Castelos de gelo
5 Pessoas pessimistas
Notas iniciais
Capítulo 4:
—As regras são as mesmas...
Se você quer um lugar esquisito com um cheiro estranho, onde tem uma mulher de bigode de roupas esquisitas, com maquiagem forte rosa, brilhante como purpurina, que usa um batom vermelho até os limites de seus lábios franzidos e sua pele enrugada e frágil, este é o lugar. O lugar onde você tem que ficar por duas horas sem comer, duas horas ir ao banheiro, e sem conversar com ninguém, apenas rabiscando em sua carteira sem nada para fazer, parabéns, seja bem vindo ao lugar onde é seu novo local de pesadelos: Detenção.
—Se você comer, mais dez minutos.
Arregalei meus olhos para não me ceder ao sono, ao passo que Olga, a nossa inspetora de detenção, ditava as regras.
—Não pode fazer barulho.
Depois de suportar cinco aulas, 2 de calculo, 1 de educação física, 1 de química e outra de biologia, eu estava exausta. Mas não poderia ir para casa, por causa do meu atraso peguei detenção e agora só poderia chegar em casa às 17h, teria que ouvir reclamação da minha mãe, teria que ir para casa andando e ainda por cima iria perder meu programa favorito: O incrível mundo de Gumball. Sim, eu sei, a vida não é justa.
—Não pode dormir
Olga falou com sua voz lenta e vagarosa, enquanto olhava para cada um de nós antes de continuar. Ela usava uma saia longa xadrez, com uma blusa rosa choque de mangas compridas sapatos de salto baixo azuis e tantos e tantos cintos que deveria ser contra a lei.
—Não pode ir ao banheiro
Essa era uma das regras mais ridículas, tipo, mesmo que você estivesse morrendo de vontade de ir ao banheiro, com a bexiga estourando e quase urinando na cadeira, você não podia ir.
—Ultima regra, a principal, silêncio absoluto.
Então ela se sentou.
Tremi um pouco de frio, acho que estou gripada. Depois daquele loirinho de olhos azuis que é da minha sala, que fez questão de não entrarmos na mesma hora para não acharem nada, que cheira a perfume amadeirado e que pela chamada descobri se chamar Noah Water comecei a espirrar. Mesmo depois de ter trocado a roupa que eu estava antes pela roupa de educação física que estava em meu armário individual no vestiário, ainda sentia alguns calafrios. Mas isso não importava, hoje tinha festa da Melanie e sim, eu ia fugir de casa.
—Ei, esquisita- uma menino com um cabelo meio acobreado e uma pele extremamente pálida cutucou minhas costas, tentando chamar minha atenção.
Ignorei. Não podia correr o risco de chegar ainda mais tarde em casa.
—Ei estranha- ele falou novamente.
Quando cansei dele me cutucar e minha paciência estava quase se esvaindo, finalmente me viro para saber o que aquele infeliz quer falar comigo, me viro minimamente quando Olga parece estar centrada demais em seu livro de romance, mas até aquele pequeno movimento chega a doer. Escorregar na chuva não é muito bom.
O garoto que sinceramente deveria achar que meu nome é "esquisita", não era um desconhecido. A um tempo atrás, não muito tempo...ok, algumas semanas aquele garoto e alguns amigos dele me encurralaram no corredor. Empurrões, palavrões, nada que Melanie não tenha feito, porém não tão pior quanto ela faz.
—O que é projeto de ET?!- a gatinha também sabe arranhar meus queridos.
Então eu me virei mais um pouco e cara, eu paralisei.
O infeliz tinha olhos verdes.
Lindos olhos verdes. Eu nem havia percebido antes.
Pendi minha cabeça para o lado e o admirei por um instante, eu amava tanto olhos verdes...
Eu tinha totalmente, absolutamente, incrivelmente chances de estar sendo ridícula.
Ele me deu aquele sorriso do tipo “Sim, eu sou bonito, me ame” e pigarreou.
—Punição- ouvi Olga dizer e quando me virei percebi que a mesma olhava para mim.
—Punição?- perguntei atônita. Não, não, não!!!!
—Sim senhorita Lancaster, punição- ela se aproximou mais de mim com um olhar pensador, enquanto o idiota atrás de mim ria.
—Você deverá, a partir da próxima semana lavar todos o banheiro masculino durante um mês.
É, parece que eu me lasquei em todos os tipos de conjugações do verbo se lascar.
*~*
—Que tal...esse vestido preto?- Mari, minha melhor amiga falou me amostrando um vestido tomara que caia, que ia até o joelho, mas...e se ele cair?
—Vulgar demais- disse me espreguiçando mais em sua cama com edredom branco e travesseiros de algodão. Mau não ia em minha casa por ordem de mamãe, ela não gostava que ninguém fosse lá em casa.
—Que tal...-ele remexeu em seu closet com porta de vidro pela milésima vez tirando de lá um vestido amarelo brilhante entupido de lantejoulas-...esse!
Apoiei-me em meus cotovelos para observar melhor o vestido em suas mãos.
—Quê que é isso? Se inspiraram no sol pra fazer isso?
—Você é tão negativa Amy, tão negativa- ela reclamou com um suspiro como se dissesse “você não tem jeito mesmo”.
—Também te amo- sorri meu sorriso amarelo e metálico enquanto me deitava de novo na cama dela, ficando desta forma a cortando horizontalmente.
—O que sua mãe disse sobre a detenção?
—Ela não sabe, minha sorte foi ela não estar em casa na hora. Seu irmão não está aqui não né?
A última coisa que preciso no momento é o irmão mais velho de Mari quente como o inferno me ver depois de arrumada. Gente, reboco mal feito não ajeita parede quebrada.
— Me diga uma hora que meu irmão está em casa? Deve estar é provavelmente em algum encontro com alguma garota!
—E como você tem certeza que tudo hoje vai dar certo? — o nó tenso de nervosismo se apertava em meu estomago.
—A esperança nunca morre baby.
Ouvi um barulhinho de latido vindo de algum canto do quarto, o que sinalizava que Mari havia recebido uma mensagem, eu gostaria de receber uma mensagem, mas o que posso fazer se nem celular tenho? Isso mesmo caro leitores, minha mãe não me permite ter um celular, de acordo com ela é algo desnecessário e surperfúlo, além de ter medo de eu ser roubada. Mari as vezes brinca com isso, dizendo que eu sou uma perseguida da máfia que não pode ser rastreada, e não entende que minha mãe apenas visa minha proteção.
—Sua mãe acreditou quando você disse que vinha estudar a noite toda aqui?- Mari perguntou enquanto se dirigia despreocupadamente até sua penteadeira e pegava seu telefone.
—Acreditou- sorri lembrando de quando ela disse que eu podia vir para a casa de Mari. Sim, foi um milagre. Fiquei muito surpresa que os anjos dos céus não desceram e cantaram Hallelujah. Ela já havia me deixado vir para a casa de Mari algumas vezes, mas nunca passar a noite.
—Daqui a pouco faço a sua maquiagem- ela disse quando viu seu mini quit de tortura na penteadeira, lembrando que o tempo estava passando e que tínhamos que ir para a festa da Melanie.
—E tem jeito de mudar isso?- eu perguntei me levantando de sua cama macia e confortável, enquanto me dirigia para a cozinha, afim de comer alguma coisa.
—Você é tão negativa Amy, tão negativa...
Ouvi ela falar com um tom de desistência enquanto eu descia as escadas de sua linda casa.
Estava remexendo na geladeira, no freezer para ser mais precisa, quando senti dedos cutucarem minha cintura.
—Esquisita- ouço e quando me viro vejo ninguém mais ninguém menos que Adam Mason, irmão da minha melhor amiga/ninja, e por quem eu nutria um intenso afeto. Ele, diferente da irmã, tem lindos olhos verdes, um belo cabelo acobreado, e um sorriso de tirar o fôlego.
—Aberração- disse com tédio enquanto olhava ele jogar por detrás das costa um pacote de pão integral. Por que eu tô olhando ele? Amy idiota!
Sim, meu caro leitor, eu estou brigando comigo mesma. Me processe.
Me voltei para a geladeira escolhendo por fim um frasco de nutella e pegando duas colheres na gaveta. Adam estava distraído com alguma fritura no fogão, peguei o pacote de pão integral que ele havia deixado na bancada, e tentei sair de fininho. Observem, tentei. Porque eu tentando fazer alguma coisa é o mesmo que pedir para um elefante fazer balé, o resultado é trágico.
—Ei, meu pão! É o ultimo pacote! Isso não é justo!- Ele gritou quando me viu carregando o pacote.
—A vida não é justa baby- disse enquanto subia as escadas.
*~*
Quando voltei ao quarto com o lanche e minha infindável fome, o que vi me surpreendeu.
Mari estava deitada na cama, com o celular na mão, com uma expressão um tanto quanto catatônica.
—Que foi criatura? O que aconteceu? Quem morreu?
Perguntei preocupada me jogando em sua cama e a olhando sentada na cadeira, a vendo do conforto de seu travesseiro.
—A esperança...a esperança morreu.
—Porque, o que aconteceu?
Me sentei em sua cama ao constatar que a coisa era séria. Para ela estar assim, em uma noite de sexta, com uma festa para irmo, para ser mais exata, para eu ir com ela, coisa muito rara, ela num instante ficar séria, deve ser realmente algo grave. Muito grave. Além do mais nós somos tributos, a esperança nunca morre!
—Amy, mudaram o endereço...
—Sério? Você está fazendo esse escarcéu só porque mudaram o endereço? É na onde, na mata? Não deve ser tão ruim assim! Depois eu sou a pessimista!
Sim, essa é minha maneira mais prática de dizer “Só isso?” mas como eu sou muito dramática, as coisas podem sempre piorar.
Ela se levantou da cadeira da penteadeira e ficou de frente para mim, que estava sentada, como se para aumentar a sua superioridade e a gravidade da situação.
—Amy sua maldita, você não está entendendo, eles mudaram o endereço- ela falou com uma expressão assustada enquanto olhava de novo para o celular como se para checar que a mensagem estava mesmo dizendo o que ela havia lido.
—Pra onde? Não deve ser tão ruim!- repeti, pois sabia que se eu conseguia ser dramática, Mari conseguia chegar perto de ser mais.
Ela suspirou como se eu não tivesse jeito.
—Você é tão otimista Amy, tão otmista- ela disse meneando a cabeça e se virando para seu closet, afim de achar uma roupa que fosse do meu agrado.
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