Castelo de Areia

5 Nuances de dedicação


Notas iniciais
Obrigada a todos que estão lendo e dando seu apoio! Demorei para revisar esse capítulo, a criatividade me abandonou por um momento, rs. Espero, sinceramente, que gostem!
Perséfone, este capítulo é para você, minha ariana preferida, que faz a faculdade ser mais suportável dia após dia. Lembra sua reação, algumas semanas atrás, quando comecei a falar de yaoi em Saint Seiya? Juro que nunca imaginei que você fosse ler a minha história, nem que fosse gostar tanto. Isso me deixa muito contente, sério. Obrigada pelo apoio, pelas coisas bonitas que me diz e, acima de tudo, por sua amizade incondicional.

Nuances de dedicação


O Inverno chegou sem pedir licença, envolvendo a todos com ventos cortantes e chuvas geladas. O sol parou de dar o ar de suas graça, encoberto ora por nuvens de chuva, ora por uma espessa neblina que formava-se todas as manhãs e só se dissipava no começo da tarde, tão densa que dois amigos só se reconheciam quando um se encontrava a um palmo de distância do outro. As túnicas foram substituídas por pesados casacos de couro e lã e as sandálias por botas de cano alto. Aquele pequeno pedaço de terra reunia gente de todos os cantos do mundo, de americanos à nigerianos, de finlandeses à japoneses, de modo que alguns estavam deliciados com a chegada da estação mais fria do ano, enquanto outros pareciam definhar diante da queda de temperaturas.

Infelizmente, Shaka de Virgem estava no segundo grupo.

Crescera numa região da Índia cujo calor predominava na maior parte do ano e os ventos frios da Ásia Central eram bloqueados pelo Himalaia. Foi obrigado a substituir os saris coloridos por calças e casacos quentes e a usar botas nos pés que costumavam estar descalços. Como se isso não bastasse, por vezes enterrava um gorro de lã até as orelhas e enrolava um longo cachecol no pescoço. As roupas eram tantas e tão grossas que encontrava dificuldades em permanecer na posição de lótus, pois era custoso manter os joelhos dobrados com tanto pano os envolvendo.

Mu achava graça naquilo. Sua resistência ao frio era muito maior que a do amigo, uma vez que crescera em meio aos ventos fortes e secos que, somados ao ar rarefeito pela altitude montanhesa, criavam Invernos muito rigorosos no Tibete.

Assim, usava quase metade da quantidade de roupas que Shaka, que passava o dia inteiro se lamentando da estação. Era impossível controlar o riso quando via o virginiano de manhã cedo, enrolado até o último fio de cabelo loiro, só com o rosto de fora, a pontinha do nariz vermelha e as bochechas coradas pelo frio.

– Você não vai mais sair daí? – Mu chegou na casa de Virgem aquela manhã, pelo décimo quarto dia consecutivo, atrás de Shaka.

Mesmo com a chegada do frio, os dois continuavam se encontrando ao ar livre, quase sempre embaixo no carvalho secular que quase lhes pertencia. Porém, Shaka não apareceu depois que o frio se intensificou. Quando o lemuriano foi atrás dele, o encontrou encolhido na frente da grande estátua de Buda do átrio de sua casa, bebendo uma xícara fumegante de chá de canela, assim como em todos os dias que se sucederam.

– Só saio quando o sol sair. – Volveu, mau humorado.

– Shaka, deixa de ser chato. – O ariano chegou mais perto e sentou-se ao lado do loiro, empurrando-o com seu ombro. – Sei que está frio, mas você está exagerando! Você é um cavaleiro de ouro! Tem menininhas mais jovens que você treinando na arena! – Provocou.

Shaka desfez a posição de lótus, esticou as pernas e desenrolou o rosário de seus dedos. Desde que se tornara, oficialmente, o cavaleiro de Virgem, não largava aquele rosário por um minuto sequer. Era particularmente grande, porém muito bonito; tinha uma conta graúda a cada quatro pequenas, e quatro fitas roxas pendiam, juntas, naquilo que deveria ser a sua extremidade. Shaka o enrolou bem no meio e juntou as duas pontas, reduzindo seu tamanho pela metade, e o colocou envolta do pescoço.

– Vamos tomar um chá. Para aquecer. – Mu duvidava que alguém no mundo gostasse mais de chá do que Shaka. Se não estava meditando, estava com uma xícara de chá entre as mãos miúdas.

Passaram a manhã na casa de Virgem mais uma vez, o cheiro forte da canela usada para as inúmeras chaleiras de chá que beberam se misturando com o agradável aroma dos incensos de cravo que Shaka acendia por todo o templo e que formavam uma nuvem suave de fumaça entre os meninos. Não foi, porém, suficiente para esconder de Mu a expressão estranha que se formou no semblante do virginiano, que parecia incomodado com alguma coisa.

– Shaka... o que aconteceu?

O loirinho girou a xícara de chá entre os dedos, aquecendo as mãos geladas com o calor emanado do líquido.

– Nada.

– Shaka... – O ariano o repreendeu com doçura. Por que é que ele nunca falava as coisas de primeira?

Os olhos fechados encararam a xícara enquanto a fumaça subia até seu rosto. Inspirou profundamente e soltou o ar com um suspiro. Mu o encorajava a falar com o olhar firme, deixando claro que não deixaria o assunto passar batido. Viu os ombros do indiano cederem e mais um suspiro foi emitido enquanto ponderava suas palavras.

– Esse frio... me faz pensar, Mu. Temos um teto sobre nossas cabeças, roupas quentes para vestir, comida para nos alimentar. Somos muito afortunados. Mas e todos aqueles que não gozam destes mesmos privilégios?

O ariano piscou várias vezes, absorvendo o que Shaka acabara de falar. Sua voz era triste e cheia de pesar. Shaka era uma criança, com responsabilidade de um adulto mas, ainda assim, era apenas uma criança. Não era comum que tais coisas preocupassem os mais altos cavaleiros de Atena. Mesmo Mu, que se considerava mais parecido com Shaka do que qualquer outro, não pensava naquilo.

– Eu acho que essa é a vontade dos deuses, Shaka. – Conseguiu dizer, depois de alguns segundos em silêncio. – Alguns nascem na pobreza, enquanto outros nascem cercados de luxo. É algo... inexplicável.

Shaka balançou a cabeça de um lado para o outro, incrédulo.

– Compreendo os renascimentos. Compreendo que só aqueles muito iluminados escapam da transmigração do samsara, e que as ações, boas ou ruins, sempre afloram, na vida presente ou na subsequente. Mas eu simplesmente não consigo achar justo que uma criança inocente tenha que passar frio e fome como forma de pagar por algo que ela fez numa vida da qual ela sequer se lembra. Por que as pessoas tem que sofrer desse jeito, Mu?

Conforme as palavras eram proferidas, a voz do indiano se tornou mais baixa e urgente. Seus lábios se crisparam, e Mu notou que ele cerrava os dentes com força, numa tentativa de impedir a si mesmo de continuar falando. Parecia que tocar no assunto era doloroso demais para ele.

De frente para o amigo, Mu observou seu desabafo com a boca entreaberta. A compreensão tomou conta dele, talvez por ter uma grande sensibilidade, talvez por conhecer Shaka melhor que qualquer um. O fato é que o ariano percebeu a origem daquele fundo de tristeza que notara em sua alma naquele primeiro contato: Shaka carregava as dores do mundo em seus ombros.

Sem saber o que falar, o lemuriano apenas se arrastou para o lado do amigo, enrugando o tapete em estavam sentados. Gentilmente, passou um braço pelos ombros de Shaka, puxando-o pra junto de si e que, um pouco relutante, deitou a cabeça no ombro de Mu, os cabelos loiros, cada dia maiores, caindo sobre os dois.

Em vão, Mu tentou encontrar palavras para serem ditas naquela situação; nenhuma parecia capaz de confortar uma preocupação daquele tipo. Em sua cabeça, soavam falsas ou desinteressadas. Optou pelo silêncio, tal como Shaka optava tantas vezes.


• • •


Todo o final de tarde, Shion detinha-se na casa de Áries para conversar com seu discípulo ao voltar de sua ronda pelo Santuário. Mu tinha se tornado o cavaleiro de Áries, mas isso não significava que seus treinos estavam acabados ou que seu mestre deixara de o supervisionar. As conversas giravam em torno do desenvolvimento das habilidades psíquicas e do conserto de armaduras. No máximo, o Grande Mestre perguntava como andavam os treinos físicos a que o discípulo dedicava a menor parte de seu tempo.

Naquela fria tarde de janeiro, porém, o assunto acabou mudando de rumo depois de Mu lamentar o fato de Shaka nunca comparecer aos treinos na arena como os outros meninos.

– Falando nisso, como estão as coisas entre vocês? – Perguntou Shion por trás da máscara. Estavam sentados à mesa da cozinha da primeira casa, onde Mu estivera lendo um livro sobre a evolução das armaduras de bronze ao longo dos séculos.

Vez ou outra, Mu sempre comentava sobre Shaka e as pequenas evoluções da amizade deles. Mas o Grande Mestre nunca perguntava nada sobre o cavaleiro de Virgem. Esfregou uma mão na outra, pensando no que falar.

– Acho que estão bem. Eu gosto muito da companhia dele, apesar de tudo.

Shion inclinou-se para frente e cruzou os dedos das mãos, pousando-os sobre o colo, mostrando que estava disposto a ouvir. Mu prosseguiu.

– Shaka não é um menino fácil. Fala pouco sobre si, sabe. E ele me assusta, às vezes. Quando converso com Milo ou Aiolia, é como se estivesse entre gente da minha idade. Mas quando converso com Shaka, é quase como se estivesse conversando com o senhor, mestre. Sei que a vida de cavaleiro pede que amadureçamos jovens, mas Shaka parece levar isso muito à sério. Ele brinca pouco, ri pouco... e quando fala, é sábio e profundo.

O mestre balançou a cabeça, afirmativamente. Mu não gostava da máscara que usava, pois sentia falta de procurar conforto naqueles olhos violáceos.

– E como você se sente quando estão juntos?

Não precisou pensar para responder.

– Bem. Muito bem. Melhor do que com os outros cavaleiros. Shaka tem esse jeito peculiar, mas me sinto confortável ao lado dele. Não gostaria que ele mudasse. – Sem perceber, os pontinhos da testa de Mu se uniram quando uma ruga se formou em sua testa, reação que Shion não deixou passar despercebida.

– Tem certeza, Mu?

O olhar do ariano mais jovem serpenteou por todo o cômodo em que se encontravam, detendo-se em cada móvel da pequena e aconchegante cozinha, em cada utensílio disposto sobre eles, na porta entreaberta que dava para a sala... Olhou para todos os lugares e objetos, menos para o poderoso homem à sua frente. Sentiu suas bochechas quentes.

– Mu? – Shion insistiu.

Ainda sem encarar o mestre, ele falou, mais baixo que antes, como se dizer aquilo em voz alta pudesse, de alguma maneira, ofender Shaka, que ouviria tudo da casa de Virgem. Afinal de contas, Shaka sempre sabia de tudo.

– Acho que ele é muito severo consigo, mestre. Se privar da visão para aumentar o cosmo... Eu nem sei o que pensar sobre isso. E passa tantas horas meditado! Ficou cinco dias embaixo de uma árvore por causa da projeção astral. Cinco dias, mestre, sem comer, sem beber, sem dormir, sem descansar. E eu sei que ele mal dorme à noite, e come igual um passarinho. Não consigo entender porque ele faz isso consigo, mestre.

Mu sentiu uma mão pousar delicadamente em seu joelho. Procurou o olhar reconfortante de Shion em vão e odiou mais uma vez a máscara que ele usava.

– Escute, Mu. Algumas coisas ainda estão além da sua compreensão. Shaka não tem pressa para dizer as coisas, mas um dia ele lhe explicará tudo. – Suspirou, pensativo. – Vou lhe dizer o que me disseram quando fui buscá-lo na Índia. O destino de Shaka é tornar-se o homem mais próximo dos deuses.

Os lábios de Mu se abriram de espanto. O homem mais próximo dos deuses? O que é que aquilo queria dizer? Dezenas de perguntas se formaram em sua mente, mas seus pensamentos foram interrompidos abruptamente.

Mu, um cosmo familiar chamou o seu.

– Acho que você tem visitas, Mu. – A máscara escondeu o largo sorriso do Grande Mestre.

Pedindo licença, Mu ficou em pé e desceu as escadas que davam no saguão principal da primeira casa, com coração acelerado e os olhos arregalados. Não sabia se estava mais assustado por Shaka ter aparecido justo quando falavam dele ou se por ele estar em sua casa naquele horário. Era sempre Mu que o procurava em seu templo, e Shaka só dava as caras na casa de Áries de passagem, convidando Mu para acompanhá-lo em alguma caminhada. Como se isso não bastasse, ele nunca saía de casa no fim da tarde, já que meditava todos os dias da hora do almoço até a hora da janta, ininterruptamente.

O coração de Mu pareceu parar de bater quando viu a figura de Shaka à sua frente. Seu nariz estava totalmente vermelho e a pele branca em seu entorno estava assada e descascando. A franja loira estava grudava numa testa suada, os lábios rachados e pálidos estavam entreabertas para que pudesse respirar e olheiras arroxeadas se formavam embaixo das pálpebras fechadas.

Tinham se visto naquela manhã, e Shaka estava normal – o seu normal diante do frio, é claro. Talvez um pouco mais pálido que de costume e espirrando uma vez ou outra, mas Mu imaginou que não fosse nada. E agora, em poucas horas, ele surgia com uma aparência horrível, como se acometido por uma peste qualquer.

– Shaka? O que aconteceu?

O virginiano espirrou duas vezes, e fungou. Levou a pequena mãozinha com o rosário enrolado ao nariz e o coçou.

– É esse frio, Mu. – Sua voz era fraca e rouca, como se lhe custasse muito falar. – Não vinha me sentindo bem há alguns dias... Isso já aconteceu antes, quando cheguei aqui, mas achei... – Outro espirro. – Achei que não aconteceria novamente.

Suas bochechas ficaram um tantinho mais rosadas, mostrando que aquilo o deixava constrangido. Mu se aproximou, analisando melhor o estado do indiano. Percebeu um calafrio percorrer o pequeno corpo, apesar dele vestir roupas suficientes para pelo menos três pessoas. Levou sua mão à testa de Shaka, afastando os cabelos loiros e sentindo a temperatura.

Ardia em febre.

– Shaka... – Mu queria repreendê-lo. Sua voz, porém, era de preocupação. – Quando você começou a se sentir assim? – Perguntou com doçura.

– Desde que começou a esfriar eu não... – Fez uma pausa, uma careta estranha, espirrou três vezes e coçou o nariz novamente. – Desculpa. Desde que esse frio horrível começou, não me sinto bem. Mas desde ontem eu me sinto pior. – Mais espirros. – E comecei a me sentir tão mal durante minha meditação que fui obrigado a interrompê-la.

Shaka estava fanho, e o ariano não conseguiu esconder um sorriso enquanto ele falava. Sacudiu a cabeça atrás de concentração, e uma pontinha de culpa lhe assolou: lembrou-se das piadinhas com o frio excessivo que o virginiano sentia. Teve vontade de se desculpar, mas achou que não era aquilo que ele precisava no momento.

Colocou a mão no meio das costas de Shaka, sentindo a imensa quantidade de tecidos que o cobriam sob seus dedos, e o empurrou com gentileza escada acima. Shaka se deixou conduzir, arrastando os pés no chão enquanto caminhava.

Quando alcançaram o segundo patamar, o loiro se assustou com a presença do Grande Mestre. Colocou-se de joelhos imediatamente.

– Perdoe-me, mestre. Não era minha intenção atrapalhar a vossa conversa com Mu. Irei me retirar imediatamente.

Um riso divertido foi ouvido por detrás da máscara. Shion estendeu a mão para Shaka, que a segurou e pôs-se de pé com a ajuda.

– Eu estava de passagem, Shaka. Acredito que você precisa mais do Mu que eu. – Passou pelos dois, despenteando a cabeleira lilás de Mu com um carinho paternal.

Uma parte do cavaleiro de Áries esperava que o Grande Mestre fosse ficar. Afinal, Shaka estava doente, e Mu nunca tinha cuidado de uma pessoa doente antes. Indicou o sofá para que o loiro sentasse e correu atrás de Shion, que descia calmamente as escadas.

– Mestre, eu preciso da vossa ajuda! – Exclamou, ofegante.

– Mu... – Os olhos violeta de Shion se fixaram nos verdes de Mu, que podia senti-los mesmo através da máscara. – Shaka veio até você, não até mim. É a sua ajuda que ele quer.

Desesperado, Mu segurou o tecido da pesada túnica de Shion, puxando-o de volta para seus aposentos.

– Por favor, mestre. – Sua voz de súplica saiu junto de um gemido fino. – Eu não sei o que fazer. Shaka está com febre, espirrando, com calafrios...

Shion tomou a mão com que Mu segurava sua túnica entre as suas.

– Ele precisa tirar aquele exagero de roupas, e talvez um banho frio possa ajudar. Faça um chá de casca de salgueiro com mel, e convença-o a comer alguma coisa, mesmo se ele disser que está sem fome. Ele precisa repousar, mas não permita que ele use muitas cobertas. O importante é fazer a febre abaixar, e ele vai ter que passar um pouco de frio para isso. Você já teve febre antes, Mu, e sabe como agir.

– Mestre, eu...

O Grande Mestre soltou sua mão e voltou a descer as escadas. Quando alcançou o andar inferior, olhou para trás, mirando a figura estática de seu discípulo.

– Tenho certeza que ele está em boas mãos. Confio em você, Mu. E Shaka também.


• • •


Fazer Shaka tirar as inúmeras peças de roupa só foi possível porque a convivência com o loiro estava conferindo a Mu uma paciência que transcendia o normal, do contrário, teria desistido ou tentado fazê-lo à força em pouco tempo. A voz do virginiano era manhosa e arrastada, de um jeito que partia o coração de qualquer um. Mas, com palavras doces e gentis, Mu acabou o convencendo de que era a única forma de conseguir melhorar.

Mas quanto a tomar um banho frio, ele foi irredutível. Mesmo diante das ameaças de Mu em jogá-lo na banheira usando a telecinesia, ele não cedeu, e o ariano achou que ter conseguido fazer com que se desfizesse dos pesados suéteres já era suficiente por hora.

A xícara de chá de salgueiro queimou as mãos de Mu quando segurou-a; teve que enrolar um pano em torno da porcelana, do contrário Shaka teria mais um problema com o qual se preocupar. Empurrou a porta de seu quarto com o quadril, e teve vontade de sacudir o virginiano pelos ombros: estava enrolado em pelo menos três cobertores de lã, tremendo de frio.

– Shaka! O que eu falei sobre não manter o corpo aquecido?! – Tentou parecer irritado, mas apenas preocupação era sentida em sua voz.

O indiano murmurou algumas palavras inaudíveis, e não deu o menor sinal de que iria sair dali. Mu deixou a xícara no criado-mudo e puxou os três cobertores de uma só vez, arrancando um gemido de Shaka, que estava encolhido em posição fetal. Sentou-se às costas dele, e colocou a mão em sua testa apenas para constatar que a febre não tinha recuado nenhum pouco.

– Viu? Não está melhor... Ou você faz o que estou dizendo, ou vou te colocar na banheira à força! – Shaka ficou de barriga pra cima, os olhos fechados procurando o rosto de Mu. O semblante doente fez o tibetano se arrepender da ameaça. – Eu quero que você melhore, mas é preciso colaborar. – Retratou-se amável. – Fiz um chá para você.

Com movimentos letárgicos, Shaka sentou e recostou-se na cabeceira da cama, mas não antes de Mu colocar um travesseiro entre sua coluna e a madeira do móvel. Pegou o lençol com o qual tinha coberto o virginiano, que se encontrava jogado no chão ao lado da cama, e tampou-lhe as pernas com ele, reparando que o loiro apertava o rosário enrolado em seu braço com tanta força que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados. Seu coração doeu ao olhar a figura miúda de Shaka, vestindo um de seus pijamas e batendo o queixo de frio.

As pequenas mãozinhas tremiam quando Mu colocou a xícara de chá entre elas. Estava tão quente que o rosto de Shaka foi parcialmente encoberto pela fumaça que o líquido exalava. A respiração de Mu falhou e um grito ficou preso em sua garganta quando viu o loiro levar a xícara aos lábios e sorver a bebida afoito.

– Está muito bom, Mu. – Disse entre um gole e outro, enquanto uma pequena gota de chá escorria por seu queixo e caía no lençol. – Obrigado.

– Não se queimou? – Para alívio do ariano, Shaka negou com a cabeça.

Passou a xícara vazia para Mu, que tornou a colocá-la no criado-mudo. Murmurou que ia tentar dormir um pouco, e o ariano assentiu. Deitou-se na cama ao lado do amigo enfermo e aproveitou os últimos raios de sol que entravam pelo vidro da janela para ler um pouco. Com preguiça de ir até a biblioteca, pegou o livro que estava ao lado de sua cabeceira, um antigo volume que relatava uma Guerra Santa entre Atena e Hades durante a Idade Média..

Logo foi obrigado a acender a lamparina à óleo que deixava sobre o criado-mudo, a luz bruxuleante enchendo o ambiente e tornando a leitura mais fácil.

Por volta das oito da noite, Mu ouviu leves batidinhas na porta do quarto. Era uma serva, querendo saber o que o cavaleiro de Áries queria para o jantar.

– Hoje eu tenho companhia... – Indicou a figura imóvel e encolhida de Shaka ao seu lado. – Ele está doente. – Sussurrou.

– Oh. – Os lábios da moça se crisparam, e um olhar materno recaiu sobre o loiro. – Algo bem leve, sim. – Falou consigo mesma. – Sabe o que ele gosta de comer, senhor Mu?

A testa de Mu se enrugou. Logo faria um ano que andava com Shaka para cima e para baixo, e não fazia ideia do que o amigo costumava comer. Apenas tomavam chá quando Mu ia até a casa de Virgem ou comiam algumas frutas que apanhavam das árvores, mas nunca aviam feito uma refeição juntos. Shaka não tinha cara de ser fresco com comida, pelo contrário; mesmo assim, preferiu não arriscar. Inclinou-se sobre o amigo, que dormia profundamente. Sem nem pensar, sua mão foi direto para a testa, constatando que a pele ainda estava suada e ardendo em febre.

– Shaka... Shaka... – Murmurou, seu rosto próximo ao do outro. Afastou os fios loiros do rosto, e deu uma leve sacudida em sua cabeça, arrancando-lhe um murmúrio irritadiço. – Você tem que comer, Shaka. Diga-me, o que gostaria?

O loiro coçou os olhos, como alguém normal faz antes de abri-los, fazendo o coração do ariano disparar por um momento. Mas eles permaneceram fechados, e seu rosto se voltou para o de Mu.

– Não estou com fome. – Envolveu o pescoço com uma das mãos. – Minha garganta dói.

– Você precisa comer. Faça uma forcinha. Uma sopa, que tal? – Usou seu tom mais terno e amoroso. – Por mim?

Um pequeno sorriso se formou nos lábios do virginiano, que assentiu suavemente. Mu levantou e foi até a serva, que estava parada no batente da porta.

– Faça uma sopa para nós... Não vai ser fácil fazê-lo comer... – Comentou, mais para si do que para ela, seu olhar desviando-se para a cama e uma ruga de preocupação formando-se em sua testa. – Mas eu vou tentar. – Concluiu, confiante.

A serva assentiu, e já virava das costas para deixar o quarto quando a voz doente de Shaka foi ouvida.

– Sem carne.

– Sem carne? – Perguntaram a serva e o cavaleiro de Áries ao mesmo tempo.

Shaka assentiu.

– Mas Shaka, carne ajudará a te deixar forte... – Mu tentou argumentar, mas o virginiano, agora sentado, balançou a cabeça energicamente de um lado para o outro, os cabelos loiros grudando em sua face com o movimento. Àquela altura, lhe caíam um palmo abaixo dos ombros, enquanto os lilases de Mu era sempre cortados logo abaixo do queixo.

– Nem frango? – Indagou a serva.

Shaka negou com a cabeça novamente, fazendo a ruga de preocupação no rosto de Mu se acentuar.

– Shaka... – começou, mas foi interrompido.

– Mu, eu não como nada que tenha vida, certo? Nada. – Enfatizou. Mu deu dois passos na direção de Shaka, pronto para tentar convencê-lo a qualquer custo, mas a visão do pequeno tilak vermelho entre os fios loiros fez com que se lembrasse que o amigo era indiano e budista, de modo que todos os seus argumentos seriam inúteis.

Vencido, o lemuriano anuiu e lançou um olhar à serva, encerrando a discussão. Mu voltou a sentar-se na cama quando ficaram sozinho, os olhos fixos em Shaka enquanto um milhão de pensamentos invadiam sua mente.

– Que foi? – Quis saber o outro.

– Nada... Só estou pensando no que fazer para você melhorar logo...

Enquanto falava, Mu sentiu algo muito quente encostar em sua mão e não precisou olhar para saber que se tratava da mão febril de Shaka.

– Obrigado... por cuidar de mim, Mu. – A voz melodiosa saiu fanha e sussurrada.

O ariano sorriu, e entrelaçou seus dedos nos de Shaka.

Pensou em como era triste e solitária a vida de cavaleiro. Ninguém ali tinha família ou alguém a quem recorrer nos momentos difíceis, e eram crianças. Apenas crianças, obrigadas a ter a responsabilidade dos adultos. Encontrar refúgio nos braços de outros cavaleiros era a única alternativa, e Mu ficou feliz por ter Shaka. Ter alguém para cuidar e que cuidaria dele quando precisasse. Alguém com quem dividir suas dúvidas, suas mágoas e suas alegrias.

Permaneceram de mãos dadas, sentados na cama, até que a serva retornou com o jantar. Mu não sabia dizer se tinham se passados minutos ou horas, tamanha era sua perdição em pensamentos, e Shaka tinha sua noção de tempo afetada pela febre.

A jovem colocou uma enorme tigela fumegante sobre o criado-mudo, junto de duas menores e vazias, acompanhadas de colheres. Com uma concha, serviu uma quantidade generosa de sopa em cada uma, e entregou na mão dos meninos. Normalmente, as refeições eram servidas na mesa de mogno da cozinha, mas a moça tinha uma sensibilidade grande e percebeu que o cavaleiro de Virgem não estava bem para sair da cama, e que Mu não o deixaria sozinho por nada.

– A febre baixou? – Quis saber a moça. Mu e Shaka negaram com a cabeça ao mesmo tempo. Ela pediu licença e se retirou.

Pelo canto do olho, Mu viu a colher balançar acompanhando os calafrios do corpo de Shaka. Sentia que o virginiano tentava se concentrar para controlar o corpo, mas tudo o que conseguia com seu esforço era provocar espasmos mais intensos.

Comeram em silêncio.

Instintivamente, Mu olhou para a tigela de Shaka quando terminou sua sopa e percebeu que ele não tinha comido nem metade de seu conteúdo. Remexia os legumes de um lado para o outro, com pouca vontade de comer, as pequenas gotículas de gordura unindo-se e separando-se com o movimento.

– Sem fome? – Mais uma vez, a mão de Mu afastou os cabelos da testa do amigo e sentiu sua temperatura, apenas para constatar que a febre não regredira – pelo contrário, ele parecia mais quente.

– Sem fome. – Confirmou. – Não sinto o gosto da comida... e minha garganta dói quando engulo.

Mu sabia o quanto era horrível comer com a garganta inflamada. A comida descia raspando e machucando, sem gosto ou cheiro, e caía no estômago que já parecia cheio demais para aguentar qualquer alimento.

– Coma. – Pediu Mu. – Por favor.

Demorou, mas Shaka comeu, incentivado pelas palavras doces do ariano a cada colherada. Por vezes, ficava longos minutos apenas encarando a comida, como se pensasse em desistir; em outras, mastigava os legumes bem cozidos por tempo demais, relutante em engolir e sentir a dor dentro de si. Mas, ao final, não deixou nenhuma batatinha no fundo da tigela.

– Não posso por comida fora. – Conclui, entregando a tigela para Mu. – Não com tanta gente passando fome... – O comentário surpreendeu Áries, deixando-o admirado com a capacidade do amigo em pensar nos outros num momento como aquele.

Shaka deslizou pela cama, seus dedos procurando a barra do lençol, que agarrou com força e puxou até o queixo. Mu levou sua mão à testa do loiro novamente, e viu que estava mais ardente que na última conferida. Concluiu que a sopa quente deveria ter aquecido-lhe o corpo.

Juntou a louça suja e foi até a pequena cozinha. Encontrou a serva ao lado do fogão, esquentando alguma coisa numa leiteira. Chegou mais perto para investigar e viu duas rodelas de abacaxi boiando numa água que estava prestes a ferver.

– Chá de abacaxi alivia a dor de garganta, senhor Mu. – Explicou a moça, ao mesmo tempo que tirava o recipiente do fogo e começava a coar seu conteúdo em um jarro de vidro. Pegou um pote de mel de cima da bancada e adicionou generosas colheres à mistura. – Faça com que ele tome um pouquinho a cada hora. Não tudo de uma vez. E espere esfriar, por causa da febre. – Empurrou o jarro e uma xícara nas mãos de Mu, que voltou para o quarto.

Mal tinha sentado na cama quando a jovem entrou ali novamente. Dessa vez, carregava uma vasilha grande e alguns panos branquíssimos apoiados no braço direito. Colocou-os ao lado do jarro.

– Senhor Mu, se a febre não ceder, faça compressas de água fria nele. Na testa, nos pulsos – ela ia apontando no próprio corpo os lugares conforme falava – e na barriga. Não posso ajudar mais que isso. – Um sorriso triste se formou em seus lábios carnudos.

Com passos miúdos, se aproximou do lado da cama de Shaka e tocou-lhe as bochechas com a ponta dos dedos calejados, fazendo-o estremecer. Murmurou uma prece baixinha aos seus deuses e se retirou.

Mu obrigou Shaka a deitar de barriga para cima e tirou o fino lençol que o cobria – não sem que o loiro protestasse. Mesmo sabendo que as ações do ariano eram para seu bem, Shaka era uma criança teimosa, que não gostava de invasões em sua zona de conforto. Porém, Mu percebeu que ele resistia menos do que quando chegou ali, sua casmurrice diminuindo aos poucos.

Depois de mergulhar os panos na água fria e torcê-las, Mu ajeitou-as nos lugares indicados pela jovem serva. A umidade do tecido juntou-se com a camada de suor que envolvia a pele de alabastro do cavaleiro de Virgem, que reclamou da água gelada, mas aceitou as compressas de bom grado.

Feito isso, Mu deitou ao seu lado e voltou a entrelaçar seus dedos aos dele. Os olhos sempre fechados impediram percebesse quando o loiro finalmente adormeceu.

Dormindo, Shaka espirrou diversas vezes e murmurou palavras incompreensíveis, preso em seu sono febril. Por duas vezes, Mu sentiu a mão do virginiano apertar a sua com mais força enquanto respirava com dificuldade. Sempre que qualquer agitação o dominava, Mu afagava sua cabeleira loira e murmurava palavras de conforto, fato que, tal como da outra vez, o acalmava brevemente. Perguntou-se se o indiano sempre tinha o sono tão agitado ou se era apenas reflexo de seu estado, já que o vira dormir apenas em situações que estava fora do normal.

Trocou as compressas algumas vezes no decorrer da noite, apenas a luz de uma vela o auxiliando. O ariano mal dormiu, a preocupação com o estado do amigo o impelindo a verificar como estava a cada minuto.

Pouco a pouco, a febre retrocedeu e a agitação do virginiano diminuiu. Aliviado, Mu deitou em definitivo, apagando o toco de vela com um assopro suave. No breu, alcançou os cabelos macios de Shaka com uma das mãos e os acariciou até que foi acometido por um sono leve e vigilante.

Acordou incomodado com a luz que entrava pelas pequenas frestas na madeira da janela do quarto. Precisava da escuridão para dormir. Esfregou os olhos verdes, que recaíram sobre os cabelos dourados espalhados pelo travesseiro, e um sorriso se formou em sua face. Automaticamente, deitou-se de lado e levou à mão até a testa do loiro e sentiu a temperatura, seu sorriso aumentando quando constatou que a febre praticamente o abandonara.

Shaka fechou os olhos com mais força e soltou um longo bocejo, assustando o ariano. Coçou os olhos fechados e passou a mão pela testa, no exato lugar em que a mão de Mu estivera segundos atrás, afastando os fios grudados em sua pele.

– Como está? – Quis saber Mu, a expectativa fazendo seu coração bater mais forte.

Shaka sorriu, deitou-se de lado e pousou seus olhos cerrados no rosto de Mu.

– Melhor... Muito melhor. – Sua mão tateou o colchão atrás da do ariano; quando a encontrou, seus dedos se entrelaçaram, num gesto de carinho pouco comum de sua parte. Mu sentiu as contas do rosário de Shaka fazerem cócegas em seus dedos. – Graças a você. Obrigado por cuidar de mim, Mu de Áries.

Notas finais
PERDÃO! Como disse no anterior, não gosto de fragilidades ligadas ao Shaka, mas essa prestatividade do Mu fortalece a relação deles, então acho isso essencial. Juro que foi a última vez!
Ignorem erros, não tenho beta e alguma coisa sempre passa (mesmo depois de reler três vezes).
Esclarecimentos:
01. Não tenho muita certeza sobre os climas na Índia e no Tibete, dei uma jogada no Google para saber mas, de qualquer modo, perdoem se escrevi merda.
02. Dei uma pesquisada e vi que o chá de salgueiro é bom para atenuar febre, dores musculares, constipações e inflamações, entre outros.
03. Já o chá de abacaxi serve para curar garganta inflamada e dores de garganta.
Até o próximo!