Catching Feelings
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mais uma vez, antes de escrever a última parte do texto que a professora pediu, olhei para o pequeno bilhete que tinha em mãos. Era um papel azul claro, numa folha mais grossa que a comum. A letra no papel era bonita.
— Clara? Você ouviu a pergunta? — Minha amiga Ana me cutucou com a borracha na ponta do lápis.
— O quê? — Escondi o papelzinho desajeitadamente debaixo da folha do texto, sentindo o rosto esquentar. Olhei para Ana — Que pergunta?
Ana, minha amiga de pouco mais de um metro e meio sorriu maldosamente. Seu cabelo era curto, com uma franja bonitinha, que emoldurava o rosto redondo e infantil. Seus olhos castanhos escuros brilharam e eu sabia o que viria em seguida.
— O que é isso? Um admirador secreto? — Ela disse tentando pegar o bilhete, mas eu guardei no bolso a tempo. Ana bufou irritada, mas voltou a sorrir — Que tipo de amiga é essa, que esconde os namorados?
Estávamos na sala de aula terminando um trabalho. Todos os alunos conversavam animados, a maioria ignorando a tarefa, e a professora parecia não ligar. Ela mesma estava sentada com algumas alunas, conversando. Olhei para meus colegas, me perguntando se algum deles tinha deixado o bilhete em minhas coisas, mas nenhum parecia culpado. Talvez Ana estivesse brincando comigo. Semicerrando os olhos, virei para ela.
— Foi você que me mandou esse bilhete? — Questionei mostrando o papel, agora um pouco amarrotado, e tentando parecer ameaçadora.
Ana leu a mensagem, mas para meu infortúnio, pareceu tão surpresa e curiosa quanto eu me sentia.
— Não, eu não faria isso. Que estranho, quem será que te mandou? — Ela disse, olhando o bilhete de novo, como pudesse descobrir quem havia mandado só pela letra.
— Não sei, eu queria saber. Achei estranho também, mas pode ser brincadeira de alguém.
Minha amiga assentiu, pensativa. Segundos depois, ela sorriu, dando um pulo na cadeira como se tivesse tomado um choque ou, infelizmente, tido uma ideia para me zoar.
— Mas pensa bem, se não for piada, nem nada do tipo, quer dizer que alguém está interessado em você! — Disse batendo palmas. — Minha magrela vai achar um namoradinho!
Balancei a cabeça, guardando o papel no bolso da calça novamente, decidida a voltar minha atenção para texto, mas é claro que Ana não esqueceria fácil.
— Será que é alguém conhecido? — Perguntou com uma mão no queixo e com a outra batendo o lápis na mesa. — Pode ser aquele esquisito que fica olhando pra você o tempo todo.
— Esquisito? — Franzi o cenho, tentando lembrar de quem ela falava.
— Sim, aquele dos dentes engraçados, que falta babar em você.
— Não, aquele garoto faz isso com você, Ana. — Eu ri quando Ana revirou os olhos.
— Talvez tenha sido o Nico, sei lá, tirando onda com a sua cara.
— Ele é muito certinho pra isso, fala sério. Além disso, não parece a letra do Nico e a menos que você tenha colocado isso na minha mochila por ele...
O sinal tocou e parte dos alunos entregou o texto, outros deixaram para a próxima aula. Guardei meu material na mochila, sem pressa, e quando terminei, Ana já estava parada na porta, batendo o pé impaciente. Levantei, esbarrando em alguém sem querer. Virei-me para ver quem era. Pedro.
Ele sorriu para mim e eu momentaneamente perdi a linha de raciocínio. Vou dizer o porquê: o Pedro era o tipo de cara que toda garota queria beijar, do tipo que você sonha em viver um romance de filme. Seu sorriso parece sempre ter um toque de malícia e os olhos castanho claros se destacavam em sua pele bronzeada. Alto, atlético e, não bastando isso, inteligente.
Pedro era só alguns centímetros mais alto do que eu e para não encontrar seus olhos, desviei os meus para seu cabelo castanho, depois baixei a cabeça, envergonhada por não conseguir olhá-lo, como ele fazia agora comigo.
— Desculpa, aí — Disse ele sem graça.
— Nada, eu que peço desculpas — Falei, criando coragem e erguendo os olhos. Sorri, tentando no mínimo parecer simpática.
Ele sorriu, ajeitou a mochila no ombro e piscou para mim antes de sair da sala. Na porta, Ana ergueu uma sobrancelha quando ele passou por ela.
— Eai, Pedro. — Ela falou, ignorando meu revirar de olhos.
— Oi, Ana — Respondeu ele, dando uns tapinhas na cabeça dela, depois seguiu pelo corredor.
Parei ao lado da minha amiga e ri, me sentindo vingada.
— Eu odeio ser pequena, sinceramente. — Bufou ela irritada. — Será que ele mandou a mensagem?
— Ele só esbarrou em mim, Ana!
— Ué, pode ser uma dica dele do tipo: “Ei, me nota crush” — Argumentou, fazendo um bico, pensativa.
— Ele só esbarrou em mim — Repeti, em plena certeza de que Pedro não tinha enviado o bilhete.
Sentamos nos bancos do pátio, enrolando a hora de ir para casa como sempre fazíamos. Ana estava falando no celular, me ignorando completamente enquanto atualizava alguém sobre um jogo novo. Distraída, me peguei olhando para Pedro, em pé de frente à arquibancada. Ele falava com os amigos, totalmente à vontade. Em um momento, ele ergueu os olhos para onde eu e Ana estávamos e me encontrou olhando para ele. Mais uma vez naquele dia, Pedro piscou para mim.
Preciso explicar como eu conheci Pedro e porque ficava constrangida perto dele. Logo que comecei a estudar na escola da cidade e fiz amizade com Ana, estávamos eu e ela discutindo sobre o sabor do suco da lanchonete. É claro que não poderia ser uma discussão normal e calma, nós duas sempre fomos escandalosas uma com a outra, e acabou que eu, já irritada com a situação, decidi derramar o suco na lixeira ao lado. Eu poderia muito bem ter deixado de lado, concordado com Ana e fim, mas para ser mais teatral e para implicar mais ainda minha amiga, tomei o copo da mão dela e girei de uma vez para acertar na lixeira, como se fosse uma bola de basquete. Infelizmente, Pedro tinha decidido jogar o resto do seu lanche naquela mesma lixeira. Na minha opinião, a roupa dele nem tinha ficado tão ensopada assim.
Um chute na canela me tirou do devaneio e virei irritada para Ana.
— Você tá louca? — Reclamei, passando a mão onde ela tinha chutado.
— O que foi isso? Clara, o Pedro acabou de piscar pra você e agora fica olhando de esguelha! — Quase gritou, me olhando com aqueles olhos travessos.
— Arg, Ana, você é maluca, certeza.
— Certeza eu tenho é de que foi ele que te mandou esse bilhetinho.
Balancei a cabeça negando e fiquei de pé, colocando a mochila nas costas.
— Para de bobagem, conheço o Pedro, ele não faria isso, acho que não foi ele.
— Você acha? — Ela revirou os olhos e apertou o nariz com os dedos em pinça. — Eu tenho que ter paciência com você, garota.
Olhei para ela, frisando bem minha melhor expressão de “Você está louca, querida”.
— Eu quero saber quem mandou! — Ela ficou de pé e nós duas descemos a arquibancada.
Pedro já tinha saído com os amigos e já não haviam muitas pessoas por ali.
— Eu também quero saber, Ana, até porque não quero nenhum maluco desconhecido me perseguindo não.
— Será que foi aquele menino ali? — Apontou quando passamos por um outro garoto qualquer.
Tentei fazer Ana esquecer esse assunto, mas ela tentou agir como um detetive até o momento que cada uma seguiu para sua casa. Ainda assim, ela me mandou mil mensagens perguntando se eu já tinha descoberto alguma coisa.
Cheguei suada, tinha sido um dia quente e caminhada da escola até em casa era longa. Tomei um banho e tentei arrumar meu quarto enquanto o almoço ficava pronto. Comi sozinha, como de costume. Meus pais chegavam no final da tarde e traziam minha irmã da creche, então aproveitei o silêncio da casa para dormir, mas não consegui. Sentei na cama e peguei o papel do bolso da calça no guarda-roupas.
Eu reli, alternado meus pensamentos sobre achar se ter um admirador secreto era algo fofo ou estranho.
“Você estava bonita hoje e isso não devia nem ser novidade pra mim ;)”
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