Catarse
3 Nova funcionária
George andava atarefado. Seu corpo estava em meio ao caos de pessoas na loja, mas sua mente estava em outro lugar. Há quase um mês acontecera o encontro com seus amigos, mesmo tempo em que descobrira que Angelina ainda gostava de seu irmão e que chorara junto dela. Há quase um mês ele não a via.
Acabaram adormecendo abraçados, e, na manhã seguinte, quando George despertou, Angelina já não estava ali. Ele pensou que ela fosse procurá-lo, e após cinco dias, até lhe enviou uma carta, mas não obteve resposta.
Isso o incomodou. Ele não queria perder contato, ainda mais quando os dois haviam revelado suas fraquezas um para outro. George nunca chorara na frente de ninguém. Até mesmo no dia do funeral de seu irmão, as lágrimas vieram apenas mais tarde, à noite, quando ele voltara sozinho ao para seu apartamento. Duvidava que Angelina o tivesse feito. Ela parecia uma parede de concreto. Sólida, dura, inabalável. Porém essa parede era apenas uma fachada, e agora ele sabia.
Perguntou-se por que ela sumira. Talvez tivesse se arrependido de chorar em sua frente. Seja qual fosse o motivo, ele não estava contente. Apesar do pouco tempo juntos, fora agradável. Ao contrário do que ele costumava fazer com as pessoas, George não queria repelir a presença de Angelina. Não depois de perceber a dor que ela também carregava.
Estava arrumando a prateleira de Vomitilhas quando a porta da loja abriu-se. Ginny entrou e foi em sua direção.
“O que faz aqui?”, perguntou voltando-se para os produtos.
“Tive que comprar um novo estojo de limpeza para minha vassoura.”, ela parou cruzando os braços abaixo do peito; a sacola de compras balançando de um lado pro outro. “Mamãe está preocupada com você. Já faz mais de um mês que não aparece em casa ou sequer dá uma notícia. O que houve?”
“Nada.”, sua voz estava seca. Permaneceu arrumando a prateleira.
“George.”
Ele não teve opção senão encará-la.
“O que você quer?”
“Saber o que está acontecendo. Você estava indo para casa quase todo final de semana. E quando não vinha, pelo menos enviava uma coruja. Está voltando a se isolar do mundo?” Ela parecia ignorar os olhares de admiração que eram lançados em sua direção. Não era todo dia que uma estrela de Quidditch aparecia na loja em que se está comprando.
“Se eu estiver, o que você tem a ver com isso?”, não queria ser grosseiro, mas aquele questionário estava irritando-o. Ele foi para seu escritório, no fundo da loja. Ginny o seguiu.
“Escute, George.” , ele percebeu a irritação crescente em sua voz. “Se quer se excluir do mundo de novo, o problema é seu. Mas isso não afeta somente a você. Afeta aos meus pais e a todos nós.”
Ele ignorou, fingindo mexer em uma papelada em cima da mesa.
“Não vou mais te incomodar. Se é isso o que você quer, tudo bem. Mas ao menos tenha a consideração de falar com a mamãe para que ela tenha certeza de que você está vivo. E a propósito, não sei se é do seu interesse, mas semana que vem é aniversário de Harry.”
E sem dizer mais nada, ela saiu.
George jogou-se em sua cadeira, e soltou um suspiro exasperado. Ele entendia as reclamações de sua irmã. Não queria voltar ao primeiro ano após a Batalha, que fora o mais sombrio para sua família, quando ele esquecera-se do mundo lá fora. Mas estava incomodado e perturbado demais para aparecer em casa.
O dia se foi lentamente. Ele continuava com a mente longe, contudo escrevera uma carta para sua mãe e até prometera tentar aparecer em casa no aniversário do namorado da caçula. Já estava no fim da tarde, quando, do balcão, ouviu a porta da loja sendo aberta. Ia atender o mais recente cliente, quando parou de súbito.
“Angelina?”, questionou surpreso.
“Oi, George.”, sorriu a garota sem graça.
“O que... o que aconteceu?”
“Desculpe. É só que... A gente pode conversar em outro lugar.”, ela falou observando a sua volta. As poucas pessoas que ainda se encontravam na loja, reconheceram-na.
“Senhorita?”, falou uma menina de cachos louros aproximando-se. “Você é Angelina Johnson?”, apesar da pergunta, a garota já tinha um pequeno bloco de papel na mão.
Bastou Angelina acenar positivamente para que as pessoas se aproximassem. George afastou-se e observou como a mulher lidava com aquilo. Ela não parecia gostar da fama, mas era gentil e atenciosa com as pessoas, sorria para todos. Aos poucos, dispersaram-se e George puxou-a pela mão antes que mais alguém se aproximasse. Eles foram até seu escritório.
“Espere aqui. Vou fechar a loja e já volto.”
Ele levou alguns minutos para conseguir fazê-lo, junto de Verity. Ele dispensou a moça e voltou para sua sala. Angelina estava parada observando os vários papeis pregados à parede.
“Essas ideias são realmente boas.”, comentou. “Por que ainda não as desenvolveu?”
“Hum, não consegui encontrar a fórmula certa.”
“Eu posso ajudar.”
“Você?”, perguntou cético, rindo em seguida ao ver a expressão indignada de Angelina.
“Sim, eu. Se você quer saber, eu não me dei bem em poções porque Snape foi com a minha cara.”
“Ah, é?”, afastou-se contornando a mesa e sentando em sua cadeira. “Então por que não nos ajudou em Hogwarts quando fazíamos experimentos?”
“Porque achava perda de tempo, na época. Além do mais, no último ano eu estava mais preocupada com Quidditch, caso você não se lembre.”, respondeu sentando-se de frente para ele.
Ele sorriu e não pôde deixar de lembrar como Angelina ficara paranoica naquele período. Até hoje não esquecera a bronca que ela dera nele e no irmão depois que haviam sido expulsos do Quidditch por aceitarem as provocações de Malfoy. Aposto que Fred também nunca esqueceu, pensou. Logo cortou esse pensamento. Seu irmão nunca mais esqueceria ou lembraria de o que quer que fosse.
“Então você quer trabalhar comigo?”, brincou decidindo ignorar sua mente.
“Pode ser uma boa.”
“Não pode estar falando sério!”, exclamou entendendo a expressão dela.
“É claro que estou. Tenho mais de um mês de férias e não vou fazer nada nesse período. Eu poderia ajudar com experimentos e com a loja. Não vejo problemas.”
George agora estava realmente surpreso. Primeiro, ela sumia por quase um mês, e agora sugeria trabalhar na loja.
“Você pode não ver, mas eu vejo e muitos. Primeiro: você é famosa. Não há como as pessoas não notarem isso, atrapalharia o funcionamento da loja. Segundo: você não tem experiência. Terceiro: Quidditch é sua vida, pensei que você fosse treinar nesse tempo.” Enumerou e tentou encontrar algum outro motivo, mas nenhuma outra razão lhe veio à mente.
“Primeiro: sim, você tem razão. Quidditch é minha vida. E, sim, vou continuar treinando, mas só a partir das nove da noite. Sei que você fecha a loja antes disso. Segundo: realmente, não tenho experiência, mas isso a gente adquire com o tempo. Terceiro: bom”, ela hesitou por um instante. “As pessoas me conhecem, porém, depois que perceberem que eu trabalho aqui e que sou uma pessoa extremamente comum, após que vão me esquecer e lembrar apenas dos logros.”, terminou com um sorriso de canto.
“Duvido muito. “, murmurou em resposta.
“Ah, qual é George? Podemos fazer uma experiência. Se não der certo, posso pelo menos ajudar com o desenvolvimento dos novos produtos. Se nada funcionar, não vou mais insistir, prometo.”, fez uma falsa cara de inocente.
George não pôde deixar de sorrir.
“Sinceramente, não entendo seu interesse em trabalhar aqui. Não há nenhum prestígio nem...”, parou quando percebeu a careta que ela fez. “Olhe, tudo bem, você é quem sabe. A gente pode tentar, mas qualquer coisa, você...”
“Estou no olho da rua. Eu sei, eu sei.”, completou sorridente.
“Não era bem isso o que eu ia dizer, mas...”, ele suspirou. “Por que você quer trabalhar aqui?”
Angelina ciciou, pensativa.
“Na verdade, eu não vim aqui para isso, como você deve imaginar. É só que... vendo como a loja está funcionando, as brincadeiras, a alegria que esse lugar irradia... Eu não sei, apenas me senti bem.”
George discordou internamente. Para ele, aquele lugar já não trazia nenhuma alegria sem seu irmão.
“Você veio aqui para...”, ele queria que ela falasse sobre seu desaparecimento repentino.
“Recebi sua carta. Desculpe por não responder. Eu me senti uma fraca quando percebi que havia chorado na sua frente. Fui uma idiota. Você, cheio de problemas, e eu desabei e...desculpe...” ela falava rápido. George a interrompeu.
“Angelina.”, ela parou. “Você me ajudou, não tenho pelo o quê te desculpar. Eu também nunca havia chorado na frente de ninguém, mas me senti um pouco mais aliviado fazendo isso do seu lado. Não quero que você se afaste. Senti sua falta e saudades da nossa amizade.”
Ele não queria soar meloso, nem dramático, mas não pôde expressar seus sentimentos de outra maneira.
Angelina sorriu genuinamente.
“Bom, mãos à obra!”, levantou-se entusiasmada.
“O que?”
“Vamos começar a trabalhar.”
“Mas agora? A loja já fechou e...”
“Eu sei disso, George.”, revirou os olhos. “Os experimentos estão aqui.”, virou-se indo em direção aos papéis. “Há quanto tempo você não cria algo novo?”
“Desde a Batalha.”
“Ah.”, ela soltou obviamente percebendo o motivo. “Não acha que já está na hora de voltar?”, perguntou sorrindo em sua direção.
Ele, sentindo um ânimo diferente, levantou-se e junto dela se pôs a trabalhar. Ficaram estudando projetos e invenções e decidiram, por fim, criar uma nova linha de kit mata-aula para os alunos de Hogwarts. A sugestão fora de Angelina, na verdade, mas ela e George a aperfeiçoaram. Brincaram e implicaram um com o outro todo o tempo. Trabalharam até meia-noite, quando George olhou sem querer para o relógio.
“Caramba!”, surpreendeu-se. A hora passava tão rápido quando se está fazendo algo prazeroso. George não divertia-se assim há tempos. Por algumas horas, mesmo que poucas, ele se esqueceu de suas dores para dedicar-se somente aquilo que passara toda sua vida almejando: a criação de alegria e diversão.
“Nossa!”, exclamou Angelina ao assimilar o horário. “Passou tão rápido. Tenho que ir.”
Com um aceno de varinha, George arrumou todos os projetos, deixando em um canto reservado a papelada que continha as novas ideias. Angelina pegou sua bolsa e seguiu para a porta da frente, sendo seguida por George que fechara o escritório no caminho.
“Então é isso.”, disse Angelina com os olhos brilhando. Ele notou como eram bonitos. “Posso começar amanhã, chefe?”, brincou.
George sorriu passando a mão levemente pelos cabelos.
“Pode, sim.”
Ela sorriu de volta e estava quase saindo, quando ele segurou-lhe pelo braço fazendo-a virar em sua direção.
“Só não vá sumir de novo, tudo bem?”, soltou-a.
“Eu não vou.”, assegurou-lhe num sussurro e saiu para noite estrelada de julho.
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