Catholic System

6 Capítulo 6 - O Anjo e a Garota


A manhã chegou em Tech Tokyo.

Pela primeira vez em vários dias...

Shin Kagami acordou sem saber exatamente onde estava.

Ele abriu os olhos lentamente.

O teto branco.

As paredes metálicas.

O silêncio quase absoluto.

Por alguns segundos, esqueceu.

Então lembrou.

Crist.

A organização que controlava boa parte do mundo.

O lugar onde respostas eram escondidas.

O lugar onde ele agora estava.

Shin sentou-se na cama.

Ao lado dela, sobre uma pequena mesa, havia um objeto.

Seu novo cartão de identificação.


SHIN KAGAMI


Pesquisador convidado — Organização Crist


Ele pegou o cartão e ficou olhando por alguns segundos.

Ontem ele era apenas um escritor que fazia perguntas demais.

Hoje...

Fazia parte da maior organização da humanidade.

Mesmo que temporariamente.

Ele soltou um pequeno suspiro.


— Minha vida ficou estranha rápido demais.


Algumas horas depois.

Shin caminhava pelos corredores da Crist.

Dessa vez acompanhado por Arthur.


— Então...


Shin olhava ao redor.


— Isso tudo é realmente necessário?


Arthur continuava andando.


— O quê?


— Essa quantidade absurda de tecnologia.


Passaram por uma enorme janela de vidro.

Do outro lado, dezenas de cientistas trabalhavam em máquinas desconhecidas.


— Vocês realmente acham que precisam disso tudo?


Arthur ficou em silêncio.

Depois respondeu:


— Depois que você ver contra o que lutamos...


— Você vai entender?


— Exatamente.


Shin franziu a testa.

Antes que pudesse perguntar...

Um som ecoou pela base.


BEEP.


BEEP.


BEEP.


As luzes mudaram.

Funcionários pararam.

Soldados começaram a correr.

Painéis acenderam.

Uma mensagem apareceu:


ALERTA


AMEAÇA ANGELICAL DETECTADA


Shin congelou.

Por alguns segundos.

Apenas encarou a tela.


— Ameaça...


Ele olhou para Arthur.


— Angelical?


Arthur assentiu.


— Sim.


Silêncio.

Shin sentiu um arrepio.

Durante anos.

Ele pesquisou.

Escreveu.

Questionou.

Mas sempre existia uma pequena possibilidade.

Uma dúvida.

Um "e se?"

Agora não existia mais.


— Então eles existem.


Arthur olhou para ele.


— Sim.


— Os Anjos existem.


— Sim.


Shin permaneceu imóvel.

Depois sorriu.

Não de felicidade.

Mas de confirmação.


— Eu sabia.


O chão começou a tremer.

Não como um terremoto.

Algo maior.

Muito maior.

Arthur guiou Shin até uma área de observação.

Quando as portas abriram...

Ele viu.

Pela primeira vez.

Um verdadeiro símbolo da Crist.

Um Arcanjo.

Gigantesco.

Impossível.

Uma máquina que parecia ter sido construída por mãos humanas...

Mas que não parecia pertencer ao mundo humano.

Seu corpo metálico refletia as luzes do hangar.

Linhas azuis percorriam sua estrutura.

Uma enorme cruz estava marcada em seu peito.

Shin ficou sem palavras.


— Isso...


Arthur observou sua reação.


— Azazel.


Shin olhou para ele.


— O Arcanjo?


— Sim.


Uma pausa.


— Pilotado por Lilith Ayamina.


Como se o nome tivesse sido uma chamada...

A garota apareceu no hangar.

Vestindo o uniforme de piloto.

Silenciosa.

Sem expressão.

Mas diferente de ontem.

Hoje Shin percebeu algo.

Ela parecia cansada.

Não fisicamente.

Algo mais profundo.

Ela caminhava em direção ao elevador que levava ao cockpit.

Shin chamou:


— Lilith.


Ela parou.

Virou lentamente.


— Shin.


Ele sorriu.


— Boa sorte.


Ela ficou imóvel.


Como se aquela frase fosse inesperada.


— Obrigada.


Então entrou.

Dentro do Azazel.

Lilith estava sozinha.

O cockpit era enorme.

Mas ainda parecia pequeno diante daquela máquina.

Várias telas acenderam.

Vozes começaram a surgir.


— Sincronização iniciada.


— Sistemas angelicais online.


— Piloto identificado.


— Lilith Ayamina.


Ela fechou os olhos.

Respirou.

Como sempre fazia.

Como sempre ensinaram.

Não pensar.

Não sentir.

Apenas obedecer.

Do lado de fora.

Shin observava tudo.

Pela primeira vez.

Ele percebeu.

A garota que parecia tão distante...

Era a pessoa que carregava o peso de todos aqueles combates.

Então o alarme soou novamente.


ANJO CONFIRMADO.


Ao longe.

Entre as nuvens.

Algo surgiu.

Não parecia uma máquina.

Não parecia uma criatura.

Era algo entre os dois.

Uma existência impossível.

Shin encarou aquilo.


— Aquilo é...


Arthur respondeu:


— Um Anjo.


O combate começou.

Azazel avançou.

Cada passo fazia a terra tremer.

O Anjo atacou.

O impacto ecoou pela região inteira.

Shin observava em choque.

Não era uma guerra.

Era um confronto entre seres que pareciam pertencer a outra escala.

Mas então ele percebeu algo.

Lilith estava recuando.

Dentro do cockpit.

Os alarmes tocavam.

As mãos dela tremiam levemente.

Ela estava sozinha.

Como sempre.

A voz dos operadores continuava:


— Piloto Azazel, avance.


— Piloto Azazel, ataque.


— Piloto Azazel, cumpra sua missão.


Nenhuma voz perguntava:

"Você está bem?"

Então uma nova comunicação apareceu.

Shin.


— Lilith.


Ela abriu os olhos.


— Shin?


— Você está ouvindo eles?


Silêncio.


— Sim.


— Então não escuta.


Ela ficou confusa.


— O quê?


Shin olhou para o campo de batalha.


— Eles estão falando com o Azazel.


Pausa.


— Eu estou falando com você.


Lilith ficou imóvel.

Pela primeira vez naquele combate...

Alguém não estava falando com a arma.

Estava falando com a pessoa.


— Eu...


Ela tentou responder.

Mas não conseguiu.

Shin continuou:


— Você consegue.


Silêncio.


— Não porque mandaram.


— ...


— Não porque você precisa provar alguma coisa.


A respiração dela ficou mais calma.


— Mas porque você escolheu.


Dentro do Azazel.

Lilith abriu os olhos.

E pela primeira vez...

Ela não se sentiu como uma ferramenta.

O Arcanjo se levantou.

A energia ao redor mudou.

Todos na Crist perceberam.

Naomi observava os dados.


— Interessante...


Akane encarava os monitores.


— Ela mudou a postura.


Arthur apenas sorriu.

Azazel avançou.

E, pela primeira vez...

Lilith lutou.

Não como uma arma.

Não como um experimento.

Mas como Lilith Ayamina.

Horas depois...

O Anjo foi derrotado.

A Crist estava em silêncio.

Shin ainda observava o enorme Arcanjo retornando ao hangar.

Quando a porta do cockpit abriu...

Lilith saiu.

Cansada.

Mas diferente.

Ela caminhou até Shin.

Ficou alguns segundos em silêncio.

Então disse:


— Você ficou.


Shin sorriu.


— Eu disse que ficaria.


Ela olhou para o chão.


— Obrigada.


Pequena pausa.


— Por falar comigo.


Shin respondeu:


— Não precisa agradecer por isso.


Lilith levantou o olhar.


— Preciso.


E naquele momento...

Shin percebeu algo.

Aquela garota que todos chamavam de piloto do Azazel...

Talvez estivesse apenas tentando descobrir como ser humana.

Enquanto observava o enorme Arcanjo atrás dela...

Shin teve uma certeza.

A verdade que procurava era muito maior do que imaginava.

E agora...

Ele fazia parte dela.


Continua...