Castelo de Areia

6 As faces da convivência


Notas iniciais
Mais uma vez, obrigada a todos pelo apoio e pelo carinho! Vocês são maravilhosos, sério!
Revisado com pressa e sob ameaças, NÉ? Ignorem os erros.
Não se deixem enganar pelo começo do capítulo, eu não errei. XD

As faces da convivência


Acordou incomodado com a luz que entrava pelas pequenas frestas na madeira da janela do quarto. Precisava da escuridão para dormir. Esfregou os olhos verdes, que recaíram sobre os longos cabelos dourados espalhados pelo travesseiro, e um sorriso se formou em sua face. Automaticamente, deitou-se de lado e levou à mão até a testa do loiro e sentiu a temperatura, seu sorriso aumentando quando constatou que a febre praticamente o abandonara.

Shaka fechou os olhos com mais força e soltou um longo bocejo, assustando o ariano. Coçou os olhos fechados e passou a mão pela testa, no exato lugar em que a mão de Mu estivera segundos atrás, afastando os fios grudados em sua pele.

– Como está? – Quis saber Mu, a expectativa de sempre fazendo seu coração bater mais forte.

Shaka sorriu, deitou-se de lado e pousou seus olhos cerrados no rosto de Mu.

– Melhor... Muito melhor. – Sua mão tateou o colchão atrás da do ariano; quando a encontrou, seus dedos se entrelaçaram, num gesto de carinho pouco comum de sua parte. Mu sentiu as contas do rosário de Shaka fazerem cócegas em seus dedos. – Graças a você. Obrigado por cuidar de mim, Mu de Áries.

Uma enorme satisfação encheu o peito do cavaleiro de Áries, que retribuiu o aperto de mãos. Aquilo virara uma prática comum entre os dois: todo inverno, gripes e resfriados acometiam Shaka, que procurava o ariano, relutava em seguir suas instruções mas acabava cedendo diante de suas palavras doces. Era o quarto inverno consecutivo que passavam juntos, e aquela cena se repetira inúmeras vezes. Virara um clichê, um ritual que só eles conheciam, os mesmos diálogos e os mesmos sorrisos se repetindo com cumplicidade. Mu sempre recebia o virginiano de braços abertos, e somente ele conhecia aquele lado frágil do poderoso guardião da sexta casa.

– Você é muito fraquinho. – Brincou Mu, sentando-se na cama.

Shaka brindou-lhe com seu sorriso enigmático. Permaneceu deitado, pois a febre tinha ido embora, mas a coriza e as dores no corpo e na garganta permaneciam. Seus olhos fechados observaram Mu ir até o roupeiro e pegar um dos cobertores que tirara do amigo birrento na noite anterior. Jogou-o para Shaka, que prontamente o ergueu na altura do queixo.

Com passos enérgicos, Mu dirigiu-se a cozinha, levando o jarro com chá de abacaxi pela metade consigo. Colocou-o numa chaleira e esquentou, enquanto tratava de esquentar um pouco de leite de cabra com mel para si. O passar dos anos fez com que a presença das servas fosse cada vez menor, à medida que os cavaleiros conseguiam se virar sozinhos com as tarefas mais simples do dia a dia. Assim, coube ao lemuriano preparar algo para comerem.

Àquela altura, já sabia tudo o que Shaka gostava de comer em cada ocasião. Apenas um pão doce de miolo mole e um pouco de chá seriam suficientes dado seu estado enfermo.

Empurrou a porta com o quadril, segurando uma xícara fumegante em cada mão.

– Devia ter pedido minha ajuda! – Exclamou Shaka, que usava os dedos longos para desembaraçar a cabeleira loira. Desde que haviam se conhecido, o indiano nunca cortara os cabelos, que já lhe caíam na metade das costas, um enorme manto de sedosos fios de ouro que disputavam brilho com o sol. Mu não se cansava de olhar para suas madeixas, que davam um ar puro e angelical à Shaka, fazendo com que o posto de cavaleiro de Virgem fizesse todo o sentido.

Tal como aqueles cabelos, sua admiração por Shaka de Virgem, o cavaleiro mais próximo dos deuses, crescera com a convivência. Não sabia ao certo o motivo de tamanha admiração, só sabia que o jovem alguns meses mais novo que ele era detentor de uma sabedoria ímpar e de uma sensibilidade profunda. Podia não ter lhe ensinado habilidades de luta ou técnicas de combate, mas lhe ensinara a ter fé e esperança, a ser paciente e a não se deixar levar pelas emoções. Aprendera com o loiro a ter um amor incondicional pelas pessoas que eles, enquanto cavaleiros, deveriam proteger e aprendera a ver essência e significado em tudo. Acima de tudo, Shaka lhe ensinara o verdadeiro significado de uma amizade e até onde ele seria capaz de ir por ela.

Suspirou quando entregou a xícara para o amigo.

– O que foi, Mu? – Já não lhe era mais permitido perder-se em pensamentos sem que o virginiano percebesse. Sorriu.

– Estava pensando... em como nós crescemos, eu acho. Em todos os sentidos.

Os lábios de Shaka estavam abertos para receber o líquido quente da xícara, mas o movimento foi interrompido no meio do caminho.

– Tem razão. Faz mais de três anos... e parece que foi ontem. O tempo passou rápido. – Prosseguiu com o trajeto sustado, tocando a porcelana com os lábios finos, permitindo que o chá fluísse por sua garganta inflamada, o pomo-de-adão subindo e descendo com o fluxo.

Mu sentou ao seu lado, suas pernas balançando para fora da cama. Tomou uma das mechas do cabelo loiro de Shaka entre os dedos e ergueu-a até a altura dos olhos, um sorriso brincalhão adornando seus lábios rosados.

– Você continua igualzinho. Não mudou nada. Só sei que você está mais velho porque essa juba cresceu!

Fingindo estar ofendido, Shaka puxou seus cabelos das mãos de Mu.

– Se dependesse do seu cabelo, não teria se passado nenhum dia. Fica com essa frescura... – Fez uma cara esnobe, em referência ao fato de Mu manter os cabelos lavanda cortados na altura dos ombros, nunca permitindo que crescessem além daquilo. Dizia que atrapalhava nos treinamentos, mas Shaka insistia ser um desperdício não manter longos cabelos tão bonitos e exóticos.

Mu levantou, lembrando-se que ainda não pegara o resto das coisas na cozinha. Antes de deixar o quarto, porém, fez uma última provocação.

– Não desconta em mim sua frustração por ser miudinho, viu?

Um riso dançou em seus lábios enquanto saía do quarto, vendo de relance a expressão incrédula do virginiano. Shaka era orgulhoso demais para admitir que o incomodava ver todos ao seu redor, inclusive Mu, crescendo com chegada da adolescência enquanto permanecia estagnado, mas suas reações diante das brincadeiras não passavam despercebidas pelo ariano. Claro que os treinos físicos, que o cavaleiro de Virgem era o único a dispensar, contribuíam, mas era incontestável o fato de que Mu crescera muito mais. Tinham a mesma altura quando se conheceram, mas o tibetano agora era quase uma cabeça mais alto que o amigo.

Tampouco Mu se importava com aquilo, mas era inegável seu divertimento diante insatisfação de Shaka. Vivia dizendo que ele provavelmente não cresceria mais, já que todos com aquela idade já tinham passado pelo primeiro surto de crescimento da adolescência. Tentava parecer indiferente às provocações, mas suas mais singelas reações não passavam despercebidas pelos olhos atentos do ariano. Mu gostava daquilo; era uma das poucas atitudes que o faziam parecer ser apenas um garoto de doze anos, e não um dos mais poderosos cavaleiros de Atena.


• • •


O sol brindou o Santuário com seu esplendor depois de esconder-se por dias atrás de nuvens tempestuosas. Chuvas fortes e ventos agressivos assolaram a planície de Ática na última quinzena, num profundo e duradouro lamento dos céus. Tudo permanecera deserto, enquanto o som da chuva batendo nos telhados e o assobio do vento fundiam-se numa triste melodia de solidão. Todo final de Inverno era daquele jeito mas, quando a chuva dava uma trégua e o astro rei retomava seu lugar de destaque, a Primavera despontava, as águas abundantes irrigando o solo, numa preparação para o despertar das novas flores e frutos da estação.

Foi mais fácil que o normal tirar Shaka da casa de Virgem, já que, por mais que tentasse disfarçar, alegrava-se término das chuvas e começo da Primavera, sua estação favorita. Dia após dia, o virginiano ficava mais relutante em sair do sexto templo e abandonar sua meditação. Os momentos compartilhados com Mu diminuíam gradativamente e seu tempo de imersão nas reflexões e projeções astrais aumentava. Sair para caminhar e apreciar a paisagem era um luxo que pouco vinha se dando nos últimos tempos, e era preciso um grande esforço por parte do ariano para tirar Shaka para fora.

Mesmo naquele dia lindo, ele mostrou resistência.

– Mas Shaka, – argumentou Mu, revirando os olhos – você adora quando a chuva para! Está quente lá fora, os pássaros estão cantando... Deixa de se fazer de difícil! Prometo que não vou contar a ninguém que não foi preciso te arrastar a força. – Piscou um dos olhos verdes. –Será o nosso segredo, certo?

O virginiano bufou, mas saiu da posição de lótus, ajeitando o sari verde enquanto ficava em pé. Pegou um par de sandálias que estavam do lado do estrado do átrio da casa de Virgem e amarrou suas tiras ao longo dos tornozelos brancos.

Vitorioso, Mu enlaçou seu braço no do amigo, sentindo as contas do rosário que Shaka insistia em carregar para todo canto atritar com sua pele, e o conduziu escadaria abaixo.

O indiano tinha um sorriso discreto nos lábios, contente pelo sol que aquecia sua pele e pela brisa suave que lhe afagava os cabelos. Se qualquer um perguntasse, diria que aquilo não tinha a menor importância e que a pessoa estava delirando, mas Mu sabia como o humor de Shaka crescia diante de um dia bonito. Era gostosa a sensação de conhecer alguém melhor que todo mundo.

Sob protestos de Shaka, acabaram indo até a arena observar os treinos daquela manhã. O virginiano achava que o lugar era muito barulhento e que era difícil se concentrar com todos aqueles gritos e xingamentos, mas Mu achava o lugar encantador. Todos os habitantes do Santuário, cavaleiros ou aprendizes, se reuniam ali ao longo do dia, enchendo o lugar de vida e de alegria. Estava sempre apinhado de gente, de tal modo que muitas vezes era preciso fazer fila para conseguir um canto para a praticar.

Sentaram-se no ponto mais alto das arquibancadas.

– Vai treinar hoje? – Quis saber Shaka, fingindo-se de desinteressado.

– Só se você me acompanhar. – Disparou o ariano, em sua eterna e fracassada missão de fazer com que o amigo se dedicasse a algum treino físico.

– Então não vai treinar hoje.

Por um tempo, ficaram observando as várias duplas e trios treinarem socos, chutes e até mesmo golpes especiais. Devia ter pelo menos umas cinquenta pessoas disputando o espaço, das quais apenas cinco ou seis eram mestres, enquanto o resto eram jovens entre seis e quinze anos, aspirantes a armaduras de bronze e prata. Os cavaleiros de ouro e os herdeiros de suas armaduras treinavam num canto separado, intocados e idolatrados pelos demais, que chegavam a interromper suas lutas para admirar as explosões de seus cosmos dourados.

Mu identificou Shura de Capricórnio, Aldebaran de Touro e Máscara da Morte de Câncer, os herdeiros que já haviam tomado o lugar de seus antigos donos, junto de Milo e Aiolia, herdeiros de Escorpião e Leão, junto de seus mestres.

Sentiu uma pontada de pena ao ver os cabelos flamejantes de Aiolia, num vermelho que ele sabia ser falso; como possuía os mesmos cabelos do irmão que traiu o Santuário, o garoto optava por pintá-los, numa vã tentativa de não se parecer com Aiolos. Era tratado como escória até pelos mais baixos cavaleiros. Em breve seria um santo dourado, era um rapaz honrado e leal, dono de uma poderosa cosmo energia, mas só o viam como o irmão do traidor, taxando-o por crimes que não tinha cometido. Mu não conseguia imaginar, mesmo que se esforçasse, a dor que os olhares de desconfiança e os murmúrios de desprezo causavam.

Um suspiro vindo de Shaka o tirou de seus devaneios.

– O que está te incomodando?

Shaka arqueou as sobrancelhas claras, o tilak subindo junto delas.

– Como você sabe que tem algo me incomodando?

– Francamente, Shaka, sempre tem alguma coisa te incomodando! – Exclamou Mu, agitando as mãos na altura dos olhos e rindo. Uma ruga se formou na testa do loiro. – A questão é quando não tem alguma coisa te incomodando.

Se os mantivesse abertos, Shaka teria revirado os olhos. Sua expressão era séria, e ignorou o comentário descontraído de Mu, virando o rosto na direção dos jovens que treinavam. O silêncio era uma forte característica de Shaka; Mu já sabia que, se não insistisse, o indiano jamais falaria coisa alguma.

Pousou sua mão sobre o dorso da de Shaka, que descansava sobre seus joelhos. Ficou olhando para seu rosto, agora inexpressivo, por longos minutos, esperando que o amigo o virasse em sua direção. Nada.

– Não me ignore, Shaka. Sabe que detesto isso. – Murmurou baixinho, abaixando a cabeça e corando de vergonha. – Eu estava brincando. Brincando! Gosto quando você compartilha seus pensamentos comigo...

O indiano não disse nada, mas não foi preciso. Virou a palma de sua mão para cima com cuidado, permitindo que seus dedos se entrelaçassem com os de Mu. Quando voltou a falar, parecia ter abandonado sua birra momentânea.

– Tenho um pouco de pena desses meninos.

– Dos cavaleiros? – Os olhos intrigados do lemuriano encararam Shaka.

– Não, dos aprendizes... De prata e bronze.

Interessado, Mu ficou esperando Shaka continuar, mas ele nunca continuava.

– Por quê? – Incentivou o tibetano.

– A maioria desses jovens são órfãos, e toda a esperança deles está nesse treinamento. Mas conte o número de armaduras disponíveis aqui no Santuário, e o número de aprendizes. Isso sem falar nos lugares de treinamento espalhados pelo mundo. Só pensamos naqueles que conseguiram a armadura, mas e os outros? O que acontece com a vida deles quando essa única chance lhes escapa? Eles treinam tão duro, sonham, fantasiam... E por um detalhe na hora da disputa, eles são... descartados. O que vai ser da vida de todos os meninos que não conseguirem?

O ariano estava com os olhos arregalados. Mais uma vez, Shaka o surpreendia com algo aparentemente óbvio, mas que ele nunca tinha pensado antes. Sua capacidade em se preocupar com a dor dos outros era desconcertante. Mu sentiu-se sujo e baixo por tais preocupações nunca terem passado por sua cabeça. Todos os dias, era ele quem ia até a arena e partilhava horas com aqueles jovens, e nunca lhe ocorrera que, em breve, muitos deles não mais estariam ali.

De repente, a imagem de vários meninos que conhecia só de vista encheram sua mente. Um moreno de cabelos curtos e uma cicatriz na testa. Um baixinho de cabelos esverdeados que estava sempre com um sorriso no rosto. Um magricela de cabelo raspado com olhos dourados. Tantos rostos que ele vira por ali e que tinham desaparecido. Não sabia seus nomes ou suas origens, nem nunca saberia: todos já não apareciam mais para treinar, vítimas do cruel destino mencionado por Shaka.

Estava sem fala. Culpou-se por sua insensibilidade. Mas o que doía era pensar em todos os sonhos que já haviam se perdido naquela arena, onde as disputas costumavam ocorrer. Sonhos de meninos sem pais ou um lugar para voltar. Sozinhos no mundo...

Toda o encanto do lugar acabou num passe de mágica.

– Não sabemos como é essa dor. – A voz de Shaka parecia distante, muito distante. – Temos sorte. Não existe concorrência, os doze guerreiros mais poderosos são escolhidos pelas armaduras porque estas os veem merecedores de usá-las. Damos muito pouco valor a essa sorte.

A fala de Shaka foi brindada com uma risada nervosa, que deixou os dois meninos assustados. Mu sentiu a mão do virginiano afastar-se da sua com força no momento que viraram suas cabeças procurando o dono da risada. Ali, parado ao lado de Mu, estava Afrodite de Peixes, deslumbrante em um macacão jeans, a caixa de Pandora com a armadura nas costas, seus cabelos exóticos num azul claro, quase da cor do gelo, caindo em uma cascata de cachos sobre seus ombros. O jovem rapaz, que arrancava suspiros de admiração por onde passava, deslizou os dedos finos pelos cabelos, e jogou a franja para trás.

– A diferença, Shaka, é que esses jovens estão aqui porque querem. Nós não temos escolha. Eles estão atrás de um sonho, enquanto nós somos afastados dos nossos.

Mu reparou que Shaka ficara incomodado com a interrupção do pisciano. Não costumava conversar com outros cavaleiros, ainda mais assuntos tão profundos. Era sempre cordial, cumprimentando um aqui e outro ali, mas sem dar intimidade para ninguém. Mesmo assim, não se calou.

– Entendo seu ponto, Afrodite. É triste que alguns de nós tenham abandonado seus sonhos por isso. Mas lutamos por uma causa maior. Não podemos pensar em nós mesmos quando nascemos com a missão de defender milhões de pessoas. O cosmo que brilha dentro de nós é um presente divino, e não podemos negligenciá-lo. É nosso dever enquanto cavaleiros...

Afrodite o interrompeu.

– Ah Shaka, corta essa. Você diz isso porque nunca desejou nada além da vida que leva. Só quem tinha planos, sonhos, uma família e um futuro diferente pela frente, sabe o que eu quero dizer. Nunca quis saber de Atena ou das pessoas da terra.

Shaka suspirou, triste.

– É uma pena que alguns de nós só consigam pensar em si próprios...

– E em quem mais deveríamos pensar? – O jovem interrompeu Shaka novamente.

Os lábios do indiano eram uma linha fina, enquanto ponderava o que responder. Mu sabia que ele estava desconfortável com aquela situação, mas resolveu não se intrometer naquela pequena discussão.

Shaka ficou em pé, e o pisciano deu um passo para trás, receoso. O virginiano não arrumava briga com ninguém, era sereno apesar de toda a arrogância, mas era temido; sua única demonstração da força fora no dia em que a armadura o recebera, e tamanho poder deixara todos estupefatos. Sabiam que, se o cavaleiro perdesse o controle, as coisas não acabariam bem.

Mas tudo o que o loiro fez foi alisar suas vestes, amarrotadas por estar sentado muito tempo, e dar alguns passos na direção oposta. Antes que ficasse longe demais para não ser ouvido, virou-se e encarou Afrodite com seus olhos fechados.

– Um dia, Peixes, você entenderá. – A arrogância que dispensava a todos, menos Mu, foi evidente. – Terá um papel importante a desempenhar nos acontecimentos que estão por vir.

Atônito, Mu olhava da figura cada vez mais distante de Shaka para a figura amargurada de Afrodite. Estava tão espantado que só se deu conta de que seu companheiro o abandonara ali quando não era possível vê-lo. Piscou várias vezes. Levantou para procurá-lo, esquecendo-se completamente do cavaleiro de Peixes até que sentiu uma mão macia e delicada segurar seu braço.

– Mu, eu queria lhe pedir algo...

Virou o rosto para encarar o sueco. Era alguns anos mais velho que ele, mas pareciam ter a mesma idade, dado seu porte esguio e delicado. Seus cabelos tinham um brilho peculiar, de fazer inveja em qualquer mulher, e seus olhos, no mesmo tom de azul dos cabelos, eram frios e sarcásticos, carregados com uma malícia que fazia gelar a alma. Bonito, mas terrível, refletiu Mu.

– Minha armadura... – Começou Afrodite, diante do silêncio de Mu. Outra vez?, pensou o ariano, sorrindo com paciência, sem deixar parecer que estava incomodado. Periodicamente, Afrodite o procurava, reclamando de um arranhão ou outro em sua bela armadura. Coisas praticamente imperceptíveis a olho nu, mas que os olhos vaidosos do cavaleiro não deixavam passar.

Dessa vez, o problema era no elmo, que tinha um leve arranhão na parte interna. Mu teve que se controlar para não dizer para o outro parar com aquela frescura, que já estava indo longe demais. Afinal, quem ia olhar a parte interna do elmo? Isso sem falar que Afrodite raramente usava seu elmo, pois insistia que deixava seu cabelo quebradiço.

Resignado, Mu seguiu para a casa de Áries, à fim de pegar suas ferramentes e acabar logo com aquele sacrilégio. Shaka entenderia o motivo de sua demora em procurá-lo, ele sempre entendia tudo. E quem melhor que Shaka para saber o quanto Afrodite amolava Mu atrás de pequenos reparos?

Notas finais
E a linda fase da infância acabou. Claro que com doze anos a coisa ainda é muito fofinha, mas a inocência vai se dissipando. Deu para notar alguma mudança neles?
Esclarecimentos:
01. Antes que me xinguem, algumas crianças crescem antes que as outras. Para mim, Mu crescer primeiro tem sentido, que será mostrado mais para frente.
02. Não pensei em nenhuma história para o Afrodite, mas achei interessante ele ter uma família e, sei lá, algum sonho que foi posto de lado para ser cavaleiro. Faz um certo sentido diante das atitudes que ele tomou diante do mestre Arles.
Até o próximo!