Cathedral

1 Meet Cathedral — P1


O carro freou bruscamente, fazendo a garota largar o jornal que carregava na mão. Ela desviou os olhos da grande igreja que era motivo de manchete para olhá-la pessoalmente. Seu coração bateu mais forte, enquanto ela observava cada centímetro daquele lugar que ultimamente causava arrepios em todos, tudo piorou enquanto ela observava sua mãe descer do carro e retirar uma mala do banco traseiro que nem ela mesma sabia que portava. Viu a mãe andar calmamente até a porta da igreja e desaparecer lá dentro. Direcionou o olhar do carro para a longa estrada deserta á sua frente. Não era uma região muito movimentada, o que piorava no movimento da igreja. Pensou em correr, fugir, quem sabe, mas era muito esperta para uma bobagem dessas, sabia que não iria muito longe.

Voltou seu olhar para o jornal que noticiava sobre alguns assassinatos na região — sendo um dos corpos encontrados em um arbusto atrás da igreja, tornando a suspeita de um assassino pela região mais próxima — ela se perguntou como uma igreja dessas podia ainda ter algum fiel.

Desceu do carro e encarou a longa torre e a escrita caprichada que dizia “Cathedral”. Bufou, cansada, enquanto subia os degraus da igreja. Uma lágrima quente ameaçava lhe escorrer do rosto, observando a mãe conversar com o padre, vestido a rigor. Sua mãe gesticulava com as mãos, como se estivesse discutindo com seu pai na sala de estar em casa. Parecia completamente desesperada. Caminhou alguns metros e se sentou em um banco do fundo mesmo, não queria chamar atenção. Tudo o que queria era voltar para casa e poder se deitar em sua cama. Não sabia o porquê, mas não se sentia muito a vontade estando em uma igreja.

Sem muita opção no momento, tudo o que fez foi encarar o teto bem iluminado. Ela se lembrava de quando era apenas uma garotinha e visitava a igreja semanalmente, o lugar era bastante habitado e a igreja costumava ficar lotada, mas com o tempo as pessoas começaram a abandoná-la. Virou-se quando viu a mãe caminhando em sua direção, com as mãos vazias.

Lançou um breve olhar para o altar, de lá o padre sorria para ela, aos pés, sua mala. Sua mãe lhe lançava um olhar tristonho, como se estivesse com o coração partido com o que estava prestes a fazer. Ela caminhava lentamente e dirigia seu olhar para o tapete vermelho. Emily se levantou imediatamente para encarar sua mãe face a face. Assim que seus olhos se encontraram, Emily sentiu como se todos os seus ossos se quebrassem. Sua mãe não precisaria dizer o que estava prestes a acontecer.

Ela se lembrou de quando alguns anos atrás ouviu falar em uma espécie de colégio para jovens, a causa foi apoiada pelo padre Moore e, nos fundos da igreja, a instituição foi criada para ajudar jovens com certos tipos de dificuldades.

Os olhos da mãe se chocaram contra os dela e, pouco tempo depois, se desviou, ela estava indo embora sem chamá-la. Deu cerca de dois passos até a voz de a sua adorada filha chamar.

— Mãe — sussurrou ela, tentando não chorar. — Mãe, o que está fazendo? — Sem aguentar, uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — Não me deixa aqui, por favor. Você sabe que eu não gosto desse lugar, por favor — sua suplica foi interrompida pela mãe.

Já com o coração partido, sem aguentar mais tudo aquilo, soltou as palavras: — É o melhor para você — sua voz saiu mais rígida do que esperava, então continuou a andar.

Deixando para trás sua filha mais velha de apenas dezessete anos implorando por uma nova chance. Talvez não tenha aproveitado muito bem as chances que já recebera, tenha feito muita burrada no passado, mas jurava que se arrependera de todas elas e só precisar de mais uma pequena chance. Só precisava sair daquele lugar.

Usara todo o tipo de argumento para sair de lá, tais como o seu arrependimento ou os assassinatos que ocorreram nas últimas semanas. Por fim, sua mãe fechou a porta, deixando para trás uma jovem e um padre.

Continuou sentada no chão, até que o piedoso Padre Moore tocou levemente seus braços, se pondo a ajudá-la. A garota não ousou — nem podia — recusar ajuda. Nos braços do padre alto e magro, foi levada até os fundos da igreja, passou pelo altar e entrou pela grande porta de madeira que a levou para um espaçoso pátio cheio de pessoas que aparentemente tinham a sua idade.

Rapidamente ela limpou as lágrimas do rosto, se teria um novo lar, não queria ser tachada como chorona. Logo após, encarou todos os alunos. Deveriam ter mais ou menos oitenta pessoas ali, alguns aparentavam ser mais novos que ela, na faixa de catorze anos, outros mais velhos. Emily, de fato, não mostrava ter a idade que realmente tinha.

Mas agora tudo o que ela tinha era pânico. Dezenas de faces estranhas a encarando, como se esperassem algo dela. Alguns até mesmo cochichavam e riam na frente dela, como se ela fosse o assunto. Sentiu a mão de o padre soltar seu braço, então estufou o peito e tentou parecer o mais calma possível.

— Todos, atenção! — E todos se calaram subitamente. Do outro lado do grande pátio, ela viu uma única mulher que aparentava ser muito mais velha. Devia ter uns sessenta anos, alta e magra, cabelos castanhos encaracolados e um sorriso trivial. — Esta jovem é a mais nova estudante junto com vocês, por isso, tenho certeza que teremos a colaboração de vocês, não é, meus amigos?! Então, saúdem nossa querida Emily Winters! — E todos a cumprimentaram, não pareceram muito amigáveis. — Eu acho... — Ele recomeçou a falar, olhando diretamente para uma garota que estava a alguns metros de Emy. Ela tinha algo diferente de todos os outros, um olhar mais vivo, enquanto o das outras garotas era mais caído. — Que a senhorita Vallent estaria mais sóbria — acompanhou de uma leve risada, como se fosse uma piada interna. Vallent retribuiu o sorriso, mas senti algo de traiçoeiro entre eles — para acompanhá-la até seus aposentos e mostrar para ela como funciona tudo por aqui.

— Claro que posso — ela sorriu, pegou a mala da garota e se sentou de novo. Lançou para Emy um sorriso, mas dessa vez mais amigável. O padre se despediu de todos e voltou para a igreja, onde ela imaginava que ele levava uma vida triste e solitária. Emy se sentou de frente para Vallent e outros dois amigos, um pouco mais distante, mas na mesma mesa, um garoto um pouco mais novo os acompanhava.

Emy observou cada um cuidadosamente. Havia Vallent, uma garota razoavelmente alta, com cabelos extremamente negros e pele, na mesma medida, clara. Tinha olhos esverdeados e usava a mesma roupa que as outras garotas, uma saia rodada com uma camiseta branca e um casaco azul escuro, no mesmo tom da saia. Do lado de Vallent, um garoto de bronzeado digno do Texas, um sorriso sutil, olhos castanhos e cabelo negro, que chegava até a altura do ombro. Entre os três, ele era quem parecia mais amigável. E do seu lado, um garoto ruivo, aparentava ser alguns anos mais novo que ela, mas não muita coisa. Pele tão clara como a de Vallent e olhos castanhos como mel, seu cabelo estava ajeitado em um topete estranho, meio desajeitado. Ele parecia estranho e ao mesmo tempo amigável.

— Meu nome é Christine, Christine Vallent — e acrescentou um sorriso torto para Emily, depois apontou para o garoto do seu lado. — Este é Thomas Steel — ele sorriu e pareceu um pouco mais amigável. E por último, apresentou que ocupava o lado esquerdo de Emily. — Este é Michael Ross — ele sorriu. — Mas chame o de Ross, porque Michael é um nome estranho.

Todos na mesa sorriram, como se fosse algum tipo de piada interna, mas eu continuei extremamente seria.

— Que lugar é esse? — Atirou, fazendo todos pararem de rir.

— Ross, é melhor você levá-la para o quarto e explicar isso no caminho — disse Thomas, tentando não ser tão serio.

Ross pegou a pequena mala em cima da mesa e ajudou a garota a se levantar. Quando pensou que ele a ajudaria a carregar a bagagem, ele a entregou de volta.

— Então, o que quer saber?

— Tudo.

— Ok — ele respirou fundo, se preparando para falar. — Bom, esse inferno foi criado há alguns anos para ajudar jovens... Com problemas, digamos assim. — ele falava cuidadosamente, como se tentasse encontrar as palavras certas. — Olhe em cada rosto daqui, cada um deles esconde um erro. Para ser mais direto, metade das pessoas que estão aqui já mataram alguém, não tinham para onde ir e tinham alguém que os amava, então os mandaram para cá, um lugar para uma segunda chance, mas, quer saber de uma coisa? Não existe segunda chance para pessoas como nós.

Emy parecia aterrorizada com tudo o que ele falava, mas optou por não fazer mais perguntas. Enquanto passavam pelo grande pátio, ela podia ver como as pessoas pareciam hipnotizadas, em alguma espécie de transe. Seus olhares tinham uma ponta de morte, pareciam cansados. Thomas, Chris e Ross não eram tão desesperadamente mortos, mas também não eram normais.

— Por que as pessoas daqui tem um olhar tão caído e parecem tão...? — ela não conseguiu encontrar palavra certa para descrever, estava evitando falar “mortos”.

— Ah, bom, vou te explicar uma coisa: Nada aqui é o que parece ser, está me entendendo? — Ela assentiu — as únicas pessoas que você deve confiar aqui dentro são Chris, Thomas e eu, certo? — Ela assentiu novamente, mas não tão certa que entregaria sua confiança a eles tão facilmente. — E se quiser algo da Chris ou do Thom, saiba que eles são namorados. Isso te abrirá portas! — e ele sorriu, mas logo fechou o rosto. — Mas serio, nunca, nunca mesmo, tome algum remédio que te derem, nunca confie na Constance — apontou para a mulher alta do outro lado da sala — e no padre Moore. Não confie muito no Joseph, nosso professor, e sobre essas amebas não preciso dizer nada — e essa foi a primeira vez que Emy sorriu.

Ela não tinha mais nenhuma pergunta. Continuaram andando até entrarem em um corredor longo com apenas duas portas, uma de um lado, outra de outro. Ross parou de andar e encarou a porta cinzenta com o desenho de uma pequena garota na porta, usando um vestido.

— Entre e pegue a cama que tiver um uniforme em cima, guarde seus pertences no baú. Se quiser voltar lá para fora, sabe onde nos encontrar.

— Obrigado — ela sorriu para ele e repassou mentalmente tudo o que ele havia dito. Ross levou a mão até a testa, imitando um oficial e depois a deixou.

Emy entrou no quarto, que por sinal, era muito grande, e andou cama por cama, todas estavam do mesmo jeito, arrumadas idênticas. Até que encontrou um uniforme na ultima cama do corredor. Abriu o baú e viu que ele estava vazio, então despejou seus pertences dentro, e sentou-se na cama. Alisou-a passando a mão, a coberta felpuda era confortável. Chegou a se deitar, para sentir melhor cada centímetro, depois pegou seu uniforme e foi até a porta que ficava ao lado da sua cama.

Estava em um grande banheiro, contou seis banheiras de um lado e, do outro, seis Box com chuveiros. De frente para ela, um grande espelho cheio de pias. Despiu-se completamente e observou seu reflexo no espelho. Seus cabelos louros como ouro desciam até suas costas em cachos perfeitos, algo invejável. Ela era tão bonita. No seu rosto, as lágrimas deixaram um rastro e ela se envergonhou por ter parecido tão fraca diante de todos mais cedo.

Enxaguou o rosto, vestiu o uniforme e ficou o resto da noite encarando seu próprio reflexo no espelho, tudo o que tinha feito, tudo o que ainda iria fazer. Confusa, com medo, não importava. Cathedral era agora, querendo ou não, sua casa.


Notas finais
É isso, se encontrou algum erro, qualquer coisa pode me dizer por review. Sua opinião é o que move a fic e obrigado por ler :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.