Já fazia mais de cinquenta minutos que a Sra. Aldine simplesmente não calava a boca. Sério, a mulher não parava nem pra respirar. Ela entrou na sala, pôs alguns papéis sobre sua mesa e desatou a falar. Se apresentou, sorrindo educadamente durante todo o discurso; porém, não nos obrigou a falar nossos nomes, nem nada do tipo. Ela simplesmente não parecia interessada. Aparentava ter aproximadamente uns trinta anos; era magra e alta como uma modelo. Seus cabelos eram ruivos, encaracolados e cheios, presos no topo da cabeça com algumas mechas soltas caindo pelo rosto, deixando-a invejavelmente linda. Além de tudo, caminhava pela sala com a elegância de um cervo. Quando ela terminou de falar, sentou-se à beirada da mesa e encarou o restante da sala. — Alguma dúvida alunos? — Sorriu educadamente. Apesar da beleza frágil, toda a sua postura era intimidante. Parecia o tipo de professora que daria um fora até naqueles que faziam as perguntas mais inteligentes. Ninguém ousou se pronunciar. — Ótimo! Então vocês estão liberados. Assim que as palavras deixaram sua boca, o sinal tocou. Guardei meu material e me juntei aos alunos no corredor. Se ontem todos conversavam animadamente, felizes por estarem de volta às aulas, hoje o clima era completamente diferente. Todos haviam sido atingidos pelas últimas mortes, uma das desvantagens de morar em cidade pequena; todo mundo compartilhava da mesma dor. Abri meu armário, guardei uns livros e troquei os cadernos. Assim que puxei um dos livros, um envelope retangular escapou por entre suas páginas e planou até o chão, pousando aos meus pés elegantemente. O peguei e vi que se tratava de uma carta meio amarelada, como se estivesse envelhecida. Na parte de trás dizia:

Leia apenas quando estiver em casa, e não deixe que esta carta chegue em outras mãos!!!

Franzi a sobrancelha e olhei para os lados, tendo a certeza de que os alunos estavam ocupados demais uns com os outros para que tivessem visto a carta. Guardei-a rapidamente no bolso de trás da calça e fechei a porta do armário. Ao chegar em casa, encontrei meu avó na sala com uma chave de fenda numa mão e um pequeno rádio na outra, sua testa enrugada em concentração. Cumprimentei-o e perguntei por minha vó. Ela estava no andar de cima, arrumando algumas coisas. Antes que eu subisse para o meu quarto, algo que passava na televisão me chamou a atenção. O jornal relatava os últimos acontecimentos de Castle Combe. O âncora falava sobre a cabeça da menina que fora achada na nossa escola, e do quão assustados nós, moradores, deveríamos estar com isso. Uma foto da menina apareceu na tela, com seu nome na legenda. Lisa Aaren. Vê-la fez meu coração bater mais rápido e lágrimas encheram meus olhos. Me senti triste pela perda de sua família, e principalmente pela forma que a perderam. Não tiveram direito nem a um enterro decente. A próxima cena me surpreendeu mais ainda. O âncora começou a falar sobre um desaparecimento que havia ocorrido aqui há alguns meses atrás. Um homem de cabelos castanhos apareceu na tela, sendo entrevistado, dizendo que procurava por seu irmão. Ele erguia freneticamente uma foto para a câmera e um número de telefone aparecia na tela. Ele pedia que quem tivesse alguma pista de onde poderia estar seu irmão o ligasse imediatamente. Franzi os olhos ao notar algo familiar na foto. Os olhos... eu já os havia visto antes. De repente, minha mente clareou e eu soube quem era. O homem da lanchonete. O mesmo que havia invadido a casa ao lado na noite passada. Ele matou Lisa Aaren. Sem pensar duas vezes, peguei o telefone da bolsa, salvei o número que aparecia na tela e corri para o meu quarto.

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Afundei na cama e segurei a carta à frente do rosto. Por alguma razão eu me sentia extremamente nervosa, como se o conteúdo guardado ali fosse mudar a minha vida. Eu só esperava que isso não fosse verdade. Tomei coragem e abri o envelope.

"10 de maio de 1920

Seu caro amigo,

Eles me encontraram, mas isso não importa. Sou um homem do passado, você é o futuro. Contudo, antes de encarar totalmente o futuro, é imprescindível que dedique um tempo para aprender sobre o passado. Kraik, leia o livro e analise os objetos do baú. O livro foi escrito por mim mesmo e é a verdade. Você precisa entender quão real é a ameaça que os Anjos Caídos representam. Eles se infiltram em todas as situações do nosso cotidiano. Concluí este livro há algum tempo, porém não consegui encontrar um editor capaz de bancá-lo. Poucos editores tiveram coragem suficiente para lê-lo do início ao fim, enquanto outros foram tolos a ponto de rejeitá-los sem dar uma segunda olhada. Acredite, Kraik, é o único que pode assumir o meu lugar. Você será meu sucessor, o próximo Guardião do mundo. Restaram poucas pessoas com suas habilidades e percepção, e não confio em ninguém mais, além de você. Boa sorte, caro rapaz. Deus sabe que precisará do máximo de ajuda. Brooks"

Respirei fundo três vezes após o término da leitura; porém, não adiantou. Três palavras rodavam na minha cabeça sem parar. Guardião, Anjos Caídos e tudo o que isso representava. O fato de que essa carta era de décadas atrás me aterrorizou. Alguém queria que eu a lesse e tomasse conhecimento do que se passava ali. O problema era que eu não sabia nem por onde começar. E, afinal, quem era Kraik e Brooks? Se ao menos houvesse o sobrenome eu poderia procurar. A possibilidade de que o assassino de Lisa Aaren pudesse estar ligado a essa carta passou pela minha cabeça. Lembrei do número na minha agenda e peguei o celular, discando o número do desconhecido que procurava seu irmão. Atenderam no segundo toque.

— Alô? — A voz masculina pareceu estranhar estar falando ao telefone.

— Ahm, me desculpe incomodar, mas é que eu vi a reportagem no jornal... — Sim? — Ele me interrompeu, com a voz ansiosa. — Eu não sei como te dar essa notícia, mas... acho que seu irmão está morto. — Esperei por uma crise de choro, ou pelo menos uma fungada do outro lado da linha; porém, me surpreendi com a resposta.

— Então você o encontrou? — A voz do homem não apresentava remorso algum.

— Eu não o conheci, na verdade. — Franzi as sobrancelhas com sua falta de emoção. — Eu o vi por aqui apenas algumas vezes.

— E aonde foi a última vez que você o viu? — Estranhei o rumo que a conversa tomava, ainda surpresa por ele não ter se abalado com a notícia de que seu irmão pudesse estar morto.

— Em uma lanchonete — menti.

— Ele estava com alguém?

— Uma mulher o acompanhava. — A carta queimou a mão que a segurava, como se me dissesse mais uma vez que aquele homem pudesse estar ligado a Lisa Aaren.

— Me desculpe a falta de educação, mas ele não era seu irmão? Achei que fosse estar mais preocupado.

— Pode me dizer como era esta mulher? — Ele ignorou minha pergunta.

— Não, eu não pude vê-la. — O que era verdade. — Mas sei que seu irmão não era uma boa pessoa, não é? — Arrisquei.

A linha ficou muda por alguns segundos e eu achei que ele houvesse desligado. — Com quem estou falando? — Ele voltou, me surpreendendo.

— Marie — Resolvi dar a ele meu segundo nome.

— Você não tem sobrenome, Marie?

— Não — eu disse, secamente.

— Vamos nos encontrar, Marie. Preciso saber por onde meu irmão esteve nos últimos dias, e algo me diz que você pode me fornecer todas essas informações. — O tom de sua voz praticamente ameaçava minha vida se eu dissesse não.

— Em qual parte da Inglaterra você mora? — Ele reconheceu meu sotaque.

— Londres.

— Então está marcado. Vamos neste fim de semana. Mais tarde vou lhe mandar os detalhes do lugar. — Ele fez uma pausa. — Eu sou Harmon, a propósito. Mas nada de sobrenomes, não é mesmo? — Ouvi sua curta risada ao final antes que ele desligasse o telefone.

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Estávamos eu e meus avós sentados à mesa da cozinha, tomando um chá. Já havia passado das cinco da tarde e estava escuro lá fora. Vovó e eu nos levantamos para guardar as coisas e vovô foi para a sala.

— Querida, será que você pode levar o lixo lá pra fora? — Ela disse, ao me ver jogando os restos na lixeira.

— Claro — sorri.

Fechei a sacola e peguei o moletom antes de levar o pacote pra fora. Um vento frio envolveu meu corpo e eu tremi. Me virei rapidamente, mas fui parada pela visão da casa ao lado. A essa mesma hora ontem ela estava acesa, normal, como todas as outras do bairro. Porém, agora, ela se assemelhava a uma casa mal assombrada; completamente apagada e com fitas cobrindo suas portas e janelas. Senti um arrepio na espinha ao lembrar dos momentos que passei ali e balancei a cabeça, tentando esquecer. De repente, uma enorme dor de cabeça me atingiu; tão forte que me fez perder o equilíbrio. Então eu caí na calçada, minha visão escurecendo por alguns segundos. Apoiei minhas mãos no chão e fechei os olhos, respirando fundo. A dor na cabeça piorou. Parecia que uma fina agulha tentava atravessar o meu crânio. Abri os olhos, mas tudo estava tão estranho. A casa ao lado se acendia, revelando o casal andando pra lá e pra cá pela janela; mas então se apagava de novo, como um curto circuito, e o casal sumia. Pisquei novamente, tentando focalizar a casa de uma só maneira, mas era impossível. E a fina agulha não parava de tentar perfurar meu crânio. Quanto mais eu tentava ver a casa da forma que ela está hoje, pior ficava. Tentei uma nova tática, e relaxei meu corpo. Apenas fechei os olhos e inspirei fundo, soltando o ar logo em seguida. Em segundos, meu coração já havia se normalizado, e eu já não sentia a forte dor de cabeça. Quando eu abri meus olhos de novo, o que eu mais me recusava a acreditar aconteceu. Me levantei e olhei ao redor. A casa ao lado estava acesa novamente, e o casal ainda estava lá; já a minha exibia somente escuridão. Meus avós dormiam àquela hora. Um movimento à minha direita atraiu minha atenção e eu olhei para o lado. Um carro preto estacionou no fim da rua e alguém saiu de dentro. A silhueta se aproximou cada vez mais e parou ao meu lado. Mas Deon não notou minha presença, o que eu já sabia que iria acontecer. Ele cruzou os braços na frente do peito e observou a minha casa. Então ele caminhou um pouco e entortou a cabeça, como se estivesse tentando achar um ângulo melhor. Ficou ali por uns três minutos e se moveu novamente. Parou bruscamente e encarou o último andar; a janela do sótão, o meu quarto.

E lá estava eu, encostada contra o vidro, as pernas encolhidas e observando a casa ao lado. Da posição que Deon estava, eu não o teria visto lá de cima, mas ele conseguia me observar facilmente. Ficou ali por dez minutos inteiros. Seus olhos não desviavam de mim nem por um segundo. Olhei para o seu rosto e me surpreendi ao ver a expressão em seus olhos. Ele parecia... tranquilo. Em paz. Como se nada pudesse abalá-lo naquele momento. De repente ele virou o rosto na direção do outro lado da casa; as folhas balançavam levemente, como se algo houvesse acabado de passar por ali. Deon correu para a casa e entrou, subindo as escadas e indo na direção do quarto do casal. Apesar de seus passos rápidos, ele sabia muito bem aonde e como pisar para que fosse silencioso. Era como se ele nem tocasse o chão. Ele foi até a mulher e passou os dedos sobre sua pálpebra, repetindo a mesma ação no homem.

Depois voltou para o corredor, no mesmo instante em que a porta de entrada se abriu. Logo mais eu vi a mim mesma subindo as escadas, o rosto e roupas completamente encharcados. Deon havia se escondido nas sombras e me observava dali. Seu maxilar trancou e eu pude ver em seus olhos o quanto ele estava furioso por me ver. Tudo se desenrolou da maneira que eu previa. O suposto irmão de Harmon desceu do sótão e começou sua pequena perseguição por mim. Quando tudo terminou, Deon repetiu o mesmo gesto que havia usado no casal em mim. Passou seus polegares sobre minhas pálpebras e eu caí nos seus braços. Eu queria segui-los; porém, eu sabia que mais alguma coisa ia acontecer. Esperei por uma hora, sentada na poltrona que ficava ao lado da cama do casal, antes que algo acontecesse. Um barulho. A porta se abriu, e eu levei a mão aos lábios ao ver os compridos cabelos ruivos da Sra. Aldine adentrarem o quarto. Ela carregava um sorriso perverso no rosto enquanto se aproximava da cama. O que aconteceu a seguir quase me fez vomitar. Ela fincou os dedos na garganta do homem e o sangue fluiu logo em seguida. A Sra. Aldine ria descontroladamente, como se fazer aquilo fosse a melhor parte de seu dia.

Observei, horrorizada, enquanto ela repetia o ato na mulher. Arrancou a cabeça dos dois apenas com as mãos, suas unhas ajudando. Não consegui ver o que ela fez depois, porque minha visão escureceu por dois segundos antes que eu voltasse para o presente. Me sentia enjoada, a ponto de vomitar. Me orientei e voltei correndo para a minha casa, voando escada acima e me trancando no banheiro. Tomei um banho gelado para me acalmar, mas de nada adiantou. O dia não havia acabado bem, mais uma vez.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.