Castelo de Areia
10 Antes do pôr-do-sol
Notas iniciais
Capítulo melancólico e mais curtinho, rs. Vamos lá?
Capítulo Nove: Antes do pôr-do-sol
Pingos grossos de sangue rubro caíam sobre a armadura de bronze de Lobo. O ato de se sangrar para renovar a vida das armaduras sagradas fazia parte da rotina de Mu, que já nem sentia mais dor quando a lâmina do punhal rasgava sua pele sensível. Depois de concluir o trabalho, enfaixou o pulso com força, para que a pequena hemorragia fosse contida. A armadura reluziu cheia de vida, pronta para ser utilizada pelo próximo cavaleiro.
Resolveu se dar o resto da tarde de folga. Num primeiro momento, achou que um pouco de trabalho árduo e treinamentos pesados manteriam sua mente ocupada, mas descobriu que era incapaz de deixar de pensar em Shaka, por mais que se mantivesse entretido. A vitalidade o abandonara, e só o que desejava era dormir, na esperança de que a aurora trouxesse consigo a amizade que se perdera no passado.
Deixou a casa de Áries para andar pelo Santuário, como há muito não fazia. Aqueles passeios costumavam ser na companhia de Shaka, nas raras ocasiões em que conseguia convencer o indiano a abandonar a sua morada, portanto o sentimento de solidão lhe fez companhia a cada passo.
Seus pés o levaram automaticamente até a clareira onde a armadura de Virgem reconhecera seu atual cavaleiro; de algum modo peculiar, aquele lugar lhe era caro. Diversos eram os lugares que o remetiam ao virginiano, mas naquela clareira quase podia sentir sua presença. Lembranças chegaram sem pedir licença, alegrando-o ao mesmo tempo que o entristeciam. Deitou na grama, como tantas vezes fizera com Shaka, e fechou os olhos, fingindo, por um momento, que o amigo estava ao seu lado.
– Você já consegue controlar seu cosmo o suficiente para abrir os olhos, Shaka? – Perguntou para ninguém, como fazia com os amigos imaginários antes de ter a companhia do loiro.
Não obteve nenhuma resposta. Ainda assim, tentou mais uma vez.
– Você ainda fica doente todo o inverno, Shaka?
Um nó se formou em sua garganta. Queria abrir os olhos e ver o loiro ao seu lado, com os olhos fechados e a franja fofa caindo na testa e encobrindo o tilak vermelho.
– O que te fez começar a treinar na arena? Você costumava dispensar todo o tipo de treino físico...
Imaginou que Shaka estava refletindo a respeito de suas perguntas, e por isso ainda não respondera. Ele só dava as respostas quando achava necessário, por isso Mu tinha que ter paciência.
– Sabia que deixei meu cabelo crescer por sua causa? – Que pergunta estúpida, pensou Mu. Lógico que Shaka sabia. Ele sempre sabia de tudo.
A ausência de resposta fez sua mágoa falar mais alto.
– Quando foi que você ficou tão arrogante? – Levou uma mão a boca, como se tivesse falado demais, como se Shaka realmente estivesse ao seu lado e pudesse ouvir. – Quando foi que você ficou tão indiferente e maldoso? – O nó em sua garganta apertou.
Sabia que Shaka não estava ali, mas enquanto mantivesse os olhos fechados, poderia alimentar seu devaneio. Quase conseguia ouvir sua respiração lenta e compassada e tinha certeza que se estendesse a mão, poderia alcançá-lo. Sentiu uma lágrima escorrer de um de seus olhos, indo parar dentro de seu ouvido, mas não se importou.
– O que Camus tem que eu não tenho? – Mais lágrimas escorreram de seus olhos. – Por que está me evitando, Shaka? Será que é tão orgulhoso que é incapaz de ao menos ouvir o que tenho para dizer? – O choro deixou sua voz embargada.
Nenhuma outra frase coesa deixou seus lábios, apenas murmúrios e lamentos. Sentou-se na relva e abraçou as próprias pernas, permitindo-se chorar até que as lágrimas acabassem e lavassem sua alma. Depois do que pareceram horas, finalmente abriu os olhos, apenas para constatar que estava sozinho. Limpou as lágrimas que ainda não haviam secado e se levantou, prometendo a si mesmo que aquela tinha sido a última vez que chorara por Shaka de Virgem.
Por inúmeras vezes naqueles últimos meses, ele tentara falar com o indiano, que o evitava sem a menor cerimônia. Quando saía da sexta casa, era sempre na companhia de Camus, que era usado como um escudo para repelir Mu. Todas as vezes que o ariano subira até o templo de Virgem, Shaka estava absorto em sua meditação – ou pelo menos, demonstrava estar. Mesmo depois de ouvir da boca do virginiano que ele não queria ouvir nada que ele dissesse, Mu continuou indo até a casa de Virgem vez ou outra, continuou o perseguindo pelo Santuário atrás de uma chance de lhe confrontar.
Mas, quando Shaka determinava-se a não fazer algo, ele realmente não o fazia.
Deixaria para Milo a função de correr atrás de quem quer que fosse. No fundo, admirava a determinação do escorpiano, que não titubeava quanto aos seus sentimentos e sabia exatamente o que queria. Mu ainda não sabia o que queria de Shaka. Desejava aquela linda amizade de volta mais do que qualquer coisa no mundo, mas tinha a sensação de que aquilo não era mais suficiente. Milo sempre dizia que os sentimentos de Mu por Shaka eram os mesmos que ele tinham para com Camus, mas o ariano vivia negando. Apenas amigos, era o que repetia para Milo e para si, porém sem muita convicção. Mas como ele poderia querer algo mais com alguém que sequer queria olhar em sua cara?
Seus dedos pousaram sobre os lábios que um dia haviam sentido os de Shaka, e quase pode sentir o gosto de canela neles. Suspirou enquanto se colocava em pé, batendo os fiapos de grama que haviam se prendido a seus trajes.
Deu uma última olhada na clareira e saiu, decidido. Respeitaria a vontade de Shaka, e pararia de sufocá-lo. As tentativas frustadas de conversar com o indiano o faziam sofrer mais a cada dia, então sua estratégia seria diferente. Afastar-se-ia por completo, fingindo que nem ao menos existia um cavaleiro na sexta casa e esquecendo a amizade que nutria por ele. A amizade e todos os outros sentimentos acessórios, é claro. Era uma promessa. Afinal, doer mais do que já estava doendo era humanamente impossível.
Continuou sua caminhada, indo em direção à praia. Diferente da maioria dos cavaleiros, Mu pouco se dispunha a ir ver o mar. A imensidão azul não o atraía nem deslumbrava, e ainda era necessária uma longa caminhada para chegar até as areias molhadas da costa. Mas naquele dia, quanto mais longe, melhor. Caminharia até que não tivesse mais forças. Quem sabe pudesse finalmente ter uma boa noite de sono em anos se gastasse sua energia até a exaustão.
Repassava em sua cabeça mil vezes todas as decisões que havia tomado naquela tarde, na esperança de que não esquecesse de nada. Mas o destino foi irônico consigo, e junto com a vista do mar, Mu enxergou uma cabeleira dourada se destacando no meio do amarelo queimado da areia. Apenas loiro, sem sinal de ruivo. Sentado de costas para ele, as madeixas tão longas que quase batiam no chão.
Justo agora que estava decidido a se afastar ele finalmente encontrava Shaka sozinho fora da casa de Virgem? Os deuses tinham, sem dúvida, um humor muito estranho.
Tentou ser fiel à promessa que fizera a si mesmo, mas não conseguiu; no final das contas, as promessas que as pessoas fazem a elas mesmas são as mais fáceis de serem quebradas.
Seus pés não mais obedeciam seu cérebro e seguiram na direção do indiano. Tratou de esconder seu cosmo, com tal maestria que beirava a invisibilidade corpórea. Aproximou-se com passos lentos, buscando não fazer nenhum ruído; parou quando apenas três passos os separavam, observando-o de cima com êxtase.
Shaka vestia roupas de treinamento comuns – uma túnica e uma calça – mas estava descalço, as sandálias de couro jogadas com displicência ao lado de seu corpo. Tinha os joelhos encolhidos junto ao corpo, e os abraçava enquanto apoiava o queixo neles. Parecia perdido em devaneios, seus olhos – que Mu sabia estarem fechados, mesmo sem os ver – fixos nas ondas que se arrebentavam na praia. Segurava o rosário de contas roxas em uma das mãos, permitindo que a extremidade tocasse seus pés desnudos e a areia em que se afundavam.
– Sua presença pode ficar oculta para todos, menos para mim, Mu de Áries. – Entoou em sua voz suave e melodiosa, fazendo o coração de Mu quase sair pela boca de susto.
Quisera surpreender Shaka, mas acabou sendo surpreendido. O virginiano soltou os joelhos e esticou as pernas, fazendo um rastro na areia com seus calcanhares.
– Posso...? – Mu não conseguiu terminar a frase. O ar parecia rarefeito e entrava queimando seu peito. Shaka anuiu, e o lemuriano sentou-se ao seu lado, tão perto que pode sentir o cheiro de sândalo confundindo-se com o da maresia.
Por mais que quisesse, Mu não conseguia encarar Shaka. Pelo canto do olho, viu que a cabeça do indiano pendia com delicadeza, fazendo com que a franja não tocasse na testa. Longos minutos de silêncio se passaram sem que o virginiano mexesse um único músculo, tão imóvel quanto em suas meditações. Todas as perguntas que Mu fizera ainda há pouco para um Shaka imaginário ecoavam em sua cabeça, mas ele não tinha coragem de fazer nenhuma para sua pessoa.
Chegou a conclusão de que o que mais queria e necessitava era de um abraço. Mas sabia que não podia. Não depois do que virara o último abraço deles. As coisas estavam diferentes, e ele não podia esquecer.
– O que conseguiu te tirar da casa de Virgem uma hora dessas? – Conseguiu perguntar finalmente, sentindo-se um pouco estúpido. Em outros tempos, ele teria sabido o motivo e mais: estariam juntos. Apenas motivos relevantes tiravam o virginiano de seu ritual diário, e isso, conforme Mu podia perceber mesmo afastado do amigo, não havia mudado, a despeito de tantas outras coisas.
– Você. – Foi o que Mu ouviu, depois de uma longa pausa, quando já perdia as esperanças de obter qualquer resposta. O loiro falou com a mesma simplicidade com que se fala do tempo, fazendo os lábios do ariano entreabriram-se de surpresa.
– Eu? – Sentiu-se mais estúpido ainda em perguntar algo que já havia sido dito.
– Você. – O outro confirmou.
Demorou um tempo para que Mu se recuperasse do susto. Como em tantas outras vezes, Shaka o incitara e dera o assunto por encerrado. Típico, pensou, encarando as ondas que se formavam na água. Realmente, algumas coisas nunca mudavam.
– Por quê? – Queria permanecer calado, mas sua boca ignorava suas vontades.
– Acho que você sabe o porquê. – Disse Virgem, apoiando as mãos para trás e permitindo que sua coluna se inclinasse, as pontas dos cabelos loiros tocando a areia. Seu rosto se ergueu, e ele passou a observar o céu que, conforme o sol ia baixando, ficava menos azul e mais acinzentado.
Mu virou o rosto para olhá-lo diretamente, mas logo se arrependeu. A expressão de indiferença do indiano foi como uma facada em seu peito.
– E desde quando eu ocupo seus pensamentos? – Seu tom amargurado fez as sobrancelhas de Shaka franzirem-se, como se a pergunta fosse um grande absurdo.
– Desde sempre, Mu.
A gana de sacudi-lo pelos ombros era tamanha que Mu obrigou-se a cravar as unhas com força na areia. Quando retornou ao Santuário, mais de quatro meses atrás, Mu esperou qualquer reação do indiano, exceto a indiferença com que fora tratado. Shaka agia como se nada entre eles tivesse acontecido – nem as coisas boas, nem as coisas ruins – e aquilo corroía o lemuriano dia após dia. E agora, quando finalmente tinham uma conversa em particular, ele vinha com esse papo de que pensava nele?
O ariano só voltou a falar quando conseguiu controlar a vontade de gritar e chorar.
– Se pensa em mim, por que tem me ignorado?
– Nunca te ignorei. – Continuava mirando o céu, sem encarar Mu por um só segundo. – Apenas acredito, ao contrário de você, que não temos nada para conversar.
As palavras feriram o coração frágil do ariano. Nunca tiveram tanto o que conversar, tanto o que esclarecer. Mu não conseguia acreditar na apatia de Shaka diante de tudo o que havia se passado; durante todo o tempo de seu exílio, imaginou mil e uma reações vindas de Shaka, mas nenhuma se assemelhava com a realidade.
– Certo. – Murmurou, cravando os dedos com mais força na areia. – Certo. Então... – Procurava desesperado pelas palavras certas. – Você não quer ouvir o que eu tenho para dizer?
– Não. – Negou com a cabeça, enfático, como se apenas a palavra não fosse suficiente para dizer tudo.
Logo que retornou e deu de cara com o Shaka arrogante e indiferente, Mu achou que se acostumaria com aquilo depois de um tempo, mas estava completamente enganado. Cada palavra que saía dos lábios finos do indiano era uma surpresa para Mu, que ainda buscava desesperado pela cumplicidade do passado. Se não tivesse chorado todas as suas lágrimas, já estaria aos prantos naquele instante.
Livrou uma mão da areia e massageou o espaço entre os dois pontinhos em sua testa, no exato lugar em que sentira os doces lábios daquele loiro uma vez. Aquela única palavra proferida pelo virginiano o havia desconcertado de tal maneira que não sabia o que responder. A tristeza o emudecia.
– Por que me evita? – O esforço para que aquelas palavras saíssem o deixaram ofegante. Precisava saber.
– Prefiro me afastar do que piorar as coisas com uma conversa desagradável.
Mu deslizou a mão pelos cabelos lilases, pensando naquelas palavras. Concluiu que nunca fora muito orgulhoso, e que não se importava em pisar no pouco orgulho que tinha por Shaka. Tê-lo de volta em sua vida era o que mais desejava, independente do que custasse.
– Se eu prometer que não vou falar nada, posso passar algum tempo na sua companhia?
Suas bochechas coraram quando terminou de falar. Preferia sujeitar-se àquilo do que continuar sendo agraciado com sua frieza. Doeria menos estar perto de Shaka sem poder abrir seu coração do que estar longe dele, sem poder abrir o coração do mesmo jeito. Viu um sorriso se formar no canto dos lábios de Shaka; era um sorriso triunfante, como se Mu tivesse acabado de dizer exatamente o que ele queria ouvir.
– Claro. – Voltou a inclinar o corpo para frente, retirando as mãos da areia e pousando-as delicadamente sobre o colo. Tratou de enrolar o rosário, que pendia solto de uma de suas mãos, ao longo de seu antebraço.
– Só na sua companhia. – Acrescentou. Era melhor deixar aquilo claro para que não houvessem confusões no futuro. Jamais teria chance de reconstruir o que tinham com um terceiro se colocando entre eles.
Shaka virou o rosto para Mu, a vitória em seu sorriso dando lugar à malícia.
– Ciúmes? – Provocou, fazendo o rosto do ariano arder com a vergonha.
– N-não. – Gaguejou, encabulado. Mu não tinha ciúmes de Camus, só não se sentia confortável diante de sua indiferente figura. – Apenas privacidade.
O virginiano umedeceu os lábios vagarosamente. Ergueu a mão livre do rosário até os cabelos violáceos de Mu, e colocou uma mecha atrás de sua orelha, fazendo com que um arrepio impossível de ser contido percorresse seu corpo.
– Pretende fazer alguma coisa que necessite de privacidade? – Cantarolou com a voz rouca, encarando-o com aqueles olhos fechados que penetravam a alma. O coração de Mu batia descontroladamente. O que Shaka estava fazendo? Se tratava de uma brincadeira? A travessura daquele gesto fazia suas pernas amolecerem, e ainda não havia decidido se achava isso bom ou ruim.
– Não. – Mu engoliu em seco. – Apenas... – Os dedos de Shaka deslizaram por todo o comprimento de suas madeixas, até que as pontas escaparam entre eles, que foram pousados no chão. Os olhos de Mu se fecharam por um breve instante de desfrute, e ele demorou para lembrar o que ia falar. – Apenas prefiro só a sua presença.
O sorriso malicioso não abandonava a face de Shaka. Em câmera lenta, Mu viu seu rosto se aproximar, enquanto aqueles lábios se entreabriam, deixando escapar um leve aroma de canela. Sua respiração falhou diante da ideia do que ia acontecer a seguir. Sonhara com aquilo tantas vezes! Não podia mais negar, não naquela hora. Sabia que não devia, mas a verdade é que desejava Shaka com avidez. Desejava sentir aqueles lábios nos seus, desejava sentir aquela pele macia de encontro com a sua, desejava ser envolvido por seus abraços caloroso, desejava desfrutar das carícias daqueles dedos esguios. Fechou os olhos em definitivo, esperando por um beijo que nunca veio.
– Tire as sandálias. – A voz sonora de Shaka o trouxe de volta à realidade. Abriu os olhos e piscou várias vezes; apenas a distância de um palmo separa o rosto angelical do virginiano do seu, mas este não dava mostras de que aquela distância diminuiria.
– Como? – Perguntou, apesar de ter ouvido as palavras de Shaka, pois não conseguia compreender o que elas significavam.
– Tire as sandálias. – Repetiu o loiro pausadamente. Era uma ordem.
Aturdido, Mu desviou seu olhar do semblante de Shaka e encarou os próprios pés. Queria ter acabado com a distância que os separava e tomado aquela boca com a sua, mas sabia que Shaka jamais o perdoaria se o fizesse novamente. Aquela conversa era um progresso imenso e poderia ser o início de uma reaproximação; não podia, então, de forma alguma, estragar aquilo com um impulso carnal. Obedecer era tudo o que lhe restava. Suas mãos desamarraram as tiras de couro que serpenteavam suas panturrilhas, e logo ele estava descalço.
Quando voltou seu olhar para Shaka, viu que o amigo estava em pé, segurando as próprias sandálias pelas tiras numa das mãos. Estava tão distraído em pensamentos que não percebeu o movimento do virginiano. Por que pedira para Mu tirar as sandálias se ia embora?
– Venha. – Ordenou Shaka, estendendo a mão envolta pelo rosário para que Mu segurasse. As contas afundaram em sua pele quando as mãos se apertaram e o indiano o ajudou a pegar impulso para ficar em pé. – Já pode soltar. – Uma risada marota escapou dos lábios de Shaka, fazendo Mu se dar conta de que não havia largado sua mão, enquanto até suas orelhas ficavam vermelhas.
O ariano sentiu a areia fria sob seus pés e estremeceu. Shaka pôs-se a andar na direção do mar e foi seguido de perto por Mu, que abaixou-se para pegar suas sandálias do chão e correu atrás dele. Os passos de Shaka eram largos e firmes, enquanto os de Mu eram curtos e apertados, numa proporção de três para um. Parou automaticamente quando se aproximaram do lugar onde as ondas terminavam de se desfazer, apenas o suficiente para que a água não tocasse seus pés.
Shaka seguiu em frente. Observou a água engolir os pés pálidos do indiano, a espuma acariciando-lhe a pele, causando uma pontinha de inveja por parte de Mu. Quando a água já passava de seus tornozelos, Shaka virou-se para encarar o lemuriano.
– Venha. – Não era um convite, era mais uma ordem.
– Está gelada. – Balbuciou.
– Mu... – Ralhou o indiano. Mu gostou do jeito que seu nome foi dito e sorriu pela primeira vez naquele fim de tarde.
Os olhos de Mu perderam-se na figura celeste de Shaka, o mar estendendo-se as suas costas e o sol se pondo timidamente, tingindo o céu com um caleidoscópio de cores quentes que se refletiam nas madeixas douradas do indiano, fazendo-as resplandecer. Suas pernas ficaram bambas, e ele o quis para si. Sabia que as pessoas não eram umas das outras, mas aquilo pouco importava; queria que Shaka de Virgem, o homem mais próximo dos deuses, fosse seu, de corpo e alma.
Alto e esguio, Shaka começou a fazer o caminho de volta, andando na direção de Mu com uma desenvoltura hipnotizante. Admirando-o, Mu foi pego de surpresa quando uma mão quente segurou a sua e puxou-a.
A água estava muita fria, e pareceu ainda mais fria graças ao calor que se alastrava pelo corpo de Mu a partir do lugar em que sua mão entrava em contato com a do cavaleio de Virgem. Deixou-se conduzir para dentro da água, as ondas batendo geladas contra sua pele, primeiro nos calcanhares, depois nas panturrilhas e, por fim, em seus joelhos. Tanto sua calça quanto a de Shaka estavam molhadas pela metade, mas o indiano parecia não se importar. Continuou guiando Mu pela mão, os passos lentos em razão da força perdida dentro d'água.
Algumas ondas se arrebentaram contra as pernas dos cavaleiros, fazendo com que o líquido salgado salpicasse suas coxas. Mu estava extasiado com a proximidade, de forma que soltou um gemido de impaciência quando a mão de Shaka abanou a sua, atraindo a atenção do virginiano.
– Algum problema? – O sorriso malicioso estava de volta. Ele sabe, pensou, envergonhado.
– Vamos ficar ensopados. – Apontou para as calças à fim de disfarçar e gemeu novamente quando outra onda os atingiu.
– Água não mata, Mu... – Shaka fingiu acreditar na desculpa, mas o sorriso astuto permaneceu. – Além do mais, estamos no Verão. – Brevemente, um sorriso diferente passou por seu semblante. Mu conhecia aquele sorriso: era de alegria pela chegada da estação mais quente do ano. Seu peito doeu pela nostalgia.
Shaka estaria certo se não fosse por um pequeno detalhe: apesar de já estarem no Verão, uma massa de ar frio tomara conta de toda a planície de Ática nos últimos dias, diminuindo consideravelmente as temperaturas. Mas ele parecia não se importar.
– Vamos para o raso. – Disse, indicando o caminho de volta com a cabeça. – Aqui as ondas estão mais fortes e vai ser difícil caminhar.
Mu assentiu e o acompanhou até onde a água chegava apenas aos tornozelos. Uma brisa fria soprou na direção do mar, fazendo os cabelos dourados e lilases ondularem em sincronia. Puseram-se a caminhar lado a lado, não mais na direção do fundo, mas ao longo de toda a costa. Mu tinha dezenas de perguntas presas em sua garganta, mas sabia que Shaka não iria falar nada. E nem queria; apenas aquela tão desejada companhia bastava.
Sentia-se completo.
Percorreram muitos metros sem dizer uma única palavra. Vez ou outra, Mu lançava olhares na direção do companheiro, e era difícil evitar que um sorriso se formasse em seus lábios. Nem mesmo a indiferença ou as provocações eram capazes de apagar a paz de espírito que o dominava ao estar na presença do loiro. Esperara por um momento a sós com Shaka por todos aqueles meses, e nada seria capaz de dirimir sua felicidade.
Saíram da água apenas quando o sol já havia sumido no horizonte, permitindo que o céu fosse adornado pelas estrelas pouco a pouco. Quando tomaram o caminho das areias, naqueles que seriam os últimos metros da caminhada pelágica, a mão de Shaka segurou a de Mu com carinho, num rápido enlace de dedos que valeu mais que um milhão de palavras. O coração do ariano abrandou-se, fazendo-o entender que nem toda a arrogância ou indiferença do mundo seriam capazes de mascarar o sentimento transmitido com aquele gesto simples. Sorriu com os lábios e com o espírito, e continuou sentindo o calor da pele de Shaka mesmo depois que o contato se desfez assim que pisaram na areia úmida.
Voltaram juntos para as Doze Casas, despedindo-se no átrio do templo de Áries com um aceno de cabeça. Antes que Shaka se virasse completamente para prosseguir até seu tempo, Mu jurou ter visto um sorriso doce em seus lábios finos, um sorriso que não via há anos e que o satisfez de tal forma que sentiu algo dentro de si dar cambalhotas de alegria.
Intensos foram tais momentos ao lado do virginiano, justo no dia em que Mu havia decidido se afastar por completo. Talvez os deuses haviam feito com que seus caminhos se cruzassem naquela tarde pois não queriam que Mu desistisse; contudo, alguma coisa dentro de si dizia que era Shaka que não desejava sua desistência.
Notas finais
Quando o Mu se aproximou do Shaka, imaginem uma ocultação tipo aquela em Jamiel na presença do Shiryu.
Ah, capítulo novo apenas depois de quinta-feira, já que terei provas terça e quarta. Até lá! :*
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