Castelos de gelo
16 Vestígios de mim
Notas iniciais
O céu que antes pesava em nuvens cinzas, agora se abria amostrando um pedaço do céu azul.
Quando se mora na Inglaterra, tem que acostumar-se rapidamente com o clima totalmente inusitado, e com sentir calor, frio, ou uma mistura dos dois o tempo todo.
Mas quando você mora mais no centro na Inglaterra, o frio começa a ser o seu melhor amigo.
Mexi em minhas mãos dentro das luvas térmicas pretas, e apertei a junta de meus dedos, ouvindo o pequeno chiado que couro fazia quando roçava em couro. O clima parecia estar combinando com a minha vida: cheia de reviravoltas.
Mas não há como negar a felicidade que eu estava sentindo, por finalmente achar a minha filha que procurava por mais de 14 anos.
Era uma felicidade indescritível.
Mesmo que eu estivesse triste por ela não ter aceitado ser parte concreta e ativa da realeza, contentei por hora com sua indecisão, quando subi mais cedo para conversar com ela em seu quarto.
Tomei mais um gole do café, observando a melhor amiga de minha filha sentada no sofá, no telefone, falando provavelmente com os pais que iria demorar para chegar em casa, porque de acordo com ela “A Amy precisa de mim” e “coisa de mulher”.
E de fato, ela precisava.
Achar o seu pai, descobrir que não só é da realeza, como também herdeira imediata no mesmo dia, não deve ser algo fácil de aceitar.
Ainda mais depois do que havia ocorrido. Porque, por Deus, que estado era aquele em que ela estava?
Algo muito ruim deveria ter acontecido, ainda mais por contarmos com o lugar que achamos seus dados...uma delegacia. Minha filha foi presa e estava daquele estado...ainda consigo lembrar o alivio e felicidade que tive quando vi ela completamente limpa e arrumada. Dando para ver seu rosto com clareza e precisão.
—O que aconteceu com ela?- perguntei para Clear, que estava de costas para mim, mexendo em algumas xicaras na pia.
A cozinha em si tinha um estilo um tanto rustico variado, com sua pia inox e seus armários de madeira, com a bancada sendo de varias madeiras ordenadas unidas.
Não era em si um palácio, nada perto do que minha filha e a mulher que um dia eu amei e conheci mais do que mim mesmo mereciam, mas a casa em si tinha um aconchego e uma familiaridade que eu de fato não conseguia explicar. Quando ela levou Amanda, ela vendeu todas as joias que eu havia dado a ela, e levou todo o dinheiro que guardamos juntos, ainda sim, ela merecia mais.
Ela se virou e começou a mexer no café em suas mãos. Seus cabelos escuros emoldurando seu rosto de traços delicados.
Pelo seu olhar, ela sabia que eu estava me referindo à parecer que Amanda tinha sido atropelada por um caminhão e sido jogada no esgoto.
Um cheiro de peixe misturado à sangue e lama vinha dela, seus cabelos estavam para todos os lados, pequenos gravetos se encontrava nele, e lama seca ia de sua raiz até seu pescoço. Além dos pequenos cortes e hematomas que eu podia ver que apareciam em sua pele. Porém, mesmo com tudo isso, e com o estado também que se encontrava seu vestido, eu não consegui no momento, não pensar que mesmo assim ela ainda era linda, e tinha traços tantos meus como de sua mãe.
—Eu sei tanto quanto você- ela não me olhava nos olhos- eu cheguei em casa, e tinha essa mensagem na secretária eletrônica, que me fez ir correndo para a delegacia.
—Que mensagem?- bebi mais um gole de café, enquanto a vi ir até o telefone na bancada e clicar em um botão, fazendo a voz de Amanda soar por todo a cozinha.
“Ahn...mamãe? Só queria dizer que, bem...é uma história engraçada, a senhora vai rir bastante! É que, humm, eu estava meio que numa festa, é eu sei, eu menti para a senhora, mas se a senhora analisar com humor, enxergará que não é tão ruim assim. E agora vem a parte mais engraçada, tá preparada? Bem eu fui presa. Eu sei que isso vai manchar minha chance de entrar em uma boa faculdade e provavelmente vai atrapalhar meu histórico escolar mas veja, quem sabe, daqui a alguns anos iremos nos balançar em nossas cadeiras de balanço e rir dessa droga toda. Te amo, xau”
Antes mesmo que acabassemos de ouvir a mensagem, escutamos uma risada alta vir da sala, para em seguida a melhor amiga de Amanda vir para perto de Clear, sendo seguida de perto de Marcus, já que ele ainda não confiava totalmente na garota.
—Eu não acredito que ela gravou isso!- ela começou a rir de novo.
Eu e Clear olhamos para elas confusos, assim como também Marcus, visto que ainda não confiava totalmente na “invasora de quartos”.
Marielly, eu acho, ficou de costas para nós enquanto colocava a mensagem para repetir e ouvia atentamente.
—Eu não vi ela gravando...- ela murmurou pensativa ainda rindo um pouco- ela deve ter ligado depois que eu sai da delegacia.
E aí, como se só agora percebendo o erro em suas palavras, ela ergueu a cabeça e ainda de costa voltou a falar.
—Não que, não que eu estivesse também na delegacia.
—Delegacia?- Clear falou com uma voz branda e dura.
Ela se virou com um sorriso nervoso, provavelmente pensando em algo para falar agora. Mas já estava claro para todos nós, que ela sabia o que havia acontecido com Amanda.
—Sente-se- Clear falou novamente, me surpreendendo com o quanto sua voz podia ser dura com uma garota de 17 anos.
—Na verdade senhorita Lancaster, é uma história bem engraçada- ela falou de maneira nervosa enquanto ia até a cadeira, e sentando-se nela.
—Comece a explicar- tomei a voz, porém de maneira mais calma para não assustar a garota, mas a verdade era que eu estava e muito curioso para saber o que havia acontecido.
—Bem, é bem engraçadinha.- eu e Clear ficamos de pé, na sua frente, parecendo por um instante um interrogatório do FBI.- nós fomos à uma festa. E nessa festa...posso beber um pouco de café?
Ela se interrompeu nervosa apontando para a garrafa térmica de café.
Clear levantou uma sobrancelha e cruzou os braços.
—Não? Ok, entendi- a invasora de quartos continuou- então, quando chegamos lá ela teve uma ideia bem interessante e ligar para a policia e denunciar a festa.
—Mas ela não estava na festa?- perguntei antes de Clear.
—Bem, esse é o ponto- ela continuou- ela ligou para denunciar a festa, e o plano era só ficar um pouco antes da policia chegar, mas aconteceu uns...imprevistos e ela acabou sendo pega, na verdade, nós duas fomos pegas.
—Que tipo de imprevistos?- foi a vez de Clear perguntar.
—Escorregar em uma poça de lama- ela respondeu parecendo um pouco hesitante.
—Não pode ser só isso.- Clear começou- quando eu cheguei na delegacia ela também estava cheirando à cerveja e peixe.
Cerveja?
—Ela...escorregou na cerveja?
Agora mais do que antes ela parecia indecisa quanto à sua resposta.
É como se tivesse tentando nos vender uma verdade, que não iriamos querer comprar.
—Mas a senhorita não disse que ela escorregou na lama?- Havia algo de errado nessa história.
—Ah, você sabe! Os jovens e o seu desrespeito com a mãe natureza! Né Charles?
—Mais respeito com Vossa Majestade. — a voz de Marcus “respondeu” sua pergunta. Não importava quantas vezes eu pedisse que me tratasse mais casualmente quando não estavamos em publico, ele continuava a agir assim. Não se ganha o coração das pessoas com tanta formalidade. Ainda mais com a melhor amiga da minha filha.
—Mas porque ela ligou para a policia?- Clear perguntou com um olhar vago, como se estivesse pensando nessa pergunta por um tempo.
—Você sabe como a Amy é difícil de entender né tia?
Tia? Eu tenho uma sobrinha também?
—Mais respeito- a voz de Marcus ressoou de novo pela cozinha. Olhei para ele com repreensão, embora eu odiasse fazer isso.
—Bem, a Amy é difícil de entender mesmo...nunca consegui entender porque ela fazia os círculos de alienígenas no jardim- Clear soltou uma risada curta.
—Acho que foi porque a professora tinha passado um filme assim pra gente, e ela ficou meio obcecada com alienígenas- a melhor amiga da minha filha falou e começou a rir também.
Foi então que olhei para as paredes e para a bancada, e lembrei do quarto de Amanda quando fui conversar com ela. Não havia fotos de ambas, nem nenhuma nossa antiga. Não havia nada a não ser desenhos e coisas estampadas de um peixe durado e um gato com pernas longas azul.
Eu simplesmente não fazia parte da vida da minha filha, e nunca fiz. Para ela eu sou como um fantasma mudo, que não tem nenhum leve suspiro para firmar, não tendo nem mesmo o nome.
As paredes estavam nuas de lembranças e cada canto gritava por toque. Pedia por recordações.
Sim, ela sabia agora que eu era o Rei da Inglaterra e seu pai, mas ela não sabia quem eu de fato era. Não me conhecia.
Não havia vestígios de mim.
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