Anne
Eu não consigo parar de olhar para a Catarina, e nem ela para mim.
Ela sabe o mal que me fez. Me expulsar de casa sabendo que eu estava vivendo o pior momento da minha vida... o término do meu namoro, os meus problemas na família e minhas crises de ansiedade, mas ela não se importou. Tudo que importa para ela é conseguir ter a sua própria cafeteria, nem que isso custe jogar fora uma amizade de infância.
— Anne, não dá mais! Você tem que procurar outro lugar. Imediatamente.
— Cat! Por favor, não faz isso comigo... Eu... – Eu não sabia como reagir naquela situação. E lembrar disso é muito dolorido.
— É impossível não fazer isso. Você me dá muito trabalho, além de ser melancólica ao extremo! Mulher, você levou um pé na bunda, e tudo bem, você não morreu, levanta e segue a vida! – Catarina disse de forma debochada. Ela sabe dos meus transtornos desde a época do ensino médio.
Eu não suportaria mais aquela convivência, por um milagre, na mesma noite eu recebi um telefonema, era o Gabriel, me lembro até hoje da sua voz embargada: ‘’Amor, eu voltei. Me encontre na Praça dos Velhos.’’
Sem pensar muito, eu fui o mais rápido que eu pude, levando todas as minhas coisas.
A Praça dos Velhos é uma grande piada interna minha e do Gabriel. Nos conhecemos nessa praça e a primeira coisa que ele me disse foi: ‘’Meu Deus, essa praça parece um asilo de tanto idoso que vive por aqui, né?’’. E a partir daí, essa praça se tornou o local dos momentos mais marcantes de nossas vidas. Foi onde nos conhecemos, onde demos o nosso primeiro beijo, onde ele me pediu em namoro, onde terminamos e onde nos reencontramos e a reatamos nosso namoro.
O tempo voa no Empire. Quando vemos, já estamos nos arrumando para ir embora. Mas antes, o Sr. Álvaro organiza uma ‘’reunião expressa’’, talvez ele realmente tenha achado esse trocadilho engraçado, mas ninguém riu de verdade, a não ser a Jade, que esboçou um sorriso forçado.
— Hoje o dia foi corrido, senhores. Mas, não tivemos nenhuma reclamação dos clientes. A meu ver, todos foram excepcionais. – Álvaro diz com um grande sorriso no rosto e olha para Jade. – Mas, quem realmente os avalia é a nossa instrutora, Jade, a palavra é sua.
Jade parece tensa. Dá um longo suspiro e começa a falar.
— Bom, todos foram bem, realmente. – Jade diz, mas forma uma expressão que geralmente vem seguida de um ‘’mas’’. – Mas, Catarina é muito lenta. Observa demais a Anne, que também observa demais a Catarina. E Gabriel atrasou em alguns minutos os pedidos indo conversar com a Anne. – Jade diz enquanto coça de forma excessiva as mãos.
— Bom... – O Sr. Álvaro parece um pouco envergonhado. Sua felicidade evaporou com a sinceridade da Jade. – Todos estão liberados, Jade, precisamos conversar.
Jade
Eu sei o que o Sr. Álvaro vai me falar e já me preparo para aquelas suas entonações vocais irritantes e que me doem os ouvidos.
— Querida... – Ele diz de forma manhosa como se eu fosse um bebê enquanto todos os outros já foram embora. – Você sabe que não pode ser tão sincera assim, não sabe?
— Sim, eu sei! – Eu coço minhas mãos quando estou em uma situação desconfortável. E agora é uma situação extremamente desconfortável, principalmente quando a voz manhosa dele fica ecoando na minha cabeça.
O Sr. Álvaro me libera alguns minutos depois, após um pequeno sermão (que continua ecoando na minha cabeça.).
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