Catholic System
28 Capítulo 28 - O Coração do Homem
A noite havia chegado à base da Exxod.
Neon Caiko 5 continuava brilhando ao longe.
Depois da batalha...
Finalmente havia paz.
Nenhum alarme.
Nenhuma ordem.
Nenhum Anjo.
Apenas o som dos soldados conversando e dos mecânicos trabalhando nos Juízes.
No hangar principal...
Anúbis, Imseti e Apophis permaneciam lado a lado.
Três máquinas.
Três pilotos.
E, pela primeira vez naquele dia...
Nenhum deles precisava lutar.
Nefetari estava sentado sobre uma caixa de equipamentos.
Ainda vestia parte do uniforme.
Segurava uma garrafa de água enquanto observava Anúbis através da enorme janela.
Ele sorriu.
— Você foi incrível hoje.
Silêncio.
Nefetari riu.
— Tá, tá. Eu sei que você não fala.
Levantou a garrafa.
— Mas eu vou considerar isso um elogio.
Do outro lado do hangar...
Atem apareceu carregando duas bandejas de comida.
— Você está conversando com o Anúbis de novo?
Nefetari olhou para ele.
— Ele é um ótimo ouvinte.
Atem suspirou.
— Você é impossível.
— Obrigado!
Atem balançou a cabeça, contendo um sorriso.
Pouco depois...
Os três estavam sentados em uma pequena área próxima ao hangar.
Nefetari havia conseguido convencer alguns soldados a trazer comida.
— Depois de enfrentar três Anjos — disse ele — eu mereço isso.
Atem olhou para a mesa.
— Você pediu comida suficiente para dez pessoas.
— Nunca se sabe.
Ramesses, sentado ao lado de Atem, observou a quantidade.
— Ele realmente acha que vai comer tudo isso?
Nefetari apontou para ele.
— Finalmente uma pergunta inteligente.
Ramesses soltou uma pequena risada.
Atem também.
E, por alguns minutos...
Os três simplesmente conversaram.
Sobre a batalha.
Sobre os pilotos da Crist.
Sobre a cidade.
Sobre coisas completamente banais.
Nefetari imitava alguns dos movimentos de Shin durante a luta.
Atem tentava corrigir os detalhes.
Ramesses apenas observava os dois.
Sorrindo.
— Então aquele é o famoso Shin Kagami? — perguntou Nefetari.
Atem assentiu.
— O piloto do Gabriel.
— E escritor herege.
Ramesses olhou para ele.
— Você ainda vai falar disso?
— É um apelido excelente!
Atem riu.
— Você só gosta porque foi você quem inventou.
— Exatamente.
Ramesses abaixou o olhar para a comida.
Um pequeno sorriso permaneceu em seu rosto.
Era bom.
Aquele momento.
Simples.
Normal.
Depois de tantas batalhas...
Era quase estranho poder rir.
Mais tarde...
Nefetari deixou os dois sozinhos por alguns minutos.
Atem permaneceu sentado.
Ramesses também.
O silêncio entre eles não era desconfortável.
Pelo contrário.
Era familiar.
Eles se conheciam havia anos.
Tinham treinado juntos.
Lutado juntos.
Crescido juntos dentro da Exxod.
Atem olhou para Ramesses.
— Você está quieto.
Ramesses respondeu:
— Estou pensando.
— Em quê?
Ele hesitou.
— Em você.
Atem piscou.
Ramesses imediatamente desviou o olhar.
— Não desse jeito.
Atem arqueou uma sobrancelha.
— Eu nem disse nada.
— Eu sei.
Silêncio.
Ramesses respirou fundo.
— É só que...
Ele olhou novamente para Atem.
— Às vezes eu não sei exatamente o que sinto.
Atem ficou em silêncio.
Ramesses continuou:
— Quando você entra em batalha...
Eu fico preocupado.
Quando você se machuca...
Eu fico com medo.
Quando você sorri...
Eu fico feliz.
Ele abaixou os olhos.
— E quando penso em você...
Meu coração simplesmente...
Ele parou.
Não terminou a frase.
Atem permaneceu olhando para ele.
Sem julgamento.
Sem surpresa exagerada.
Apenas ouvindo.
Ramesses finalmente falou:
— Eu não sei se isso muda alguma coisa sobre quem eu sou.
Atem respondeu tranquilamente:
— Talvez você não precise decidir agora.
Ramesses levantou os olhos.
— Não?
— Não.
Atem sorriu.
— Você continua sendo você.
Ramesses ficou em silêncio.
Por alguns segundos...
Parecia não saber como reagir.
Então sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
— Você sempre fala assim?
— Assim como?
— Como se tudo fosse simples.
Atem riu.
— Não é simples.
Pausa.
— Só acho que você não precisa ter medo de descobrir quem é.
Ramesses olhou para ele.
Dessa vez...
Não desviou.
A porta se abriu de repente.
Nefetari voltou.
— Interrompi alguma coisa?
Ramesses quase derrubou o copo.
— Não!
Atem começou a rir.
Nefetari olhou para os dois.
Depois para Ramesses.
Depois para Atem.
Um sorriso malicioso surgiu.
— Hmmm.
— Nem começa — disse Ramesses.
— Eu não falei nada.
— Seu rosto falou.
Nefetari sentou-se novamente.
— Tá bom, tá bom.
Atem ainda ria.
Ramesses cobriu o rosto com uma das mãos.
— Eu odeio vocês.
Nefetari sorriu.
— Mentira.
— Infelizmente.
Os três começaram a rir novamente.
Algum tempo depois...
Nefetari levantou-se.
— Certo.
Amanhã temos treinamento às seis.
Atem fez uma expressão cansada.
— Já?
— Sim.
Ramesses suspirou.
— Que crueldade.
Nefetari apontou para ele.
— Olha só! O senhor silencioso reclamando.
— Eu posso voltar a ficar quieto.
— Não!
Nefetari começou a rir.
Atem acompanhou.
Antes de se separarem...
Os três caminharam juntos pelo corredor.
Nefetari falava sem parar.
Atem respondia.
Ramesses escutava.
Mas, dessa vez...
Ele não estava pensando nas batalhas.
Nem nos Anjos.
Nem em Apophis.
Estava pensando apenas naquela conversa.
E, pela primeira vez...
Não sentia necessidade de esconder aquilo.
Talvez ainda não soubesse exatamente o que sentia.
Talvez ainda precisasse de tempo para compreender sua própria identidade.
Mas uma coisa já sabia.
Atem era importante para ele.
Muito mais do que apenas um companheiro de equipe.
Os três chegaram ao corredor que levava aos dormitórios.
Nefetari levantou a mão.
— Até amanhã!
Atem respondeu:
— Até.
Ramesses também.
— Até amanhã.
Nefetari foi embora.
Atem começou a caminhar para o outro lado.
Ramesses permaneceu parado por alguns segundos.
Observando-o se afastar.
Então sorriu.
Baixinho.
— Até amanhã...
No hangar...
Os três Juízes permaneciam imóveis.
Anúbis.
Imseti.
Apophis.
A guerra continuaria.
Os Anjos continuariam surgindo.
E os pilotos continuariam lutando.
Mas naquela noite...
Eles não eram armas.
Não eram soldados.
Não eram símbolos de organizações.
Eram apenas três pessoas aproveitando uma noite tranquila.
Rindo.
Conversando.
E descobrindo, pouco a pouco...
Que ainda existia espaço para sentimentos humanos em meio àquela guerra.
Continua...
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