Catholic System
34 Capítulo 34 - O Livro e a Verdade
A tarde havia chegado à base da Judas.
Depois dos acontecimentos do dia anterior, o ambiente estava relativamente tranquilo.
Os corredores permaneciam movimentados.
Operadores trabalhavam nos terminais.
Pilotos circulavam pela base.
E, em uma das salas de estudo...
Shin estava sentado diante de uma enorme quantidade de documentos.
À sua frente...
Lukas lia atentamente um dos arquivos.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Até Lukas quebrar o silêncio.
— Então...
Shin levantou os olhos.
— Sim?
Lukas apontou para o documento.
— Foi assim que você começou?
Shin franziu a testa.
— Comecei o quê?
— Seus artigos.
Shin ficou alguns segundos em silêncio.
— Ah.
Ele sorriu.
— Sim.
Lukas pareceu genuinamente interessado.
— Como você fazia?
— Antes de publicar?
— Sim.
Shin apoiou os braços sobre a mesa.
— Eu procurava documentos antigos.
— Comparava versões.
— Procurava contradições.
— Tentava descobrir quem havia escrito determinada informação e por quê.
Lukas continuou ouvindo atentamente.
— E depois?
— Depois eu verificava outras fontes.
Shin apontou para alguns arquivos.
— Nunca confiava em uma única fonte.
Lukas assentiu lentamente.
— Interessante.
— Você fazia isso sozinho?
— Na maioria das vezes.
— Sem equipe?
— Sem equipe.
Lukas ficou impressionado.
— Então você basicamente investigava tudo sozinho.
Shin deu de ombros.
— Era o que eu podia fazer.
Lukas abriu outro arquivo.
— E esses artigos sobre a Crist?
O sorriso de Shin desapareceu um pouco.
— Esses foram diferentes.
— Porque eram mais perigosos?
Shin assentiu.
— Eu comecei a perceber que algumas coisas não faziam sentido.
— Documentos desapareciam.
— Informações eram alteradas.
— Pessoas simplesmente deixavam de existir nos registros.
Lukas ficou em silêncio.
Shin continuou:
— E quanto mais eu procurava...
Ele respirou fundo.
— Mais perguntas apareciam.
Lukas olhou para ele.
— Você nunca pensou em parar?
Shin sorriu de maneira quase irônica.
— Muitas vezes.
— Mas nunca parou.
— Não.
Lukas voltou os olhos para os artigos.
— Por quê?
Shin demorou alguns segundos para responder.
— Porque eu queria saber a verdade.
Silêncio.
— Mesmo que ela fosse desagradável.
Lukas sorriu discretamente.
— Acho que é por isso que seus artigos chamaram tanta atenção.
Shin olhou para ele.
— Você realmente leu todos?
Lukas ajeitou os óculos.
— Alguns.
Pausa.
— Muitos.
Shin riu.
— Quantos?
— Todos os que consegui encontrar.
— Todos?!
— Eu gosto de ler.
Shin balançou a cabeça.
— Você realmente é uma enciclopédia.
Lukas sorriu.
— Já me disseram isso.
A conversa continuou.
Lukas perguntava sobre métodos de investigação.
Shin explicava como organizava documentos.
Falavam sobre fontes.
História.
Religião.
Política.
Organizações.
E sobre como uma mesma história podia mudar completamente dependendo de quem a contava.
Lukas parecia cada vez mais interessado.
— Então você não acreditava simplesmente no que estava escrito.
— Não.
— Nem mesmo em documentos oficiais?
— Principalmente neles.
Lukas riu.
— Justo.
Shin olhou para os arquivos.
— Uma fonte pode estar correta.
— Pode estar errada.
— Pode estar incompleta.
— Ou pode estar tentando convencer você de alguma coisa.
Lukas ficou pensativo.
— Então o problema não é apenas descobrir o que aconteceu.
Shin assentiu.
— É descobrir por que alguém quer que você acredite que aconteceu daquela maneira.
Lukas ficou em silêncio.
— Isso é praticamente filosofia.
Shin sorriu.
— Talvez.
A porta da sala abriu.
Kenny entrou.
Ele estava usando sua habitual blusa azul e branca.
Parou por alguns segundos ao perceber os dois conversando.
— Hm.
Shin olhou para ele.
— O quê?
Kenny encostou-se na porta.
— Nada.
Ele havia claramente ouvido parte da conversa.
— Só estava passando.
Lukas voltou aos documentos.
Kenny ficou observando Shin.
— Kagami.
— Sim?
— Tu é ateu?
Silêncio.
Shin ficou alguns segundos parado.
Lukas levantou os olhos.
Kenny continuou:
— Ouvi vocês falando de religião.
— Fiquei curioso.
Shin respirou fundo.
— Sim.
Kenny arqueou uma sobrancelha.
— É mesmo?
— Sim.
Lukas permaneceu em silêncio.
Kenny cruzou os braços.
— Por quê?
Shin olhou para os dois.
— Não é porque eu odeio religião.
Kenny continuou olhando.
— Eu simplesmente não acredito.
— Nem na forma como ela é contada.
Ele apontou para os documentos.
— A Bíblia conta uma versão.
— A Crist conta outra.
— A Exxod provavelmente conta outra.
— A Judas também possui sua própria interpretação.
Shin fez uma pausa.
— E todas afirmam possuir alguma verdade.
Kenny ficou pensativo.
Shin continuou:
— Eu não consigo simplesmente acreditar em algo porque alguém disse que é verdade.
— Preciso de evidências.
— Preciso entender.
— Preciso questionar.
Lukas assentiu.
— Isso combina com seus artigos.
Shin olhou para ele.
— Como assim?
— Você não parece procurar uma resposta específica.
Lukas apontou para ele.
— Você procura respostas que sobrevivam às perguntas.
Shin ficou em silêncio.
A frase o atingiu.
Kenny soltou uma pequena risada.
— Caralho.
Os dois olharam para ele.
— O quê?
— Vocês conseguem transformar qualquer conversa em uma aula.
Lukas respondeu:
— Você perguntou.
— Eu sei.
Kenny olhou para Shin.
— Então tu não acredita em Deus?
Shin demorou um pouco.
— Eu não sei se existe.
— E justamente por não saber...
Ele deu de ombros.
— Não vou fingir que sei.
Kenny ficou quieto.
Dessa vez...
Não fez nenhuma piada.
Apenas assentiu.
— Justo.
Lukas fechou o arquivo.
— Talvez essa seja a diferença entre fé e investigação.
Shin olhou para ele.
— Qual?
— A fé aceita uma verdade sem precisar prová-la.
— A investigação começa justamente quando você decide perguntar se aquela verdade está correta.
Shin sorriu.
— Mas uma não precisa necessariamente destruir a outra.
Lukas ergueu os olhos.
— Não?
— Não.
Shin levantou-se.
— Uma pessoa pode investigar a religião sem odiá-la.
— Pode questionar uma crença sem atacar quem acredita nela.
Kenny deu um pequeno sorriso.
— Então tu não odeia religião.
— Não.
Shin caminhou até a porta.
— Eu só não consigo acreditar nela.
Ele olhou para os dois.
— E acho que isso é diferente.
Lukas assentiu.
— Bastante.
Kenny abriu espaço para Shin passar.
— Beleza, Kagami.
Shin parou.
— O quê?
— Só não começa a escrever um artigo sobre mim.
Shin sorriu.
— Depende.
— Depende do quê?
— Se você fizer alguma coisa suspeita.
Kenny ficou olhando para ele.
— ...
Lukas começou a rir.
Shin saiu da sala.
Kenny apontou para Lukas.
— Ele é irritante.
Lukas respondeu:
— Você perguntou.
— Eu sei!
No corredor...
Shin continuou caminhando.
A conversa permanecia em sua mente.
Ele não sabia se algum dia encontraria uma resposta definitiva.
Talvez Deus existisse.
Talvez não.
Talvez a verdade estivesse escondida em algum lugar entre os relatos humanos.
Mas uma coisa ele sabia.
Ele não queria aceitar uma história simplesmente porque alguém havia escrito que ela era verdadeira.
Queria descobrir.
Mesmo que precisasse questionar tudo.
Continua...
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