundo.

Ainda não havia se acostumado.

Era estranho.

Cada vez que sincronizava, sentia como se seu próprio corpo se expandisse.

Como se deixasse de ser apenas um homem.

E passasse a ocupar noventa metros de altura.

Enquanto isso...

No interior do Arcanjo Azazel.

Lilith permanecia completamente imóvel.

Olhos fechados.

Respiração tranquila.

Como se aquela experiência fosse apenas parte de sua rotina.


— Sincronização da Eva Unidade 00...


— Cinquenta e dois por cento.


Akane ergueu levemente as sobrancelhas.


— Melhorou.


Naomi assentiu.


— Está aprendendo rápido.


Outra tela chamou sua atenção.


— Azazel...


Pequena pausa.


— Noventa e oito vírgula três por cento.


Silêncio.

Akane soltou um pequeno sorriso.


— Como sempre.


Naomi cruzou os braços.


— Ela continua sendo nossa melhor piloto.


Minutos depois.

Os sistemas começaram a desligar.

As conexões foram interrompidas.

As escotilhas se abriram lentamente.

Shin desceu da Eva ainda tentando entender aquela sensação.

Lilith apenas caminhou calmamente para fora do Azazel.

Como fazia todos os dias.

Pouco tempo depois.

Lilith caminhava pelos corredores da Crist.

Em silêncio.

Até parar diante da porta do gabinete do Diretor Supremo.

Ela bateu duas vezes.


— Entre.


A voz de Elias ecoou do outro lado.

Lilith entrou.

O escritório permanecia impecavelmente organizado.

Livros.

Documentos.

Uma enorme janela revelando Tech Tokyo ao longe.

Elias estava de pé.

Observando a cidade.

Sem virar o rosto.


— Como foi a sincronização?


Lilith respondeu imediatamente.


— Noventa e oito vírgula três por cento.


— Houve alguma instabilidade?


— Não.


— Dor?


— Não.


Silêncio.

Elias finalmente virou-se.

Aproximou-se lentamente.

Parou diante dela.

Observou seu rosto por alguns segundos.

Como fazia todas as vezes.

Depois levantou cuidadosamente a mão.

E tocou sua bochecha.

Delicadamente.

Lilith permaneceu imóvel.

Não sentia incômodo.

Não sentia conforto.

Apenas aceitava.

Como sempre fizera.


— Diretor...


Chamou em voz baixa.


— Sim?


— Há algo errado?


Elias permaneceu olhando para ela.

Por um breve instante...

Seu olhar perdeu a firmeza.

Como se observasse outra pessoa.

Outra época.

Outra vida.

Então retirou lentamente a mão.


— Não.


Uma pequena pausa.


— Você teve um ótimo desempenho.


Lilith apenas assentiu.


— Obrigada.


— Pode descansar.


Ela fez uma leve reverência.


— Sim.


A porta fechou-se lentamente atrás dela.

O escritório voltou ao silêncio.

Elias caminhou até sua mesa.

Abriu uma pequena gaveta.

Retirou uma fotografia antiga.

Uma mulher sorria ao lado dele.

Yui.

Ele observou a fotografia durante alguns segundos.

Depois fechou lentamente os olhos.


— Ainda não...


Guardou a fotografia novamente.

E voltou a olhar para a cidade.

Enquanto isso...

Nos jardins internos da Crist.

Shin caminhava lentamente.

Ainda tentava entender o treinamento.

Era difícil explicar.

Pilotar uma Eva não parecia dirigir uma máquina.

Parecia...

Vestir outro corpo.


— Pensando?


A voz familiar fez Shin olhar para o lado.

Arthur Voss aproximava-se com um livro nas mãos.


— Bastante.


Arthur sorriu.


— Imagino.


Os dois começaram a caminhar.

Por alguns instantes.

Nenhum dos dois falou.

Até que Shin quebrou o silêncio.


— Arthur...


— Sim?


— Como exatamente funciona a sincronização?


Arthur fechou o livro.


— A maioria acredita que basta mover controles.


— Mas não é isso.


— Não.


Os dois continuaram andando.


— Cada unidade possui um sistema biológico extremamente complexo.


— Quando a sincronização acontece...


Arthur fez uma pequena pausa.


— Seu cérebro passa a interpretar aquela máquina como parte do seu próprio corpo.


Shin permaneceu atento.


— Então...


Quando a Eva anda...


— Seu cérebro acredita que foram suas pernas.


— Quando ela segura uma espada...


— Seu cérebro acredita que foram suas mãos.


Shin ficou em silêncio.

Então lembrou da batalha.

Do impacto.

Da dor.


— E quando ela é atingida...


Arthur assentiu lentamente.


— Você sente.


— Como aconteceu comigo.


— Exatamente.


O vento percorreu o jardim

As folhas balançaram suavemente.

Depois de alguns segundos...

Shin voltou a falar.


— A Lilith faz isso desde criança...


Arthur permaneceu alguns instantes olhando para o céu.


— Sim.


— Ela praticamente cresceu dentro de um cockpit.


Shin abaixou discretamente a cabeça.

Pensou na garota.

Na forma como ela lutava.

Na forma como quase nunca sorria.

Na forma como aceitava tudo em silêncio.


— Então...


Ela deve carregar um peso enorme.

Arthur sorriu de maneira melancólica.


— Muito maior do que você consegue imaginar.


Os dois permaneceram em silêncio.

Ao longe.

O gigantesco Azazel permanecia imóvel no hangar.

Enquanto a cidade seguia vivendo normalmente.

Sem imaginar...

Que seus maiores protetores eram, na verdade...

Jovens carregando fardos que nenhum adulto deveria suportar.


Continua...