Castelos de Areia
3 Posso dormir aqui com você?
Acariciei o rosto de Carla. Ela dormia tranquila, como se fosse um anjo, nos meus braços. Levantei a sobrancelha, quando desci os meus olhos pela sua pele morena e notei que havia algumas manchas de coloração verde e roxa em seu pescoço e ombros. Passei o dedo indicador ao redor de uma dessas manchas. Carla abriu os olhos.
— Ai.
— Desculpa, eu... — sentei na cama. — Desculpa.
Ela puxou o lençol branco para mais junto de si.
— Tudo bem.
Levantei e fui até a mesinha de madeira, perto da janela do quarto e peguei meu celular. Já era mais de dez horas da noite e eu tinha chegado naquele hotel às quatro. Havia duas chamadas perdidas de Victor, mas não tive vontade de retornar.
— Sua mãe deve está preocupada com você. Não seria hora de ir pra casa?
— Eu não tenho mãe. — sorri meio torto.
— Ah, desculpa. — Carla sentou-se, ainda agarrada ao lençol.
— Não, é que eu nunca tive. Quer dizer, alguma mulher desconhecida me carregou na barriga durante nove meses, mas nunca tive curiosidade de saber quem era. Eu fui criado por um casal de gays.
— Meu Deus! — a menina levou uma mão a boca. — Deve ser estranho isso.
— Eu não sei. — dei de ombros.
— Como são os seus pais?
Me encostei na mesinha, virado para Carla.
— Não me dou muito bem com Victor. Ele é aquele tipo de pai meio chato... Mas Hugo é legal. Victor sempre diz que ele me mima, mas eu gosto de ser mimado. Acho que ainda não superei a infância. — sorri.
— Todo mundo gosta de carinho. Não é coisa de criança.
Cruzei os braços.
— E você?
— Eu o quê?
— Seus pais, sua família. Você tem?
— Eu nunca conheci meu pai. — Carla abaixou a cabeça. — E minha mãe mora em outro país. Já faz um bom tempo que não a vejo.
— Nossa. — mordi o lábio.
— Tudo bem. — ela deu de ombros. — Não precisa ficar com dó de mim.
Segurei com força a ponta da mesinha.
— É, vou embora. Nunca costumei dormir fora de casa.
Avistei minhas roupas no outro lado do quarto. Fui até lá e comecei a me vestir.
— Você não precisa pagar mais caro hoje. — Carla levantou da cama, descobrindo o seu corpo nu. — Eu raramente saio com caras da minha idade e eu viria com você pra cá até de graça.
Ri.
— Claro que eu tenho que pagar mais. Se eu falei, tá falado.
Fechei os botões da camisa vermelha e enfiei a mão no bolso.
— 125 €. Pode conferir. — exibi as notas no ar.
— Você é um pouco idiota, sabe. Mas é legal. — Carla se aproximou e tomou o dinheiro da minha mão. — Se quiser me ver de novo, me liga. Mas você provavelmente vai achar outra garota. Menininho rico e bonito... É assim que funciona.
— Eu ligaria se tivesse seu número. — pisquei um olho.
— Você tem. — ela deu um beijo leve em meus lábios. — Obrigada.
[...]
Meus pais não estavam na sala namorando quando cheguei em casa. Na sala, em cima da mesinha de vidro, havia uma cerveja alemã, o que sugeria que Hugo estivesse assistindo sozinho futebol. Comecei a subir a escada de madeira, com a pretensão de ir para o meu quarto. Mas, assim que cheguei lá em cima, ouvi gritos. Franzi o cenho. Eu raramente via meus pais brigando por alguma coisa.
— Não acredito que você guardou aquilo! — era a voz de Hugo totalmente exasperada.
— Eu não guardei! — Victor respondeu em um tom de voz ainda mais alto.
— E o que aquelas cartas todas estavam fazendo na biblioteca?
— Eu não sei! Que porra! Você não me pode me acusar assim!
O barulho vinha do fundo do corredor. Não querendo ser notado, sentei no último degrau da escada, segurando os joelhos.
— Você queria lembrar dela. Você ainda lembra dela, Victor. Eu sei.
— Hugo, eu... Você não pode sentir ciúmes de alguém que já morreu.
Naquela caixa havia cartas de várias mulheres. Então tinha alguém em especial?
— O fantasma dela está nessa casa. — Hugo falou baixo dessa vez. — Eu não suporto isso.
— Quando é que você vai entender que eu sou seu? Já fazem dezesseis anos que estamos juntos! Para com isso!
— Dezesseis anos que estamos juntos. Quantas vezes você disse que me ama, Victor?
— Você sabe que eu não sou esse tipo de pessoa.
— Não tenho muita certeza.
— Olha... Eu cansei, tá bem? Você venceu, Thomas queimou as cartas e eu detesto briga. — ouvi passos pesados virem na minha direção.
Me encolhi. Victor ia me ver. E eu não tinha tempo suficiente para me esconder. Será que era politicamente incorreto escutar a briga dos pais gays? Respirei fundo.
— Thomas? — ergui a cabeça. Victor me observava com um olhar assustado.
— Oi, pai.
— Quando você chegou?
— No meio da briga.
— Você... Ouviu tudo?
Assenti com a cabeça.
— Ah. — ele sentou ao meu lado com uma expressão aborrecida. — Tá com fome?
— Não. Comi na rua. — fiz careta.
[...]
Tirei a camisa e a joguei em um canto qualquer do meu quarto. Embora eu soubesse que no outro dia teria que acordar cinco da manhã, o sono não colaborava comigo. Eu nunca costumei dormir cedo mesmo. Sentei no chão frio e encostei minha cabeça na cama. Não podia evitar que meus pensamentos fossem na direção da briga de meus pais. Em primeiro lugar, porque era um fato raro. Em segundo lugar, porque eu a causei quando falei das cartas para Hugo. Em terceiro lugar, porque eu não queimei porra nenhuma.
Sorri, me sentindo rebelde. Eu raramente desobedecia alguma ordem de Hugo, mas não consegui segurar a minha vontade. O meu primeiro julgamento daquelas cartas foi: talvez elas sejam um manual de como ser um pegador de primeira. Aparentemente, não era só isso.
Enfiei minha mão debaixo da cama e puxei uma sacola branca de plástico. Eu tinha jogado a caixa fora, para dar a impressão que realmente fiz alguma coisa. Mas coloquei todas as cartas ali. Abri a sacola com uma certa pressa.
Separei as cartas do meu avô e as joguei para um canto a parte. Então, comecei a dar uma olhada em toda a correspondência que tinha por remetente alguma mulher. Não importava o nome, desde que fosse do sexo feminino. As primeiras que li pareciam ser do modelo Cinquenta Tons de Cinza. Já estava começando a ficar entediado. Depois de horas, finalmente achei algo realmente útil. A remetente se chamava Marisa.
A carta dela não tinha o papel enfeitado das outras. Ao contrário, era um papel simples, cinza. A caligrafia era bastante rudimentar, tive que me esforçar para entender o que estava escrito. A data era 22 de setembro de 1997.
Victor,
Já fazem dois meses que não tenho notícias suas. Sinto sua falta. Não sei se você sente a minha, mas eu sinto a sua. Desesperadamente.
Eu queria muito achar que não sou mais uma na sua vida. Mas eu sei que sou. É a verdade cruel. Aliás, acho que sou muito menos que isso. Dói, viu? Eu pensava que não tinha coração. Mas depois que te conheci, descobri que sim, eu tenho. E não sei o que...
Alguém bateu na porta do meu quarto. Eu já sabia quem era, somente Hugo tinha o mínimo de educação e bom senso. Ele nunca invadia minha privacidade. Enfiei a sacola com todas as cartas debaixo da cama, no susto. Então, disse:
— Entra.
Hugo entrou com as mãos nos bolsos. Ele não parecia zangado ou aborrecido, apenas cansado.
— Como você tá?
— Bem. — dei de ombros.
— O que você fez de tarde?
— Ei, tá parecendo o Victor. — sorri forçadamente.
Ele sentou-se ao meu lado. Engoli em seco, o material censurado estava tão perto...
— Você sabe que pode me contar as coisas.
É, isso era verdade.
— Eu fui ver uma menina. Passei umas horas com ela.
— Conheceu alguém interessante?
Segurei minha língua por instante a fim de pensar. Mesmo Hugo sendo Hugo, ele me mataria se soubesse que andei saindo com uma prostituta. E menor de idade, ainda por cima. Meu pai era totalmente contra esse tipo de coisa.
— É, conheci.
— Traz ela aqui um dia.
— Vou trazer. — confirmei dando uma gargalhada por dentro.
— Que hora você chegou? — Hugo bagançou meu cabelo.
— Na hora que você e o Victor estavam lavando a roupa suja.
Hugo riu, mas somente com a boca. Notei que seus olhos continuaram sérios.
— Desculpa por isso.
— Vocês são humanos, oras. Humanos brigam algumas vezes.
— Você é meu filho preferido.
— Eu sou seu único filho. — sorri.
— Seu idiota. — Hugo me empurrou com o ombro. — Posso dormir aqui com você?
A coisa devia ser feia, pra fazer aqueles dois dormirem separados...
— Claro.
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