Castelos de gelo
18 A casa grande
Notas iniciais
1 dia.
1 dias havia se passado desde que eu descobri minha verdadeira identidade.
Sabe aqueles filmes com musiquinha de missão impossível atrás? Seria legal eu estar neles, porque neles a protagonista é sempre bem resolvida.
Esse tipo de coisa acontece em filmes, tipo Diário de uma princesa, em doramas como My Queen. Não em Maine, não comigo.
1 dia em que eu me tranquei no meu quarto. Provei o gosto amargo da solidão, e recebia doses de tristeza enquanto batia minha caneca na porta pedindo para Mamãe trazer mais comida.
Nem um pouco dramática.
— Amanda, eu sei que tudo é muito novo, mas você não pode fazer isso. – Mamãe continuava batendo na porta.
— Deixe-me aqui mamãe, com meus suspiros amargos, e a solidão, minha velha amiga.
Eu ouvia seu suspiros de frustação através da porta. Eu sei mamãe, também estou frustada comigo mesma.
— Amanda Lancaster, se você não sair desse quarto agora mesmo eu paro de trazer comida e te deixo morrendo de fome.
Celine Dion continuava cantando no som do quarto.
— Tudo bem mamãe, eu já estou satisfeita com a melancolia.
All by myself
Don't wanna be
— Isso é Celine Dion tocando garota? – ela parecia presa entre o riso e a vontade incontrolável de jogar água benta na minha cara.
— Não, não é não – me desenrolei do meu casulo de lençóis e fui pular aquela música.
Foi para Creep, do Radiohead.
Sim, naquele CD tinha apenas músicas de fossa. Tinha feito especialmente para quando me sentisse inconsolável. Também tinha uma lista de filmes e séries, mas isso já é outra história.
Sentei novamente na cama e ponderei minhas opções.
1 — me trancar e definhar aos poucos.
2 — Ir e encarar tudo de frente, como a mocinha corajosa que sou.
Comecei a rir sozinha.
Esquizofrenia, hello.
Eu sei que parece a pior versão de uma novela mexicana, quando a garota descobre que o cara por quem ela estava apaixonado era irmao gêmeo dela, mas existe algo sobre a mentira que nos mata.
Parecia que haviam se passado meses mas tinha sido ontem, quando tudo ruiu como chuva de novembro. É um rolo compressor, e ele está dentro de você. Quando chove assim, só nos resta se molhar.
Meu dedo raspava a borda do meu caneco como se estivesse apreciando um belo vinho francês, quando ouvi o primeiro estouro.
Gritos e vozes apressadas vinham do andar de baixo, junto de palavrões e coisas quebrando. Parecia um Christina Rocha para maiores.
Dei um pulo quando um chute na porta do meu quarto levou ela ao chão.
William apareceu com seu abdômen a mostra e o suor escorrendo por seus mamilos sensíveis.
Brincadeira, mas bem que podia ser verdade.
Ele apareceu com uma expressão resignada e completamente séria, empunhando uma arma da mão direita, usando a esquerda como apoio.
Oloko.
— Vamos – foi a única coisa que ele disse quando me viu vestida com minha pior camisola. Ele não parecia me odiar nem me amar, apenas estava extremamente profissional. Pela primeira vez desde que Marcus o apresentou como meu guarda costas, entendi porque ele tinha esse cargo.
Continuei parada, até que William me puxou com o máximo de agressividade que pôde, me tirando do meu estado catatônico.
Retiro o que disse.
Mas o que diabos estava acontecendo?
Quando descemos os primeiros degraus das escadas vestígios de brigas eram evidentes. Vestígios de sangue no chão da sala me fez parar no meio da escada.
Omg.
William puxou meu braço.
— O que aconteceu? Cadê todo mundo? – meus pés voltaram a funcionar e tentavam acompanhar o mesmo ritmo que os seus, o que era quase impossível. A mão de William apertando meu braço, fazendo força o suficiente para me tirar do chão.
Foi então que eu percebi que estava diminuído o ritmo, e isso fazia com que ele me puxasse com mais força. Seu rosto continuava impassível e sem grandes alterações além das que eu já havia visto.
— Ela está comigo agora – William disse aparentemente para o ponto no seu ouvido. – Sim, estamos cruzando a sala agora.
— O que aconteceu? – perguntei novamente quando atravessamos o pequeno jardim morto na porta de casa. – Cadê todo mundo?
William não me respondeu.
Ai meu deus, será que espiões realmente invadiram minha casa? Eu só estava brincando quando eu pensei isso.
Será que minhas coleções de filmes e séries da fossa estavam bem? Ai meu deus, será que minha mãe estava bem?
— Cadê minha mãe?
Tinha alguns homens vestidos de preto com um símbolo dourado no peito estavam na esquina da minha casa. William era o único que não tinha um símbolo, mas todos estavam empunhando uma arma.
Provavelmente por William não ter respondido sobre minha mãe, por aquela situação estar realmente séria e por Charles também não estar a vista, meu corpo involuntariamente começou a tremer.
Um jipe preto parou em nossa frente, estilo velozes e furiosos.
— Entre no carro srt. — ele disse antes de soltar meu braço e me olhar com...paciência?
— Aqui é extremamente perigoso agora. – continuou a falar, e ainda rude, colocou a mão nas minhas costas me guiando – eu explico a situação melhor quando chegarmos na Casa Grande.
Casa grande?
O pequeno número de guardas ao meu redor parecia impaciente e prestes a me jogar no carro com a porta aberta, mas tentavam disfarçar enquanto se aglomeravam ao meu redor com suas armas em punho.
— O-oque tá acontecendo?
O garoto de cabelos loiros, acho que o nome dele era Bryan, entrou pela outra porta.
— A casa foi invadida – ele disse enquanto puxava meu outro braço para me instalar no assento do meio. Continuei paralisada.
— Fiquem aqui e descubram se eles deixaram algum rastro para trás – William ordenou aos outros guardas e se virou para mim, como se estivesse prestes a entrar no carro também.
— A Srta. precisa entrar no carro se quiser ver sua mãe – ele não estava implorando, nem ordenando. Era uma espécie de chantagem e nesse caso, não havia chance de barganha.
Então, sem fazer mais perguntas, entrei no carro, enquanto os dois sentaram ao meu lado, e fiquei em silêncio enquanto pouco a pouco ele cortava a noite.
*^*
O carro continuou seu percurso durante mais ou menos 30 minutos, antes de parar em frente a um enorme portão.
Embora eu nunca tivesse ido lá, eu sabia onde estávamos. Pelo visual estontoso estávamos na área mais nobre de Maine: o condomínio.
Era uma área com cerca de 9 casas, estilo mansão, extremamente ostentosas. O prefeito tinha uma casa ali, bem, óbvio que ele tinha já que ele é a autoridade máxima por essa cidade. Era lá que a mico leão dourado, vulgo: vadia, ops, vulgo: Melanie morava. A última festa dela deveria ter sido lá, mas como o pai está na cidade, ela tem que manter a pose de santinha do pau oco, cheio, e lustrado com óleo de peroba. Pera, eu falei festa? A festa dela foi me humilhar na frente de todo mundo. O que parecia ter ocorrido a mil anos atrás, mas na verdade não fazia tanto tempo assim, e só de lembrar disso, meu peito se enche de ódio.
Bem, a casa era tão chique que se vendessem um único móvel podia muito bem resolver a fome na África.
Ok, exagerei.
Mas que era chique era.
Tão chique, que para passarmos pelos portões, o motorista grandalhão teve que mostrar um crachá por um scaner na porta. Pois é.
Quando Charles falou sobre morar em uma mansão, eu realmente pensei que por ele ser o rei da Inglaterra, ele tinha um jatinho particular que me levaria até lá. Mas não que fosse aqui.
— A Srt ainda está tremendo.
O tal de Bryan, que havia me visto vomitar, percebeu, colocando a mão direita no meu joelho que mesmo por cima de uma calça de moletom super folgada — ou talvez nem tanto, porque gente, a balança é uma vadia — dava para perceber que tudo em mim tremia.
O que provavelmente foi super anti ético.
Assim, eu não entendo muito bem os regulamentos e tals, mas eu estava começando a assimilar melhor a situação, e se formos realmente avaliar, William, vulgo: meu guarda costas, também foi super arrogante e ignorante comigo.
Dei uma olhada de esguela para William, que estava do meu outro lado, e sua postura continuava a mesma de quando ele entrou no carro. Rígida e centrada. Ou talvez sua mandíbula estivesse cerrada demais. Ai nossa, ele percebeu a mão no meu joelho e deve ter percebido que foi super não ético.
Ou talvez... ciúmes?
Não Amanda, não. Porque ele sentiria ciúmes de você?
— A Srt está bem? — Bryan olhou de novo para mim, quando o carro começou a entrar pela rua do condomínio, seguido de mais dois carros.
Eu devia estar parecendo uma louca balbuciando umas palavras e sacudindo a cabeça levemente.
Olhei novamente para mão no meu joelho. Ela ainda estava lá.
Movi lentamente a perna para o lado contrário ao seu corpo, como um sinal claro de "não me toque", e ele entendeu o recado, visto que na mesma hora tirou a mão de lá.
Não que eu não tivesse gostado. Gente, é muito bom. Mas, mesmo que a calça estivesse um pouco folgada, dava para sentir a gordura da minha perna. A gordura da minha coxa. A gordura estava em todo lugar.
Pela segunda vez desde a festa, fiquei novamente receosa com meu corpo.
— Estou — respondi sem olhar para ele.
O carro parou em frente à uma das 9 casas do conjunto. Era uma enorme casa de andar com portas de madeira escura e um jardim florido em frente. Eu e mamãe não conseguiríamos pagar por uma casa como essa nem em uma próxima encarnação. Ou nem na décima. Nem com prostituição. Se bem que....
Havia inúmeros guardas em frente à casa, e as luzes de dentro estavam acesas.
Desci atrás de William, que logo montou guarda ao meu lado. Ainda rígido e centrado. Pelo amor de Jesus, ele é o Robocop por acaso?
— Vamos Srt. Lancaster.
Disse antes de começar a subir as escadas em direção a porta da frente. Precisa agir como se eu fosse um cachorro? Que tal um " por favor"?
Bryan parou ao meu lado, revezando o olhar entre as costas de William e meus olhos odiosos. Ele provavelmente estava muito feliz por eu não ter visão raio laser.
— Relaxa — cutucou meu ombro com o seu. — ele provavelmente deve estar muito surpreso pela srt. ainda não ter vomitado. Na verdade eu também estou.
Soltei uma risada, até olhar para ele e perceber que continuava sério.
Desmanchei o sorriso metálico.
— Se essa é a expressão dele surpreso — afundei mais as mãos nos bolsos do roupão do gumball — então eu realmente não sei qual será a expressão dele com raiva.
Bryan deu uma risadinha. Ele tinha covinhas, legal.
Não olhe muito para a boca dele Amanda, não olhe.
— Ele não era tão sério assim desde o ano passado.
Nossa, eles começaram com o treinamento militar quando? Tão jovens e ...pera.
— O que aconteceu que o fez ter uma pedra de gelo no lugar do coração?
Dei uma risadinha, mas surpreendentemente, as feições de Bryan ficaram mais sérias.
— Eu não sou muito boa fazendo piadas, eu sei.
Bryan de um sorriso de canto e inclinou a cabeça para a porta, começando a caminhar em direção a ela.
Quando eu comecei a segui-lo eu me dei conta de que as outras casas ao redor, também tinha guardas espalhados.
— Porque todas as casas estão sendo vigiadas? — alcancei ele na escada.
Ele me um olhar de "oh pequena Doroty", ainda andando.
— Porque compramos.
— Qual delas?
— Todas.
Acho que temos um Christian Gray aqui.
O que é meio nojento de pensar, visto que quem comprou a casa foi Charles, e o Sr Gray é o endinheirado que gosta de dar tapinhas que não doem então blin blin.
Mas o prefeito morava em uma delas. Como eles compraram a casa do prefeito? Deve ter sido muito caro.
A realidade caiu sobre mim outra vez. Não estávamos falando de um chefe, ou empresário, ou prefeito, mas sim de um rei. Que por sinal, e por mais inacreditável que ainda fosse, era meu contribuidor de esperma.
Continuei seguindo Bryan pela varanda até adentrarmos de fato a casa.
Se tem uma palavra para descreve-la, seria com certeza ostentosa. Ostentosa com certeza era a palavra do dia.
O chão era de madeira polida e brilhante, com duas escadas de ambos os lados da imensa sala amontoada de guardas circulando e movendo móveis.
Tinha um tom meio rústico e sofisticado.
Pelas fotos que eu já vi pelo celular da Mari, parecia ser similar a casa do Melanie.
Provavelmente todas as casas daquele condomínio eram iguais.
Continuei seguindo Bryan até entrarmos em um amplo escritório.
Charles, Marcus, e minha mãe estavam em pé em torno da mesa, parecendo discutir algo muito importante.
Mamãe.
Como se lesse meus pensamentos, minha mãe veio correndo me abraçar.
Que alívio.
— Você se machucou? — perguntei enquanto tentava não comer o cabelo dela durante o abraço.
— Eu achei que você estava machucada — ela sussurrou no meu ouvido. Sua voz estava tremida, então percebi que ela chorava.
O que era extremamente novo para mim, já que mamãe nunca chorava.
Comecei a chorar também, tanto de alívio quanto de medo.
Surpreendi-me quando por sobre o ombro de mamãe vi novamente Charles, e percebi que também estava aliviada.
Charles me olhava como se estivesse com dor, mas mesmo assim, não saiu do lugar.
Mamãe finalmente me soltou. William observava a cena ainda impassível. Sério, qual o problema dele?
— Estou feliz que esteja bem — Charles disse ainda com a mesma expressão, só que ligeiramente mais feliz.
— O que aconteceu com vocês? — perguntei enquanto me sentava em frente ao gabinete. Tinha voltado a tremer.
— Nos tiraram da casa pelos fundos quando ouviram as janelas quebrando — mamãe disse sentando ao meu lado.
— Eu quero que descubra quem foram os invasores e traga eles para mim — Charles ordenou para Marcus. Gente, ele estava muito sério.
— Eu acho que estamos de acordo que a partir de agora as duas passaram a morar aqui.
— Vocês não tem nenhuma suspeita de quem invadiu a minha casa? – Mamãe estava brava, muito brava, porém minha pergunta a fez me olhar quase como se sentisse pena de mim.
Charles colocou as mãos na cintura na melhor pose de tio de 50 anos com dor na lombar.
Será que alguém já havia descoberto quem eu era? Quer dizer, se Charles conseguiu me achar...quem mais conseguiu?
Fragmentos de uma das minhas primeiras conversas com Charles me vieram a mente, sobre o grupo rebelde.
— O que fazemos agora? – levantei a voz novamente, dessa vez mais certa das minhas certezas.
Se eu já estava naquela, eu tinha que dar tudo de mim.
— Amanhã vamos começar o treinamento. – Marcus se pronunciou com a mesma expressão que William. Porém com olhos levemente mais gentis.
Não parecia ser um pedido, mas sim uma ordem.
— O que? Treinamento militar, olha man acho que você não vai querer me ver suando – ele me interrompeu com uma risada. Ainda com os braços cruzados.
— Não Srt., seu treinamento real.
— Claro que haverá um pouco de suor, afinal exercícios físicos estão na lista. – Charles imitou a pose de Marcus. Era super estranho ele falar “suor”, tipo, um rei não deveria falar “líquidos corporais”?
— Quanto antes começarmos o preparativos para te apresentar a sociedade, mais rápido poderei te proteger ainda mais.
Mamãe me olhou e segurou minha mão.
Tentar Amanda, você prometeu que iria tentar.
E estava claro para nós duas, que estava meio tarde para dar o pe atrás.
— William, — Charles exasperou parecendo exausto – leve por favor Amanda para seu novo quarto.
— Sim, Majetade.
Ahhh, com Charles ele era todo educadinho né? Mas rapaz.
William abriu a porta, e continuou olhando fixamente para frente até eu passar por ela.
Finalmente, havia parado de tremer.
— Porque vocês compraram todas as casas? – eu não conseguia pensar em nenhum motivo realmente válido para aquilo.
E por incrível que pareça, ela não pareceu irritado ou desesperado para se livrar de mim.
— Segurança e observação. – Robocop continuava olhando fixamente para frente, com sua postura rígida. Os guardas não paravam de fazer o que estavam fazendo para me cumprimentar ou reverenciar. Mds, descobri que tenho sangue real a poucos dias e já estou bossal.
A realidade veio como tapas na cara. Eu não era reconhecidamente uma princesa. Eu era uma pessoa vista como a filha do rei, mas aparentemente, isso ainda não significava mais.
Em uma das primeiras conversas, Charles disse algo sobre conhecer o parlamento...será que tinha alguma coisa a ver?
Subimos a escada, e atravessamos o corredor, com alguns guardas dispersos. Muitos deles ainda empurravam moveis e aparentemente tentavam abrir mais espaço pelo corredor ao passo que tentavam dar um clima familiar a construção.
Quantos dias Charles esteve ali? Amanda idiota, ele provavelmente morou aqui durante esses dias.
Até porque, mandar construir uma mansão só pra ele ia chamar muita atenção.
Paramos em frente a uma porta branca com a maçaneta dourada, uma flor vermelha desenhada delicadamente em seu centro, e só então juntei os pontinhos de que a casa estava sendo redecorada com coisas com as mesmas cores. Eram minhas cores preferidas.
Quando entramos foi como voltar para casa depois dela ser reformada pelo Lar doce lar.
As paredes do quarto eram brancas, assim como o resto da casa, entretanto ate onde eu havia visto, apenas meu quarto tinha uma parede com tijolos vermelhos, e tinha uma arvore, tipo, o modelo dos galhos e tronco da arvore, só aue ao invés das plantas, havia algumas correntes daquelas luzes pequenas e brilhantes. O quarto era enorme, quer dizer, enorme é eufemismo, precisava mesmo ter 6 luminárias. A parte de cima delas parecia ter sido feita de linho a primeira vista, mas como as luzes estavam acesas, era como se tivesse sido tecida a fio de ouro, visto que emanava uma luz brilhante e dourada. Duas portas, uma penteadeira entupida de maquiagem e pelo menos dois espelhos. Tinha uma enorme janela, de porta dupla que iam da metade da parede até o chão, com cortinas finas de linho, uma mesa com tudo que eu poderia precisar e até mais, e uma cama com dossel.
A rainha da Escócia ia dormir comigo? Hello Reign.
— Exagerei demais? – uma voz grossa falou atrás de mim. Embora William tenha aberto a porta para mim, ainda assim, ele não tinha entrado junto comigo.
A voz vinha do homem ao seu lado. Eles compartilhavam quase a mesma altura, sendo que William era um pouco mais alto, e sua pele negra brilhava com as luzes que saiam do quarto.
— Você que fez tudo isso? – apontei para o interior do recinto, ainda sem acreditar no que estava vendo.
Ele fez um gesto com a mão, esbanjando humildade.
— Eu ajudei em boa parte, mas o Rei fez questão de contratar um dos melhores decoradores da Inglaterra.
My baby Jesus.
O soldado a minha frente, identificado por Edward, assim como estava impresso em sua blusa preta sob o brasão, continuava sorrindo. Diferente de certas pessoas.
— Tentamos deixar ao máximo com um ar juvenil, e criar um ambiente agradável. – Ele olhou para o quarto todo orgulho. Mas curiosamente, não tinha pisado um pé além do batente.
Será que havia algum tipo de regra?
Uma duvida ainda maior surgiu.
Eu falei a Charles que não queria morar na mansão, e embora a mansão de verdade seja aqui, e ele fique aqui sem ter me avisado, ele decorou meu quarto...ele decorou meu quarto.
— Mas...eu nunca disse que queria morar na mansão.
Edward pareceu entender minha duvida e ofereceu um sorriso mais tímido.
— Srt., ele de alguma forma ou de outra, sempre soube que você viria.
Meu coração se fragmentou um pouco. Eu não sentia uma carinho enorme por ele, nem um amor de filha para pai. Mas saber que durante todos esses anos ele esteve me procurando, e descobrir que ele estava por perto e me quis por perto, me fez entender que ele é na verdade uma ótima pessoa. Eu tinha que tentar, não só por mamãe, mas por ele também.
— A Srt. deve estar cansada – Edward disse fazendo uma leve reverencia, e saindo ainda com um sorriso. Ele se reverenciou. Nossa. Uma das poucas pessoas que fizeram isso.
William, que durante toda a conversa tinha estado parado bancando o Robocop, finalmente voltou seus olhos para mim, e de novo, parecia levemente irritado.
Olhei novamente para os dois lados do corredor, mas não havia mais ninguém, a não ser nós dois.
Eu ainda estava com o roupão do gumball, meu cabelo tinha virado palha de aço com risco de para-raio e meu corpo ainda estava exausto e angustiado pela invasão.
— Eu tenho um ponto importante para falar com a Srt. – ele voltou àquela pose levemente fria, prestes a me dar um coice.
— Oque? – a gatinha também sabe arranhar meu querido.
— O seu estado físico durante a invasão, a srt. não sabe lidar com situações de estresse, e isso ficou muito claro.- ele tava fazendo piada de mim?
Me encostei no batente sabendo que aquilo daria pano pra manga. Querido, se for pra listar meu grau de ansiedade, isso foi só a ponta do iceberg que afundou o Titanic.
Antes dele falar, apontei para o interior do quarto.
— Isso parece que vai demorar, você quer entrar?
Eu não sou muito de convidar garotos pro meu quarto, até porque lá em casa não pisava um pé de alma viva. Só convidava a depressão mesmo, minha velha amiga.
— Não temos permissão de entrar nesse quarto, na verdade, a partir de hoje, não temos permissão para entrar em qualquer quarto que a Srt estiver. Eu como seu guarda costa, sou uma pequena exceção – ele ainda analisava levemente meu rosto. Ok cara, eu sei que sou estranha. Estar ao lado dele só me lembrava de todas coisas erradas que haviam em mim.
Um instante. Ele mesmo disse que ele é exceção, então ele pode, só não quer.
— Bem, — ele voltou a falar retomando o fio da meada – apenas quero me certificar que pelo tempo que estiver aqui, garanta que melhorará seus instintos.
Pelo tempo que estiver aqui...
Nossa. Ele realmente não acreditar que vou conseguir.
— Eu vou me certificar que isso também faça parte do seu treinamento – ele disse, ainda com esse jeito frio e oco.
— Isso, -seus olhos vaguearam para a vermelhidão por causa de onde suas mãos estiveram — isso não pode se repetir.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se fosse uma reverencia forçada, e foi embora, me deixando com mais duvidas do que antes.
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